30 agosto, 2013

Porto, desconsiderado cá dentro, louvado lá fora

Metro do Porto distinguido pela universidade norte-americana de Harvard

Foto:Carlos Romão/Arq.
A escola de design da universidade norte-americana de Harvard, no estado de Massachusetts, vai atribuir na terça-feira o prémio “Veronica Rudge Green Prize” em design urbano à empresa de transportes Metro do Porto.

De acordo com a informação disponível na página da internet da universidade de Harvard, no projecto Metro do Porto, o júri destaca o potencial desta infra-estrutura de mobilidade, “cuidadosamente planeada e executada para transformar a cidade e a região”.

Este galardão distingue também o arquitecto Eduardo Souto de Moura, prémio Pritzker 2011, e que coordenou a equipa de projectistas responsáveis pela inserção urbana do metro em diferentes locais da Área Metropolitana do Porto.

O prémio, que vai já na sua 11.ª edição, é também atribuído ao projecto de Integração Urbana do Nordeste, em Medellín, na Colômbia.

“As duas obras criaram oportunidades que vão além do movimento físico, fazendo avançar a mobilidade social e revigorando o espaço cívico”, refere a universidade de Harvard.

O presidente do conselho de administração da Metro do Porto, João Velez Carvalho, afirmou hoje à agência Lusa que “a atribuição deste prémio representa uma honra” para a empresa, “tendo em conta o que significa em termos de reconhecimento internacional”.
“Esta distinção premeia um dos projectos mais impressionantes do arquitecto Souto Moura”, disse, acrescentando ser também “uma distinção ao mérito e ao empenho de todos os responsáveis, tanto ao nível de decisão política como ao nível técnico, que souberam ultrapassar dificuldades e problemas bem complexos e concretizar este projecto”.

João Velez Carvalho defendeu que este prémio “valoriza a sustentabilidade do Metro do Porto, não apenas em termos de arquitectura, integração e design, mas também no seu serviço à população e na crescente procura por parte dos clientes”.
“Para o Metro do Porto, para a cidade do Porto e para o país, deve ser um motivo de enorme orgulho ver reconhecido e apreciado de forma tão notável o trabalho que foi feito e que continua a ser levado a cabo”, concluiu.
Um projecto “digno de ser imitado”
Velez Carvalho e Souto de Moura estarão presentes na cerimónia de entrega do prémio, que decorrerá pelas 18:h30 (hora local), na cidade de Cambridge.
Nascido em 1986 por ocasião da celebração dos 350 anos de Harvard e dos 50 anos da escola de design, este prémio é atribuído de dois em dois anos a projectos com escala maior a um edifício individual, construído em qualquer parte do mundo durante dez anos anteriores à sua atribuição.

Os vencedores são escolhidos pela sua “substancial contribuição no domínio público de uma cidade” e por “melhorar a qualidade de vida” urbana.

A 1.ª edição deste galardão, em 1988, foi dividida entre Álvaro Siza Vieira, pelo seu Conjunto Residencial Malagueira, em Évora (1977-1988), e Ralph Erskine, com o seu projeto do “Byker Redevelopment”, em Newcastle Upon Tyne (1969-1982).

A Universidade de Harvard descreve o Metro do Porto, que iniciou a sua operação comercial em Janeiro de 2003, como “uma forte infra-estrutura de escala e complexidade significativa”, projectada e construída em cerca de dez anos.

“O escopo de tal empreendimento dentro de uma cidade Património Mundial da Humanidade é notável”, destaca, acrescentando que o “alto padrão de design” alcançado por Souto de Moura e pela sua equipa torna o projecto “digno de ser imitado”.

“O Metro do Porto é um projecto estratégico decisivo”, que “desempenha um papel importante na mobilidade” da região, sustenta Harvard.

29 agosto, 2013

O Estado, e quem o tem representado é o pior dos incendiários

Para ampliar, clicar na imagem e depois no botão direito do rato em: "exibir imagem"
O problema dramático dos incêndios é um dos que melhor espelham a irresponsabilidade dos governantes e talvez o que melhor define a sua verdadeira personalidade. É também pela forma laxista e criminosa como ao longo dos anos este assunto tem sido tratado que desprezo tanto a classe política. 

Já em 2005 me manifestava no extinto Comércio do Porto sobre o assunto. Como podem constatar, o problema continua actualizadíssimo, aliás como é costume, em Portugal, desde há muitos anos. Quem  os prende a eles, aos pirómanos do Estado?

 

24 agosto, 2013

RTP, a suástica do centralismo


Ainda estou por saber, exactamente, qual é o papel de um Presidente da República, para além de ser o garante da coesão e da independencia nacional,  e do regular funcionamento das instituições democráticas. Tudo junto, isto deveria resumir muita coisa, mas na prática [que é o que conta], não vale nada de especial.

