31 outubro, 2012

O Dragão de Honra, Pinto da Costa e Durão Barroso

Sobre a hipocrisia, que, dependendo dos casos, tão proveito faz a uns, e mais prejuízo provoca a outros, vou aqui recordar um episódio ocorrido num pub da Foz, já lá vão uns anitos, onde me encontrei com um grupo de amigos [e amigas] para beber um copo.

A determinada altura do convívio, um fulano, visivelmente embriagado, abordou a nossa mesa, e com a descontracção típica dos copofónicos, dirigiu-se a um dos meus amigos e disse-lhe: "não vou com a sua cara, não gosto de si"!   Como podem imaginar ficámos atónitos com tanta "sinceridade", mas não pudemos evitar um certo constrangimento que foi prontamente sanado com a intervenção sensata e oportuna do barman que nos disse baixinho: peço-lhes desculpa pelo incómodo, mas este senhor é o meu patrão. Não liguem.   Entretanto, o homem lá se afastou e o incidente morreu ali mesmo. Escusado será dizer que nunca mais lá voltamos, não é...

Esta cena veio-me à memória quando tentava descobrir o que motiva a falsidade de certas pessoas nas suas relações com os outros, e cheguei à conclusão que além do binómio simpatia/antipatia que todos nós sentimos naturalmente por alguém, existe um outro bem mais mesquinho, que é o interesse e o desinteresse. Para sermos cordeais e bem educados com estranhos também não precisamos de ser extremistas e seguir o exemplo de "frontalidade e boa educação" do homem do bar, porque há coisas que não se devem dizer, principalmente se não conhecemos bem a pessoa que temos pela frente. Já me sucedeu algumas vezes [poucas, é certo] antipatizar com pessoas que vieram a revelar-se excepcionais, e o contrário também, embora deva dizer que o instinto raramente me traiu . Por isso, nada de exageros. 

Mas foi a entrega do Dragão de Honra a Durão Barroso por Pinto da Costa que me incomodou e inspirou para a história que vos contei.  É que, em certos aspectos, não tenho nenhuma afinidade com Pinto da Costa, embora o admire em muitos outros. Pessoalmente, não fui capaz de encontrar uma razão plausível e de justa objectividade para ele, ou se preferirem, para o FCPorto, brindar Durão Barroso, um ex-1º.Ministro banal, que abandonou literalmente o cargo para ir ocupar outro mais atractivo na União Europeia. Dir-me-ão que não trocou um cargo importante por outro qualquer, é verdade. E daí? É assim que se credibiliza a responsabilidade política? E o que é que os portugueses ganharam com isso? Prestígio? Não, está claro!. Se prestígio houve, foi para ele, mas não deixa de ser um prestígio meramente formal, de fachada, sem qualquer benefício prático para nós ou para a própria União Europeia, excepto para Angela Merkel, a quem obedece com invulgar fidelidade... Prestígio, quem o teve - porque soube fazer por merecê-lo - foi Jacques Delors, que teve um papel fundamental na realização do Tratado de Mastricht que esteve na origem da actual União Europeia, e que agora está, como sabemos, sob a presidência de Barroso...  

Mas voltando a Pinto da Costa, que é bem mais importante. Eu não gostei do que vi, é verdade, mas eu não tenho o mesmo temperamento que ele, nem a mesma aptidão para negociar adversidades. Ele tem-na, e nisso supera qualquer um, tanto cá dentro como no estrangeiro. Todavia, continuo a pensar que, depois dos vexames públicos a que foi submetido, com a comunicação social em coro a perseguí-lo, a acusá-lo de toda a espécie de ilegalidades, sem que se ouvisse claramente da parte dos governantes uma palavra de repúdio contra a situação, achei despropositada a ideia de distinguir Durão Barroso, só porque esteve presente nas finais de Sevilha e Gelsenkirchen. Vejamos:  não terá sido antes Durão Barroso que procurou colar a sua imagem à carreira de sucesso de FCPorto, ou terá sido por simples respeito ao clube e a Pinto da Costa? Por que não apareceu ele então quando o presidente portista foi tratado abaixo de cão? São estas "tolerâncias" de Pinto da Costa que me fazem impressão.

É claramente neste tipo de terreno, meio pantanoso, que PC se mexe como poucos. No fundo, é próprio de alguém com um enorme talento para se adaptar a uma sociedade cínica, que não valoriza a frontalidade, que hoje abraça e amanhã já está a enganar, que explica em parte o seu êxito como dirigente supremo do FCPorto. Ele tem a perfeita noção de que, para atenuar tensões e ultrapassar os obstáculos que certos adversários lhe montam, não pode criar rupturas definitivas [sobretudo com gente politicamente poderosa]. Pinto da Costa, ao contrário dos presidentes dos clubes de Lisboa, nunca teve a comunicação social a apoiá-lo, e muito menos o(s) Governo(s), que como estamos fartos de saber, é o mais centralista e castrador da Europa.

Neste ambiente de constante perseguição e suspeita [que incrivelmente ainda se mantém, embora de forma menos descarada, e depois de PC já ter sido julgado e ilibado da maioria dos crimes de que era acusado], não sei se outra pessoa, mesmo com créditos firmados, com uma personalidade diferente de Pinto da Costa, teria capacidade para lidar com tanta adversidade, tanta ratoeira e tanto ódio.

É também por essa razão que, embora discorde de algumas das decisões que tomou ao longo da sua gloriosa carreira, que continuo a sentir uma grande admiração por Pinto da Costa e que estarei sempre contra os autores destes embustes. Até porque, a nível regional não conheço ninguém que defenda a sua dama [o FCPorto] e o Norte como ele. E mais: creio que lá no fundo, até deve ser um gajo porreiro. Difícil,  talvez, mas Pinto da Costa é mesmo um tipo fixe!




30 outubro, 2012

Ter estatuto não pode chegar

Não sei quanto tempo mais será possível manter a fraude e a mentira como forma de exercer a política, e até a própria justiça, o que sei, é que algo vai ter de mudar. Perpetuar estas situações de absoluta discriminação e impunidade é que não pode ser.  

O artigo do bastonário Marinho e Pinto, abaixo publicado, revela bem o estado a que a política chegou, e a dualidade de critérios usada por pessoas que deviam ser as primeiras a servir de exemplo, mas que fazem exactamente o contrário. É portanto "compreensível" o ódio de estimação que alguns magistrados e a própria Ministra da Justiça devem votar ao actual bastonário da O.A. Estão fartos dele, nota-se, e a pedir aos Deuses que o seu mandato chegue depressa ao fim, para ver se lá colocam mais um aldrabão bem falante, com máscara de sábio, igual ou pior aos que o antecederam, e tudo voltar à (a)normalidade.

A manutenção das regalias e direitos dos magistrados [mesmo depois da aposentação] é, à luz do discurso de austeridade usado pelo governo, uma autêntica aberração. Tanto para o Governo, que  mantém essas regalias [e se põe a jeito para suspeitarmos das suas verdadeiras intenções], como também para os próprios beneficiados, que parecem não ter ideia da dignidade do lugar que ocupam. E a propósito de dignidade, convém que isto fique dito e cravado na cabeça de muita gente: a dignidade de um magistrado, ou de um sapateiro, não são mensuráveis pelas regalias que se tem, ou não se tem, e sim pela seriedade e pelo zêlo com que desempenham os respectivos ofícios. Só à posteriori é que as benesses e o prestígio se outorgam, se forem merecidas... Assim é que terá de ser. Tanto para uns, como para outros. 

A maior indignidade que se pode conceber é aceitar-se como naturais as discrepâncias salariais escandalosas entre diferentes actividades, como acontece principalmente neste país. Há gente que apesar de mortal é tratada como se o não fosse, ou como se produzisse paraísos para a sociedade.

Um médico, ou um juíz, são de facto profissões com características e sensibilidades muito próprias, e por isso justificam vencimentos e tratamento privilegiados, mas para isso é preciso que  sejam os próprios cidadãos a reconhecer que o "fato" que vestem assenta bem nos seus corpos, e sobretudo nos seus valores morais e intelectuais. Estamos fartos de ver incompetentes em todas as profissões, isto já para não falar de corrupção, que é o que mais há.

Portanto, senhores governantes, vejam se acabam com essa treta da "dignidade" que reclama para vós carros topo de gama, mas  manda para a fome ou para a emigração os governados, porque tais mordomias deviam dar passaporte directo para  prisão a quem as apregoa. Terão percebido a mensagem, ou precisam de um desenho?            

