06 fevereiro, 2013

Há que ter cuidado com os slogans, ó Jorge Fiel!

Pior do que os políticos, é o modo conformista, e muitas vezes até, lisonjeiro, como alguns de nós reagem à forma como eles desempenham a política.

Posso dar-vos um exemplo, com algumas frases do jornalista Jorge Fiel, extraídas da coluna de opinião do JN de hoje. Escreve ele, entre parênteses, acerca dos políticos, que "um dos atributos essenciais a um bom político, para além da hipocrisia, são as omissões". Isto, a propósito da polémica nomeação de Franquelim Alves para Secretário de Estado, como é bom de entender. Mais adiante, Fiel faz uma citação a Maquiavel, para dizer que "apenas um mentiroso ousado e muito capaz pode aspirar a singrar na política e garantir o poder".

Antes de prosseguir, devo dizer que até gosto do estilo brincalhão e bem humorado de Jorge Fiel de escrever sobre coisas sérias, mas como em tudo na vida, é conveniente não abusar. Sendo certo que ninguém duvida do que ele diz, não me parece lá muito pedagógico para a avaliação de uma actividade pública, tão importante como é [ou devia ser] a política, que se misturem adjectivos com qualificativos tão opostos.  Dizendo que um bom político, para ser "bom", tem de ser hipócrita, mesmo fazendo-o com sarcasmo, estamos inconscientemente a alimentar uma ideia completamente contrária à mais sagrada regra exigível a um bom político, que é a seriedade, associada à competência e ao bom senso. É precisamente na falta de seriedade dos políticos que muitos cidadãos se inspiram para contornar as leis, e vencer na vida, e não é continuando a dar lastro a este tipo de discurso que as coisas podem mudar.

É verdade o que diz Jorge Fiel, todos sabemos, mas é uma verdade muito triste, vergonhosa mesmo, que urge inverter, sob pena de não termos moral para nos continuarmos a queixar dos exércitos de jotas e jotinhas que enxameiam os partidos políticos do arco do poder, e que [como constatamos], chegam aos partidos com a "escola" da hipocrisia toda feita. E não me parece ser isso que precisamos, nem nós, nem o Jorge Fiel [acho eu].

04 fevereiro, 2013

O Porto que dá o corpo ao manifesto de Rui Moreira

Centena e meia de personalidades do Porto subscreveram já um manifesto lançado esta quinta-feira associado a uma eventual candidatura de Rui Moreira à presidência da Câmara.

Miguel Veiga, Arlindo Cunha e Hélio Loureiro são algumas das pessoas que se revêem em Rui Moreira no Porto.

Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto e autor de inúmeros artigos sobre o Porto e o Norte, disse a 19 de Janeiro que estava a construir uma “candidatura independente” à Câmara do Porto.
Na mesma entrevista, à agência Lusa, o empresário disse ainda que só não se assumia já como candidato por estar a equacionar as possibilidades de vitória, mesmo avançando “livre da lógica dos directórios partidários”.

O documento tornado público esta quinta-feira é um apelo aos portuenses para aderirem ao “Dar o Porto ao Manifesto”, um “movimento de pessoas que reconhecem e assumem a sua responsabilidade. Com garra e com vontade. A vontade de afirmar o Porto como metrópole influente, em rede com a região, projectando o pólo mais dinâmico do país”.

“Vem fazer parte deste grupo, desta vontade, deste movimento! Manifesta-te, dá um manifesto ao Porto, dá o Porto ao Manifesto”, apela ainda o documento, que começou já a ser distribuído junto da população.
Trazer os cidadãos para a cidade
O texto remete os portuenses para o blogue Dar o Porto ao Manifesto, no qual podem aderir ao movimento que pretende vir a apoiar a eventual candidatura de Rui Moreira.

O manifesto, de apenas uma página, inclui vários tópicos para debate, nomeadamente sobre a necessidade de a cidade ter “contas certas, à moda do Porto”, no âmbito da qual considera que se deve “consolidar a prática de boas contas (…), respeitando os contribuintes, honrando o bom nome, viabilizando o futuro”.
Defende ainda um “Porto porta-voz”, que dê “voz firme, exigente e sensata à defesa das valências da cidade e da região frente ao poder central, sempre em nome da coesão nacional”.

O movimento pretende promover uma “Geração Cidadania”, um conceito que visa “trazer os cidadãos para a cidade, recriar a cidade para todos, juntando a regeneração urbana às políticas sociais e combatendo sem tréguas os focos de pobreza”.

Sob o lema “O Porto Moda. O Porto Muda”, o movimento de apoio à eventual candidatura de Rui Moreira – que remete uma decisão sobre o assunto para finais de Fevereiro – defende a necessidade de “atrair investimento, chamar negócios, gerar emprego. Promover a cidade, fora e dentro, como espaço de negócios, iniciativa e concorrência, até porque o investimento estatal é cada vez mais escasso e injusto”.
Valorizar a marca Porto
O manifesto defende ainda a valorização da “marca Porto em todas as dimensões, pondo em rede e criando uma aliança estratégica das instituições universitárias, religiosas, culturais, associativas, desportivas e recreativas.

“Somos nós quem faz o Porto”, lembra o movimento, salientando a importância de “fomentar as boas práticas cívicas, melhorar a qualidade de vida e combater a insegurança”, assim como de “reforçar o Porto intergeracional, aberto e cosmopolita, confortável para os mais velhos e interessante para os mais novos”.

[do Porto24]

A governamentalização das associações profissionais


 
O actual Governo pretende controlar administrativamente as associações públicas profissionais, equiparando-as às autarquias locais e colocando cada uma delas sob a tutela direta de um membro do Executivo. Este objetivo é tanto mais anacrónico quanto é certo que, simultaneamente com esse controlo político-administrativo, se pretende também desregular o exercício das profissões respetivas, nomeadamente, considerando-as quase como meras atividades económicas, sujeitas apenas às leis do mercado. Além disso, não deixa de ser estranho ou sintomático que umgoverno que aplica na economia um ultraliberalismo desbragado, sobretudo na atividade financeira, pretenda agora colocar sob a sua tutela política as entidades que regulam as profissões liberais. O que o Governo diz é que no exercício concreto das profissões liberais quem manda é o mercado, mas quem passa a mandar nas entidades que regulam as profissões liberais é ele próprio.

Esse controlo administrativo está previsto na nova Lei das Associações Públicas Profissionais (lei n.oº 2/2013, publicada em 10 de janeiro), nomeadamente nos artigos 45º e seguintes. Aí se estatui que as associações públicas profissionais estão sujeitas a tutela de legalidade idêntica à exercida pelo Governo sobre a administração autónoma territorial, acrescentando logo de seguida que a lei da sua criação ou os respetivos estatutos das já existentes "estabelecem qual o membro do Governo que exerce os poderes de tutela sobre cada uma" delas.

A lei equipara as associações públicas (que representam as várias profissões liberais) às autarquias locais e especifica que a tutela administrativa se concretizará através de inspeções. Assim, no futuro, qualquer governo poderá inspecionar qualquer ordem profissional, independentemente das respetivas motivações e mesmo com fins de manipulação e/ou de perseguição políticas. Ou seja, os governos passarão a ter a possibilidade de controlar diretamente a regulação das profissões liberais e, indiretamente, de condicionar o próprio exercício dessas profissões e a atividade dos respetivos profissionais.

Mas não é só através do mecanismo das inspeções que o Governo pretende mandar nas ordens profissionais. A nova lei estabelece também que os principais regulamentos das ordens tenham de ser homologados pelo Governo, ou seja, tenham de estar em consonância com o seu programa político. Também aqui facilmente se vislumbra que será o Governo a determinar o sentido normativo dos mais importantes regulamentos das ordens profissionais, só homologando aqueles que estejam em conformidade com os seus objetivos políticos e partidários.

