01 novembro, 2011

O fim da lei do menor esforço


Após definir um país como a soma dos defeitos e qualidades dos seus cidadãos, o Almada Negreiros não resistiu a um exercício de ironia certeira e apelou : "Coragem portugueses, só faltam as qualidades".

No capítulo do trabalho, temos seguramente muitas qualidades, mas quase sempre escondidas, só se revelando quando emigramos ou somos geridos por multinacionais que nos balizam o comportamento com uma gramática rígida de regras a observar no dia a dia laboral.

Esta incapacidade para sermos naturalmente honestos e produtivos no trabalho é filha da cultura de uma nação que se habituou a viver dos recursos dos outros - e entrou em crise sempre que perdeu uma mama.

A perda do trato da Índia teve como consequência a União Ibérica. A independência do Brasil, que pôs termo ao fluxo de ouro, café e madeiras preciosas, foi a causa remota da queda da Monarquia e gerou mais de um século de turbulência.

No século XX, a incapacidade em mantermos as colónias africanas foi o fermento do desmoronar do Estado Novo, deixando-nos a vaguear até descobrirmos em Bruxelas uma nova fonte a jorrar dinheiro.

A lei do menor esforço foi a regra que nos regeu ao longo de seis séculos. Os poderosos enriqueciam roubando, um hábito lamentável que os casos Oliveira Costa, Duarte Lima e Isaltino nos fazem suspeitar que chegou aos nossos dias.

Os mais espertos das classes baixas tornaram-se comerciantes com lábia suficiente para vender aquecedores aos guineenses e frigoríficos aos esquimós, inspirando Hergé na criação do Oliveira da Figueira, o impagável personagem português do Tintin.

E os que não conseguiam sair da cepa torta, vingavam-se, com manha e ronha, fazendo o mínimo possível.
Agora, chegámos ao fim da linha. Já não vai mais ser possível viver ao abrigo da lei do menor esforço.

Os poderosos corruptos têm de ir para a cadeia - e os incompetentes têm de ser varridos para o desemprego. Os empreendedores têm de subir na escala de valor, passarem a ser mais Belmiros do que Oliveiras da Figueira. E aqueles que, como eu, optaram por trabalhar por conta de outrém, em vez de arriscarem criar o seu próprio emprego, têm de ser mais produtivos para fortalecer e tornar competitivas as empresas - e a nossa economia.

A dez horas a mais por mês que vamos trabalhar, o fim da rigidez da legislação laboral, o subsídio mais baixo e de menor duração que vamos receber se formos despedidos, são o preço a pagar por termos distribuido mais riqueza do que a produzimos.

Do ponto de vista dos trabalhadores, as novas e draconianas regras significam trocar mais horas e algum dinheiro pela preservação do emprego. Do ponto de vista dos empresários, significa um trunfo mais (os ganhos de competitividade derivados baseados da flexibilidade e redução dos custos) na luta pela sobrevivência.

Os sindicatos terão de perceber que nesta curva apertada em que fomos apanhados, os interesses dos trabalhadores e dos empresários podem ser os mesmos.


Vivaldi - Four Seasons (Winter)

31 outubro, 2011

Genéricos


Este, é outro assunto que há uns tempos a esta parte me anda a provocar  muita confusão. Li algures, um dia destes, que os médicos pretendem difundir informação pública sobre o risco da prescrição de medicamentos genéricos. O motivo, na opinião  do Presidente da Seccção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, prende-se com a protecção da saúde dos doentes. Segundo diz, porque existem casos em que os médicos receitam medicamentos em que têm confiança clínica e que deviam ser proibidos de trocar por outros com o mesmo princípio activo. Isto, porque está para sair uma nova lei que obriga os médicos a receitarem os medicamentos pela Denominação Comum Internacional, ou seja, pelo princípio activo.

Ora, o que se estranha é que a comunidade médica internacional, assim como a indústria farmacêutica,  não tenham tomado atempadamente medidas drásticas, no sentido de esclarecer as populações de forma a não deixar instalar sobre elas um potencial sentimento de insegurança, não só em relação aos medicamentos, como sobre os próprios médicos.

Para o cidadão comum, é difícil de compreender como é que se permite lançar no mercado medicamentos sem a confiança da toda a comunidade médica, já que, segundo o Presidente da SRNOM, não existem testes de bioequivalência entre genéricos.  Há algo de muito grave e errado em tudo isto, e a legislação na matéria só por si, pouca utilidade tem.

Por outro lado, a ser verdade o que os médicos argumentam, não se compreende também que o Governo tenha tomado de ânimo leve a decisão de obrigar a prescrição de genéricos. É urgente desvanecer todas as dúvidas nesta matéria, caso contrário, qualquer dia arriscámo-nos a morrer da cura, e não da doença.  A menos que haja aqui mais uma nova versão do gato escondido...

30 outubro, 2011

Políticos. De corruptos a assassinos, o passo é curto



 
Duarte Lima

Sabendo como funciona a cabeça de determinados políticos quando se sentem acossados - previsível e reaccionária -, começo por declarar que o tema de hoje não deverá ser interpretado como uma crítica generalizada à classe, e sim como a opinião sincera de um cidadão baseada em factos que a história recente não pode  desmentir.

Amiúde, face ao excesso de escandalos em que se vão envolvendo, os políticos sentem-se impelidos a apresentar publicamente manifestações de repúdio pela péssima reputação que foram deixando colar à sua imagem, talvez na esperança de nos convencer de que afinal reside apenas na ignorância popular a fonte dessas opiniões. Está errado!

Um dos piores defeitos dos governantes, é precisamente o de insistirem em continuar a ver os cidadãos como uma massa acéfala e bruta, incapaz de os perceber. O mal do povo não está em conhecê-los, está em não saber combatê-los. Por comodismo, medos antigos, ou falta de civismo, o povo foi permitindo toda a espécie de abusos, de eleição para eleição, e hoje, algumas dessas figuras públicas, além de se terem tornado ladrões, "promovem-se" à categoria de assassinos...

Já os vimos nas rádios e nas televisões, tecer todo o tipo de opiniões de carácter moralista àcerca do comportamento de outras personalidades, não se coibindo de censurar, mas guardam a mais absoluta discrição se a figura em causa pertencer à prole política. Quando Pinto da Costa andava nas bocas do mundo no processo Apito Dourado não foram poucos os políticos que sugeriram pareceres e opiniões no sentido de o condenar. Agora, sobre Duarte Lima, Dias Loureiro & Companhia, todos optaram pela mais nobre das reservas...

Pois bem. Se porventura me fossem conferidos poderes para tratar destes casos inqualificáveis, e tivesse de os ajuizar, seria à classe política a quem atribuiria as penas mais pesadas. Este simulacro de democracia teria de fechar para férias, durante o tempo que fosse necessário para julgar estes casos com celeridade, evitando assim que o putativo criminoso se desse ao desplante de brincar com as ratoeiras da Lei na cara de todo um país, como fez e continua a fazer, João Vale e Azevedo [nome de barão, carácter de burlão].