29 outubro, 2012

Apesar da hora tardia, é importante ler


Austeridade e privilégios

 
Logo após surgir na Comunicação Social a informação de que as escutas de conversas telefónicas entre o primeiro-ministro e um banqueiro suspeito de envolvimento em graves crimes económicos tinham sido remetidas pelo Ministério Público ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça para validação processual a ministra da Justiça entrou em cena com a subtileza que lhe é peculiar. Primeiro declarou que era preciso mexer na legislação sobre o segredo de justiça (quando as vítimas das violações do segredo de justiça eram outras ela dizia que a impunidade acabou) e logo de seguida "solicitou" à Procuradoria-Geral da República que viesse ilibar publicamente o primeiro-ministro e líder do seu partido, o que a PGR prontamente fez garantindo não existir contra ele «quaisquer suspeitas da prática de ilícitos de natureza criminal».

Sublinhe-se que, nos termos da lei (artigo 87, n.0º 13 do CPP), "a prestação de esclarecimentos públicos pela autoridade judiciária" em processos cobertos pelo segredo de justiça só pode ocorrer a "pedido de pessoas publicamente postas em causa" ou então para "garantir a segurança de pessoas e bens ou a tranquilidade pública". Uma vez que nenhum dos escutados (PM e banqueiro) solicitou tais esclarecimentos, os mesmos só podem ter sido "solicitados" e prestados com o nobre intuito de garantir a "segurança" e a "tranquilidade" de todos nós. Mas a PGR foi mais longe e informou que também "foi instaurado o competente inquérito, tendo em vista a investigação do crime de violação de segredo de justiça". Não há como ser zeloso!...

Num segundo momento, a ministra da Justiça (que não chegou a vice--presidente do PSD pela cor dos olhos ou dos cabelos) tratou, no maior sigilo, de tomar outras medidas mais eficazes, prometendo aos magistrados que continuarão a usufruir do privilégio de poderem viajar gratuitamente nos transportes públicos, incluindo na primeira classe dos comboios Alfa. Para isso garantiu-lhes (sempre no maior segredo) que o Governo iria retirar da Lei do Orçamento a norma que punha fim a esse privilégio. O facto de o Orçamento já estar na Assembleia da República não constitui óbice, pois, para a ministra, a função do Parlamento é apenas a de acatar, submisso, as pretensões dos membros do Governo, incluindo os acordos estabelecidos à sorrelfa com castas de privilegiados.
Mas, mais escandaloso do que esse sigiloso acordo político-judicial é a manutenção para todos os magistrados de um estatuto de jubilação que faz com que, mesmo depois de aposentados, mantenham até morrer direitos e regalias próprios de quem está a trabalhar. E ainda mais vergonhoso do que tudo isso é a continuidade de privilégios remuneratórios absolutamente inconcebíveis num regime democrático, sobretudo em períodos de crise e de austeridade como o atual.

O primeiro-ministro, se ainda possui alguma réstia de dignidade e de moralidade, tem de explicar por que é que os magistrados continuam a não pagar impostos sobre uma parte significativa das suas retribuições; tem de explicar por que é que recebem mais de sete mil euros por ano como subsídio de habitação; tem de explicar por que é que essa remuneração está isenta de tributação, sobretudo quando o Governo aumenta asfixiantemente os impostos sobre o trabalho e se propõe cortar mais de mil milhões de euros nos apoios sociais, nomeadamente no subsídio de desemprego, no rendimento social de inserção, nos cheques-dentista para crianças e - pasme-se - no complemento solidário para idosos, ou seja, para aquelas pessoas que já não podem deslocar-se, alimentar- -se nem fazer a sua higiene pessoal.

O primeiro-ministro terá também de explicar ao país por que é que os juízes e os procuradores do STJ, do STA, do Tribunal Constitucional e do Tribunal de Contas, além de todas aquelas regalias, ainda têm o privilégio de receber ajudas de custas (de montante igual ao recebido pelos membros do Governo) por cada dia em que vão aos respetivos tribunais, ou seja, ao seus locais de trabalho.

Se o não fizer, ficaremos todos, legitimamente, a suspeitar que o primeiro-ministro só mantém esses privilégios com o fito de, com eles, tentar comprar indulgências judiciais.



26 outubro, 2012

Sobre Jornalismo

A comunicação social é, a par da actividade política, aquela a que tenho dedicado mais atenção. O Prof. Alfredo Barbosa, escreveu [semanário Grande Porto] sobre a comunicação social o seguinte:

«A crise dos média não é apenas económica e financeira: é ética, é de valores.

Os órgãos de comunicação social que julgam saber o que os leitores desejam equivocam-se no essencial : são os leitores que os escolhem. E não o fazem apenas porque querem ler o escândalo da capa ou ver a mulher nua da terceira (como no Reino Unido). Os leitores podem comprar, aos milhões, diariamente, os jornais que investem na investigação de escândalos, mas não querem que lhes vendam gato por lebre. Se os leitores estivessem disponíveis para comprar lixo e mais lixo, o magnata dos média, Rupert Murdoch, não teria de sacrificar o seu filho e a sua editora predilecta depois do escândalo das escutas». 

Dos vários parágrafos que compõem o artigo de Alfredo Barbosa, há um detalhe que o excerto acima publicado não permite esclarecer e que faz toda a diferença: os leitores e o jornal a que se referia A.B., não são portugueses, são norte-americanos. Se até aqui, o dinheiro dos portugueses era parco para comprarem jornais, agora não sobra, nem para o pão. Por isso, a forte cumplicidade que os grupos económicos americanos ligados à comunicação social conseguiram estabelecer  com os leitores está ainda longe de acontecer em Portugal. Talvez a razão principal se prenda com a formação cívica dos proprietários dos nossos grupos económicos. Tanto o Jornal de Notícias, como o Diário de Notícias pertencem à Controlinveste, de Joaquim Oliveira [dono de 8 jornais, da TSF, 4 canais da TVCabo, e 2 revistas], que não é propriamente um homem ligado por vocação às letras, e o jornal Público de Belmiro de Azevedo também não, apesar de editorialmente mais criterioso. 

Pena é que crónicas com a relevância das publicadas por Alfredo Barbosa no Grande Porto, não tenham  outra visibilidade*, e que as Direcções dos jornais diários nacionais mais lidos não tenham a coragem de as comentar, quanto mais não seja para saber o que pensam sobre regras de ética, e da discussão que nos Estados Unidos se vem fazendo sobre a "lógica fundacional ou cooperativa" da actividade dos média...

  
* O Semanário Grande Porto continua na tacanhez do quase anonimato. Mesmo eu, que sou leitor habitual, tenho dificuldade em localizá-lo nas bancas dos quiosques, tão bem escondido se encontra. Nem sei como ainda sobrevive. Um pouco de publicidade, não ajudaria, caro Rogério Gomes?  

24 outubro, 2012

Votar é um totoloto, mas não devia ser


Manuel Pizarro
Nem de propósito! O JN de hoje publicou uma interessante entrevista com o candidato pelo PS à presidência da Câmara do Porto, que li com a maior atenção. De modo geral, gostei do que li. E daí? Que garantias me dá uma simples entrevista onde são dadas respostas pertinentes a questões embaraçosas, mas que depois podem não ser levadas a cabo, como sucede frequentemente?





Luís Filipe Menezes
O post que ontem publiquei, se calhar demasiado idealista, ou se preferirem, um tanto ingénuo,  procurou precisamente focar-se nesse ponto: credibilidade.

Acho uma certa piada àqueles cavalheiros que muito se incomodam, com aquela sobranceria de quem tudo sabe, quando alguém enfatiza as questões de carácter dos governantes, como se os eleitores fossem profundos conhecedores da suas carreiras profissionais e sobretudo do seu lado humano. Afinal de contas não será essa a maior das qualidades? E a competência, dirão alguns, não conta? Na minha escala pessoal de valores a competência vem logo a seguir, e por uma razão muito simples. É que um Homem de carácter na acepção positiva do termo, é inevitavelmente dotado de uma consciência cívica e de um sentido de honestidade que as pessoas vulgares não podem possuir. A diferença entre quem tem e não tem carácter, está na consciência do dever. Se entregares o Poder  nas mãos de um oportunista competente, o mais certo é que ele use as competências em seu próprio proveito, descurando inevitavelmente o interesse público, levando-o a agarrar-se ainda mais ao poder até que veja realizadas as suas ambições pessoais. Ao passo que, uma pessoa de carácter e sensata, sabe muito bem o momento de resignar quando percebe que, por limitações próprias ou alheias, não pode pôr em prática os projectos que tinha em mente. A resiliência é contraproducente se for confundida com teimosia irresponsável.

