Após definir um país como a soma dos defeitos e qualidades dos seus cidadãos, o Almada Negreiros não resistiu a um exercício de ironia certeira e apelou : "Coragem portugueses, só faltam as qualidades".
No
capítulo do trabalho, temos seguramente muitas qualidades, mas quase
sempre escondidas, só se revelando quando emigramos ou somos geridos por
multinacionais que nos balizam o comportamento com uma gramática rígida
de regras a observar no dia a dia laboral.
Esta incapacidade para
sermos naturalmente honestos e produtivos no trabalho é filha da
cultura de uma nação que se habituou a viver dos recursos dos outros - e
entrou em crise sempre que perdeu uma mama.
A perda do trato da
Índia teve como consequência a União Ibérica. A independência do Brasil,
que pôs termo ao fluxo de ouro, café e madeiras preciosas, foi a causa
remota da queda da Monarquia e gerou mais de um século de turbulência.
No
século XX, a incapacidade em mantermos as colónias africanas foi o
fermento do desmoronar do Estado Novo, deixando-nos a vaguear até
descobrirmos em Bruxelas uma nova fonte a jorrar dinheiro.
A lei
do menor esforço foi a regra que nos regeu ao longo de seis séculos. Os
poderosos enriqueciam roubando, um hábito lamentável que os casos
Oliveira Costa, Duarte Lima e Isaltino nos fazem suspeitar que chegou
aos nossos dias.
Os mais espertos das classes baixas tornaram-se
comerciantes com lábia suficiente para vender aquecedores aos guineenses
e frigoríficos aos esquimós, inspirando Hergé na criação do Oliveira da
Figueira, o impagável personagem português do Tintin.
E os que não conseguiam sair da cepa torta, vingavam-se, com manha e ronha, fazendo o mínimo possível.
Agora,
chegámos ao fim da linha. Já não vai mais ser possível viver ao abrigo
da lei do menor esforço.
Os poderosos corruptos têm de ir para a cadeia - e os incompetentes têm de ser varridos para o desemprego. Os empreendedores têm de subir na escala de valor, passarem a ser mais Belmiros do que Oliveiras da Figueira. E aqueles que, como eu, optaram por trabalhar por conta de outrém, em vez de arriscarem criar o seu próprio emprego, têm de ser mais produtivos para fortalecer e tornar competitivas as empresas - e a nossa economia.
Os poderosos corruptos têm de ir para a cadeia - e os incompetentes têm de ser varridos para o desemprego. Os empreendedores têm de subir na escala de valor, passarem a ser mais Belmiros do que Oliveiras da Figueira. E aqueles que, como eu, optaram por trabalhar por conta de outrém, em vez de arriscarem criar o seu próprio emprego, têm de ser mais produtivos para fortalecer e tornar competitivas as empresas - e a nossa economia.
A dez horas a mais
por mês que vamos trabalhar, o fim da rigidez da legislação laboral, o
subsídio mais baixo e de menor duração que vamos receber se formos
despedidos, são o preço a pagar por termos distribuido mais riqueza do
que a produzimos.
Do ponto de vista dos trabalhadores, as novas e
draconianas regras significam trocar mais horas e algum dinheiro pela
preservação do emprego. Do ponto de vista dos empresários, significa um
trunfo mais (os ganhos de competitividade derivados baseados da
flexibilidade e redução dos custos) na luta pela sobrevivência.
Os
sindicatos terão de perceber que nesta curva apertada em que fomos
apanhados, os interesses dos trabalhadores e dos empresários podem ser
os mesmos.
