O caso Duarte Lima, é a indecência elevada a padrões inimagináveis para qualquer político cumpridor que se preze. Mas, não é o único, há mais. Uns bem conhecidos, outros menos, mas há casos demais para um país civilizado. Se os associarmos  à crónica incompetência do seu histórico, não sei se restará muito espaço para benefícios de dúvidas.

Há momentos - quando esta falsa democracia se revela -, que devíamos perguntar-nos se certos políticos da nossa praça não mereciam ter o mesmo fim do Kadafi...  Uma coisa não merecem concerteza, que é a vida de nababos e as mordomias que, sem honra nem mérito, vão levando.  E os portugueses não podem mais conformar-se com isso.

Metro do Porto







Recentemente, e a propósito dos défices das empresas de transporte, assistiu-se a um inusitado ataque ao Metro do Porto. Primeiro, foi Miguel Sousa Tavares que se pronunciou sobre o projecto, tecendo críticas muito severas à sua sustentabilidade. Depois, foi Luís Filipe Menezes quem apareceu, em entrevista a este jornal, a criticar as sucessivas opções da empresa. Prefiro concentrar-me naquilo que Miguel Sousa Tavares (MST) escreveu, porque conheço a sua seriedade intelectual e tenho a certeza de que se baseou em informações e análises que certamente julgava credíveis, mas que, como adiante demonstro, carecem de fundamento.

A primeira questão, na comparação do Metro do Porto (MP) com o Metropolitano de Lisboa (ML), diz respeito ao esforço financeiro do Estado, ou seja, ao que o Estado português gastou com cada um dos projectos, em diversas rubricas que incluem o PIDDAC, as Indemnizações Compensatórias, Outras Subvenções Públicas e Dotações de Capital. Verifica-se, através da soma das parcelas, que o Estado gastou, entre 1993 e 2010, cerca de 209 milhões de euros com o MP, e nada mais, nada menos, que 1252 milhões de euros com o ML. E, quando decompomos estas verbas, apuramos que os problemas de financiamento do MP decorrem do facto de o Estado nunca ter feito dotações de capital significativas, já que estas ascendem a 2,5 milhões de euros, enquanto no mesmo período recapitalizou o ML, que em 1993 já existia como se sabe, em 658 milhões de euros. Ou seja, e para quem não é especialista em contas, o Estado avançou com o projecto do MP sem o dotar de capitais próprios, o que justifica que as sucessivas administrações tenham sido forçadas a contrair financiamentos bancários, e o que explica o montante do endividamento e os juros acumulados.

Relativamente aos rácios de operação, verifica-se que as comparações são favoráveis ao MP, ainda que seja necessário ajustá-las às características diversas de ambos os sistemas. O MP tem uma rede com a extensão de 67 quilómetros, com 81 estações distribuídas por 6 linhas, enquanto o ML tem 39,6 quilómetros, com 52 estações distribuídas por 4 linhas, mas é claro que essa comparação não é linear, na medida em que o MP é maioritariamente de superfície, enquanto o ML é totalmente subterrâneo. No que diz respeito à procura, que tanto preocupa MST, o metro atingiu em 2009 uma taxa de ocupação de 18,7%, muito próxima da que se verificou no Metropolitano de Lisboa que, no mesmo ano, rondou os 19,4%. Estas taxas são, note-se, razoáveis, quando comparadas com as que se verificam em sistemas de transporte idênticos em outras cidades europeias.

Já quanto às receitas por passageiro por quilómetro, verifica-se que a comparação é muito favorável ao MP, atingindo 2,5 cêntimos contra 1,5 no ML. Isso explica, aliás, os resultados económicos do MP, cuja taxa e cobertura (que considera as receitas de bilheteira e os custos directos da operação) passou de 53%, em 2007, para 75%, em 2010, sendo expectável que esta taxa seja, em 2011, superior a 92%. Não se conhecem os resultados comparativos do ML.

É evidente que Portugal tem, a exemplo de outros países, um sério problema político e orçamental com a avaliação dos benefícios económicos e sociais que resultam do transporte público e que não se repercutem nos resultados financeiros das empresas que, muita das vezes, são avaliadas ou criticadas de acordo com a óptica privada que é mais restritiva. Ora, sendo desejável que os custos de operação sejam cobertos pela receita, não é expectável que, num serviço público desta natureza, o investimento em infra-estruturas seja recuperável. É essa a situação do nosso metro, que está próximo do equilíbrio na exploração, mas cuja sustentabilidade está posta em causa pelo facto de ter sido financiado exclusivamente através do crédito bancário que vai crescendo, ano após ano, através da acumulação dos juros. Ainda assim, a análise comparativa permite concluir que, apesar desse pecado original, o MP não é tão desastroso como contaram ao MST, e nos querem fazer crer.

[Fonte: JN]

29 outubro, 2011

Jeff Buckley

Pode berrar um bocadinho Rui Rio, nós compreendemos



Lembro-me bem, como foi "sensato e ponderado" o início da relação de Rui Rio com o FCPorto, a marca e instituição mais famosa da nossa cidade. Recordo-me também, do que afirmou Rui Rio quando caiu de supetão na cadeira da Câmara Municipal do Porto, dizendo que "não era por berrar [foi este o termo] contra Lisboa que o Porto se afirmava".

Como o tempo é implacável a repor coerência e alguma justiça nas coisas, hoje, é o autarca do Porto quem teria vontade de elevar a voz para se fazer ouvir junto dos seus colegas de partido no Governo, uma vez que estes o estão a tratar com a mesma sobranceria e desprezo com que ele tratou o Presidente do FCPorto... Hoje, é Rio a reclamar sensatez e ponderação ao Ministro da Economia por este não lhe responder aos apelos diplomáticos solicitando uma reunião para discutir com a Junta Metropolitana do Porto questões relacionadas com o Metro e as portagens das SCUT.

Fiel à sabedoria popular que diz que "quem com ferros mata, com ferros morre", o  Ministro Àlvaro Santos Pereira mandatou a secretária do secretário das Obras Públicas para responder ao nosso ilustre autarca, provando-lhe assim o alto grau de estima e consideração em que o tem.

Em circunstâncias normais, se o Porto tivesse na Câmara um Presidente à altura dos pergaminhos e da história da cidade, não me liam aqui a ironizar com uma situação tão grave, lesiva e desconsiderante para os portuenses. Mas, neste caso concreto, apetece-me dizer apenas isto: bem feito, você tem o que semeou Dr. Rui Rio!

Só se lastima é que o povo que não o elegeu, tenha de pagar por tabela o preço da sua cobardia e do seu servilismo com o Terreiro do Paço. Tal qual, como agora tem de pagar pelas asneiras cometidas por sucessivos maus governos do país. E depois, sabe, às vezes, é mesmo preciso berrar e noutras até, recorrer às armas. Não há revoluções pacíficas.  E as revoluções só acontecem quando a Democracia não existe...