Manuel Pizarro até pode ser um excelente candidato à Câmara do Porto, mas tem pela frente um forte opositor, como Luís Filipe Menezes, com obra feita notável [apesar de muito endividado] em Vila Nova de Gaia. Pizarro tem a vantagem de não pertencer ao partido do Governo e é dos poucos socialistas capaz de inspirar alguma confiança aos portuenses. É um homem afável e aparentemente humilde. Revela uma capacidade para socializar que não parece falsa, o que lhe pode ser de grande utilidade para negociar e empreender. Vive sob o espectro desastroso do Governo anterior. Na entrevista ao JN, teve uma frase inteligente e factual:  "Se votar Menezes, o Porto premeia o Governo PSD". Contará também ele com a curta memória do povo para ter esquecido o legado que Sócrates deixou? É bom que não se fie.

Tenho a impressão que Menezes vai ultrapassar o estigma de violar o prazo legal dos mandatos numa Câmara, mesmo usando o buraco legal que a Lei deixou em aberto para se poder candidatar noutra cidade [Porto]. Como o governo central e o Estado são maus pagadores [e agora estão sem dinheiro], não condeno um autarca que contraia algumas dívidas, desde que justificadas e controladas, para o bem das cidades. Por isso, não é por aí que não votarei em Menezes. Tenho contudo uma espinha entalada com LFMenezes: não gostei do volte-face que deu quando como líder do PSD desvalorizou a Regionalização mal aterrou em Lisboa. Disso, não gostei nada.

Como tal,  para votar só posso mesmo intuir, ou fechar os olhos... Se votar, talvez aposte em Manuel Pizarro. E se ele me sair um outro aldrabão, o que é que faço? Demito-o? Como?

É por não conviver muito bem com estas dúvidas que às vezes prefiro abster-me. Se há coisa que me chateia é passar por anjinho, ou contribuir para promover o estatuto de pessoas sem qualquer qualidade. Ainda tenho muito tempo para me decidir.  


  


23 outubro, 2012

Sonhar, não custa...

Podemos sempre argumentar que quem expõe publicamente o que pensa num blogue também o pode fazer no Facebook, ou no Twitter, exponenciando consideravelmente a visibilidade e por inerência, o número de leitores, e isso é um facto. Agora,  duvido é que haja genuínas vantagens nisso. 

As redes sociais vieram para ficar, tal o poder de sedução que exercem sobre os internautas, incluindo deputados, governantes e o próprio Presidente da República. No entanto, essa excessiva participação com um crescente número de comentadores e de bloguistas, pode ter um efeito contrário ao pretendido. O que acontece normalmente quando há multidões a comentar sobre determinado tema, é sobrar mais espaço para a reacção do que para a reflexão. Veja-se, como exemplo, os comentários alusivos ao futebol apresentados pela Net em jornais, e já sabem a que me estou a referir. Há algumas diferenças, é verdade, mas a tendência é seguir o mesmo modelo, ou seja, derrapar para o insulto fácil ou para inconfessáveis ajustes de contas... Por mim, prefiro o espaço mais "familiar" de um blogue.

É pelas mesmas razões que discordo da participação de governantes e demais figuras do Estado neste género de redes sociais. E não quero com isto dizer que defenda um distanciamento elitista entre os detentores do poder e o povo, mas sim uma postura em conformidade com a relevância que os cargos exgiriam.Os governantes, segundo os meus padrões pessoais, deviam obrigatoriamente ser sóbrios, e de uma honestidade irrepreensível, e dedicar a maior parte do tempo a trabalhar nos assuntos que lhes são inerentes.

O tempo e a vida real diz-me que não devo estar muito longe da razão. O nosso grau de exigência com a qualidade dos dirigentes políticos tem de ser incomparavelmente maior ao que tem sido até aqui. Tenho perfeita noção das dificuldades que tal exigência implica, sobretudo nos tempos que correm, onde não abundam figuras de grande dimensão humana e política. O mundo da política foi  invadido por burocratas e tecnocratas, frios, sem grandes preocupações éticas e sociais, que se não forem brevemente afastados vão continuar a decidir com a irresponsabilidade que se conhece. Caberá às populações procurar os melhores para liderar o país, e os melhores não podem emanar simplesmente do interior dos partidos, sem que nada de verdadeiramente relevante o justifique. 

Para sermos um país com alguma prosperidade teremos de ambicionar a excelência, sempre com a noção de que não será fácil. Mas se formos eliminando compulsivamente os páraquedistas do costume que logo aparecem, como ratos saídos de tocas, para substituir os que lhes antecederam e não mudar nada, talvez então consigamos dar passos firmes nesse sentido. Mas, para que tal aconteça teremos mesmo de deixar de alinhar com eles nos folclores das feiras e dos mercados, e passar a procurar analisar cuidadosamente o que é que eles realizaram de relevante para se arrogarem ao privilégio de nos governar.  A partir daí, se verificarmos que o currículo passa apenas por terem dirigido instituições financeiras, empresas de advocacia ou similares, pomo-los logo de parte. Não servem. A folha curricular terá forçosamente de ser muito mais vasta, rica, e diversificada.

Acima de tudo, terá de ser reconhecidamente: um humanista.  Mas, haverá ainda disso?

      

19 outubro, 2012

Morreu Manuel António Pina

Manuel António Pina
Quando, em 2011, Manuel António Pina soube que lhe tinha sido atribuído o Prémio Camões por toda a sua obra - que inclui poesia, crónica, ensaio, literatura infantil e peças de teatro – afirmou: “É a coisa mais inesperada que podia esperar”.

Também a sua poesia tinha sentido de humor – o que é raro na poesia portuguesa - e mantinha vivo o diálogo com Fernando Pessoa. Na literatura infantil, Pina mostrava também essa tradição do “non sense”, da brincadeira sem deixar de lado a complexidade.

Era um cinéfilo e sabia cenas de alguns filmes de cor. Numa pequena biografia publicada há alguns anos na imprensa francesa dizia-se que gostava de “cultivar a imagem de poeta de ‘série B’ – para usar uma metáfora cinematográfica – neutralizando assim a tentação de fazer ‘a grande poesia’ fruto de auto-ironia e de uma dimensão manifestamente lúdica dos seus textos”.

Costumava citar Luiz Pacheco, que dizia que daqui a cem anos ninguém se lembrará do que escrevemos, para contrapor que essa meta acabava: já daqui a um ano. No entanto os seus livros, nomeadamente os infantis que formaram a geração que hoje tem mais de 40 anos, continuam a ser reeditados e não envelheceram.

Quando em 2011 foi publicada pela Assírio & Alvim, “Todas as palavras – Poesia Reunida (1974-2011)” o crítico Pedro Mexia lembrava no “Expresso”, que “os primeiros poemas de M. A. Pina, não sendo estritamente políticos, documentam uma certa ‘paz dos cemitérios’ e sugerem que ‘não é possível dizer mais nada mas também não é possível ficar calado’. Embora seja tarde, talvez não seja ainda demasiado tarde.”

O título do seu primeiro livro de poesia, “Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde”, que foi publicado em 1974 tem sido lembrado nas redes sociais e em cartazes espalhados pelo Porto. É uma iniciativa POP para se criar uma versão nacional e actual do cartaz “keep calm and carry on” que, dizem na página que mantém no Facebook, contou com “o apoio e incentivo directo” de Manuel António Pina. O cartaz original foi criado para ser afixado em Londres, caso houvesse invasão alemã durante a II Guerra Mundial. O cartaz português retoma o título de Pina e é uma homenagem ao poeta “pelas palavras que há muito tempo escreve”: “Não é o fim nem o princípio do mundo, calma é a apenas um pouco tarde” procura “de certa forma, sensibilizar, motivar e mobilizar as pessoas tal como o da situação original”, explicam no Facebook.