A lei estabelece ainda que se aplicará às ordens profissionais o regime jurídico da tutela administrativa das autarquias locais estabelecido na Lei n.oº 27/96, de 1 de agosto, que prevê, nomeadamente, a perda de mandato dos eleitos, a dissolução dos órgãos das ordens e a criação de deveres especiais de informação e de cooperação com o Governo. Enfim, tal como aconteceu com as autarquias locais, está em marcha a partidarização das ordens profissionais.

Esta lei foi aprovada no Parlamento sem votos contra, com os votos favoráveis do PSD, do PS e do CDS e com as abstenções dos partidos de esquerda. Trata-se de um ataque sem precedentes à independência das entidades que representam as profissões liberais em Portugal, algumas das quais têm precisamente como principal atribuição a defesa dos direitos e interesses legítimos dos cidadãos. Um ataque levado a cabo por ultraliberais que, assim, demonstram a sua incapacidade em conviver com as estruturas sociais independentes. Nem Salazar ousou ir tão longe nos tempos do Estado Novo.
 
A Ordem dos Advogados, a que presido, tem como primeira atribuição legal a defesa do Estado de direito e dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Ora, sabendo que muitas vezes são os próprios governos a atentar contra o Estado de direito e contra os direitos das pessoas, como é que a OA poderá cumprir essa obrigação se passará a ficar na dependência do Governo? A esta pergunta os advogados irão responder em congresso extraordinário da classe.
[do JN]

Nota: O sublinhado a negrito é da iniciativa do RoP.

01 fevereiro, 2013

"O capitalismo na reabilitação do Bolhão"

No mesmo dia, no mesmo jornal – Público 29 de Janeiro de 2013 –, duas notícias que podem tudo ter a ver uma com a outra: “Reabilitação do Bolhão só terá verbas do QREN, se houver sobras” e “Se o Estado não tem dinheiro para a cultura, é preciso inventar saídas”. Na indisponibilidade de verbas do QREN, tudo indica que a Câmara do Porto irá seguir o seu “plano de lavagem da cara ao Bolhão”, com os 735 mil euros inscritos no Orçamento Camarário. A habitual política nortenha do “caldo verde”. Mas não há mesmo outras opções?

Num dos artigos acima referidos, das conclusões dos encontros internacionais de gestão cultural realizados a semana passada em Madrid, por não ser possível depender apenas do Estado para a criação artísticas: “… não há dinheiro mas existem ideias, fulcrais para que se inventem novas formas de financiamento, é possível continuar a criar, é possível ganhar dinheiro com a cultura, só é preciso descobrir como. Às vezes das formas mais inesperadas. Não existem fórmulas, há que arriscar” e um apelo à colaboração entre o Estado e o sector privado.

Esperar que o Estado seja a solução para os problemas começa a ser uma questão do passado, sendo a crise uma oportunidade de transição de um modelo obsoleto de financiamento para um modelo de colaboração. John Holden, professor de Política Cultural na City University of London, destaca a importância da revolução tecnológica, que deve ser vista como uma oportunidade: “… cada vez surgem meios alternativos para angariar fundos, como as plataformas de crowdfounding…, dado que as pessoas dão valor à cultura, como se pode ver pelos grandes museus, que estão sempre cheios, e os espectáculos e concertos tantas vezes esgotados”.

Regressando à nossa telenovela da reabilitação do Mercado do Bolhão, na falha da resposta pública, porque não a sua entrega directa aos cidadãos do Porto, em vez desta intermediação que não tem sabido dar respostas aos problemas? Os 20 milhões de euros poderiam ser objecto de uma oferta pública de subscrição de acções destinadas aos privados, aos cidadãos do Porto: 100 mil habitantes, investindo 20 euros cada, ou uma qualquer outra combinação, seriam suficientes. Isto mesmo, o mal amado capitalismo também pode dar boas respostas, como modelo popular de intervenção no financiamento de projectos, neste caso a reabilitação do imóvel.

Proponho a criação de uma sociedade municipal que integre o edifício do Mercado do Bolhão, que seria objecto de avaliação, e que depois proceda à entrada de novos pequenos accionistas, minoritários. Os resultados das rendas do espaço, definidas a partir de um valor fixo e de uma percentagem das vendas, tal como nos modelos de gestão dos centros comerciais, seriam afectos à remuneração dos capitais investidos, pela Câmara e pelos cidadãos. Uma parte substancial, afecta a programas de promoção e de animação turística da cidade, dado que a importância e a rentabilização de uma cidade passa pela sua promoção. E para isso é necessário que se aposte mais numa estratégia de marketing cultural e turístico.

“Não se pode esperar que nos resolvam os problemas, nós fazemos parte da solução”. É preciso renovar e inovar, os modelos antigos não são mais rentáveis nem fazem sentido.

José Ferraz Alves, Movimento Partido do Norte
(Extraído do blogue A Baixa do Porto]

31 janeiro, 2013

Se não há democracia, que haja um tsunami!

Terramoto de 1755
Pelo andar da carruagem, ainda veremos no supremo trono do poder, um assassino, ou mesmo um actor de filmes pornográficos. Se a memória para alguma coisa serve, não é caso para nos escandalizarmos, até porque há um vigarista e potencial assassino, em "prisão domicilária", que já foi deputado, que privou com o actual Presidente da República, mais toda a corja de deputados do PSD/CDS e ninguém parece incomodar-se com isso. 

Eles, os compagnons de route, não tugem nem mugem sobre estes exemplos de suprema elevação da nossa política. Deve ser por causa da velha "solidariedade" partidária, não é... Então, porque haviam eles de comprometer os amigos de carreira, mesmo tratando-se de escumalha humana da mais repelente, se podem pregar sermões moralistas ao povo, como se fossem meninos de coro, sem que o povo os possa impedir e repelir? É nesta "democracia" que eles acreditam, pudera! Dá-lhes jeito, claro...

Talvez, num remoto dia, tenhámos o prazer de ver chegar ao poder um Homem de outros tempos, íntegro, despojado de complexos populistas, avesso a modernidades decadentes, que consiga pôr em ordem esta lixeira em que se transformou a política. Mas, vai ter muitos obstáculos, porque os interesses instalados nas instituições mais poderosas do Estado e da sociedade, tratarão logo de o ridicularizar como procuram fazer com o bastonário Marinho e Pinto. Se as pessoas não fossem tão ingénuas, percebiam que não é Marinho Pinto o populista, o demagogo, mas sim os que o criticam. Só teme a verdade quem tem rabos de palha e está comprometido com este regime fétido. Pela parte que me toca, desconfio da honorabilidade de quem critica Marinho e Pinto, seja lá ele empresário, político ou magistrado. Ponho-me logo a pensar aonde terão eles rapinado o Estado e enriquecido? Não me ocorre pensar mais nada a seu respeito. Só desconfiança.

Talvez chegue esse dia, quem sabe? O dia em que o Líder reuna o plenário do partido para lhes dizer aquilo que eles não vão gostar de ouvir. De os obrigar a fazer opções. De não permitir que para além da política se dediquem a outros afazeres contrários aos interesses da própria política. De lhes dizer: ou política, ou actividade privada, ou política ou futebol. Só têm uma opção, as misturas não serão permitidas. 

Estão a ver algum político da actualidade com carácter e dimensão humana para tanto? Não estão, pois não? Eu também. Mas, sejamos optimistas, se não formos nós a livrarmo-nos desta escória, talvez um terramoto como o de 1755 os leve para longe de nós e possamos reconstruir uma nova sociedade. Quem me dera uma tragédia que os vitimasse a todos. Acho que ficava feliz.

Como os desprezo!

27 janeiro, 2013

Treta

Nunca imaginei que a transição do Estado Novo para a democracia implicasse um percurso tão longo, incerto, repleto de armadilhas e decepções. E ainda menos imaginei que decorridos 39 anos após o 25 de Abril, ia experimentar um sentimento misto de traição e ironia, sempre que pronuncio e escrevo a palavra democracia. Da mesma maneira calculei, que como nortenho e portuense, por alguma vez deixaria de acreditar na génese libertadora e combativa dos meus conterrâneos, se alguém ousasse pô-la em causa, com provocações e faltas de respeito. 