28 outubro, 2011

Movida do Porto, sem rei, nem rio


Copos, lixo e moradores
Quando começou a movida da Baixa do Porto, recordo-me de ter ficado com algumas reservas com o entusiasmo manifestado por algumas figuras públicas do burgo, entre as quais Rui Moreira, que confrontado com o desagrado de alguns moradores pelo ruído que entretanto ali se instalou respondeu que "isso eram reacções de pessoas com a mania de falar mal de tudo", e que achava muito bem, porque era importante revitalizar o centro do Porto, etc., etc. Não posso garantir que as palavras tenham sido exactamente estas, mas foi isto que reti na memória e suponho não fugir muito à verdade.

Na altura, o meu cepticismo nada tinha a ver com a movida, que aliás sempre apoiei [e apoio], mas sim com as declarações que fui entendendo sobre os seus benefícios para a cidade. Invariavelmente, aquilo que mais ouvia dizer foi que: "era preciso chamar gente ao centro do Porto", "que a cidade estava a ficar deserta e que era necessário repovoá-la, etc". Entretanto, alguns moradores reclamavam e com toda a legitimidade, que à noite era impossível dormir com o barulho. Um desses moradores, uma senhora, adiantava que tinha optado por residir no Porto, prescindido mesmo de adquirir uma casa com garagem mais barata nos arredores, por preferir viver no sossego do centro. Por instantes,  imaginei-me naquela situação e perguntei-me se reagiria de maneira muito diferente daquela senhora...

É claro que para os comerciantes da zona, sobretudo ligados à noite, a movida só tinha [e tem], virtudes, era tudo magnífico, porque como é comum nas pessoas, preferem avaliar as coisas com os olhos no umbigo e nem sequer se dão à maçada de pensar nos outros. Ora, tendo embora concordado com a reanimação nocturna do Porto, sempre pensei que a prioridade para repovoar a Baixa teria de ser dada à reabilitação urbana para residentes, e não chamando a si a população dos arredores para diversões nocturnas, devolvendo o deserto à cidade, no dia seguinte.

A ideia da movida foi óptima, o timing é que não.  Primeiro, a Câmara do Porto devia ter apostado fortemente e há muito tempo na recuperação dos edifícios degradados e por quarteirões, de forma a evitar que [como se tem visto], entre um prédio recuperado permanecessem casas a cair de podres, com todas as implicações de ordem sanitária e ambiental que isso implica, já para não falar da segurança... Além de que me parece a pior maneira de atrair moradores. Pessoalmente, e ao ritmo a que a reabilitação urbana avança no Porto, não era eu quem queria viver numa casa entalada entre outras arruinadas.

Agora, aí estão os jornais cheios de reclamações de moradores da Baixa, queixando-se do ruído, dos lixos, da anarquia dos horários de encerramento, do álcool, do comportamento dos utentes e da falta de policiamento. Há já em curso uma recolha de assinaturas de moradores contestatários, dispostos a exigir a reposição da ordem à Camara do Porto com manifestações, inclusivé, à porta da casa de Rui Rio.

E eu, acho muito bem. O Porto nunca esteve tão imundo, como agora. É uma vergonha.   

27 outubro, 2011

Rui Rio não há meio de desligar o complicómetro


Rui Rio
Se tivesse de escolher um adjectivo para definir Rui Rio, acho que o que lhe assentava melhor era o de: "conflituoso".

Não há caso onde ele esteja envolvido que não descambe para o litígio. Se juntarmos a isto a sua incapacidade genética para emperrar as coisas e o total desfazamento entre a reputação que tem [ou tinha], e a realidade nua e crua, teremos reunidos os condimentos para tentar descobrir o que viram nele os seus eleitores. Esta, é só mais uma das suas já habituais incongruências.

Isto aconteceu. Jorge Fiel não está a ser catastrofista

Cimeira devia ser em Cracóvia


Para se pouparem ao desgaste psicológico do processamento dos mortos, os nazis entregavam essa tarefa mórbida a prisioneiros, que recompensavam com uma ração extra de comida, senhas para o bordel de Auschwitz ou outras pequenas regalias.

Eram judeus, apelidados sonderkommando, que passavam em revista os corpos dos judeus acabados de morrer na câmara de gás decorada com chuveiros.

Extraíam-lhes os dentes de ouro, posteriormente fundidos em barras.

Despojavam-nos de anéis, pulseiras, brincos, e procuravam com detalhe todos os orifícios do corpo onde pudessem estar dissimuladas jóias ou dinheiro.

Cortavam-lhes o cabelo, posteriormente enviado para fábricas onde era usado como matéria-prima para confeccionar, entre outras coisas, peúgas de feltro para a tripulação dos submarinos.

Depois de processados os corpos, os sonderkommando transportavam-nos para os fornos crematórios.

Esta impressionante mecânica do processo de extermínio de milhão e meio de judeus, ciganos, homossexuais e presos políticos em Auschwitz é descrita e analisada pelo britânico Laurence Rees no livro "Auschwitz: The nazis and the final solution", que comprei na livraria deste campo de concentração, nos arredores de Cracóvia.

Domingo, ao visitar uma exposição sobre o terror nazi (1939-45) e soviético (45-56), no Museu Histórico de Cracóvia, localizado no edifício que serviu de sede à Gestapo, veio-me à memória o livro de Rees e as tenebrosas imagens da exposição de bens confiscados aos judeus - pares de sapatos, malas, próteses, roupas, óculos, pincéis de barba, carrinhos e enxovais de bebé, enxovais - que foi um dos mais violentos socos no estômago que levei quando visitei Auschwitz.

Os nazis levaram a Humanidade ao ponto mais baixo da sua história. Mas a sua derrota e a reconstrução europeia do pós-guerra foram as estacas em que assentou o maior período de paz e prosperidade do Velho Continente, proporcionado pelo diálogo entre países outrora inimigos institucionalizado primeiro timidamente com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e depois aprofundado até ao euro.

Nesta curva da estrada em que a Europa está, é importante darmos ouvidos aos conselhos de quem tem memória e o saber de experiência feito, como Helmut Schmidt, que, de cadeira de rodas e já para além da fronteira dos 90 anos, saiu do seu retiro para avisar: "Quem considerar que a sua nação é mais importante que a nossa comum Europa está a prejudicar os mais fundamentais interesses do seu próprio país".

Se calhar não seria má ideia que a próxima cimeira europeia se realizasse em Cracóvia, após uma visita demorada dos líderes aos campos de morte de Auschwitz e Birkenau. Talvez fosse mais produtiva.

[Fonte: JN/Jorge Fiel]

26 outubro, 2011

Puxa-saquismo ou petulância?


Este cenário, foi o que eu próprio fotografei há um ano...
Olhar para a casa dos outros, sem olhar primeiro, e bem, para a nossa, recomenda-se, antes de fazer figuras tristes.

Só quem não quer mesmo ver, é que pode ficar indiferente à negligência da Câmara Municipal do Porto com a recolha dos lixos e escandalizar-se com o que se vê lá fora. Tanto mais, quanto nessa e em muitas outras matérias, estamos longe de ser um país modelo.

Leiam aqui e tirem vocês mesmo a pinta a este portuense amiguinho de Rui Rio.