Vejamos. Não tendo poderes de executivo, o PR tem contudo outro tipo de poderes que apenas dependem da sua vontade, ou consciência cívica. O ponto 3 dos deveres de um PR, diz claramente isto: 

"No plano das relações com a Assembleia da República, o Presidente da República pode dirigir-lhe mensagens, chamando-lhe assim a atenção para qualquer assunto que reclame, no seu entender, uma intervenção do Parlamento. 

Pode ainda convocar extraordinariamente a Assembleia da República, de forma a que esta reúna, para se ocupar de assuntos específicos, fora do seu período normal de funcionamento.

Pode, por fim, dissolver a Assembleia da República com respeito por certos limites temporais e circunstanciais, e ouvidos os partidos nela representados e o Conselho de Estado -, marcando simultaneamente a data das novas eleições parlamentares. A dissolução corresponde, assim, essencialmente, a uma solução para uma crise ou um impasse governativo e parlamentar."

Como vemos, o Presidente tem, estaturiamente, a liberdade de contactar o Parlamento e lhe chamar a atenção para o que bem entender, desde que o assunto possa pôr em causa qualquer dos deveres que jurou defender. No âmbito do regular funcionamento das instituições democráticas, Constituição, órgãos do poder e da justiça, haverá alguma destas que controle e regule efectivamente outros órgãos de influência, como a comunicação social, por exemplo?  Em teoria, isto é, se a resposta apontar para as famosas Altas Autoridades Reguladoras, podemos dizer que existem várias entidades, só que não funcionam de todo. Quem as representa, será naturalmente pago para a função, mas na realidade não a desempenha de forma convincente. Só negam esta evidência os visados, como se compreenderá...

A RTP, a estação de tv que devia representar o Estado, sem o envergonhar, pelo contrário, continua apostada em usar do mais primário sectarismo, e a fazer do canal sustentado por todos os portugueses, um veículo descarado de propaganda clubística ao serviço de Lisboa. E mais uma vez, não vislumbramos da parte das referidas instituições, incluindo a Presidencia da República, qualquer esboço na defesa do mais sagrado dos direitos, que é o respeito pela "saúde" da democracia. Falsear coisas, inverter prioridades, ou viciar dados em democracia, é 1000 vezes mais grave que numa ditadura, porque daí à degeneração numa ditadura pior que a anterior é um passinho muito curto. As ditas instituições de soberania, como Procuradoria Geral, altas autoridades e a própria Presidencia da República, ou andam cegas, ou são incompetentes, ou são desonestas, porque mais uma vez, voltamos a assistir da parte da RTP, a comportamentos "dignos" do terceiro mundo, em termos de rectidão.

A RTP, os seus dirigentes e funcionários comportam-se como um autentico bando de malfeitores dispostos a executarem qualquer trabalho, desde que lhes paguem, ou que lhes preservem o emprego. Nota-se que lá dentro anda instalado o medo, todos sentem que têm de ser a voz do dono. O direito à indignação, à auto-crítica com o serviço prestado, não passa de uma miragem. Os [e as] trabalhadore(a)s, são meros paus mandados que nem os carros topo de gama [de alguns] que conduzem, podem disfarçar. Aquilo é carne para canhão, sem amor nem convicções próprias. Não serei eu quem os apoiará se um destes dias forem para o olho da rua, como alguns já foram, porque dos fracos a história não reza, e eu não me compadeço com rastejantes, de fatos Armani e carteiras Louis Vouitton. Serão sempre gentinha.

Escuso-me a detalhar factos, porque eles são por demais conhecidos dos leitores.  O certo, é que a propaganda que UM CANAL DO ESTADO (sim, sr. Presidente da República), DO ESTADO, anda a fazer arbitrariamente ao Benfica, está paredes meias com o que de pior se fez na Alemanha nazi, de Hitler. Terá porventura também V. Exa., alguma espécie de orgulho com a comparação? Apesar de tudo, de não gostar ouví-lo a proferir essas declarações, prefiro que continue a "orgulhar-se" dos nossos emigrantes...

A verdade, sabe, é que V. Exa., a prosseguir  por esse caminho de corta-fitas, não me faz falta nenhuma, enquanto cidadão. Nem a alguns como eu [que espero sejam cada vez mais].

23 agosto, 2013

E os centralistas de cá e de lá, a assobiar para o lado...


PORTO “É CAPITAL PORTUGUESA DA ARQUITETURA”, DIZ REVISTA ALEMÃ

A revista alemã Häuser dedicou um artigo de oito páginas à cidade do Porto, elegendo-a como o melhor destino para férias na sua última edição. A rubrica "Viagem" caracteriza a cidade do norte como a capital portuguesa da arquitetura, onde o estilo moderno coabita com o estilo barroco.

A publicação de Abril/Maio é ilustrada com imagens do Porto, da autoria do fotógrafo português Fernando Guerra, desde a capa, até ao artigo principal da Häuser. Os edifícios da cidade são o grande destaque da revista especialista em arquitetura e design.