Pois foi exactamente isso que aconteceu, e, desta feita, as humilhações, os abusos à dignidade e à soberania nortenha, não vieram dos nossos vizinhos espanhóis, ou de uma nova réplica napoleónica invasora, vieram e continuam a vir, de Lisboa, da capital de um país que é o mesmo aonde o Norte pertence, e o viu nascer... Irónico, não é ? E tremendamente humilhante, também, para os nortenhos. Para todos, é verdade, mas com responsabilidade acrescida para os políticos e grandes empresários da região, que são os únicos que têm poder e capacidade de intervenção para impedirem os excessos e as discriminações com que nos têm "brindado". Acontece, é que alguns desses nortenhos influentes, além de co-responsáveis pelo surto hiper-centralista do Terreiro do Paço, são cumplíces, e desprezivelmente complacentes com o que se está a passar. 

Se o povo fosse como esses traidores dizem, se tivesse culpas directas no cartório pela situação miserável a que se chegou, era  sinal que o governo estava na rua, que era exactamente aquilo que eles tanto criticaram no PREC [Período Revolucuonário em Curso], com a esquerda mais extremista. Mas não foi isso que se passou. As eleições foram democráticas e os governos que desde então sempre tivemos, foram sempre partilhados alternadamente entre o PS e o PSD/CDS. É nestes grupos que se podem encontrar os traidores. O resto, é conversa.

23 janeiro, 2013

Os famosos independentes


 

Estamos numa boa semana para atacar este tema dos famosos independentes que também admite que se incluam no mesmo "barco" os independentes famosos. Historicamente, esta saga dos independentes na política portuguesa (ou talvez melhor, na política à portuguesa) começou no dia em que um deputado de um determinado partido, prevendo que a sua inclusão nas listas para as eleições próximas estava em perigo, resolve tratar da sua vida noutra agremiação, aproveitando para lhe começar a fazer o jogo ainda durante o mandato que lhe tinha sido conferido na sua candidatura pelo partido que passa a renegar. Que é um termo mais suave que trair, embora seja de traição que se trata.

Dos famosos deputados independentes passamos aos famosos independentes da política, que são aquelas "almas" que se desfiliaram de um partido, ou que até nunca militaram em nenhum, mas estão sempre a postos para se juntarem a um partido qualquer, tentando preencher a sua quota de independentes. Reclamando sempre os direitos e esquecendo frequentemente os deveres.

Num sistema político e eleitoral como o português, o independente é uma figura aberrante que não faz qualquer sentido. Numa candidatura às legislativas, um independente no meio de uma lista de militantes filiados é um corpo estranho. Mesmo para aqueles que julgam ver nessa excrescência uma mais-valia, ela normalmente só dura até ao momento da eleição, desvanecendo-se de seguida. Abundam os exemplos, de Vasco Pulido Valente a Manuela Moura Guedes ou Rosário Carneiro. Ou, pior, transformando-se numa menos valia, se o independente é um profissional e começa a preparar a sua próxima eleição, na mesma categoria, mas por outra lista, logo no day after das eleições.

Já nas autárquicas o caso muda um pouco de figura, invertendo- se um pouco as situações. Numa candidatura autárquica independente já não é o candidato que faz a figura aberrante, mas sim, não raro, os seus apoiantes militantes de um qualquer partido que se juntam ao comboio independente, sem terem a decência mínima de se desfiliarem primeiro.

Na versão candidatos ou na versão apoiantes, o que os independentes gostam de dizer é que pensam pela sua cabeça e que a verdadeira democracia tem de garantir a todos liberdade de pensamento, opinião e expressão.

Contra isto nada, o problema é que não é isto que está em jogo. Porque se estivesse, não estaríamos a viver numa democracia. Quem quer intervir na política e se filia num partido, como é normal no nosso sistema pluripartidário, pode e deve continuar a pensar pela sua cabeça e a expressar livremente a sua opinião. Mas a democracia sem regras passaria a bandalheira no dia em que todas as opiniões dentro de um partido tivessem igual peso e legitimidade, independentemente do seu sufrágio maioritário ou minoritário.

Como sócio (mais do que adepto) do F. C. Porto, nem sempre concordei com todas as decisões dos dirigentes ou treinadores do meu clube. Sinto-me até à-vontade para exercer publicamente o meu direito de crítica, ainda que em função da audiência, pública ou privada, voluntariamente decida o tom e alcance dessas críticas. Mas em caso algum, por maior e mais estrutural que possa ser a minha discordância, admito dizer a mais pequena coisa, ou fazer o mais pequeno gesto, em apoio de qualquer dos adversários do meu clube.

Aliás, se algum dia o fizer (o que só admito por doença...) fica aqui dito que espero que o meu clube me expulse de imediato.

É por isso que se Rui Moreira se candidatar à Câmara do Porto e algum militante de outro partido com candidato o apoiar e não for expulso no mesmo dia, vou começar a temer que a nossa democracia pluripartidária está a caminho da maior bandalheira. [do JN]

21 janeiro, 2013

Menezes versus Rui Moreira

Com uns dias ocupado a resolver alguns assuntos de carácter pessoal, não sobrou tempo nenhum para o Renovar o Porto, e para ser franco, a disposição também não tem sido a melhor. Começa a faltar-me a paciência para lidar com tanta irresponsabilidade e vazio de carácter. 

Portugal é próspero em gente vaidosa, convencida de saberes e de honrarias que na realidade não tem, nem nunca terá, porque lhe falta o barro que molda as grandes pessoas: a têmpera. E não é só no mundo da política que falta decência, é em quase tudo. É a clonagem da mediocridade que está na moda.

A avaliar pelos apoios que tem vindo a angariar - uns, mais respeitáveis que outros -, Luís Filipe Menezes conseguiu, sem dúvida,  deixar uma imagem de força, quase consensual, na apresentação da sua candidatura à Câmara Municipal do Porto, sábado passado. Ideias não lhe faltam, e palavras ainda menos... Por isso, não lhe fica mal dizer que quer fazer do Porto "o farol do Noroeste peninsular", nem relativizar a perda da gestão do Aeroporto Sá Carneiro, desde que este integre "uma rede de aerogares internacionais com massa crítica globalmente poderosa", o problema está em saber como é que ele tenciona contornar as barreiras que o governo [que é do seu partido] lhe colocar. Sim, porque se o governo de Sócrates era centralista, o de Passos Coelho abusa.

Em abono da verdade, Menezes revolucionou Gaia completamente, e para melhor, o que é mais relevante. Acusam-no de ser despesista, mas eu pergunto, haverá alguma entidade neste país que possa atirar a primeira pedra sem esta lhe cair em cima? A começar pelo Governo, ou se preferirmos, pelo próprio Estado? Desde quando o Estado em Portugal, é bom pagador? Brincámos? Por isso, descubram lá outro argumento porque esse do despesismo tem muito que se lhe diga. Já dizia o falecido Vieira de Carvalho ex-Presidente da Câmara da Maia, que se estivesse à espera do dinheiro do Governo para dinamizar a cidade, a Maia nunca teria dado o salto de qualidade que deu. E tinha razão. No Porto, ao invés, temos um presidente poupadinho, mas não consegue fazer nada de jeito, a não ser emperrar as coisas e queixar-se.

É por isso que me custa ver Rui Moreira metido no espartilho que Rui Rio lhe colocou, quando este decidiu usá-lo como arma de arremesso, na expectativa de abortar a candidatura de Menezes à Câmara do Porto, coisa que não vai conseguir, porque Rui Rio além de estar politicamente moribundo já não tem a margem de apoio que teve no passado. Mas, Rui Moreira também não tem sabido gerir astutamente a sua imagem, porque entre muitas qualidades, tem um grave defeito, que em política não dá bons resultados: quer, como o povo diz, dar-se com Deus e com o Diabo... O estilo diplomático de Rui Moreira não se coaduna com as rupturas necessárias em política, com a definição de rumos claros, assumidos, sem hesitações. Ao deixar para o final de Fevereiro a decisão sobre a sua candidatura à Câmara, Rui Moreira está a dar ainda mais tempo a Menezes, que já lhe roubou o apoio de uma significativa parcela de figuras da vida pública nacional. Nos momentos pré-eleitorais não se pode ser esquisito, o que é preciso é conseguir-se o maior número de apoiantes, que é o que Menezes está a fazer.  