Fêcho do dossier Villas Boas


Villas Boas
Para fechar de uma vez com o dossier Villas Boas, gostaria de começar por dizer o seguinte: o direito à crítica é tão legítimo como o direito ao louvor, desde que obedeça a critérios de justiça e coerência.

Pessoalmente, sou mais vulnerável à sabedoria popular, do que à verborreia político-conservadora, que não se importa nada  de recorrer ao discurso populista quando lhe convém...

Se há coisa que me chateia solenemente, é ver alguém sentenciar categoricamente, como decidiria quem não se conhece, se estivesse no lugar de determinada pessoa. É um pressuposto, no mínimo abusivo, porque  intui e impõe a terceiros desconhecidos a sua opinião pessoal como sendo a única válida, e possível.

Vem tudo isto a propósito da forma abrupta como o ex-treinador do FCPorto, André Villas Boas entendeu deixar o clube. Até pessoas de quem tenho a melhor opinião, como é o caso do escritor Álvaro Magalhães, cometem esse lamentável erro. Senão, vejamos o seu comentário sobre a entrega do Dragão de Ouro a Villas Boas: "Foi bonito. O clube fez o que tinha que fazer: agradecer e dar o Dragão de Ouro. É uma atitude que enobrece. Foi ultrapassado o rancor. Qualquer um no lugar de Villas Boas tinha feito o mesmo, isto é mudar de cadeira, para outra mais bem paga e de maior prestígio. Ficar no Dragão seria estar a atrasar o seu destino".

Vamos lá a ver se nos entendemos. Ninguém pode censurar Villas Boas sobre o legitíssimo direito de olhar pelo seu futuro, e eu não o censuro por isso, e pelos vistos [agora], Pinto da Costa também, que mesmo assim, na altura não se coibiu de lhe chamar medroso... Critico-o sim, pelo timing, que sendo embora pertença exclusivamente sua, colidiu com o timing do clube, que ainda por cima era o do seu coração. E quando digo que colidiu com o timing do FCPorto, quero dizer com os interesses do clube, entre os quais se releva a escolha do treinador. Ainda falta saber, só o futuro esclarecerá, que consequências e preço terá de pagar o FCPorto pelo recurso ao SOS/Victor Pereira, para treinador principal. Pinto da Costa é mestre a arriscar, mas já se tem enganado...

Ainda sobre a decisão de Villas Boas, não creio que se ele tivesse optado por ficar só mais uma época, corresse o risco de hipotecar a sua carreira. Jovem, confiante, competente e com o talento que tem, não creio que, mesmo admitindo uma segunda época menos feliz ao serviço do FCPorto, faltassem as propostas. Já entenderia bem melhor a decisão se ele fosse mais idoso, se tivesse 40, 50 ou 60 anos. Podem-me dizer, que jogou pelo seguro e aceito o argumento, mas não me podem é garantir que outro não teria tomado decisão diferente, e sobretudo, repito, tratando-se de um treinador que fez questão de exaltar a sua condição de portista. Então, como é? Como ficam aqueles teóricos que dizem que: se pode trocar tudo, de mulher e automóvel, só não se troca de clube? Não faltará acrescentar ao ditado, "excepto por dinheiro?". Alguma coisa não bate certo, nesta lengalenga.

Agora pergunto: e se em vez do Chelsea, os milhões que o cegaram viessem da Luz, o discurso contemporizador seria igual, ou era outro? Que raio de portismo conformista é este como o de Álvaro Magalhães que considera a cadeira do Chelsea mais prestigiante do que a do FCPorto? Terá ele confundido o campeonato inglês com clubes? Que o Chelsea tem mais dinheiro, tem, mas... prestígio?! Além de que, salvaguardando o facto relevante de André Villas Boas ter desenvolvido um trabalho sério, vitorioso e competente ao serviço do FCPorto [uma extraordinária atenuante], não vejo uma diferença muito grande entre a sua fuga do FCPorto e a deserção de Durão Barroso para Bruxelas ou de Guterres para Comissário das Nações Unidas. Ambos foram olhar pela vida, não é assim...

É certo que a estes últimos, como altos representantes do Estado, se exigiria uma outra elevação, outra noção de ética, mas não foi o vil metal que também aqui esteve em causa? Será que Álvaro Magalhães também considerou prestigiantes estas decisões? Que no lugar deles fazia o mesmo?

É preciso pensar melhor antes de pormos a boca no trombone de outros. Porque, apesar do oportunismo ser cada vez mais global e descaracterizante, ainda há outros, e... outros.

24 outubro, 2011

Os comentadores desportivos da TVI

Valdemar Duarte
(lá banha tem ele]
Começo por dizer, que como espectador, nunca percebi a necessidade da presença de comentadores durante a transmissão de jogos televisionados, ainda por cima quando esses comentadores não têm categoria para desempenhar a função com moderação e seriedade. Já sei que falar de seriedade e moderação, num país que tem sido governado por gente pouco séria e nada moderada, é um contra-senso romântico, é quase como esperar que filhos de pais alcoólicos se tornem exímios mestres em bons costumes. Mesmo assim, acho necessário chamar a atenção para a falta de isenção deste tipo de gentinha, sobretudo agora que a Troika anda a reclamar austeridade, a torto e a direito, obrigando o Governo a asfixiar a vida a tanta gente útil e trabalhadora. Se os nossos governantes não andassem cronicamente distraídos, era por aqui que deviam começar a limpar a casa, mandando para o olho da rua estes inúteis comentadores, contribuindo assim para a redução despesista do país.  

Ora ontem, aos microfones da TVI, um tal Valdemar Duarte ao piano, acompanhado por Manuel Queiroz ao violino, foram os protagonistas de uma miserável sessão de mau jornalismo.

Um, segundo consta, benfiquista fanático,  useiro e vezeiro a denegrir tudo que cheire a FCPorto, e o outro, um presumível portista que, à imagem de outros acomodados "portistas", são incapazes de levantar a coluna vertebral sempre que estão no meio de lisbonários. Já não é a 1ª vez que dou conta da incapacidade de Manuel Queiroz contrariar a opinião quase sempre tendenciosa do parceiro benfiquista, quando há razões para o fazer. E tem-nas muitas vezes. Ontem, chegou mesmo a ser mais papista que o papa seu colega, insinuando uma grande penalidade pretensamente provocada por um jogador do FCPorto [Álvaro Pereira] sobre um jogador do Nacional, quando as imagens ainda nada garantiam. O senhor Manuel Queiroz, que escreve no semanário Grande Porto e se diz regionalista, só vai conseguir convencer os espectadores mais atentos dessa sua vocação política, quando tiver coragem para se opor sem modinhas aos centralistas, mesmo que em "casa" deles e em modo clubista-desportivo.