O escritor que nasceu, em 1943, no Sabugal, na Beira Alta, vivia no Porto desde os 17 anos numa casa com muitos gatos, que lhe davam material de sobra para os poemas. Conta-se, e foi relatado no “JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias” em 2001, que durante a visita a uma exposição de retratos de escritores portugueses na Feira do Livro de Frankfurt, Helmut Kohl terá parado em frente da fotografia de Manuel António Pina e de um gato e perguntado quem era o escritor. Responderam-lhe que era “o do bigode”. E o chanceler terá dito: “Bigodes têm os dois”. Além de integrar a representação oficial da literatura portuguesa na Feira do Livro de Frankfurt, em 1997, o escritor esteve também na comitiva do Salão do Livro de Paris, em 2000, e no Salão do Livro de Genève, em 2001.

Durante a infância, foi-lhe difícil fazer amigos. Andou de terra em terra por causa da profissão do pai que era chefe das Finanças e também tinha o cargo de juiz das execuções fiscais. A família nunca chegava a ficar mais de seis anos em cada localidade. Foi o pai que o ensinou a ler e a escrever mesmo antes de ir para a escola e treinava a ler os títulos do “1º de Janeiro”. Desde os seis ou sete anos que escrevia poemas, que a sua mãe guardava, e embora só tivesse publicado o primeiro livro de poemas em 1974, começou a escrevê-lo em 1965. 

(do  Público))


Nota de RoP:
Lamento sinceramente a morte deste grande jornalista [sem aspas]. Como ele, já não há muitos.

Olha mais um «populista»! Ai o grande malandro!

18 outubro, 2012

Maldita ingratidão

Otelo Saraiva de Carvalho, o mal amado
Às vezes passo-me com o que se escreve nos jornais. A última página do JN de hoje, na coluna dedicada à Figura do Dia, alguém não identificado, escreveu o seguinte, sobre Otelo Saraiva de Carvalho:

«A exemplo de D. Quixote, imagina-se a combater moínhos de vento. O capitão de Abril já antevê uma revolução e tem a certeza que não será pacífica. Haverá, portanto, derramamento de sangue. Olha para as manifestações populares com ansiedade e pede às Forças Armadas que organizem uma acção militar para derrubar o Governo. A sorte de Otelo é que, tal como as personagens de ficção, é inimputável.»

Ponto um. Não vejo Otelo Saraiva de Carvalho, como o vê o jornalista anónimo que escreveu esta piadinha sem sal a seu respeito, não obstante o considere um homem temperamental com - como se diz na gíria - o coração ao pé da boca. Contudo, uma coisa tem de lhe ser obrigatoriamente reconhecida pelos portugueses: é graças a ele, e a um grupo de jovens militares, que devemos o 25 de Abril, data  a partir da qual pudemos conquistar a liberdade e o direito de votar sem batotice. É igualmente verdade que a população aderiu naturalmente ao golpe militar, o que constituiu preciosa ajuda para ele não fracassar, mas não foi quem o concebeu.  Agora, se a democracia não é tão sólida como nós a imaginávamos [e não é, de facto], a culpa não é de Otelo, nem dos outros militares.

Ponto dois.Tenho idade suficiente para saber o que realmente aconteceu em Abril de 1974 e da evolução que a partir dessa data, até hoje, o chamado processo revolucionário sofreu. Portanto, não é qualquer imbecil, mesmo jornalista, que tem o direito de ridicularizar um homem, que, por mais polémico que seja, não enriqueceu com a revolução, e que afinal mais não expressou que aquilo que o povo nas ruas não pára de dizer: « que isto precisa, é de um novo 25 de Abril!».

Ponto três. Tenho bem fresca na memória a reviravolta que determinadas figuras públicas tiveram de dar às suas concepções de liberdade para poderem permanecer no país e não terem de fugir para o Brasil, como Marcelo Caetano, que apesar de tudo, era bem melhor que muitos desse tempo que ainda andam por aí e já mudaram tantas vezes de partido como as "mulheres de vida" mudam de parceiro. Por essa razão muitos deles, se viram forçados a "aceitar" a vida democrática para poderem salvaguardar o seu património. É bom não esquecer isso! Hoje, essas mesmas figurinhas até já se sentem à vontade para dizer que o 25 de Abril não pertence a ninguém, que é de todos, mas nada há de mais falso! Tal como hoje, à época, o povo sozinho nada podia fazer para derrubar o poder, e muito menos os jornalistas que agora se arrogam ao direito de se sentir superiores a alguém que deu, como se costuma dizer, o corpo às balas e... arriscou a própria vida, para fazer aquilo que só ele e os seus companheiros se atreveram a fazer. Se estivéssemos à espera dos jornalistas e dos que restam do antigo regime, acham que teríamos saído tão cedo de uma ditadura? Não se iludam. Não!

No chamado PREC [Período Revolucionário em Curso] cometeram-se excessos e muitas injustiças? Cometeram-se, sim senhor. E o meu saudoso amigo Rui Farinas foi vítima de algumas. No entanto, era das pessoas mais inconformadas que conheci nos últimos tempos.  Mas é esse o risco próprio de qualquer revolução. Há sempre algo que se perde. Mas, pergunto: e agora, decorridos 38 anos, o que é ganhámos? De significativo, nada! E a culpa disso, também será do Otelo? Terá sido ele porventura [e todos os outros militares de Abril] quem governou o país? Não foi, pois não? Então, senhores jornalistas, ridicularizem-se a si mesmos, porque ainda estão muito longe de subir ao pódio da integridade.

 

17 outubro, 2012

A crise agravou-se mas nunca saímos dela



Vitor Gaspar
Agora, todos falam em crise, incluindo muitos dos que a geraram, mas só alguns estão verdadeiramente a sentir na pele as suas consequências. Curiosamente, à medida que os experimentalistas do Governo vão ampliando o lastro social com as suas penalizações fiscais homicidas (mas ainda assim injustas), cresce o descontentamento entre as classes que até agora se achavam blindadas para tamanho saque. Só escapam os bancos, e os próprios responsáveis do Estado, que apesar de pregarem a austeridade á população não dispensam as viaturas topo de gama para se deslocarem, mais que não fora para dar provas de boa vontade e de algum altruísmo. Não percebem que o momento não é de campanha eleitoral, que é preciso praticar os sacrifícios antes de os exigir aos outros. Não há nada a fazer, a classe política não perde tempo com as questões de carácter. Para ela, o carácter apregoa-se, não se revela.

É por «exemplos» destes que, ao contrário do que a generalidade da comunicação social e dos comentadores políticos andam a pregar para entreter  a populaça, nunca me contentarei com o diagnóstico das doenças [o défice, e a crise] sem antes ter garantias que alguma coisa se está a fazer para as prevenir no futuro. Se alguma vez a resolução dos problemas passar por esta ordem [prevenção/diagnóstico], então talvez tenhamos finalmente condições para simplificar a cura. Não estou a dizer nada de insólito. Se esta receita é recomendada pela comunidade médica para o bem estar da saúde pública, por que motivo não há-de ser aplicada à política? 

Por outras palavras, como cidadão eleitor, o que mais me me interessa não é saber se determinado membro do Governo está profissionalmente bem cotado, o que me interessa é saber se tem qualificações éticas e características para o desempenho das respectivas funções. Consta que o actual ministro das Finanças tem uma excelente folha curricular, mas até ao momento não tem conseguido transparecer essa imagem. E não é preciso ser doutorado na especialidade para perceber que não há austeridade que resista ao asfixiamento da economia e ao consequente crescimento do desemprego.  Pode dar-se o caso [neste exemplo, como em muitos outros] que para Victor Gaspar o cargo de Ministro das Finanças constitua o ponto "proibido" da sua carreira política, o seu Princípio de Peter.

Isto até pode parecer populista aos olhos dos mais conservadores, a verdade é que desde o 25 de Abril de 1974, os portugueses não têm um único mandato governativo de verdadeira estabilidade social e económica para recordar e contar aos netos, com orgulho... Houve muito folclore, muita auto-estrada, muita propaganda política, muito oásis, mas nunca deixámos o país sair da crise, ela sempre cá esteve, independentemente de haver mais emprego que hoje. Portanto, para garantir competência governativa, não chega exibir um bom currículo profissional e académico . É importante, mas não é fundamental.

Sendo dado adquirido que ninguém se revela completamente antes de ser posto à prova, o que importaria no futuro era que os eleitos, além de resilientes, fossem dotados de grandes doses de bom senso e outro tanto de humildade, para saberem afastar-se do poder mal se apercebessem não ter capacidade para o desempenhar com mestria. O drama, é que eles pensam que abdicar do poder é sinal de fraqueza, talvez porque ninguém lhes ensinou que nalguns casos, recuar um passo pode significar à posteriori avançar dois. Ou então, pura e simplesmente não querem largar o poder.  