O artigo "Ainda melhor do que o vinho" começa por referir que a cidade à margem do Douro acolhe dois vencedores do Prémio Pritzker: Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura.

O jornalista Ansgar Steinhausen considera a centenária Livraria Lello a "catedral dos livros", que contrasta no seu ambiente com o modernismo arquitetónico do edifício da Casa da Música.

Também a Faculdade de Arquitetura, o Museu Serralves, o Coliseu, a Casa de Chá da Boa Nova, as igrejas e as estações do Metro do Porto são alguns dos principais pontos de interesse considerados pela revista alemã.

"O artigo da Häuser dedicado ao Porto resulta de uma viagem de imprensa que teve o apoio da Associação de Turismo do Porto, no âmbito das várias iniciativas que desenvolve ao longo do ano para a promoção externa deste destino", explica a agência de comunicação portuense PR Wave, no mesmo comunicado.

A Häuser dedica-se à arquitetura e ao design, com 45.000 exemplares por publicação distribuídos em toda a Europa. Os seus artigos focam projetos internacionais de excelência através de artigos explicados com profundidade e com o conhecimento extenso na área.
[fonte: blogue Regionalização]


Nota de RoP:

Sou um tripeiro empedernido. Bairrista, tanto quanto os complexados de Lisboa e do Porto, quiserem que eu seja. 

Embora não resida actualmente no centro do Porto, continuo a gostar da cidade que me viu nascer, como de nenhuma outra. E já conheço algumas, da Europa, América do Sul, Estados Unidos, a África. Residi noutras cidades, tanto no país [incluindo, em Lisboa], como no estrangeiro [Paris,Lille e Nantes], e em outras menos conhecidas. Nem por isso esmoreceu a afeição que me liga à cidade, bem pelo contrário, intensificou-se. Mas não é de agora que nutro este sentimento pelo Porto. Lembro-me do tempo em que comecei a viajar com assiduidade para Lisboa, e de lá para o Porto, quando cumpria o serviço militar, da estranha sensação de pertença e simultaneamente de fascínio, sempre que o comboio começava a reduzir velocidade na aproximação à antiga Ponte D. Maria e a imagem da cidade se mostrava. Parecia falar comigo, parecia saudar-me, parecia querer-me dizer: estou aqui, firme, sólida, sê benvindo à tua terra!

Como vos disse anteriormente, tinha vinte e poucos anos, nessa altura, portanto, qualquer relação entre o meu sentimentalismo e a minha idade actual é pura coincidência. Não se trata de emoções próprias de idades vetustas, mas de algo só sentido por quem conhece o granito, o cheiro da cidade, e a pôde comparar com outras! Só assim se compreende, que, com o empenho e a colaboração das suas gentes - mais no passado recente, do que propriamente no presente -, o Porto continue a receber tantos elogios e distinções, vindas de todo o Mundo. 

Ainda bem que não somos nós a auto-elogiar-nos, nem a implorar ao Mundo que o faça. É o Mundo [ao contrário da capital, que só tem olhos para si], que sabe reconhecer o que é impossível negar. 

Imaginem agora como seria, se tivéssemos tido, nestes últimos 12 anos um Presidente de Câmara empreendedor, que soubesse zelar pela cultura e pela higiene da cidade!  Que desperdício!

 
 

21 agosto, 2013

Sobre a política, e as pessoas

É a minha opinião, e vale o que vale uma opinião. A questão é que, até ao momento, não encontrei opinião melhor, e que é a seguinte: enquanto o regime capitalista, goste-se ou não, continua - como disse Karl Marx - a inspirar-se na exploração do homem pelo homem e nas sociedades de consumo, o comunismo tem realmente uma ideologia, que não sendo perfeita, defende exactamente o contrário, isto é, a desmistificação feudal das sociedades elitistas. 

O grande defeito do regime comunista, como aliás de qualquer outra ideologia política, são os homens, frequentemente incapazes de seguir um ideal sem sucumbirem à sedução que a seguir ao poder os enreda na corrupção, e daí na ditadura. O capitalismo, não é humanista, é negócio puro e duro, de preferência desregrado. Não possui qualquer ideal social. É pragmático com o dinheiro, mas injusto e elitista com a sua distribuição. Não será por acaso que é nos países capitalistas do Norte da Europa mais civilizada, onde os assuntos de ordem social são mais respeitados, que também se vive melhor. Se os governantes e os empresários dos países latinos tivessem a mentalidade dos escandinavos, talvez as coisas fossem um pouco diferentes para melhor. Mas isso, é uma utopia, os latinos são geneticamente avessos à ordem e às questões de justiça social. Os latinos têm uma ideia de justiça e de dever muito individualista, praticamente só se preocupam com esses assuntos quando tal lhes interessa, particularmente.  Isto é um facto.  