Os espectadores portistas sabem muito bem distinguir o bom futebol do menos bom, e também do mau e muito mau. Não precisam da opinião de fanáticos corruptos para saberem que ontem o FCPorto não fez um grande jogo, apesar de ter vencido o adversário por 5-0. Sobretudo quando esses fanáticos parasitas lançam para o ar atoardas do tipo "foram os piores segundos 45 minutos do campeonato!", numa tentativa clara de desvalorizar a victória do FCPorto. Tomara a qualquer clube jogar sempre mal, e terminar os jogos com victórias tão expressivas, não é! Mas, como esse clube [felizmente] não arrasta consigo o estigma "glorioso" do fascismo, vencer por cinco a zero só tem brilho na voz do bronco Jorge Jásus [que é a pronúncia do aldeão]. Esse energúmeno, Valdemar Duarte, esqueceu-se foi de exaltar a magnífica victória do seu Benfica, tirada a ferros e com a cunha, quiçá involuntária, do guarda-redes do Beira-Mar, que fez a obra-prima de colocar a bola direitinha nos pés de Cardozo... Foi amnésia, ou falta de seriedade? 

Foi falta de seriedade, afirmo eu! E de vergonha!

23 outubro, 2011

Glenn Miller Orchestra / Chattanooga Choo Choo

Criminilização de actos políticos. Opinar não chega

Carlos Abreu Amorim
Deputado independente do PSD,disse:

A incompetência política não é criminalizável. Mas existem instrumentos para aferir, do ponto de vista penal, o que é certo ou errado nas decisões políticas. Até porque uma decisão considerada errada agora pode revelar-se certa mais tarde e vice-versa.






António Cluny
Procurador Geral Adjunto do Tribunal de Contas, disse:

Substituir a apreciação política pela responsabilização penal é uma forma de isentar os políticos das responsabilidades a que estão obrigados politicamente. Além disso, é uma armadilha para os tribunais e uma tentativa de desviar a atenção dos cidadãos do julgamento político.




Carlos Jalali
Politólogo, disse:                                                                                

É essencial manter-se a fronteira entre o plano político e o judicial.
É por isso desejável que seja claramente identificado o campo das
opções políticas, que são julgadas no tribunal eleitoral, e os actos
praticados violando as leis.



Paulo Morais
Vice Presidente da Transparência Internacional, disse:

Não se pode penalizar um político por ter gerido mal. Mas o quadro legal existente chega e sobra para criminalizar quem actuou fora do enquadramento da lei. Por exemplo, quem efectuou ou autorizou despesas não previstas no orçamento.






João Cravinho
Ex-deputado socialista, disse:

Só  se  pode criminalizar  os actos  que  foram  cometidos  contra a lei
e   não  as opções  políticas,  mesmo  que venham  a ser  consideradas
erradas.  E para isso há leis suficientes para que essa responsabilização
criminal  avance.  A  pergunta que se deve colocar é porque razão não
se tem aplicado a lei.



Nota de RoP:

A conclusão que podemos retirar de todas estas opiniões é que a Lei existe, aquilo que tem falhado é a sua aplicação, que é a parte mais importante. Aqui chegados - e acreditando que em Democracia a Lei é mesmo para todos -,  o que é que urge fazer, realizar, cumprir, deliberar, executar, enfim, justiçar? 

Repare-se que, ao contrário de João Cravinho, na pergunta que atrás formulei [com sinónimos para todos os gostos], está implícita uma acção efectiva, uma decisão, e não, procurar descobrir a razão de coisas para as quais já conhecemos [de longe] a resposta.   

22 outubro, 2011

Hélder Pacheco e a Porto Canal [no JN]



Pinto da Costa na Porto Canal
Lamento que o JN tenha indisponível on-line as extraordinárias crónicas do professor Hélder Pacheco, porque, a par de Germano Silva, é dos poucos portuenses que ainda preservam intacta a fidelização às origens, e que escrevem, sem aqueles rodeios hoje muito em voga na comunidade portuense.  Gosto de gente assim, é nelas que me revejo e gostaria que se revissem todos os meus conterrâneos, independentemente do seu estatuto social. E lamento também por não poder publicar o  artigo de hoje, porque nele reli muito do que eu próprio já tenho escrito no Renovar o Porto, o que - perdoe-se-me a imodéstia -, me deixa orgulhoso, e muito confortável no meu sentido crítico. Talvez amanhã possa publicar o referido artigo.

Adianto contudo, a quem não teve ensejo de o ler, que a crónica gira à volta do massacre a que as televisões nos têm  submetido com a crise, talvez para nos ensandecer, e da dificuldade que temos em sair desse autêntico sufoco, sem ter de desligar o aparelho. A alternativa é, diz HPacheco: o Porto Canal.

Hélder Pacheco, aponta como referências, exactamente os mesmos programas que já aqui aconselhei a manter pela nova administração da Porto Canal. Parece que combinámos o tema, mas infelizmente nem sequer nos conhecemos pessoalmente.

Mas, o que realmente queria destacar prende-se com o receio de que, o bom senso não impere, e que a nova direcção do Porto Canal acabe com o que de bom se produzia antes, e enverede por aquele tipo de programação popularucha e imbecilizante para concorrer com os canais centralistas. Que cometa o erro de convidar para seus colaboradores pessoas de competência e idoneidade duvidosa, que nos momentos difíceis que a cidade [e o FCPorto] atravessou, nunca deram a cara para a defender, colando-se, por omissão ou puro oportunismo, às directrizes centralistas. No dia em que isso acontecer, será o princípio do fim do Porto Canal, não tenho a menor dúvida. Digo isto, porque apesar do FCPorto não ter traçado ainda toda a programação, vislumbrei sinais dessa inexplicável tentação num programa que, começava a dar mais protagonismo a figuras públicas de Lisboa, do que às do Norte e do Porto. O maior sinal de provincianismo, será esse, de querermos agradar a Lisboa como se tivéssemos que nos redimir de algum crime. Crime sim, cometeram todos os que nos [des]governaram quando decidiram desrespeitar constitucionalmente a implantação da Regionalização no país .  

O caminho a seguir pela Porto Canal, e o único que lhe poderá garantir o sucesso, é preencher o muito espaço ainda vazio, com conteúdos vários, sempre assentes na qualidade e nos interesses da região, sem esquecer nunca a vocação regionalista.

Resumindo: mesmo tratando-se de um canal propriedade de um clube de futebol [FCPorto], a Porto Canal tudo deverá fazer para não ser acusada de portocentrismo, como alguns idiotas centralistas gostam de dizer, mas sem qualquer seriedade.

21 outubro, 2011

Alexandre THARAUD - CHOPIN

Lima abandonado há 40 anos e sem solução à vista

Campo do Lima
Paredes-meias com o pavilhão e a sede do Académico, que comemora em 2011 o seu centenário, estão as ruínas daquele que foi um dos maiores símbolos desportivos do desporto nacional. O Estádio do Lima começou a ser construído em 1923 e até inícios da década de 60 foi a casa do Académico, que o cedia a uma série de outros clubes da cidade, bem como palco de vários campeonatos de atletismo e de inícios e finais da Volta a Portugal em ciclismo.