Porque tenho como sagrada a convicção que um governante é um mero [mas respeitável] representante do povo [vivemos uma Democracia representativa], nenhum direito lhe assiste de se prender ao poder contra a sua  vontade, seja porque ainda não atingiu o limite do mandato, seja porque não foi exonerado em sede parlamentar. Compete à sua boa consciência perceber quando é chegado o momento de sair. Façamos um exercício de memória e vejamos quantos é que o fizeram nas circunstâncias que citei.  

Ora, como a boa consciência de cada um, por enquanto, não é curriculável,  nem legível, e o risco de termos de passar por experiências angustiantes como as que vivemos nos últimos anos [antes com Sócrates, e agora com Coelho] é enorme, só vejo duas maneiras de evitar que elas se tornem crónicas: levar a tribunal os governantes corruptos e irresponsáveis e puní-los de forma exemplar. Se aceitamos a austeridade para a economia não podemos exigi-la para a Justiça?  Caso contrário, meus senhores, é corrê-los à vassourada como antigamente se fazia com os ratos. Se nada fizermos, podemos ter a certeza que só nos resta o desabafo como expressão democrática. Mas o desabafo por enquanto não derruba maus governos.

16 outubro, 2012

Carta aberta ao deputado Carlos Zorrinho

Exmo. Sr. Deputado, José Carlos das Dores Zorrinho

Senhor deputado

Se por ventura o tamanho e dimensão do carro ou viatura, em que se faz deslocar, for proporcional ao seu ego político, proponho que compre um autocarro de 50 lugares, à Empresa “Salvador Caetano”.

Vem o Sr. Deputado, que até é chefe parlamentar do partido Socialista, dar umas no cravo, outras na ferradura, após terem-lhe descoberto a pouca vergonha da despesa, por nós todos a ser paga a estes…. «Sultões da política».

Naturalmente que, não será só o PS, o único partido que, habilidosamente vai utilizando o erário público para tal despesismo, enquanto o “POVO estiver predisposto a pagar".

Dou comigo a matutar: Por que razão, esta gente tão foleira, tem que se fazer circular na via pública em carros topo de gama, carros esses de valores pornográficos, enquanto o povo ou a plebe, como queiram, sofre para comprar 1 Kg de arroz?

Não encontro explicação lógica, a não ser, a tão velha parolice, de quem tenha até então, andado de bicicleta, motorizada e que agora sim, “após serem eleitos senhores deputados, já se podem sentar em altas máquinas, estufadas com couro sintético, ar condicionado, portagens pagas e gasolina sem limite, tudo  pago pelo “ Povão”, tendo ainda, note-se, vários motoristas para todo o terreno ou situações, desde ir colocar os meninos ao colégio, ou transportar a excelsa esposa ao cabeleireiro!

Enfim, lá continuamos como é bem à moda do “Tuga”, num fartar vilanagem, apesar do esbulho inacreditável e assassino, com todo o tipo de impostos, imposto ao cidadão comum, pelo Ministro de Estado e Finanças!

Deixo ao Senhor Deputado Zorrinho, duas perguntas:

1ª Pergunta:

Será que um “MEGANE”, um “OPEL ASTRA”, um “FIAT BRAVO”, um (“TOYOTA”, não Toyota não,…. Pois não pertence a EU), mas um “WV GOLF” ou um “SEAT LEON”, simplesmente como exemplo, não chegarão para acomodar e aconchegar a  bunda e o ego dos Srs. Deputados?

2ª Pergunta:

Será que, os Senhores Deputados que, deveriam representar os pacóvios  ( como eu), que os elegeram, para nos defenderem da «««VILANGEM»»» não se coíbem, depois de serem nomeados, repentinamente  passarem, a usufruírem destas mordomias obscenas, não se apercebendo  tão pouco, da tremenda catástrofe social  que o País está a viver, com milhares de Portugueses desempregados e pior ainda  sem terem que comer?

Efectivamente senhor Deputado Zorrinho, quem para a política entra, a moralidade democrática e sensibilidade social para estas minudências (como a fome) fica no tapete da entrada da Assembleia da República, ou melhor, deixou pura e simplesmente de existir!

Venham lá as máquinas de alta cilindrada, para serem captadas pelos radares da GNR a 190 km à hora, que esse problema não existe para tais "Sultões", pois quem pagará a multa será o povo!

Quem o afirmou, foi o seu velho correligionário, Mário Soares.

Atenciosamente:

Fernando José Tavares

(email de um amigo)

15 outubro, 2012

Jornalismo português


 

A responsabilidade por aquilo que se está a passar com o jornal Público não deve ser imputada apenas ao mercado.

O anunciado despedimento de quase cinquenta trabalhadores, mais de três dezenas dos quais são da redacção, é o resultado de opções de gestão em relação a um «produto» que se tem vindo a degradar progressivamente. Há muito que o Público deixou de ser um «jornal de referência» e passou a ter uma agenda de interesses para além dos que são próprios do jornalismo e do direito de informar. Há muito que os seus leitores se aperceberam disso e têm vindo a deixar de o ler.

A malograda OPA da SONAE sobre a Portugal Telecom marcou o início de uma viragem que adulterou a qualidade tradicional do jornal. A partir daí o Público transformou-se num instrumento de perseguição àqueles a quem o seu proprietário responsabilizava pelo fracasso da aquisição da PT. Toda a gente se apercebeu dessa mudança e da sanha persecutória contra o primeiro-ministro que impedira o negócio. Tudo serviu para o atacar e para o apoucar perante a sociedade portuguesa. O principal objectivo do Público passou a ser o de derrubar o chefe do governo, tendo chegado ao ponto de permitir que jornalistas envolvidos em processos judiciais contra ele (e a quem ele, aliás, respondia da mesma maneira) continuassem a escrever notícias e reportagens sobre o primeiro-ministro como se, nessas circunstâncias, fosse possível ser isento, objectivo e imparcial.

Mas a mudança de director, posteriormente ocorrida, não atenuou o processo de degradação do Público. O jornal vende hoje, bem menos de 20.000 exemplares e isso é fruto do crescente desinteresse pela informação que produz. Só eu conheço cerca de uma dezena de pessoas das minhas relações pessoais que trocaram o Público por outros jornais. Eu próprio deixei há vários meses de o ler - e tenho razões pessoais para isso.

Quando em Novembro do ano passado a ministra da Justiça foi fazer chicana ao congresso dos advogados, o Público escolheu para noticiar o episódio o seguinte título: «Ministra arrasa bastonário». Este é o rigor e a objectividade de um tablóide, ou melhor, de um jornal de reverência. Esse tipo de informação é característico de quem quer agradar ao poder, agredir quem o critica e, depois, se limita a encher os espaços deixados vagos pelos obséquios e agressões.

Outro facto também ilustrativo, passou-se mais tarde quando o jornal fez uma notícia com base numa carta de um advogado reformado sobre o pagamento de quotizações à Ordem. Nessa carta, o meu colega acusava-me de aumentar para o dobro as quotizações de alguns advogados, omitindo que se tratava de uma deliberação do Conselho Geral da OA que obrigava os advogados reformados (que continuassem a exercer a profissão) a pagar a quotização normal. Apesar das graves acusações a mim próprio, o jornal negou-me a possibilidade de as rebater, pois não me ouviu antes de publicar a notícia e, depois, recusou a publicação de um artigo de opinião com a minha versão sobre a questão. No fundo, eu só pretendia dizer que o aumento para o dobro das quotizações abrangia apenas quem pagava metade delas, ou seja, o aumento mais não era do que o fim de um injustificado desconto de 50%. Mas o Público não quis essa parte da verdade nas suas páginas.

Ainda mais recentemente, fui contactado por uma sua jornalista sobre o processo crime que o juiz Carlos Alexandre me moveu por eu ter criticado com dureza a sua decisão de aplicar a prisão preventiva a uma adolescente de 16 anos que agredira outra adolescente. Estivemos bem mais de dez minutos a falar, tendo a jornalista manifestado muito interesse nas minhas declarações. Porém, «por falta de espaço», na notícia publicada vinha apenas que eu mantinha as minhas afirmações e nada mais. O resto - a maior parte - era sobre a acusação de Carlos Alexandre que uma juíza sua colega transformara em pronúncia. Ou seja, era o mesmo que o Correio da Manhã tinha noticiado dois ou três dias antes. É óbvio que uma informação assim acaba, mais cedo ou mais tarde, por ficar sem consumidores.