Posso estar enganado, mas o problema maior de Rui Moreira é que as suas simpatias direitistas não se enquadram lá muito muito bem no seu perfil de pessoa. Creio que a esquerda lhe ficava melhor, até porque a esquerda, a verdadeira esquerda, precisa de pessoas como ele. A não ser que eu esteja mesmo enganado... Ah, e quando falo de esquerda não estou a dizer que esse seja o lado virtuoso da política, e dos políticos. Estou apenas a dizer que, ideologicamente, a esquerda é muito mais respeitável que a direita. Ou seja, nem uma sigla chega para fazer um partido de esquerda, nem um militante de esquerda é garantia de ser homem de esquerda... Cuidado.


16 janeiro, 2013

António Costa - Quadratura do círculo



 Aqui está textualmente o que disse António Costa (transcrito manualmente):
(...) A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir.
E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável.
Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia. Portanto não é aceitável agora dizer que somos todos culpados. Podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar!
A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.
Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção.
Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. E foram as vigarices de Isaltino Morais, que nunca mais é preso. A que se juntam os casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas 16 e mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público.
Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo têm responsáveis conhecidos. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos.
Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas. Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público--privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos... Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos.
Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia."

15 janeiro, 2013

O spillover Rui Rio

Não, não tenciono enveredar pela demagogia dos comentadores políticos, e dizer que a culpa pela perda de protagonismo do Porto, e do Norte, é de todos nós, porque isso seria faltar ao respeito àqueles nortenhos que votaram conscientemente, sobretudo aos que não votaram em qualquer dos partidos do chamado arco do poder. Não enjeito contudo a oportunidade de apontar Rui Rio como o principal obreiro do esvaziamento político e demográfico da cidade do Porto, dos últimos 11 anos.

Curiosamente, essa orfandade de liderança foi precedida da prematura e infeliz saída de Fernando Gomes da C.M.do Porto, para  ocupar o lugar de Ministro da Administração Interna, em Lisboa, ele que até aí tinha sido o melhor autarca desta cidade depois do 25 de Abril de 1974.. Politicamente, Fernando Gomes pagou cara a desfeita que fez aos portuenses, ao perder para Rui Rio, em 2001, uma Câmara que noutras circunstâncias seria sempre sua, permitindo com a sua derrota, que Rio deixasse o Porto no estado em que está: mais pobre, e mais deserto.

Rui Rio, como sabemos, entrou no Porto da pior maneira, hostilizando gratuitamente um dos maiores baluartes da resistência ao centralismo lisboeta, o FCPorto, e o seu Presidente Pinto da Costa. Desta forma, mesquinha e inglória, Rui Rio com os seus conhecidos complexos de inferioridade, contribuiu para que o poder central fosse paulatinamente perdendo o respeito à nossa cidade e região, contagiando toda a sociedade civil, incluindo políticos e empresários, que passaram a olhar para o Porto como uma cidade descartável, onde já nada se decide. Para azar dos nortenhos, seguiu-se a famigerada crise económica global, facto que ainda por cima serviu que nem uma luva para o acentuar do centralismo, e para justificar o marasmo e a incompetência do próprio Rui Rio.

Tenho como certa esta convicção, mas mesmo assim continuo sem encontrar uma resposta compreensível para a indiferença generalizada que se instalou na sociedade nortenha, no seu grupo de empresários e políticos, que são os que mais influencia e poder têm para tomar iniciativas, limitando-se a fazer comentários nos órgãos de comunicação social, os quais já ninguém leva a sério. 

Mesmo assim, custa-me a acreditar que a apatia em que o Norte vive se deva apenas ao efeito difusor de Rui Rio.

12 janeiro, 2013

A televisão que o Norte precisa...

...não deve pactuar com a trapaça generalizada que se faz na concorrência, caso contrário, nunca se imporá como a televisão que ousou dar o salto por cima, de fazer a diferença pela superioridade em relação às outras. 

Falando em televisão para o Norte, não posso deixar de falar no Porto Canal, primeiro porque já existe, e depois porque já  descentraliza, já difunde [e bem] informação e  coopera com muitas cidades e povoações do Norte do país. Para vingar, será fundamental não apenas evitar a concentração excessiva no Porto, como também desenvolver uma filosofia editorial crítica e selectiva, quer com colaboradores residentes, quer com os convidados que escolher para debater todo o tipo de temas, com especial realce para as questões relacionadas com a política e o desporto.Não ser criterioso, será abrir portas à vulgaridade.

Tenho sérias reservas para pensar que este meu desiderato venha algum dia a concretizar-se, e explico porquê. A comunicação social padece do mesmo mal que afecta a maioria dos portugueses: o medo. O medo é inimigo da liberdade, e é a ausência desta que está a afectar de morte a boa informação. Os media vivem de patrocínios e audiências, mas não podem deles depender demasiado nem se subjugar a elites, ou pseudo-elites, sob pena de se auto-anularem e defraudarem as expectativas do grande público nortenho. As elites não são fiáveis, enganam. De mais a mais, agora que ninguém sabe bem quem são, e onde estão. 

Belmiro de Azevedo podia ser uma grande elite do Norte, mas já mostrou não ter perfil para isso. Belmiro quer vender, ponto. Se é Lisboa que manda, muda-se para Lisboa e faz-se-lhe a vontade. Mesmo que por cá deixe ficar a fachada e as sedes das  empresas, as decisões tomam-se na capital. Belmiro não é político, é um negociante muito "prático"... Como ele, são a maioria das pessoas do Norte com poder suficiente para se afirmarem nacionalmente. E os políticos do Norte são iguais, medianamente iguais. Mas, que diabo, ainda não andam camuflados, são simples de identificar.

Não se compreende por isso, que o Porto Canal tenha convidado recentemente para debater a orfandade de líderes no Norte um lambe-rabos, chamado Hermínio Loureiro. Custa-me a acreditar que ninguém no Porto Canal, a começar pelos quadros dirigentes, não conheça o perfil camaleónico e vincadamente centralista do autarca de Oliveira de Azemeis, para tomar a triste decisão de convidar protagonista tão imprestável para discutir um assunto tão caro aos nortenhos. Outro dia, foi Marcelo Rebelo de Sousa [outro centralista manhoso], não tarda nada, vamos ter de apanhar com o sósia menor, Marques Mendes, e o Norte só tem a perder com tais escolhas*.

Não se pode criticar no vazio. A política não é uma ciência abstracta, é uma actividade com executores, que são os políticos. A crise tem responsáveis, esses não são o povo, são quem ele elegeu para o governar. As televisões estão cheias de "politólogos" que tiveram responsabilidades políticas fracassadas, e só isso é por si mesmo, uma aberração, uma tautologia, uma deformação. O que pode o público ganhar ouvindo um, ou muitos incompetentes?  À medida que este critério editorial absurdo se repete transmite-se para a opinião pública a ideia [erradíssima] de que a importância das pessoas vem do estatuto e não do uso que se lhe dá.

Gostava imenso que o Porto Canal fosse o canal pioneiro a perceber que o caminho para o sucesso não pode ser esse e que por vezes é preciso mesmo aceitar grandes desafios e fazer rupturas. Romper com a mesmice, diga-se, nem sequer é grande revolução, mas que urge fazê-lo, urge. 

* Há que dar oportunidade a quem não tem currículo governativo, a gente respeitável, e com bom "cadastro"... Sim, porque a esse nível [governativo], poucos se podem dar à vaidade de imaginar que governaram bem, que sabiam o que estavam a fazer. Para si próprios, talvez soubessem, para o país, seguramente que não. 

