Para as últimas gerações de políticos em Portugal - ou talvez para todas -, a última coisa que querem, é que os eleitores exijam responsabilidades severas pelas promessas feitas em campanha. Não será por acaso que durante toda a campanha eleitoral não se ouviu uma palavra sobre o assunto. E também já não espanta que nenhum jornalista se tenha lembrado de lhes colocar questão tão embaraçosa. Eles não estão para ultrapassar aquela linha limite de liberdade balizada no politicamente correcto e trocá-la pela liberdade absoluta de indagar aquilo que é realmente importante. Assim, tudo é mais simples. Mais uma vez se procura conservar a ideia que a "democracia" e as linhas que a regem em matéria de garantias são intocáveis, e ponto. Preferem habituar os cidadãos a encarar as eleições como uma espécie de jogo lúdico, fortuito, uma espécie de lotaria em que os políticos fazem o papel de números, do que correr o risco de lhes facultar o direito à fiabilidade na hora de votar. E tem de facto sido nestas precárias condições que os eleitores se sujeitam a votar, sem nenhumas garantias.
Naturalmente que, para os interessados, é muito mais confortável terminar as campanhas eleitorais prometendo, ou então não prometendo nada, que apresentar garantias sérias de compromisso. Eu creio que os cidadãos eleitores ainda não perceberam que é essa a principal causa das péssimas prestações dos sucessivos governos pós 25 de Abril de 1974, e que explica também o sempre crescente abstencionismo. É também a nossa pouca exigência cívica que explica o falatório depreciativo contra os abstencionistas. É que, os abstencionistas assumidos (não confundir com negligentes), não dão votos, o tal papelinho precioso que, em vez de lhes facultar estabilidade social e económica, garante emprego e mordomias, aos carreiristas da política. Não se iludam, porque o que os políticos mais receiam não é a degradação da democracia, é a perda do cómodo caminho que escolheram para governar as suas vidas, porque governar a vida do povo nunca os comoveu.
Há outro grande inconveniente nesse laxismo da classe política, que é continuarem a perder credibilidade enquanto classe. Pessoalmente, embora a eles me refira sempre de forma genérica, custa-me a acreditar que sejam todos uns malandros irresponsáveis, mas o facto de não se decidirem a purgar os respectivos partidos das suas "ervas daninhas", a par das más prestações governativas, faz com que, numa avaliação sintética, a má reputação se estenda a toda a classe, e se desvalorizem aqueles que individualmente deram o seu melhor. Surpreende-me que os partidos mantenham dentro dos seus quadros pessoas que só os envergonham, como é o caso, por exemplo, de Rui Gomes da Silva, e muitos outros, cujos líderes se recusam a assumir, face aos mesmos, uma postura crítica, quanto mais não seja perante os eleitores e perante a própria classe. Pelo contrário, calam-se como se o silêncio fosse a receita indicada para prevenir comportamentos similares no futuro. Não só não o fazem, como permitem que essas "ervas daninhas" se mantenham no activo, a conspurcar a classe e a adensar a indignação da opinião pública.
Por ser recorrente a falta de auto-crítica nos partidos, e pela incapacidade de compreenderem as causas reais do abstencionismo, é improvável que a credibilidade político-partidária se robusteça nos próximos tempos. Quarenta e três por cento de desistentes votantes, não é o mesmo que 43% de eleitores sem vontade de votar. Salvo casos pontuais, pode até significar ser essa a fatia de eleitores mais conscientes. Deitar sobre as suas costas a responsabilidade pelos maus governos, é o mesmo que acusar a testemunha de um crime que outros cometeram de ser o seu autor, quando foram os votos dos eleitores que premiram o "gatilho" chamado voto.
A única maneira do eleitor se desvincular da acção negativa de futuros maus governantes, é simples: exigir garantias idóneas. E a única forma de um cidadão evitar cumplicidades convencionais com maus políticos e maus governantes, é a segurança que só o não voto permite. O voto em branco, além de susceptível a manipulações (não há fraudes impossíveis), hoje em dia é pouco mais que ridículo.
De resto, a realidade dos resultados fala por si:
Por ser recorrente a falta de auto-crítica nos partidos, e pela incapacidade de compreenderem as causas reais do abstencionismo, é improvável que a credibilidade político-partidária se robusteça nos próximos tempos. Quarenta e três por cento de desistentes votantes, não é o mesmo que 43% de eleitores sem vontade de votar. Salvo casos pontuais, pode até significar ser essa a fatia de eleitores mais conscientes. Deitar sobre as suas costas a responsabilidade pelos maus governos, é o mesmo que acusar a testemunha de um crime que outros cometeram de ser o seu autor, quando foram os votos dos eleitores que premiram o "gatilho" chamado voto.
A única maneira do eleitor se desvincular da acção negativa de futuros maus governantes, é simples: exigir garantias idóneas. E a única forma de um cidadão evitar cumplicidades convencionais com maus políticos e maus governantes, é a segurança que só o não voto permite. O voto em branco, além de susceptível a manipulações (não há fraudes impossíveis), hoje em dia é pouco mais que ridículo.
De resto, a realidade dos resultados fala por si:
- Abstenções: 43%
- Votos em branco: 2,09%