Mas há um aspecto que me repugna em certos povos como o nosso, que é não  compreenderem que o presente mais venenoso que um governante lhes pode oferecer, é o elogio. Se há discurso que me enoja, é ouvir um político glorificar a serenidade do povo, ou orgulhar-se dos emigrantes. Mas pior, muito pior, é saber que ainda há muita gente a comover-se com estes piropos. Aí, meus caros, confesso, chego a ter vergonha de me saber português.

A propósito, e como falei de comunismo, vou citar um exemplo que extraí dum livro que estou a reler e que se relaciona com o conformismo e a cobardia de certos povos, neste caso, o russo. O livro chama-se "O Arquipélago de Gulag", fala do regime stalinista, das perseguições, de detenções indiscriminadas, e do medo. O autor [A. Soljenitsine], que também esteve preso e viveu portanto a repressão, sugere-lhe imaginar o seguinte:   "Em pleno dia, a detenção é inevitavelmente um momento breve, que não se repete, em que o levam através da multidão, entre centenas de outros homens, igualmente inocentes e condenados como você. E a sua boca não foi tapada. E você pode e deveria absolutamente GRITAR! Gritar que vai preso! Que há malfeitores disfarçados que andam à caça das pessoas! Que as apanham com base em denúncias falsas! Que uma surda repressão é desencadeada contra milhões de pessoas! E, ouvindo esses gritos, inúmeras vezes durante o dia, e em todas as partes da cidade, talvez que os nossos concidadãos se revelassem! E talvez que as detenções não se tivessem tornado tão fáceis!? 

Sejamos razoáveis, mas não masoquistamente paternalistas. Este pedaço de texto, onde o medo, a indiferença pelo outros é tão flagrante, reporta-se a uma época tenebrosa da história da ex-União Soviética. Havia uma ditadura e a polícia repressiva agia a seu bel prazer para levar sem explicação para a cadeia qualquer pessoa, mesmo que inocente. Em que patamar de valentia teremos de colocar o povo português quando aceita pacificamente a destruição das regalias sociais e a redução de reformas já de si baixas? Quando aceita, ou está disposto a aceitar ser governado por gente que se habituou a mentir-lhes sem lhes pedir garantias? Quando a pretexto da crise, diz que sim a salários cada vez mais reduzidos, sem exigir sacrifícios a quem os impõe? Que povo é este?  Nem as crianças são tão ingénuas. De um povo assim, tenho vergonha.


19 agosto, 2013

Capitalismo, ou liberalismo, chame-lhe o que quiser: é a selva!

Segundo o jornal France Football, Radamel Falcon, ex-goleador que o FCPorto foi buscar há duas épocas [2009/2010, 2010/2011] à Colombia, para ter de o vender ao Atlético de Madrid em Agosto de 2011, por 40 milhões de euros, pode estar na iminência de fazer outro contrato.  Isto, no limite da data de fecho do mercado, como aconteceu, aliás, com outros jogadores e treinadores no FCPorto, e poderá voltar a acontecer também este ano.

São situações cada vez mais recorrentes no mercado de transferências, onde o verdadeiro rosto do capitalismo se mostra, desfazendo qualquer dúvida sobre a moralidade do sistema. Eu nunca as tive, em relação a esta matéria. O capitalismo é um monstro com um corpo só, mas com muitas cabeças, sem pruridos de ordem social, e sobretudo de ordem humanitária.

Para cúmulo dos cúmulos, admitindo que esta notícia possa ter fonte credível, depois de um milionário do Mónaco ter comprado Falcao ao A. Madrid por 60 milhões de euros, sem praticamente ter jogado, agora, é o Real Madrid que se prepara para o rapinar, vá-se lá saber porque preço! Mas o que é isto? Como é possível almejar um Mundo sem guerras nem violência, com estes exemplos? Como?   

A impunidade do erro


A forma como os tribunais têm decidido as recandidaturas de presidentes de câmaras municipais que já cumpriram três mandatos consecutivos evidencia um problema da justiça portuguesa para o qual tenho, desde há vários anos, alertado: os mesmos factos, com as mesmas leis originam, nos nossos tribunais, com demasiada frequência, sentenças diametralmente opostas. Os juízes decidem, afinal, como o faria qualquer vulgar cidadão, ou seja, de acordo com aquilo que pensam, de acordo com a sua idiossincrasia, a sua filosofia de vida, a sua ideologia. Só que um juiz não é um cidadão qualquer; ele é acima de tudo um técnico qualificado que foi preparado para exercer adequadamente a função constitucional de administrar a justiça, o que exige, em primeiro lugar, uma correta interpretação da lei. Infelizmente, isso está muito longe da nossa realidade judicial. O juiz decide de qualquer maneira e, tal como o outro, imediatamente lava as mãos, indiferente às respetivas consequências. Essa desresponsabilização conduziu à pior de todas as situações que é a de as pessoas deixarem de acreditar na administração da justiça e de terem confiança nos tribunais. A justiça portuguesa passou a ser um totoloto: se o meu processo for distribuído a este juiz a sentença será uma, mas se for distribuído àquele a sentença será outra. Em vez de podermos prever a solução jurídica de um litígio com base na lei, teremos de aguardar, na incerteza e na insegurança, a decisão do juiz, pois a lei pouco ou nada vale perante o seu poder funcional. A demagogia sindicalista que se apoderou das magistraturas depois do 25 de Abril conduziu a esta situação.