10 janeiro, 2013

O bom ditador

Charlie Chaplin























Penso não me enganar se disser que nos últimos 50 anos nunca o nosso país passou por uma crise tão violenta como a actual. Também não imagino que alguém com idade suficiente para isso, possa desmentir esta forte convicçao. Mas, aquilo que para mim é realmente dramático, é não aparecer, no meio desta grande confusão, ninguém capaz de fazer a diferença pela positiva. Gente para dar pareceres sobre o que sabe, e o que não sabe, não falta, basta carregar nos botões do comando da tv nas horas de maior audiência e vêmo-los às dezenas, em todos os canais. É só escolher. Mas, intelectualmente, são todos iguais. Alguns deles [muitos], até foram responsáveis pela actual situação económica e social, que é o que me tira mais fora do sensato...

Pois se isto é uma Democracia, então eu não a quero para nada. Mas, também não quero o regresso ao passado, para satisfazer os apetites secretos de muitos que nunca chegaram a digerir a revolução de Abril e que andaram todos estes anos a engolir sapos, boiando consoante o sabor das correntes, sem contudo deixarem de tirar partido do regime. De certa forma, hoje até se sentem mais confortáveis, porque fazem agora com a prosápia da democracia, aquilo que faziam outrora pela repressão da PIDE. 

Não acredito em Messias para reconstruir Portugal, mas quando um país inteiro não é capaz de gerar um grupo de Homens eticamente superiores e de grande visão política para o Governar a sério, dá-me vontade de sonhar que é possível acreditar em bons ditadores. Não porque seja contra a repressão aos falsários e aos traidores que nos têm desgraçado a vida, porque essa repressão defendo-a sem piedade, mas porque atrás de um bom ditador pode sempre estar um ditador absoluto. 

Há um sentimento evidente de cansaço instalado na população que advem da acumulação de enganos e traições com que os governantes a tem presenteado. Os debates, de tão repetitivos, já não convencem ninguém, nem servem para nada, a não ser para aumentar a revolta contra quem os promove. O país já não existe, resta o romantismo de pensarmos que somos um país. Não temos líderes, a pobreza económica, alastrou-se ao espírito e aos ideais sociais. Temos demasiados fanfarrões, candidatos a mais do mesmo, gente fútil, e os garotos que outros levaram ao Governo, agradecem. Ninguém [nem os próprios governantes] sabe quando e como isto vai terminar, e as expectativas são frouxas, para não  dizer pessimistas. Isto, dizem, é  Democracia...Já não sei no que pensar. O que sei, é que não acredito num país que deixa sem castigo os grandes criminosos e pune severamente os mais desfavorecidos. Olho para o Presidente da República e para o Governo e sinto vergonha de os saber portugueses. Por que será que eles não emigram? 
  

Anticonstitucionalissimamente

1. Esta é, salvo melhor pesquisa, a palavra mais longa do dicionário português. Contém a nossa idiossincrasia lunar: é complexa, rebuscada, negatória, adverbial e única. Está-nos no sangue, na história: chumbar quem, anticonstitucionalissimamente, tentar mudar o paradigma sem uma revolução. Depois é tudo legítimo. Mas, previamente, sem sangue, não se consegue ajustar os meios à realidade.

É verdade que este Governo é uma desmoralização permanente pela falta de ética, rigor e sentido de Estado. Mas não pode ser pela Constituição que os atiramos ao mar. Deveria ser pela incompetência pura e simples e assumida através da única organização que tem poder para alterar a situação: o interior do PSD. O CDS, já sabemos, está de acordo com o fim da tripla Passos/Relvas/Gaspar.

2. A privatização da ANA continua a mexer, sempre na mesma direção. O Governo transferiu 276 milhões de euros para a Câmara de Lisboa de forma a vender a empresa de aeroportos com os terrenos da Portela lá dentro. Questão: as autarquias do Norte, Faro, Açores ou Madeira não tinham quaisquer direitos para serem ressarcidos? Mas mais: numa altura em que não há dinheiro para nada, os 276 milhões foram pagos já a 31 de dezembro, muito embora os franceses da Vinci só paguem a compra da ANA em prestações durante nove meses. Por fim, e cereja no bolo, a Câmara de Lisboa fez o que tinha a fazer: entregou o dinheiro todo à Banca para amortizar dívidas. Mas não é notável que tudo, mas tudo, vá sempre desaguar à Banca?

3. Domingos Azevedo, presidente da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas, é há muitos anos o homem que diz, com palavras certeiras e sotaque a condizer, verdades nuas e cruas sobre as decisões das Finanças. E as declarações dos últimos dias são maravilhosas. Vintage.
Domingos disse anteontem a Gaspar e à sua equipa de doutorados, pós-doutorados, MBA e NBA das Finanças que eles só dão "barracada". Mas quem quiser ouvir o vídeo, basta ir a SIC Notícias.pt. "Não é suficiente criar uma lei para obrigar as empresas a pagar os salários com duodécimos quando elas não têm dinheiro para o fazer"... "Barracada".

A equipa de Gaspar fez uma coisa ainda mais perversa neste tema: tem informação privilegiada e vai fazer os cálculos internos para pagar aos funcionários públicos já com os duodécimos. A restante economia privada... que pague agora com valores errados, que depois corrige em duplicado em fevereiro. São milhões de horas extras de trabalho, em todo o país, para desfazer trapalhadas das Finanças - e bastaria que o Governo fizesse as coisas a tempo e horas, como se supõe num país europeu, para evitar este desgaste. A medida dos duodécimos faz surgir também um pequeno monstro contabilístico no horizonte: no final de fevereiro as tesourarias têm de se preparar para mais 20% de encargos salariais, descontos e retenções na fonte. E daí para a frente 10% a mais todos os meses (com exceção dos meses de pagamentos de subsídios).

Sim, são muito bonitos aqueles programas de incentivo ao empreendedorismo de que é moda gostar-se, mas falem com os jovens (ou não jovens) empresários de pequenas empresas e verão o que lhe dizem: o problema não é o negócio, não são as 10 ou 15 horas de trabalho diárias. Às vezes nem é só o pagar-se impostos a perder de vista. O problema é o inferno gerado pelas Finanças nas sistemáticas alterações a tudo e mais alguma coisa: as constantes mudanças nos sistemas de faturação, as exigências com as mais mesquinhas questões, como por exemplo passar-se a informar de véspera as Finanças da necessidade de se transportarem mercadorias - se não se tiver uma guia autorizada é-se multado com possível apreensão de mercadoria. Ou ainda as amortizações que mingam de ano para ano, já para não se falar dos lucros altíssimos a quem tem lucros ou as penalizações fortes a quem tem prejuízos... Esta gente no Terreiro do Paço não faz a mínima ideia como incentiva tantas pessoas a desistir diariamente de continuar com os seus pequenos negócios. E a prova da distância face à realidade é que ninguém, hoje, 10 de janeiro, consegue fazer ideia de qual é realmente o seu salário... Os que ainda o têm.

[do JN]

08 janeiro, 2013

Para memória futura, a querida RTP



Este, foi o momento mais digno do programa Trio de Ataque da RTP, ainda no ar, agora com a participação de Miguel Guedes, Rui Oliveira e Costa e um sabujo qualquer, cujo nome me faz lembrar o Gobern(o): a retirada categórica de Rui Moreira.

Só lastimo que Miguel Guedes não tenha seguido o exemplo de Rui Moreira, porque já lhe deram muitas razões para isso. Na RTP do serviço público é assim, conspira-se, e pouco mais.

RTP, a tal do serviço público...



Cá está ele de novo, o "excelente" jornalismo que se faz em Portugal. Como podem constatar, desta feita é a própria RTP, a tal que eles dizem prestar serviço público, que não perde uma oportunidade para fazer do FCPorto um clube de arruaceiros que destroem tudo por onde passam. Atentem bem como a notícia foi apresentada.