Um bom director pode fazer um bom jornal até com maus jornalistas enquanto um mau director faz sempre um mau jornal mesmo com bons jornalistas.
[do JN]

14 outubro, 2012

A demência intelectual já chegou à Igreja?

Um Poliparco sem dom

O cardeal Cerejeira, perdão..., o cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo [acho muito giros estes Dons], declarou-se "incompetente em matéria de política", mas só depois de ter lançado para fora da cavidade bocal conceitos sobre a democracia e a Constituição que só mesmo ele pode entender. De tudo o que disse no início, salvou-se o que declarou no fim, isto é: não percebe nada de política, e  absolutamente nada de democracia. Por isso, mais valia estar calado.

Este "sábio" homem, que também já deve ter esquecido por completo o que é a solidariedade cristã, começou por dizer barbaridades deste jaez: "as manifestações são uma corrosão da harmonia democrática da nossa Constituição"... 

Mas o que é que o homem entenderá por harmonia democrática? O ambiente económico e social em que hoje vivemos? Devemos então intuir que para o bispo a harmonia é perfeitamente compatível com o indíce elevadíssimo de desemprego e com a falta de perspectivas de  futuro para os jovens. Será isso? Mas que espécie de homens acolhe a Igreja para a dirigir, que tão distantes vivem da realidade?

Depois, divagou assim sobre as manifestações: "até que ponto é que nós construímos uma saúde democrática com a rua a dizer como se deve governar?". Nem o CDS se atreveu a tanta demagogia! Como é possível falar de saúde democrática quando as pessoas têm cada vez menos dinheiro para se governarem? Retirem ao bispo as mordomias e o beija-mão bajulador a que está habituado, e vão ver como ele passa a valorizar as manifestações. A rua? O que é isso da rua? Será ele tão hipócrita que não tem coragem para dizer povo?

Sobre as manifestações, a mesma caixa craniana que admitiu ser incompetente em questões de política, já não teve rodeios para falar da Constituição [essa maldita, que serve para uns casos, mas já não serve para outros], soltou este diamante: "isso é perfeitamente fora da nossa Constituição e da compreensão do nosso sistema democrático".  E o que terá ele a dizer - sem meter os pés pelas mãos -, sobre o articulado nº.256/91, sobre as regiões administrativas, que também constava da Constituição e foi propositadamente referendado* para a seguir ser imediatamente ignorado? É de prever que um homem que agora se revela tão fiel à Constituição, como o patriarca da centralista Lisboa, só possa ser um regionalista assumido, não é verdade? Ou, estarei enganado?  Ou, estará ele? 

Nunca nutri a menor simpatia por este homem, mas agora não o tolero mesmo! Querem saber por quê? É porque alguém que manifesta tamanha insensibilidade com as dificuldades do povo, não pode ser um bom cristão, e muito menos um sacerdote com tamanho poder. Um homem assim, é um perigo! Não é digno de defender a Igreja dentro dos padrões de uma democracia moderna, nem ser um digno representante de Cristo na terra.

*Devemos agradecer ao agora politólogo Marcelo Rebelo de Sousa, e também ao actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, essa brilhante ideia de suprimir a Regionalização da Constituição, e de hoje vivermos no único país da União Europeia que não criou regiões administrativas, tornando-o no mais centralista de toda a comunidade.


12 outubro, 2012

Ver, para querer

Marco António Costa
São recorrentes os casos em que figuras com boa reputação social e profissional, quando transitam para a vida político-partidária, e especialmente daí para o Governo, não conseguem mostrar as competências que pouco tempo antes lhes eram reconhecidas, decepcionando os cidadãos, contribuindo dessa maneira para o aumento do cepticismo que têm em relação à classe política.

O caso mais recente enquadra-se na actuação do actual Ministro da Educação, Nuno Crato. Pessoalmente, tinha uma imagem positiva deste homem. Ouvia as suas intervenções com uma atenção e um respeito que não dedico a outros, com estatuto e responsabilidades maiores. Agora, é o que se vê, um homem vencido, sem ideias, dominado pela máquina trituradora do carreirismo. Agindo assim, só não se  percebe é como querem(?) eles ser respeitados quando não demonstram coragem para assumir as suas limitações e pedir dispensa.  Sinceramente, eu gostava de os respeitar, até porque por educação, gosto de respeitar toda a gente, mas eles teimam em  não nos dar pretextos para isso, antes pelo contrário... Que havemos de fazer?

É dominado por este cenário de sucessivos flops e malogros que me vejo forçado a colocar sérias reservas a uma figura do Governo que me tem chamado à atenção pela positiva. Trata-se do Secretário de Estado da Segurança Social, Marco António Costa. Aprecio o seu estilo discreto e a sua aproximação empenhada com os mais desfavorecidos]. Pelo que me é dado saber há mais pessoas de "olho" nele. O insuspeito padre Lino Maia, Presidente da CNIS [Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade] é uma delas. Tem-lhe enaltecido a capacidade de comunicar e a arte para resolver problemas extremamente delicados. Não será apenas por oportunismo político que muitos o querem como substituto de Luís Filipe Menezes na Câmara de Gaia. 

No que me diz respeito, prefiro manter-me comodamente no sofá de segurança chamado: "ver, para crer".

Que tristeza!

11 outubro, 2012

E ainda este artigo extraído do JN


CDS: é o eucalipto, estúpido!


O CDS de Paulo Portas exibe os pergaminhos de ser o partido dos valores da "História de Portugal", do território e das pessoas que o habitam. Pois, chegou a hora de Portas o provar. Porque o CDS está a fazer, através de Assunção Cristas, ministra da Agricultura e Ambiente, e de Daniel Campelo, secretário de Estado das Florestas, um demencial ataque ao território. Num ano em que a área ardida mais que duplicou face ao ano anterior, o Governo quer liberalizar a plantação de eucaliptos em qualquer terreno, esquecendo que nada tem sido mais grave do que as vastas áreas plantadas em monocultura, como a do eucalipto, para que os fogos se tornem incontroláveis, os solos cada vez mais pobres e o despovoamento do Interior irreversível.

A Proposta de Lei de Cristas e Campelo permite aos proprietários de terrenos com menos de cinco hectares mudar de espécie florestal sem qualquer tipo de autorização. Todos sabemos qual é a mais rentável: o eucalipto. Quem quer esperar 80 anos por um sobreiro, ou 50 para vender madeira de carvalhos ou nogueiras? E no entanto, estas são as espécies que garantem a biodiversidade portuguesa, a fertilidade dos solos, uma boa gestão dos recursos hídricos e mais resistência ao avanço do fogo.

Um exemplo: 95% da área que é hoje pinhal tem menos de cinco hectares. Com esta proposta o Governo autoriza, em nome da "desburocratização", a liberdade de se mudar do menos rentável pinheiro para o eucalipto... Esquecendo que o eucalipto é uma árvore australiana e se tornou por cá numa invasora imparável.

Além disso, até aqui, as áreas ardidas não podiam ser replantadas com eucaliptos se antes ele não estivesse lá. A partir desta proposta do Governo, luz verde ao eucalipto... Querem melhor convite para pôr a arder o que resta de castanheiros ou carvalhos? Preparem os carros de bombeiros para o próximo verão... Mas pior ainda: mesmo nas áreas acima dos 10 hectares, apesar da autorização para se plantar eucaliptos ser ainda exigida, ela fica automaticamente aprovada se os serviços públicos não responderem em 30 dias. Ora, com a redução de funcionários, está aberta a porta para que passe tudo tacitamente... Um parêntesis: sabem quanto custa o combate aos incêndios por hectare? 25 euros. Este ano arderam 110 mil hectares, área duas vezes e meia maior do que a do ano passado. Combates pagos por todos nós. Qual a solução? Carros, bombeiros, helicópteros... Falso: é a floresta, estúpido!

Com esta medida, o CDS dá mais um salto no tempo: passa do "Partido da Lavoura" para o partido do "petróleo verde" inaugurado pelos governos Cavaco (lembram-se da GNR a bater em populares em 1988 em Valpaços, por estes serem contra a eucaliptização?). O rasto de miséria e devastação do território desta Proposta de Lei do Governo será, a prazo, ainda mais nociva que a dívida, os défices e a troika, juntos.