Dirão alguns que a disparidade de decisões é corrigida pelo mecanismo dos recursos, já que os tribunais superiores acabariam por fazer uma boa administração da justiça, revogando as más decisões e sufragando as boas. Só que a realidade das coisas não é assim. Primeiro porque a maioria das decisões de primeira instância não admite, sequer, recurso, pois, em Portugal, a dignidade de uma pretensão judicial afere-se pelo seu valor económico, o que faz com que as pequenas causas (mas não menos importantes) tenham sempre menos garantias processuais do que as outras. Depois, porque nos tribunais de recurso se passa, demasiadas vezes, o mesmo que na 1.ª instância: os mesmos factos com as mesmas leis originam também acórdãos diametralmente opostos. Além disso, os magistrados têm conseguido do Poder Político restrições legais cada vez maiores a essa garantia de uma boa administração da justiça. Mas mesmo quando um recurso não é impedido diretamente pela lei, ele acaba, muitas vezes, por se tornar impossível na prática dados os seus custos incomportáveis para a generalidade das pessoas. O mínimo que um cidadão terá de pagar, por exemplo, por um recurso para o tribunal constitucional ultrapassa os dois mil euros, a que acrescerão as igualmente usurárias custas dos outros tribunais. Assim, a justiça tornou-se um privilégio apenas de alguns: dos ricos e dos indigentes que beneficiarem do apoio judiciário.

Por outro lado, os magistrados têm combatido de forma quase obscena o direito de recurso, identificando--o quase sempre com as chamadas manobras dilatórias. E, não raro, recorrem às mais descaradas mentiras para levarem a água ao moinho dos seus privilégios corporativos. Para eles, a principal causa dos vergonhosos atrasos na justiça já não é a demora dos magistrados em decidirem, mas sim o facto de os cidadãos recorrerem das suas contraditórias decisões. Devido às reivindicações dos magistrados o direito de recurso deixou, em alguns casos, de ser uma garantia da lei para depender apenas da sua própria vontade. O que acontece em processo civil com a chamada «dupla conforme» (denegação do direito de recurso para o STJ quando a decisão de 2.ª instância confirmar uma decisão de 1.ª instância) é disso um exemplo claro, apesar de não podermos ignorar o elevado número de decisões do STJ que revogava, por má aplicação do direito, decisões confirmadas em 2.ª instância. Em Portugal, o direito de recurso já não é uma garantia da lei, mas sim uma graça concedida pelos magistrados.
 

15 agosto, 2013

As portagens não têm futuro

A maior parte dos leitores só costuma pagar classe 1 nas portagens. Se tivesse que pagar classe 2, 3 ou 4, não ia acreditar. Uma carrinha média, tipo Ford Transit, paga quase 150 euros em classe 2 para uma ida e volta do Porto ao Algarve. Junte-se o valor do gasóleo (vamos imaginar 10 litros aos 100) e os 1200 quilómetros custam 168 euros (a 1,40 euros). Ou seja, esta pequena viagem - à escala europeia - fica por mais de 300 euros. Que pequeno negócio vende produtos que consigam incorporar margens para estes custos? Que agricultura, pequena indústria ou turismo sobrevive a mais de 100 quilómetros de Lisboa e Porto? Como exportar se não há ferrovia e os barcos são demasiado grandes para encomendas das PME?

Do ponto de vista de transporte, ou de férias, Espanha é muito mais barata e pode atravessar-se quase totalmente em autoestrada sem portagens. O mesmo se passa com a França onde uma rede de estradas secundárias com duas faixas de cada lado permite viajar sem pagar. Os ingleses têm portagens apenas em Londres, a Bélgica e a Alemanha, por exemplo, não têm estes custos, assim como outros países concorrentes das nossas empresas.

Portugal está a fazer o contrário. Autoestradas com preços altíssimos e estradas nacionais, entupidas e perigosas, a onerar a manutenção da Estradas de Portugal (paga por todos os contribuintes) são um garrote à produtividade. Ninguém pode culpar a Brisa e a Ascendi (da Mota-Engil) e as outras detentoras de 120 PPP (parcerias público-privadas) rodoviárias de serem bem geridas, mas estas empresas representam um oligopólio de alta rentabilidade à custa da economia real e vão custar este ano 1750 milhões de euros. Ainda por cima atualizam as portagens sempre pelo valor da inflação, apesar da economia portuguesa já ter mingado quase 15% nos últimos anos. As SCUT são a repetição deste erro (preços altos, barreiras à circulação, custos absurdos para implantar os sistemas de pagamento) pelo país inteiro.