Começaram por dizer que "os adeptos benfiquistas cuspiram sobre o guarda redes dos dragões e o hoquista reagiu" [e quem não reagia em tal situação, depois do histórico de agressões, naquele recinto?*].

Ou seja, A RTP procurou, como é habitual, aliás, enfatizar o facto de Edo Bosch ter reagido, e não a cuspidela que originou a sua reacção, ou até a deficiente protecção da polícia. A seguir, dizem que o guarda-redes terá atingido um adepto, quando as imagens mostram perfeitamente que ele não chega sequer a tocar-lhe e que nada de grave sofreu, até porque voltou a aparecer cheio de "coragem" [ver no vídeo aos 37 segundos]para reatar a provocação. Depois, servem-se do Record - que é a coisa mais ordinária que alguma vez um jornal pariu - como fonte para dizer que o adepto atingido pelo E.Bosch terá sido "assistido" no local, tudo isto para dar uma ideia trágica da ocorrência e fazer do guarda redes portista o mau da fita.

Por fim, de forma acrítica e desleal, transmitiram o comunicado do Benfica, como se fosse algo de respeitável, uma espécie de artigo da Constituição, sem filtrar o facciosismo nele inscrito, ignorando de novo as cuspidelas que levaram à reacção defensiva, mas inofensiva de Edo Bosch.

A intenção - é como já vem sendo tradição da RTP - lançar areia para os olhos dos mais distraídos, e deixar nos espectadores o anátema da violência e do mau comportamento em tudo que cheire a FCPorto. É tudo, menos inocente.

Aqui chegados só me ocorre dizer uma coisa: fdp!

* A este propósito, faço questão de recordar que coisa grave, foi sim a agressão cometida sobre um ex-jogador de hóquei do FCPorto, não vão muitos anos, naquele mesmo recinto, por um adepto benfiquista que o levou ao Hospital com uma fractura no crâneo e isso foi desvalorizado pela RTP. Assim como o comportamento do treinador de Basquéte do Benfica que em pleno Dragãozinho se virou para o público com gestos  simulando um golpe de navalha na garganta, e que a querida RTP, a tal do serviço público de merda, fez vista grossa. Se fossem todos despedidos eu fazia uma festa. Juro!

Também é assim a nossa administração local

 

ENQUANTO ASSISTIMOS, PACATAMENTE, AO FECHO DE INÚMERAS JUNTAS DE FREGUESIA, GRANDE PARTE DELAS, O PRIMEIRO E ÚLTIMO REDUTO DE APOIO ÀS POPULAÇÕES, PODEMOS CONTEMPLAR ESTES VERDADEIROS ‘MONUMENTOS’ REPRESENTATIVOS DA MUITA INEFICIÊNCIA ADMINISTRATIVA QUE TODOS NÓS TEMOS QUE PAGAR.

Os elementos mencionados no quadro acima representam, apenas, 1.473 funcionários de um universo global da CM Lisboa de 9.956 funcionários, dos quais, 2.315 são Técnicos Superiores e dirigenteS. 

[do Blogue REgionalização]


Nota do RoP:
DEVEM SER COISAS COMO ESTAS QUE FOMENTAM A COESÃO NACIONAL E QUE REFINAM O SENTIDO DA PÁTRIA AOS PORTUGUESES...



06 janeiro, 2013

Mas que raio de jornalismo é este?

Como não gosto de criticar sem fundamentar, volto ao tema do meu post anterior, para que não existam dúvidas quanto às razões do meu desapontamento em relação ao mau jornalismo que se continua a fazer em Portugal. O curioso, é que são os próprios jornalistas e as suas incorrigíveis incongruências, quem mais  fortalece os meus argumentos.

Vejamos então porque falo assim. Na página dedicada à política do JN de hoje - que lamentavelmente não está disponível na Net -, que usou como título de um artigo da autoria da jornalista Ana Carla Rosário, uma frase do deputado Manuel Pizarro ["Porto Nunca Se Ajoelhou Ante Quem o Quer Diminuir"], aparece em rodapé, juntamente com a respectiva foto, a opinião de 6 figuras públicas, entre as quais a do conhecido psiquiatra do Porto, Júlio Machado Vaz, também a do socialista Augusto Santos Silva, ex-Ministro da Defesa, que é afinal a peça que está a mais neste grupo de apoio ao Movimento "Fazer Ouvir Porto" da iniciativa do também socialista Manuel Pizarro.

Augusto Santos Silva não só é uma peça a mais, como é também o elemento que descredibiliza o artigo em questão, e talvez o próprio Movimento, porque todos sabem que este senhor, sendo natural do Porto, quando estava no Governo, foi um dos que desprezou todos os problemas de índole regional e regionalista, com o estafado pretexto de "não ser oportuno", engrossando a fileira dos tais protagonistas político-partidários nortenhos que batem a pala aos senhores do Terreiro do Paço a que se referiu o director-adjunto do JN, Fernando Santos, aqui,  e que pelas mesmas razões, mereceu a minha crítica, aqui. Haja memória, e coerência, é o que se lhes pede! 

Afinal de contas, se a ideia é, como eles gostam de dizer,  credibilizar a informação, porque é que em vez de ignorarem e votarem ao silêncio aqueles que traíram o povo, prometendo uma coisa, quando estavam na oposição [e a cena repete-se com este fidalgo], e fazendo outra, quando chegam ao Governo, publicam as suas opiniões? Por quê, se estão a difundir a opinião de um simples aldrabão? E para quê, se depois andam para aí a criticá-los ambiguamente, sem terem a coragem de lhes citar os nomes? Assim é fácil, qualquer badameco critica, mas não deixa de ser uma grande hipocrisia e também uma punhalada nas costas infligida aos poucos jornalistas que ainda honram a profissão.

Depois, armem-se em vítimas e digam que é um exagero culpar os jornalistas de certos abusos. Têm culpa, sim senhor, e não é pouca! Isto, já para não falar dos pasquins desportivos, não é...

PS- Enviei este post por e-mail a Ana Carla Rosário. Já sei que não me vai responder. Por que será?

04 janeiro, 2013

ANA, grávida da nova Lisboa


Ah, sim, o discurso de Cavaco. Talvez, talvez, depende, "eu avisei". Sempre tarde. Adiante. Falemos de coisas concretas e consumadas: o casamento da ANA, uma historieta que tem tudo para sair muito cara. Passo a explicar: a ANA geria os aeroportos com lucros fabulosos para o seu pai, Estado, que, entretanto falido, leiloou a filha ao melhor pretendente. Um francês de apelido Vinci, especialista em autoestradas e mais recentemente em aeroportos, pediu a nossa ANA em casamento. E o Estado entregou-a pela melhor maquia (três mil milhões de euros), tornando lícita a exploração deste monopólio a partir de uma base fabulosa: 47% de margem de exploração (EBITDA).

O Governo rejubilou com o encaixe... Mas vejamos a coisa mais em pormenor. O grupo francês Vinci tem 37% da Lusoponte, uma PPP (parceria público-privada) constituída com a Mota-Engil e assente numa especialidade nacional: o monopólio (mais um) das travessias sobre o Tejo. Ora é por aqui que percebo por que consegue a Vinci pagar muito mais do que os concorrentes à ANA. As estimativas indicam que a mudança do aeroporto da Portela para Alcochete venha a gerar um tráfego de 50 mil veículos e camiões diários entre Lisboa e a nova cidade aeroportuária. É fazer as contas, como diria o outro...