O FC Porto jogou lá nos anos 30 e 40 os seus jogos grandes, inclusivamente aquela partida frente ao Sporting que ficou imortalizada pelo filme “O Leão da Estrela” (1947). O Boavista fez dele sua casa no campeonato de 1971/72, naquela que foi a última época de utilização do estádio, que então já havia sido perdido em tribunal pelo Académico. “O Boavista fez a sua última partida a um domingo e na segunda-feira a Santa Casa da Misericórdia, que era proprietária dos terrenos, meteu lá retroescavadoras e partiu aquilo tudo, para que ninguém mais tivesse a pretensão de usar o estádio”, explica Eduardo Rego, vice-presidente do Académico, que lamenta o estado a que o Estádio do Lima chegou: “É inacreditável como está aquele terreno ali há quase quarenta anos. Tudo abandonado e à mercê das ratazanas. Em minha opinião, a Câmara podia expropriar e fazer um parque desportivo.”

Essa hipótese até chegou a ser defendida recentemente nas comemorações do centenário do clube. No entanto, a intenção nem sequer chegou a ser proposta concreta e não motivou mais do que um sorriso do presidente da Câmara, Rui Rio, como resposta.

Actualmente, o velho Lima, que é recordado pelo historiador Hélder Pacheco como o melhor estádio da Península Ibérica nos anos 20 e 30 (com duas bancadas de madeira a circundarem um relvado com pista de atletismo e de ciclismo) é apenas um terreno baldio propriedade de uma empresa de construção civil insolvente. Foi vendido pela Santa Casa da Misericórdia à Vidor, que entretanto passou a ser Habiserve, mas nunca se avançou com qualquer projecto para aquele local, que viveu tardes de glória do desporto portuense.

[Fonte: GP/Sérgio Pires]

20 outubro, 2011

O Alto Douro Vinhateiro pode vir a perder a qualificação de Património da Humanidade, atribuída pela UNESCO.


O alerta parte de Manuela Cunha, cabeça de lista da CDU pelo distrito de Bragança às próximas legislativas.

Ontem, o partido Os Verdes entregou na Assembleia da República uma pergunta dirigida aos Ministérios do Ambiente e da Cultura, no sentido de saber se o Estado já tinha informado a UNESCO da construção da barragem. Segundo os Verdes, esta albufeira vai afectar o Douro Património da Humanidade.

Manuela Cunha revela mesmo que em reuniões já mantidas entre Os Verdes e aquela organização das Nações Unidas, surgiu a ameaça.

“Na reunião que tive em Paris com a representante mais importante para a Europa e com a senhora que acompanha o processo no terreno elas confessaram que estavam chocadas com esta atitude do Governo português. Inclusive, informaram-me que não era a primeira vez que a UNESCO ameaçava de desclassificação quando uma atitude destas acontecia.”

Manuela Cunha alerta ainda para os danos que uma desclassificação causaria na imagem do Douro.

“As implicações são enormes, em termos de imagem turística”, sublinhou, adiantando que essa “não é” a pretensão dos Verdes. “O que Os Verdes pretendem é que o Estado cumpra com as obrigações que essa classificação implica. O Governo ficou perante a UNESCO como “guardião do templo”. É obrigado a preservar aquilo que levou à classificação, a paisagem, a sua humanização, mas através das vinhas e socalcos e não com barragens.”

Esta questão surge na sequência dos Verdes pela linha do Tua.

“Os Verdes estão empenhados em defender a linha do Tua e a sua submersão. Uma das questões que isso levanta é que viola o compromisso que Portugal assumiu no quadro da UNESCO. Por isso, o Estado estava obrigado, antes de iniciar a construção da barragem, em consultar a UNESCO. O que queremos saber é se hoje, já o fez.”

"Os Verdes" querem que o Governo esclareça se comunicou à UNESCO a intenção de construir a barragem nesta área e, em caso afirmativo, quando ocorreu tal comunicação e qual foi a reacção da UNESCO.

[Fonte: Rádio Brigantia]

Crise no FCPorto? Ou ainda há remédio?


Para dourar o pessimismo aos portuenses, o FCPorto parece querer fazer companhia aos maus governos, coisa a que, felizmente, nós portistas não estamos habituados.

Algo de errado se passa no reino do Dragão. Curiosamente, a atribulada fase da pré-época, com a saída extemporânea e inesperada de André Villas Boas, pela primeira vez em muitos anos, gerou em mim alguma intranquilidade.

Foi a excessiva demora com as saidas dos jogadores, gerando na cabeça de alguns falsas expectativas em relação ao futuro. Foi algum azar  nas novas contratações, com alguns atletas a chegarem tardiamente [Iturbe] e lesionados [Alex Sandro] e outros que só cá chegam em Janeiro [Danilo]. Foi a saida de Falcao, não propriamente por ter saido, mas por a partir de determinada altura tudo ter levado a crer que acabaria por ficar mais uma época. E mais recentemente também o atraso do Atlético de Madrid no pagamento de Falcao que baralhou as contas à Tesouraria do clube gerando, por efeito de dominó, o atraso no pagamento de Defour e Mangala. Se juntarmos a isto, o problema familiar de Walter, a lesão de Kléber e agora também a do jovem Iturbe, é caso para ir à bruxa.

Mas, bruxarias à parte, o azar não explica tudo. Pinto da Costa, sendo o Líder incontestado do clube devia ser o primeiro a ser responsabilizado. Contudo, à luz de tudo o que aconteceu, seria injusto fazê-lo sem levar em conta os condicionalismos/contratempos acima apontados e aquele que para mim foi o principal motivo da actual instabilidade: André Villas Boas.

A saída abrupta de Villas Boas, mesmo aceitando a tese do efeito hipnótico dos milhões de Abramovich, foi algo com que Pinto da Costa não estaria a contar e que nenhum Presidente do Mundo teria o dom de adivinhar, depois das juras do treinador de amor eterno ao clube, razão pela qual decidiu apostar na prata da casa num daqueles golpes de asa em que é mestre. Só que, os mestres acertam mais vezes do que falham, mas também falham. Tudo indica por isso, que com o decorrer do tempo e pela forma como Victor Pereira está a treinar a equipa, Pinto da Costa tenha desta vez tomado a decisão errada. Acontece. 

Sem retirar uma vírgula ao mérito desportivo de André Villas Boas e a respectiva gratidão, sou daqueles que discordam da entrega do Dragão de Ouro ao actual treinador do Chelsea, porque não consigo dissociá-lo dos prejuízos que causou ao clube. Uma coisa é escolher com tempo um treinador, outra coisa é ter de recorrer à pressa ao que está mais à mão. Se Pinto da Costa o fez, a André Villas Boas o deve. Depois, considero que uma distinção é para pessoas distintas, e nisso, pessoalmente, incluo o carácter.  

HOMENS, não há! Que tal experimentarmos canídeos?



Bulldogs ao Poder! Já!


Para além da crise, dos shows de fanfarronice economicista, das intervenções requentadas do Presidente da República, dos vilões transformados em paizinhos do povo, dos pareceres favoráveis à política de austeridade, o cúmulo do mau senso, é não ver suficientemente enfatizada a urgência de responsabilizar criminalmente os delinquentes políticos. 

Esta fuga para a frente, este constante passar por cima do que é essencial, leva-me a pensar que tão cedo, não há dirigente ou partido político que me convença a confiar-lhes o voto. Fosse eu o Povo, e os políticos teriam de mudar de vida. 