Uma parte da modernização do país esbarra nas portagens. Sócrates e agora Passos Coelho estabeleceram muitas medidas de racionalização de custos no país (concentração de especialidades hospitalares e de tribunais nos distritos, por exemplo). Mas esta 'centralização de meios' torna os custos da periferia ainda mais injustos.

Como resolver o problema sem aumentar os impostos? Seria necessário, provavelmente, antecipar o fim da concessão de autoestradas aos privados e substituí-las por uma alternativa de pagamento mais justa - uma pequena taxa no combustível com custo idêntico ao que hoje representam as portagens e a manutenção de todas as vias. Porque hoje o princípio do "utilizador-pagador" está a ser aplicado apenas às autoestradas, mas há uma rede nacional e municipal de estradas sem qualquer custo e intensamente usadas.

Um pequeno acréscimo sobre o combustível (as complexas contas dariam um artigo por si só), disseminado por muito mais gente, teria o efeito de não fazer pesar os custos das infraestruturas apenas sobre o interior ou sobre a economia que produz bens físicos. Assim baixava-se, e muito, o valor da circulação de pessoas e bens ao longo de todo o país (medida descentralizadora). As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde está o principal rendimento nacional, eram chamadas a participar no valor das infraestruturas (incluindo as suas CRIL, IC19, VCI, grande avenidas e túneis), o que talvez diminuísse as filas e a poluição nas cidades.

Com combustível mais caro incentivava-se o uso mais intensivo dos transportes públicos (que assim diminuiriam o défice de exploração) ao mesmo tempo que se desincentivava o transporte individual nas cidades. Cada euro pago em transportes públicos vale por dois: um euro que abate ao défice dessas empresas e um euro que não vai para os produtores de petróleo.

O combustível representa 75% da fatura energética do país e a mobilidade dos portugueses (combustível, portagens, carro, seguros e sinistralidade) é já mais cara do que o custo médio com a própria habitação, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Qualquer medida que ataque o centro deste problema nacional tem de ser equacionado sob pena de andarmos a fingir que mudamos alguma coisa na competitividade da economia e no equilíbrio da balança comercial. 


Nota de RoP:

Eis um excelente artigo para usar como reforço complementar inspirador no orgulho pátrio dos parolos que seguem a selecção de  futebol, como se vivessem no melhor país do mundo. Alguns, deles, pasme-se, são emigrantes. Que gente esta de masoquistas! Quanto mais lhes batem... 

14 agosto, 2013

FCPorto e estratégias

Há pelo menos duas coisas em comum entre o Porto Canal e os jogadores do FCPorto: têm contratos legais com o clube, e ambos precisam urgentemente de uma estratégia.

Começando pelo Porto Canal, é imperiosa uma maior cooperação entre clube e estação, de modo a minimizar a péssima imagem que esta vem dando nos últimos tempos, de falta de liderança e de programação. Mais que não seja, porque existe um acordo entre a MediaPro e o FCPorto para a aquisição completa do capital em 3 anos [o clube já detém 97%], além de um compromisso de fornecimento de programas durante 4 anos, facto que pode virar-se contra o clube, caso não se sejam tomadas atempadas precauções.

Por qualquer razão, talvez de ordem financeira, o Porto Canal não ata, nem desata. O que é lamentável, porque, admitindo que se trate apenas de uma situação passageira, tudo podia ser atenuado com uma política de comunicação mais próxima dos espectadores, de forma a evitar antipatias, inerentes duma gritante falta de respeito para com eles. É pois necessária uma estratégia, não apenas comunicacional, como programática, e procurar fugir o mais possível ao déjà vu medíocre das outras estações. Para isso, é muito importante saber, antecipadamente, se o "treinador", no caso o Director Geral, terá ou não, de facto, perfil para o cargo. De gajos "porreiros" está o jornalismo cheio... Aliás, em matéria de gestão, não é o clube que tem de aprender com o canal, mas talvez o contrário, isto, salvaguardando a especificidade de cada área. Daí, não me escandalizar um maior controle do FCPorto dentro do  Porto Canal.

Com os jogadores terá também de haver uma estratégia de comunicação e de pedagogia para fazer escola. Em cada nova época será necessário reunir todo o plantel e transmitir, sobretudo aos jogadores recém chegados, não só o histórico do clube, como um determinado tipo de regras a seguir religiosamente. Ou seja, lembrar-lhes que estabeleceram contratos com o clube, com vencimentos, prémios e prazos bem definidos, não sendo toleráveis comportamentos extemporâneos que possam comprometer a estabilidade desportiva e financeira do clube. Alertá-los para a importância de não se deixarem influenciar por empresários, nem com as notícias dos jornais, ou com as transferências, que são na maior parte das vezes falsas. Recomendar-lhes prudência nas redes sociais e aconselhá-los a não as usarem para falar da sua vida profissional e até mesmo privada, sob pena de poderem gerar problemas não só na sua própria carreira como para o clube. Acho mesmo, que nesse âmbito, podiam ser estabelecidas regras [comportamentais] passíveis de punição e coimas. 