Mas isto só será lucro quando houver um novo aeroporto. Sabemos que a construção de Alcochete depende da saturação da Portela. Para o fazer, a Vinci tem a faca e o queijo na mão. Para começar pode, por exemplo, abrir as portas à Ryanair. No dia em que isso acontecer, a low-cost irlandesa deixa de fazer do Porto a principal porta de entrada, gerando um desequilíbrio turístico ainda mais acentuado a favor da capital. A Ryanair não vai manter 37 destinos em direção ao Porto se puder aterrar também em Lisboa.
Portanto, num primeiro momento os franceses podem apostar em baixar as taxas para as low-cost e os incautos aplaudirão. Todavia, a prazo, gerarão a necessidade de um novo aeroporto através do aumento de passageiros. Quando isso acontecer, a Vinci (certamente com os seus amigos da Mota-Engil) monta um apetecível sindicato de construção (a sua especialidade) e financiamento (com bancos parceiros). A obra do século em Portugal. Bingo! O Estado português será certamente chamado a dar avais e a negociar com a União Europeia fundos estruturais para a nova cidade aeroportuária de Alcochete. Bingo! A Portela ficará livre para os interesses imobiliários ligados ao Bloco Central que sempre existiram para o local. Bingo!

Mas isto não fica por aqui porque não se pode mudar um aeroporto para 50 quilómetros de distância da capital sem se levar o comboio até lá. Portanto, é preciso fazer-se uma ponte ferroviária para ligar Alcochete ao centro de Lisboa. E já agora, com tanto trânsito, outra para carros (ou em alternativa uma ponte apenas, rodoferroviária). Surge portanto e finalmente a prevista ponte Chelas-Barreiro (por onde, já agora, pode passar também o futuro TGV Lisboa-Madrid). Bingo! E, já agora: quem detém o monopólio e know-how das travessias do Tejo? Exatamente, a Lusoponte (Mota-Engil e Vinci). Que concorrerá à nova obra. Mas, mesmo que não ganhe, diz o contrato com o Estado, terá de ser indemnizada pela perda de receitas na Vasco da Gama e 25 de Abril por força da existência de uma nova ponte. Bingo!

Um destes dias acordaremos, portanto, perante o facto consumado: o imperativo da construção do novo grande aeroporto de Lisboa, em Alcochete, a indispensável terceira travessia sobre o Tejo, e a concentração de fundos europeus e financiamento neste colossal investimento na capital. O resto do país nada tem a ver com isto porque a decisão não é política, é privada, é o mercado... E far-se-á. Sem marcha-atrás porque o contrato agora assinado já o previa e todos gostamos muito de receber três mil milhões pela ANA, certo? O casamento resultará nisto: se correr bem, os franceses e grupos envolvidos ganham. Correndo mal, pagamos nós. Se ainda estivermos em Portugal, claro.

03 janeiro, 2013

Fernando Santos, não será outro Calimero?

O artigo de Fernando Santos que ontem aqui reproduzi e que prometi comentar, mais não é do que um fait divers inconsequente, pincelado de hipocrisia, igual a tantos realizados por este e outros jornalistas, venham eles da imprensa, da rádio, ou da televisão.  

Senão vejamos: em primeiro lugar, a máquina centrifugadora do centralismo não é coisa de agora, apenas se tem intensificado na exacta medida que a indiferença e o choradinho dos políticos nortenhos tem aumentado. Apesar disso, a comunicação social nortenha também não está inocente nesse capítulo, porque em vez de insistir na temática do centralismo/regionalização, permite-se criar longos períodos de jejum, sem dizer nada sobre o assunto, a não ser umas lamechices, como é, aliás, o próprio artigo de opinião do director-adjunto do JN. Em segundo lugar, sustentam a argumentação influenciados por discursos superficiais propalados por outros protagonistas, como está agora na moda, de chamar choramingas aos políticos nortenhos, sem terem a coragem de apontar os nomes e partidos, e de os responsabilizar. Pelo contrário, convidam-nos compulsivamente para opinar sobre temas dos quais foram responsáveis pela negativa, sendo inclusivé padroeiros e principais dinamizadores da perda de protagonismo do Porto e do Norte, junto do Terreiro do Paço.

Não basta por isso dizer que o Norte precisa de dar um murro na mesa, ou citar o exemplo de Pinto da Costa para espicaçar a apatia comum, é preciso apresentar exemplos concretos, e um deles podia passar por marginalizar os tais "protagonistas ocasionalmente abespinhados" de que fala Fernando Santos, que têm rosto e nome próprios... Nesta perspectiva, Fernando Santos daria um passo importante se procurasse, por exemplo,  convencer o patrão Joaquim Oliveira, a recuperar a génese nortenha que o JN que já teve no passado - num regime que nem sequer primava pelos ideais democráticos -, sem ter de emitir edições especiais para o Sul, e assumir a origem nortenha do jornal, naturalmente, sem complexos, nem subserviências. A menos que Fernando Santos queira continuar a imitar "os figurantes político-partidários do Norte, que batem a pala aos decisores do poder na capital, aspirando a dele fazer parte...".

Por este andar, a conunicação social acabará mesmo por perder a pouca credibilidade que lhe resta, pois pouca influência terá  sobre os cidadãos [se insistir em vender-lhes meias-verdades], que apesar da sua indolência, começam a abrir os olhos.


02 janeiro, 2013

A choraminguice do Norte



Assemelhando-se a uma centrifugadora, o Poder Central instalado no Terreiro do Paço e zonas subjacentes ao Tejo gera um fenómeno cíclico no Norte: a choraminguice mascarada de (pseudo) revolta. A perda de influência da Região Norte e concomitante desagregação da coesão nacional é bem evidenciada por todos os indicadores económicos, sociais ou culturais das últimas décadas. Dá-se o caso, no entanto, de o Norte não caprichar num posicionamento reivindicativo suscetível de pôr em sentido os decisores adeptos da macrocefalia.

Os dados acabam, aliás, por serem viciados....

A Região Norte, mais do que marcar uma posição de influência decisória tendo por base méritos próprios, a todos os níveis, tem-se posicionado como um pedinte à espera da distribuição do chamado bodo aos pobres.

Sim, há injustiças notórias a justificarem uma reação enérgica - incluindo manifestações de desagrado pelo destrato. Mas convém não alijar responsabilidades próprias e desconfiar da benignidade de alguns protagonistas ocasionalmente abespinhados.

O Norte é vítima de apetites centralistas mas as insuficiências próprias facilitam o abocanhar. E a inexistência de quem lhe dê dimensão e peso político nacional agrava o problema.

A última década é paradigmática. Os figurantes político-partidários do Norte têm andado mais preocupados em bater pala aos decisores do poder da capital, aspirando a dele fazerem parte, do que em vincarem um estatuto acima do reservado aos políticos anões. E o fechamento, tipo concha, é mais um atavismo do que virtude.

A Região Norte precisa de dar um murro na mesa, mas o impacto só será garantido se protagonizado por alguém cuja dimensão não se limite a fronteiras regionais e se disponha a não ter preocupações de agradar à capital e aos mordomos dos privilégios, sejam eles traduzidos em fundos comunitários ou, de modo mais banal, pelo cirandar por restaurantes e discotecas alimentadoras de uma socialite postiça mas bem parecida.

Uma nova metodologia a norte está, de alguma forma, facilitada pela existência de um exemplo a copiar: o do F.C. do Porto. Exagero? Não! Graças à visão estratégica de um dirigente, Pinto da Costa, o F.C. do Porto investiu na competência própria, quebrou a cerviz ao poder instalado há décadas e deu-lhe xeque-mate! Teve arte e engenho para se tornar numa marca internacional a partir da região. Pinto da Costa recusou andar de chapéu na mão a pedir batatinhas à postura dos defensores do Terreiro do Paço e zonas satélites - e obteve resultados.

Aí está: também na dimensão política o Norte precisa de um Pinto da Costa! Até lá continuará triste, enxovalhado e agradecido nas esmolas. Entregue, sobretudo a partir da cidade do Porto, a quem tem trocado a afirmação da região pela preocupação de agradar às gentes da capital.

[do JN]

Nota do RoP:

Sobre este artigo, e a autenticidade da fonte, tenciono escrever umas coisas assim que tiver disponibilidade.  
 

21 dezembro, 2012

Prefiro Manoel de Oliveira

Tenho idade que chegue para saber que para triunfar na vida a honradez de um Homem é um bem que pode obstaculizar o intento.