Exportamos muito papel e isso é bom? As coisas têm de ser q.b.. Porque as consequências de mais eucaliptos, para além de mais fogos, são a desertificação dos solos, envenenamento das albufeiras com as cinzas, diminuindo cada vez mais a qualidade da água potável. Uma terra sem minerais por décadas ou séculos... E terreno onde esteve eucalipto, só nasce eucalipto. Nem precisa de se plantar. Mas arrancá-los custará milhões.

A campanha do trigo de Salazar, no Alentejo, foi um êxito social e económico na altura. Hoje, nas terras usadas para a autossuficiência salazarista, resta pouco. O trigo plantado pelo ditador visionário em solo sem capacidade para o produzir provocou uma ferida na terra que vai demorar sete mil anos a regenerar. E agora vejam o alcance desta medida do Governo: permitir eucaliptos até nos mais férteis solos agrícolas nacionais - apesar da nossa dependência alimentar.

Bem sei que Paulo Portas daqui a 30 ou 40 anos já não estará na política ativa e hoje isto dá votos - a malta gosta de sacar umas massas com uma árvore que cresce sozinha e que de 10 em 10 anos se vai cortar fácil. É dinheiro em caixa sem trabalho nenhum. Mas é o fim do Interior e da agricultura de que precisamos. Portas ficará na História como o homem da "Lavoura" sim, porque, afinal, acabou de vez com ela.

Por não ter tempo para postar...



...deixo-vos mais estas fotos tiradas recentemente junto à marina de Gaia. Quem disse que o Porto é uma cidade cinzenta devia ser enforcado ;-)


10 outubro, 2012

Media insistem em dar status aos medíocres

Prós e contras & família
Há uma tecla, sobre a qual não me vou cansar de tocar enquanto os pianistas encartados, pagos para o desempenho do ofício, se recusarem a fazer o seu trabalho. A 'tecla', é um jeito metafórico de dizer que devem "pressionar os governantes [e ex-governantes], de forma a obrigá-los a assumir a sua falta de sentido das responsabilidades". Os pianistas encartados são, evidentemente, os jornalistas, porque enquanto profissionais independentes [são eles que o dizem] da comunicação, tinham o dever de arrancar da boca dos políticos aquilo que eles não gostam de dizer.

Não deixa de ser embaraçoso para um jornalista que se preze, aparentemente pago para informar com isenção, que a blogosfera esteja gratuitamente a ultrapassá-los em termos de objectividade e pertinência. E é pena, porque podiam aproveitar este vazio de competências institucionais e políticas, para mostrar o que valem, espremendo até ao tutano os dirigentes e ex-dirigentes governativos até eles explodirem de raiva [ou de vergonha]. Mas não. Em vez disso, seguem o caminho mais fácil, que é: "se não podes vencê-los, junta-te a eles". Mas são tão estúpidos que nem o despedimento de 48 trabalhadores hoje anunciado pelo Público os convence que o filão do conformismo com que foram vendendo jornais está-se a esgotar e que, se querem destacar-se da blogosfera e vender mais jornais, têm de escrever mais para o grande público e menos para clientelas políticas.

Se estes tempos de pré-anarquia inconstitucional nos têm trazido dissabores de toda a ordem, também trazem com eles evidências que andaram muitos anos camufladas. Até aqui, os cidadãos mais ingénuos, ainda se davam à bondade [e à paciência] de ouvir os políticos. Para isso, muito contribuíram as televisões, promovendo ao longo dos anos debates e fóruns com aparente qualidade democrática e alguma irreverência,  para dar um tom mais genuíno ao espectáculo. Só que o mais importante ficou sempre por dizer:  uma resposta séria sobre a dimensão da responsabilidade política... Os tempos mudaram, entretanto. Redes sociais e blogues constituíram-se  rapidamente numa verdadeira força comunitária, quase um poder. Os órgãos de comunicação social, amarrados aos patrocínios comerciais, e à clientela política, começam agora a perceber [embora sem o assumir] que a corda do faz de conta está quase a rebentar e justificam a dispensa de pessoal com a crise económica. A crise conta para o caso, mas a perda de credibilidade também.

As estações de tv são quem sai pior nesta paisagem. Estão em perda vertiginosa e no entanto insistem em querer enganar-nos com os pareceres dos Mendes e dos Marcelos. Mas o que é que esperam deles? Opiniões, ou soluções? Por acaso os jornalistas não saberão que eles já tiveram a sua oportunidade e também não provaram grandes aptidões? Sendo assim, que interesse haverá para nós saber o que eles pensam? É impressionante o número de convidados que enchem diariamente os estúdios de televisão de manhã à noite para falar do governo e da crise, com repetições durante a madrugada. Grande parte deles, foram [e são] incompetentes, pouco honestos e trapaceiros. Também foram parte activa do drama porque hoje estamos a passar, e não há um único jornalista que se lembre disso e se sinta incomodado com a situação. Limitam-se a fazer o que lhes ordenam como se fossem trabalhadores desqualificados e acéfalos, reles paus mandados. Têm diante deles os aldrabões, os criminosos, aqueles que juraram respeitar a Constituição e que mais não fizeram do que a descaracterizar, e no entanto, tratam-nos como se fossem autênticos sábios!

Cá para mim que ninguém nos ouve, jornalistas e políticos, são farinha do mesmo saco. A menos que comecem a seleccionar melhor quem convidam para falar de coisas sérias. O que não é o caso.

Mas, serão eles assim tão tacanhos que ainda não tenham percebido o triste papel a que se estão a prestar? Ou estarão a fazer de nós parvos? Será por este caminho que querem restaurar a credibilidade perdida?   

09 outubro, 2012

Não sei se vou ter dinheiro para lhe pagar...


 

Imagine que é um recente proprietário de uma fábrica de tijolos [por exemplo] devidamente equipada, e que para esta  produzir a quantia necessária para atingir os objectivos previamente traçados, precisa de xis número de operários.  Sendo o leitor uma pessoa de bem, e de contas, o que terá de fazer para avançar com o negócio? 

Admitindo que já tenha viabilizado o estudo de mercado e montado uma boa estratégia para conquistar clientela, a primeira coisa que deverá fazer, é saber se tem capital suficiente para as despesas correntes, à cabeça das quais terá de constar uma verba para salários, de modo a apurar se o dinheiro de que dispõe para o efeito chega para pagar a todos os trabalhadores. No caso de não chegar, tem duas alternativas: reduzir ao pessoal, sacrificando o volume de vendas inicialmente previsto, ou então, procurar financiamento para completar o projecto.

Será esse o procedimento habitual do empresariado médio em Portugal? Não tenho grandes dúvidas. Inspirado por um Estado caloteiro e mau pagador - é bom especificar que nós só somos Estado para contribuir, porque quem nele manda são os Governos -, uma grande parte dos empresários não faz as contas assim, prefere seguir a linha do que foi durante muitos anos estimulado pela banca com  a cobertura de vários governos, como seja: "compre agora, pague depois".  Depois, o que é que observamos? Coisas brilhantes como, dizer a empregados recentemente admitidos pérolas do género: "não sei se terei dinheiro para lhes pagar". Deste modo, procuram logo à entrada mentalizá-los para situações semelhantes no futuro, ao mesmo tempo que os mantém assustados com o espectro do despedimento.  Não é muito inteligente, diga-se, mas o chico-espertismo é assim mesmo, nunca foi prova de inteligência. De mau carácter e oportunismo, seguramente.  

Mesmo assim, nada impede os mais incautos que eventualmente se deparem com cenários desta natureza, de responder da mesma moeda aos donos do negócio qualquer coisa assim: "se o senhor não sabe se tem dinheiro para me pagar, então também não sei se me apresentarei ao trabalho quando você quiser".

Aparentemente, a chico-espertice do patrão pilantra seria logo abortada à nascença com efeitos retroactivos altamente significativos, caso as pessoas se levassem um pouco mais a sério e deixassem de parte medos antigos, partindo sempre do cómodo princípio que só terão a perder, porque haverá sempre alguém disposto ao triste papel de se deixar explorar.   

08 outubro, 2012

Foi bom, mas podia ter sido melhor

OBRAJACKSON!
  • Depois queixem-se dos "generalismos", senhores jornalistas [se os há honestos, por que permitem isto?].

Nunca tive dúvidas, mas eles tratam de as reforçar: a RTP tem nos seus quadros, talvez o maior número de vigaristas por metro quadrado da comunicação social portuguesa, embora não esteja sozinha nesta maratona, como é público.