Os clubes hoje, os principais, são sociedades anónimas, têm deveres laborais e fiscais, mas tal como os jogadores, também direitos. Os primeiros a quebrar as condições contratuais e os códigos de conduta terão de ser responsabilizados. Se nada for feito, tanto no caso do Porto Canal, como dos jogadores, estará instalada a bagunça, e daí à falência, o passo é muito curto.

PS-Não me passa sequer pela cabeça que no FCPorto não haja um código deontológico instalado, resta saber, é se disciplinarmente ele dará a cobertura devida a casos como os de Iturbe [que felizmente parece controlado] de Atsu, Rolando, e agora até Jackson Martinez. O que duvido é que a mensagem esteja a passar.

12 agosto, 2013

Almoços grátis?




A atual maioria PSD /CDS prepara-se para reduzir em 10% os montantes de todas as pensões do setor público. A medida, que estará inserida no tão propalado corte de quatro mil milhões de euros nas despesas do Estado (montante posteriormente reduzido para dois mil milhões), constitui um ato brutal contra quem trabalhou e descontou durante o período da vida ativa e que, chegado à velhice, acaba sendo alvo de um verdadeiro assalto aos seus rendimentos. Não está só em causa o princípio republicano da solidariedade, um dos valores matriciais de qualquer República Democrática (cfr. Artigo 1.o da Constituição). O que esta maioria se prepara para fazer constitui a negação dos mais elementares princípios do direito. Com essa medida, o PSD e o CDS retiram a milhares de idosos as condições de dignidade para o fim das suas vidas, pois com esse corte muitos idosos terão de reduzir ou eliminar despesas pessoais absolutamente essenciais à sua existência, tais como alimentação e medicamentos. Mas, com tal medida, o PSD e o CDS violam também, de forma acintosa, o contrato de cidadania que o Estado havia celebrado com os seus servidores, mediante o qual estes teriam, no fim da sua carreira contributiva, direito a uma pensão proporcional às respetivas contribuições. O PSD e o CDS, chegados ao poder, não só violam todas as promessas eleitorais que lhes permitiram precisamente alcançar o poder, fazendo justamente aquilo que em campanha eleitoral garantiram que nunca fariam, mas violam ainda as mais basilares regras jurídicas, já que, com uma pusilanimidade estonteante, rasgam os contratos vitalícios que o Estado havia celebrado. Tudo sem qualquer culpa dos prejudicados, com a exceção, porventura, de terem permitido que pessoas sem palavra e sem honradez política chegassem ao poder.



Mas, ao mesmo tempo que se preparam para cortar impiedosamente nas pensões dos aposentados, incluindo daqueles que auferem apenas algumas centenas de euros mensais, o PSD e o CDS propõem-se, com a mesma insensibilidade, isentar desses cortes magistrados e diplomatas, muitos dos quais auferem pensões superiores a cinco mil euros mensais. Trata-se da consagração, na nossa República Democrática, de um privilégio de casta que, numa sociedade decente, deveria envergonhar tanto quem o concede como quem o recebe. Um privilégio que, no caso dos magistrados, acrescerá a muitos outros verdadeiramente escandalosos, como subsídios de habitação a quem vive em casa própria, isenções de impostos, etc. Mas, como a cultura dos nossos magistrados é a de quem se julga acima dos simples mortais, tudo o que sabe a privilégios é sempre bem-vindo para eles.

Porém, como não há almoços grátis, a prebenda que o PSD e o CDS se preparam para oferecer aos magistrados deve ter, obviamente, por detrás, negociatas malcheirosas. Para além de poder constituir um aliciamento por parte de quem não tem a consciência tranquila e procura favores ou indulgências judiciais, ela não pode deixar de ser encarada como um prémio pelo contributo que os magistrados deram para desgastar o Governo anterior com processos vergonhosos, assim contribuindo também para antecipar a chegada ao poder do PSD e do CDS. Mas, por outro lado, ela surge não muito tempo depois de um dirigente do sindicato dos juízes ter insinuado publicamente que se os juízes portugueses tivessem de suportar os sacrifícios da crise como todos os outros cidadãos, eles poderiam deixar de ser independentes e, provavelmente - pensámos todos nós - corromper-se-iam e (pelo menos alguns) passariam a vender sentenças.

É claro que agora não faltarão os habituais magistrados papagaios tentando justificar essa ignomínia com os mais estúpidos argumentos (lembram-se daquele em que, além das férias de Natal e da Páscoa, se justificava a existência de dois meses de férias no verão para os magistrados trabalharem?). Mas isso só demonstra a conta em que eles têm os cidadãos desta República. Por mim, repito: nestas coisas (como em muitas outras da vida), não há almoços grátis, só faltando apurar o que os magistrados, sobretudo os juízes, darão em troca ao PSD e ao CDS, além do que já deram no passado recente.