Por acaso o leitor já imaginou como estariam os manicómios deste país se víssemos a nossa casa a ser assaltada, e as economias de uma vida, completamente arrazadas, se em vez de chamarmos a Polícia para descobrir o ladrão, fosse o próprio ladrão a mandar-nos devolver o que nos roubou?  Já pensou nisso? Pois é o que nos está a acontecer agora. Apenas com uma pequena/grande diferença: os ladrões, não são ladrões comuns, são ladrões protegidos pela máscara da política! É isso! Pensa porventura que são coisas muito diferentes? Se pensa, agradeço humildemente que me explique porquê, mas peço-lhe encarecidamente que evite o recurso à demagogia, porque para isso já me bastam essas figuras .  

Perante tal cenário, não há criatura no mundo capaz de me convencer a encarar o futuro com optimismo. Não há optimismo que resista à bandalheira da Justiça. Sim, porque, por mais boa vontade que haja para compreender as contradições legais e as armadilhas jurídico-constitucionais, a verdade é que tudo se resume a isto: para os políticos - e amiguinhos de estimação -, o crime compensa mesmo. Muito mais,  do que para o comum cidadão . Rebobinem bem o filme da vossa memória, e vejam quantos daqueles muitos que estiveram perto de ser julgados, é que não escaparam à Justiça e que, pelo contrário, vivem hoje faustosamente. Demagogia diriam eles, se me lessem. Mas o que é que haviam de dizer? Que sim senhor, que é verdade? Que fariam um acto de contrição?

Só no dia em que tudo isto mudar, em que os lugares do Poder forem ocupados por Homens com nível e carácter de genuínos estadistas, é que podemos sonhar com o futuro. A crise para eles é uma brincadeira. Vejam [só] um bocadinho desses mega-programas de pseudo-preocupados, e vão apanhá-los muitas vezes a soltar autênticas gargalhadas. Pudera. Tivesse a população o mesmo conforto das suas múltiplas e grossas pensões, a boa disposição era garantida e o optimismo pagava a crise.  

18 outubro, 2011

Diálogo improvável, com factos reais

Zé Povinho
O  (Zé)Povo encontra o (P.P.C.) Governo, e dispara:                       

-Senhor Governo, o senhor é um aldrabão!

Governo
-Bem, vou fazer de conta que não ouvi. Quer tratar-me como deve de ser?

Povo
-Tá bem, Sr.Governo, então o senhor não é um aldrabão, é um doutor que falta à verdade. Está melhor assim?

Governo
-Se não retirar o aldrabão mando-o já prender, por desrespeito à autoridade!

Povo
-Autoridade? Que autoridade? A sua, ou a dos seus colegas DL's?

Governo
-DL's? Do que é que você está a falar, Povo? De Disk Jokeys?

Povo
-Dos seus amigos Duarte Lima e Dias Loureiro, ambos senhores muito doutores. Foi com eles que aprendeu a arte de exercer a Autoridade?

Governo
-Não misture as coisas nem as pessoas Povo, por favor e... modere-se. Ninguém deve acusar sem  provar.

Povo
-É verdade, Sr. Governo. Mas eu leio os jornais, procuro as fontes, desconto os excessos, avalio os factos e depois concluo. E um desses factos, é o histórico de impunidade de políticos suspeitos por fazerem coisas muito feias... O Sr.Governo terá por acaso consciência do que está a fazer ao país?

Governo
-Estou a salvá-lo da desgraça a que Sócrates e outros Sócrates antes dele, o levaram. São medidas duras, mas inevitáveis, para salvar o país da bancarrota. Agora, temos de fazer sacrifícios, a Troika está aí...

Povo
-Temos? Por que é que se está a incluir nos sacrificados se sou eu quem vou ter de apertar o cinto? Que mania essa que vocês têm de puxar ao altruísmo comunitário quando me querem gamar qualquer coisa.

Governo
-O Sr.Povo não lê os jornais? Não conhece a realidade global? Ignora as medidas draconianas que estamos a  tomar?

Povo
-Sim, sim, e muito justas! Uma delas foi taxar uns milhões à Banca e aos milionários,  que vão ter de abrir os cordões à bolsa. É de Homem! Mas, aonde é que isso está escrito? Já foi decretado?

Governo
-Está a ironizar comigo Sr.Povo, e continua a tratar-me com pouco respeito. Não abuse da sorte...

Povo
-Respeito? Por um aldrabão? Ah...perdão, queria dizer, por um inverdadeiro? Respeito?Lembra-se do que me prometeu e o que dizia do Sócrates? Ainda não lhe disseram que já está a imitá-lo? Lembra-se do que disse sobre o IVA? Sobre os impostos, sobre a tributação à Banca e do 13º mês?

Governo
-Pois, mas eu não fazia ideia da dimensão da dívida, não é...A coisa está muito pior do que imaginava.

Povo
-Se não sabia, não prometia. Quando é que vocês aprendem a ser Homenzinhos, sérios e responsáveis?

Governo
-Já percebi que consigo é impossível falar, são sempre os mesmos populistas.

Povo
-Lá vem você com a ladaínha da praxe. Oiça, você não tem vergonha da sua falta de vergonha?

Governo
-É você quem o diz, e a Polícia é já ali...

Povo
-Não aldrabão, sou eu quem acaba de lho provar. Eu sou o Povo, fui eu que o elegi. Em Democracia você está ao meu serviço. Nunca ninguém lhe disse isso? Por que não se demite?

Governo
-Lá está você outra vez a insultar-me. Diga antes, inverdadeiro, soa melhor. Olhe, não me demito porque em Portugal, isso é visto como uma fraqueza, uma palermice, coisas de burros. Além disso, você conhece algum 1º.Ministro que se tenha demitido?

Povo
-Humm! Deixe cá ver. Pensando bem, não me lembro...Faz sentido, vocês de facto são todos iguais na originalidade. Oiça Sr. Governo, quer um conselho?

Governo
-Diga.

Povo
-Não fuja da Troika.

Governo
-Por quê, Povo?

Povo
-Porque me palpita que tanta austeridade e tão mal aplicada, só pode dar em merda (desculpe-me o vernáculo).

Governo
-É a sua opinião. Mas afinal, por que é que me aconselhou a ficar perto da Troika?

Povo
- É para ver, Sr.Governo, se antes da hecatombe atingir o país, os cavalos lhe passam por cima.

17 outubro, 2011

Sem pápas na língua!

E Sócrates mentia

Diz-se que a política é a arte de fazer escolhas. Passos Coelho fez as suas: o assalto fiscal à classe média e aos mais vulneráveis da sociedade. E em breve o veremos a anunciar a capitalização da Banca com os recursos espoliados a pensionistas e trabalhadores. Tem toda a legitimidade para impor as suas escolhas aos portugueses porque os portugueses o elegeram. Só que os portugueses elegeram-no com base em pressupostos e garantias falsos, que ele repetiu à exaustão antes e durante a campanha eleitoral.