Apesar de saberem que os golos sofridos e marcados contam para a classificação geral, ontem, em vez de dizerem que o FCPorto liderava o campeonato [como aliás fizeram quando o Benfica estava na mesma situação], disseram que o FCPorto se "colou" ao Benfica na classificação, o que não é a mesma coisa.  O FCPorto passou para a frente. Mas, é assim que anda este país, os escroques são mais que as galinhas, mas menos prestáveis...

  • Apesar de merecer ganhar o jogo contra o Sporting [que ainda não percebeu que as queixinhas não ganham troféus], o FCPorto voltou a acomodar-se ao 1-0. Sobre isto apenas tenho a dizer o seguinte: se o treinador não percebe porque é que isto continua a acontecer, é porque não sabe lidar com o problema, o que é preocupante, não só para a equipa, como para os adeptos. No meu conceito sobre o que deve ser um treinador completo, cabe também a liderança dos aspectos psicológicos. Como adeptos, devemos apoiar o treinador, mas não é escondendo o que pensamos [e tememos] que o faremos melhor. É preciso dar o alerta antes que seja tarde. É que se os jogadores são quem decide, então talvez seja mais coerente - e fique mais em conta - abdicar do treinador.

Lamento dizê-lo, e não me quero armar em visionário, mas com esta alternância na postura e no rendimento da equipa, com esta instabilidade exibicional, não acredito que haja um único portista que se sinta confortável nesta situação e não fique em cada desafio com um travo amargo de insegurança em relação ao futuro. Mas, descansem os mais puristas que não serei eu que me servirei dum eventual fracasso para dizer: eu não disse, eu não avisei? Não! O que eu gostava apenas, era de ver corrigidas algumas debilidades, antes que seja tarde. 

Como diria o saudoso Robson: depois de conseguir o 1º. golo, é preciso partir logo à procura do 2º, e se possível controlar o jogo, depois do 3º... Ele dizia-o, mas não se contentava com isso, obrigava os jogadores a obedecer-lhe, nem que para isso tivesse de os mandar dar umas voltas ao relvado, depois dos jogos!

PS-Antes que algum "perfeccionista" me lembre que o FCPorto ganhou por 2-0, lembro eu que só conseguiu chegar ao 2-0 através de um penalti, que apesar de justo, até podia nem ter sido marcado, caso o árbitro fechasse os olhos, como é habitual no Jorge de Sousa... Já sabemos: nós não podemos contar com os humores favoráveis dos árbitros...

Governo de salvação nacional




No início dos anos 80 Portugal vivia uma crise semelhante, na sua natureza, à atual. Foi necessária a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) para equilibrar as nossas contas públicas, o que se fez à custa de duros sacrifícios impostos ao povo português, nomeadamente aos que tinham como única fonte de rendimento a sua capacidade de trabalho. Quem não se lembra das falências e dos salários em atraso, incluindo em empresas pertencentes ao próprio Estado?

O país, porém, era outro: estávamos a caminhar, lenta mas decididamente, para a integração na Comunidade Económica Europeia (CEE) o que aconteceu em 1 de janeiro de 1986, e, apesar de pobres, os portugueses não estavam tão endividados como estão hoje. Os dois principais partidos, PS e PSD, puseram de lado as suas divergências partidárias e aliaram-se num gigantesco esforço patriótico para ultrapassar a situação. Os seus dirigentes máximos, Mário Soares e Carlos Mota Pinto, souberam colocar o interesse nacional acima dos interesses imediatos dos respetivos partidos.

É claro que houve muita contestação entre as clientelas partidárias, insatisfeitas com a divisão de lugares no aparelho Estado feitas por António Campos e Ângelo Correia, então promovidos a uma espécie de prebostes para repartir as sinecuras públicas. Da parte do PSD os principais franco-atiradores eram o recém-falecido Eurico de Melo e o ex--ministro das Finanças do Governo da Aliança Democrática, Aníbal Cavaco Silva, o qual acabaria por derrubar a coligação logo a seguir à sua entronização (com a bênção do «motapintista» Fernando Nogueira) durante um tumulto público que o PSD organizara na Figueira da Foz. Cavaco Silva foi eleito presidente do PSD e logo a seguir primeiro-ministro, Mário Soares foi eleito presidente da República (depois de uma estrondosa derrota do PS nas eleições legislativas) e Mota Pinto faleceu subitamente, em Coimbra, em 1985. Apesar de todas as dificuldades, a crise foi vencida e o país iniciou em 1986 um período de prosperidade e também de esbanjamento de recursos sem precedentes na nossa história coletiva.

Se evoco esse período da nossa vida política é para me interrogar por que é que, hoje, perante uma crise de dimensões muito maiores, os dois maiores partidos da nossa democracia não põem de lado as suas divergências partidárias e até ideológicas para mobilizar as vontades e recursos nacionais para a combater. Por que é que o atual presidente da República não promove, através do seu magistério de influência, uma tal via.

É claro que as clientelas partidárias, sobretudo as dos partidos que estão no Governo, iriam sentir-se prejudicadas, pois teria de haver uma redistribuição de lugares e cargos nos órgãos centrais da administração pública, nas fundações dependentes do Estado, nos institutos e nas empresas públicas. Mas, a dimensão e natureza da crise que vivemos não justifica esse esforço adicional de patriotismo? Não justifica que os partidos ponham, uma segunda vez, o interesse nacional acima dos seus próprios interesses egoístas?
Os custos que o povo português terá de suportar ao não se enveredar por esse caminho serão muito maiores do que os que suportaria se o combate à crise fosse feito com o esforço conjunto do PS e do PSD. Não há boas soluções, muito menos duradouras, geradas no quadro de visões unilaterais e ideologicamente fanáticas como está a acontecer agora. Além disso, numa coligação entre os dois maiores partidos da democracia portuguesa nenhum deles teria força suficiente para fazer ao outro enxovalhos públicos semelhantes aos que o PSD está a fazer ao seu atual parceiro de Governo. Na verdade só um partido que põe decididamente os interesses da sua clientela acima do interesse nacional (e até da sua própria dignidade política) é que suportaria o que a dupla Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar têm vindo a fazer ao CDS. O PS, por seu turno, não pode nem deve limitar-se a esperar, na zona de conforto que é a Oposição, a "pasokização" do PSD.

Quando o sistema político não é capaz de gerar soluções consensuais e duradouras para uma das maiores crises da nossa história, então a verdadeira solução terá de ser encontrada fora do próprio sistema.

Nota de RoP: 
Só o facto de nos habituarmos a comentar a clientela política instalada nos partidos, sem uma reacção à altura da sua gravidade, constitui de per si um outro problema, que é a "naturalidade" como o absorvemos. 

É por estas razões que a corrupção não pára de subir na política. E é por isso também que os políticos não se livram tão cedo da fama de crápulas e de gente de má fama. 

Comecem a exigir o castigo à medida do crime e vão ver como esta bandalheira acaba. 

07 outubro, 2012

TEORIA DE MARC FABER

Curiosa teoria económica anunciada nos Estados Unidos. O tipo chama-se Marc  Faber. É analista e empresário. Em Junho de 2008, quando a Administração Bush estudava o lançamento de um projecto de ajuda à economia americana, Marc Faber escrevia na sua crónica mensal um comentário com muito humor:

"O Governo Federal está a estudar conceder a cada um de nós a soma de 600,00$. Se gastamos esse dinheiro no Walt-Mart, esse dinheiro vai para a China. Se gastamos o dinheiro em gasolina, vai para os árabes. Se compramos um computador o dinheiro vai para a India. Se compramos frutas, irá para o México, Honduras ou Guatemala. Se compramos um bom carro, o dinheiro irá para a Alemanha ou Japão. Se compramos bagatelas, vai para Taiwan, e nem um centavo desse dinheiro ajudará a economia americana

O único meio de manter esse dinheiro nos USA é gastando-o com putas ou cerveja, considerando que são os únicos bens realmente produzidos aqui.

Eu já estou a fazer a minha parte..."

RESPOSTA DE UM ECONOMISTA PORTUGUÊS, IGUALMENTE DE BOM HUMOR:

"Estimado Marc: Realmente a situação dos americanos é cada vez pior.Lamento no entanto informá-lo que a cervejeira Budweiser foi recentemente comprada pela brasileira AmBev. Portanto ficam somente as putas.

Agora, se elas (as putas), decidirem mandar o seu dinheiro para os seus filhos, ele viria directamente para a Assembleia da República de Portugal aqui em Lisboa, onde existe a maior concentração de fdp do mundo".