Sem nos darmos conta, continuamos a culpar a vida pelos nossos erros, quando até certo ponto, cabe a cada qual evitá-los e procurar fazer o necessário para que não se repitam. Paradoxalmente, há quem goste de enfatizar os progressos da humanidade e ao mesmo tempo comparar a vida das pessoas à dos animais selvagens, sem perceber quão radicais e opostos são estes pontos de vista. Tal como na selva, dizem, na sociedade humana, vence sempre o mais forte [seja lá o que eles entendem por forte]... Esta é uma ideia particularmente enraizada nos Estados Unidos, e que o mundo depressa absorveu, tão poderosa é a máquina de propaganda deste país. O grosso das pessoas absorve tudo, principalmente o lixo ideológico, e até a violência.

Felizmente que as imagens não mentem, e ainda podem provar o que atrás afirmei de forma incontestável. Hoje, com a profusão de canais por cabo, o cinema deve ocupar cerca de 90% (ou mais) de toda a programação televisiva, e a percentagem de filmes americanos também andará lá perto disso. Faça-se o teste, e veja-se quantos desses filmes é possível vermos sem contemplar perseguições, corridas loucas com carros de polícia,  ruídos irritantes de sirenes, assassinatos às dezenas, cansativos chiar de rodas, tiros, facadas, explosões "espectaculares", corpos decepados, derrapagens, heróis e assassinos, enfim, o sangue, a violência. 

É deste tipo de "arte", em suma, que se alimenta a indústria cinematográfica americana. E é a que predomina. Justificação? Simples! Vende, meus senhores, vende! A violência vende, e se vende, fim de papo! Haverá argumento mais nobre, mais "forte"? Aqui chegados, colocados perante o peso do dinheiro, todo o pensamento se esgota e não há lugar para a sensatez . Mesmo assim, ainda há quem se espante com os massacres que alguns seres mais vulneráveis vão provocando por esse mundo fora, particularmente na América. Pergunto: não será também esta a lógica "comercial" que inspira os nossos programas e os jornais "desportivos"? Talvez o Cavaco possa responder, esse grande homem, esse estadista ímpar... 

Não queria extrapolar deste cenário para a vida comezinha de muita gente, de todas as profissões, mas o critério que explica a cobardia, a traição e a falsidade instalada na nossa sociedade, é exactamente o mesmo da cinematografia americana: o dinheiro.

Prefiro Manoel de Oliveira. Ao menos a ele ninguém pode acusar de ter semeado o ódio e a violência com a sua arte.

20 dezembro, 2012

Revoltas contidas

O Arquitecto Gomes Fernandes, ex-vereador da Câmara Municipal do Porto, incomodado com a notícia da transferência do programa Praça da Alegria para a sempre "amiga" capital, termina a sua coluna de hoje no JN, desta maneira: " Falta uma Voz que seja a síntese de muitas vontades e bastantes 'raivas acumuladas' pelo desprezo com que aqueles que nos governam e seus acólitos a partir de Lisboa, têm demonstrado pelo Norte e sua cabeça, a Invicta e Honrada cidade do Porto. Convenhamos que isto é demais, está a passar das marcas e tem de acontecer o tal 'espirro' que faça 'estremecer' Lisboa».

Na rúbrica de opinião do mesmo jornal, Jorge Fiel chamava intrujão ao Governo por este não ter honrado a palavra do anterior Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, que tinha garantido que o corte ao financiamento público à Casa da Música seria de 20% , e não de 30%, como agora parece ter sido decidido. Logo abaixo na mesma página, é Daniel Deusdado quem arrasa de alto a baixo o actual Governo, alargando as críticas ao acervo de discriminações negativas com que o centralismo tem brindado o Porto,  e todo o Norte de um modo geral.

Eu próprio estou cansado de criticar duramente o racismo político usado contra a nossa cidade e região, tanto pelo governo de Sócrates, como pelo de Passos Coelho, e não sinto que essa liberdade democrática tenha surtido qualquer efeito prático para alterar a situação. Todos estamos cansados de ser mal tratados, que é uma condição muito mais grave e abrangente do que sermos simplesmente mal governados.

Fala muito bem o arquitecto Gomes Fernandes, quando reclama dos nortenhos uma reacção mais forte, capaz de fazer estremecer Lisboa. Eu subscrevo a vontade. Mas para que isso aconteça, teria de haver outro tipo de comportamento. Devíamos começar por não dar ouvidos àqueles que, apesar de reconhecerem a gravidade da situação, não deixam de nos aconselhar a manter a mesma brandura cívica, alegando que substituir agora o governo não iria resolver nada, profetizando todo o tipo de calamidades e desgraças se tal acontecesse, mas por outro lado esquecendo de dizer o que acontecerá aos governantes caso os fracassos se repitam, e nos deixem daqui a uns tempos numa situação ainda mais insustentável que a actual.

É preciso interpretar correctamente a actuação dos governantes, porque isso não pode resumir-se candidamente a questões de competência ou incompetência. E estes governantes, não são apenas incompetentes, são potenciais criminosos, e para os criminosos que andam à solta, é preciso fazer duas coisas: primeiro prendê-los, e depois julgá-los num tribunal constituído pelos juízes mais reputados que o país ainda conservar.

    

18 dezembro, 2012

Hospital de São João tem 30 cirurgiões que nunca foram ao bloco operatório


 

Cada cirurgião do Hospital de S. João, no Porto, faz em média uma cirurgia por semana e há 30 que que nunca foram ao bloco operatório, explicou, segunda-feira à noite, o presidente do Conselho de Administração do São João, em declarações à TVI.
 

Hospital de São João tem 30 cirurgiões que nunca foram ao bloco operatório
António Ferreira (Administrador do H.S.João)    


 

"Cada cirurgião faz em média uma cirurgia por semana", afirmou o presidente do Conselho de Administração do São João, António Ferreira. "No Hospital de São João, 30 cirurgiões nunca foram ao bloco operatório", revelou, em entrevista ao programa "Olhos nos Olhos", na TVI24.

"O cirurgião que fez maior número de cirurgias por ano no hospital fez 543, fez 12 por semana. O cirurgião com menor número de cirurgias, e que fez cirurgias, fez duas. Há 30 que nunca foram ao bloco", revelou António Ferreira.

"A taxa de absentismo é de 11%, isto significa que estão ausentes todos os dias, dos 5600 funcionários, cerca de 660", disse o presidente do Conselho de Administração do São João.

Nota de RoP:
Só assim se explica por que é que a lista de espera para as cirurgias marcadas pelos Centros de Saúde é interminável e os prazos de espera são irresponsáveis. 
 
 

Pedro Passos Coelho, o novo Frei Tomás

Este podia bem ser Pedro Passos Coelho
Quando Pedro Passos Coelho declarou textualmente que «alguns, que hoje recebem pensões não descontaram na proporção das pensões que recebem», provavelmente terá havido no local um qualquer ciclone tropical, porque, ao que parece, além do Chefe do Governo não devia encontrar-se ninguém por ali [um repórter, por exemplo] para lhe perguntar se ele estava a referir-se à classe política, e às várias pensões de reforma acumuladas que lhes foram atribuídas, nalguns casos, com pouco mais de 50 anos de idade. Ninguém se lembrou de lhe perguntar se a natureza das suas declarações era suficientemente séria para as decretar a ele próprio e a toda a equipa governativa, ou se era mais uma boca demagógica igual a muitas que tem vindo a proferir.

Mas não, a imaginação dos jornalistas não chega a tanto, porque a um 1º. Ministro parece que é proibido colocar questões "populistas". De mais a mais, agora, que a RTP Porto está num processo de limpeza, para corporizar o famoso efeito difusor invertido, muito do gosto dos governos centralistas [ leia-se: parasitas].

Enfim, temos de nos resignar. Não podemos mais pensar que os paizinhos destes garotos, precoce e estupidamente promovidos a elites, alguma vez lhes disseram que para nos darmos ao respeito temos de começar por nós, aplicando à nossa vida aquilo que propomos como patriótico aos outros. Não é a pregar como Frei Tomás que se ganha credibilidade.