Agradecendo a Ricardo Santos Pinto, recordem-se algumas das garantias com que Passos Coelho foi eleito: "Se vier a ser primeiro-ministro, a minha garantia é que a [carga fiscal] será canalizada para os impostos sobre o consumo e não sobre o rendimento das pessoas"; "Dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês é um disparate"; "O PSD acha que não é preciso fazer mais aumentos de impostos, do nosso lado não contem com mais impostos"; "O IVA, já o referi, não é para subir"; "Eu não quero ser primeiro-ministro para proteger os mais ricos"; "Que quando for preciso apertar o cinto, não fiquem aqueles que têm a barriga maior a desapertá-lo e a folgá-lo"; "Tributaremos mais o capital financeiro, com certeza que sim"; "Não podem ser os mais modestos a pagar pelos que precisam menos"...

E ainda: "Nós não dizemos hoje uma coisa e amanhã outra".

[De: Manuel António Pina/Fonte JN]


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Comentário RoP:

Não sei se por medo de represálias, ou se por favorecimentos inconfessados, instalou-se na mente de muitos jornalistas e cronistas, alguma parcimónia com a gramática, nomeadamente quando se trata de qualificar atitudes menos dignas, ou mesmo desonestas, da parte dos poderosos. Palavras como, vigarista, ladrão ou larápio, deixaram de ser usadas indiscriminadamente, e apenas baseadas em factos, para serem previamente seleccionadas, consoante a classe social dos destinatários. Estivéssemos nós habituados a uma comunicação social realmente séria, e respeitadora dos seus próprios códigos deontológicos, até se compreenderia tanta parcimónia. Mas, o facto, é que não estamos. Quando a presa é graúda e parece indefesa, já sabemos que as capas da imprensa e os telejornais se unem, quase expontaneamente, para fazerem autênticos julgamentos públicos, e dessa maneira subirem as audiências. 

Melhor que ninguém, os media conhecem a força das palavras e o impacto positivo ou negativo que elas podem ter sobre os alvos. Dizer que alguém está a faltar à verdade, não tem o mesmo efeito que lhe chamar mentiroso. Acusar alguém de enganar, pode muitas vezes ser um modo subtil de esconder  uma traição. Desviar, percebemos que não choca tanto como roubar. Não será em vão que os políticos preferem usar esta linguagem, embrulhada de sofisma...

Mas, os jornalistas, que tantas vezes evocam [sem razão] a liberdade de expressão, não deviam copiar o vocábulo polítiqueiro, sob pena de poderem ser justamente acusados de lhes estar a dar algum proteccionismo.

Isto para dizer, que da crónica aqui plasmada de Manuel António Pina, em bom português [não confundam com o da RTP, que para mim não conta], só quer dizer uma coisa:

tal como Sócrates, Pedro Passos Coelho, é vigarista, mentiroso e traidor.

Assim se escreve em bom português.    

Ps1-Não acho necessário, nem razoável, pedir dos eleitores, mais prazos de tolerância para as asneiras cometidas por pessoas, a quem legitimaram o poder e deram a sua confiança. Creio já ser tarde para os cidadãos exigirem, antes das próximas eleições, garantias sobre a responsabilização imediata dos políticos, assim que se desviem do rumo prometido em campanhas eleitorais. E a criminalização, desde que haja razões óbvias para tal. Se a Lei não está bem, mude-se a Lei. Se os juízes não servem, seleccionem os bons e livrem-se dos empatas. Continuar a discutir estes assuntos sem resultados práticos, é de per si outro crime.  

Ps2-Talvez seja oportuno fazer uma breve observação (caso ainda não tenham percebido) que é o seguinte: enquanto as minhas "espingardas" apontaram para os políticos, o Renovar o Porto foi referenciado em vários jornais e mais do que uma ocasião. A partir do momento em que dirigi a mira para os jornalistas, esqueceram-no...
  

16 outubro, 2011

Bethania

Movimento global dos indignados. Para político reflectir...

20.000 euros mensais...
Louvam-se estas medidas. Mas serão suficientes?

Ver para crer, é o preceito que há muito impus a mim próprio para regressar - sem cepticismos -, ao mundo do segundo mais importante dever cívico, que é para mim, votar. O primeiro - lamento decepcionar os senhores da política -, é o da minha consciência. Modéstia à parte, acho que terei alguma razão, já que muito do que aqui venho escrevendo é seguido com alguma antecipação pelo que escrevem os jornais.

Sempre defendi a tese da inevitabilidade de uma nova ordem social para o mundo, de outros paradigmas de organização que privilegiassem a condição humana antes da economia, repensando e higienizando prioritariamente a Justiça. Infelizmente, essa hora ainda não chegou, mas começa a dar sinais de si. E são vários os sinais. Pela amplitude que está a ter em quase todo o Mundo, o  Movimento dos Indignados, é talvez o mais promissor dos sinais, porque, ao contrário do que vem acontecendo, não tem conotações de índole partidária ou sindicalista, revelando grande maturidade cívica dos cidadãos e uma desconfiança vincada para com os mercados financeiros, bem como com a passividade e a falta de ideias da classe política.  


600 euros por palrar
Se disse "ver para crer", no início deste post, foi porque a [boa] notícia da intenção do governo de reduzir os ordenados pornográficos de cargos directivos da RTP e de acabar com as avenças para intervenções de titulares de cargos públicos, não é garantia da sua execução. Portanto, há que ter cautelas, porque estamos habituados a que as promessas dos agentes políticos fiquem cronicamente pela metade, ou se anulem mesmo pouco tempo depois de serem anunciadas... Por isso, é preciso ver para crer. Mas não deixa de ser uma louvável decisão. Ontem mesmo, falei sobre o assunto aqui mais abaixo. 

Sobre a inimputabilidade que tem protegido os políticos de prestarem contas à Justiça por actos criminosos, também se vai falando com mais frequência. Manuel da Costa Andrade, professor de Direito Penal, apesar de dizer que a incompetência política não constitui ilícito penal, e que, mesmo que constituísse, só teria efeitos futuros, e não retroactivos, também lamenta que os governantes acusados de corrupção ou de gestão danosa raramente sejam condenados e que abusem das garantias de defesa. Tal como nós defendemos, Costa Andrade acredita que, se os crimes cometidos por políticos fossem devidamente punidos, seria uma vantagem para a Democracia. Agora, todas estas sensatas opiniões de gente qualificada, pouca valia terão se o Governo fizer ouvidos moucos da realidade e continuar a dar cobertura a um sistema de Justiça decrépito e disfuncional, como é o nosso.

Este devia ser despedido
Por mais competentes que sejam alguns directores da RTP [e alguns, não só não o são, como são desonestos], é inaceitável numa época de feroz crise global, que haja quem esteja a roubar ao Estado qualquer coisa como 15.000 euros mensais,  e leve 600 euros de avença por sessão [analistas políticos e comentadores].

Seria do interesse público, que isto terminasse de vez, ou então, esta gente que fala muito da crise, mas que dorme bem com ela, terá um dia de se confrontar com problemas mais graves do que o da privação de benesses imerecidas, como ter de lidar com a revolta popular que se avizinha.

D. JANUÁRIO SEM PAPAS NA LINGUA. MAIS UM "POPULISTA"...