11 agosto, 2013

Licá, um jogador à Porto? FCPorto 3 - Victória Sport Clube 0

Ainda é cedo para dar opiniões categóricas, foi só um troféu, mas muito importante, para início de época. 

A verdade é que gostei muito de ver o Licá a jogar. Não apenas por ter marcado o 1º. golo contra o Victória de Guimarães, numa jogada de fino recorte entre ele e Lucho Gonzalez. Acho que fazia falta ao FCPorto um jogador com as características de Licá. É rápido, tem grande mobilidade e gosta de galopar para a baliza.

A equipa esteve toda bem. Fucile parece rejuvenescido, Defour esteve muito bem, e o sector defensivo esteve sempre muito concentrado.

As equipas e os adeptos do Porto e do Guimarães souberam dignificar o espectáculo. Muito bom!







09 agosto, 2013

A ponte

Casa Milá de Antoni Gaudi
Durante os quase 50 anos que levamos de democracia, o argumento que mais  se ouviu e que serviu para branquear os repetidos fracassos governativos, foi a sua tenra idade. Tal argumento até seria aceitável, se fosse sério. A questão é que em Portugal, até os argumentos a prazo se tornam intemporais. Não nos admiremos portanto que daqui a 100, ou 200  anos, os nossos bisnetos e trinetos, continuem a ouvir o CD  da idade materno-infantil da democracia portuguesa. É uma encenação "filosófica" do tipo pilha Duracell, passe a publicidade, que dura, dura, dura, e que vai dando garantias de permanência no poder aos incompetentes e  corruptos, para além do prazo de validade.

Mas, além da eterna juventude, a democracia em Portugal [e também noutras latitudes, admita-se] tem outra característica: não admite evolução. É aqui que entra Winston Churchill no papel de fiador involuntário dos que ainda hoje se agarram à sua máxima para nada fazerem pela democracia.

Quando Churchill afirmou que a democracia era o pior de todos os regimes, exceptuando todos os outros, fê-lo numa época terrível, de guerra e de convulsão social em que, de facto, fazia todo o sentido aquela declaração. O que duvido, é que hoje dissesse o mesmo. Churchill, era um Homem de inteligência requintada, como hoje não há igual. Além de fumar charutos [a sua imagem de marca], era alguém de vistas largas que levou a sério e honrou a sua carreira de político. Portanto, o que esta canalhada faz hoje, não é mais do que tirar partido da fama do grande estadista, para o plagiar e se deitar à sombra dela, e para nada fazerem.

Como tudo é composto de mudança, a democracia não pode fugir à regra. Podemos construir pontes de todos os feitios e com materiais diversos, o fundamental é que a ponte não caia. Mal estaria a engenharia, a ciência ou a arte, se alguém se lembrasse de se agarrar à máxima de Churchill como a uma fatalidade, ou como um processo acabado. Assim, não haveria evolução, nem nunca seria dado o devido valor a Salvador Dali, a Picasso, ou a Gaudi. Só o preconceito, e o pavor pelo novo, atrasa o reconhecimento da competência.

Das pontes, a última coisa que queremos é que elas tombem. O modelo podemos deixá-lo ao gosto do criador. Da democracia, também só queremos é que ela funcione. Mas para funcionar, o modelo ideal será sempre o que melhor contemple a felicidade das pessoas. Agora, deixá-la abandalhar a coberto do prestígio de Churchill, pode fazê-la cair.

06 agosto, 2013

Os dias seguintes, do mau carácter

Imagens risíveis de um episódio elucidativo do Dia Seguinte
Não sei como é possível avaliar-se o trabalho profissional de alguém, sem lhe associar o carácter. Lá ser possível é, agora que é uma avaliação séria, não é.

Os políticos, por exemplo, adoram defender essa teoria. Dá para rir, quando os ouvimos dizer: enquanto pessoa, penso isto, mas na qualidade de deputado, já penso o contrário. São uns cómicos, é verdade, mas o que é certo é que ainda há muitos burros a comeram dessa palha...

Ora, se o carácter é a nata que define o alinhamento moral da personalidade dos Homens, e é importante para a maioria das actividades legais, por que é os eleitores haviam de o dispensar na avaliação global de quem os "quer" governar?  Estranho, não é? A verdade é que os eleitores continuam a livrá-los desse fardo, e eles, aproveitam, claro. E nós pagámos caro, o bom costume...

Não querendo pessoalizar, é inevitável contudo apresentar alguns exemplos. A propósito, relembro quão importante era para certos letrados avessos às coisas da bola, assistirem a determinados programas ligados à redondinha, para ficarem a saber o que perdem. Não me refiro à qualidade intrínseca desses debates, muito pouco desportivos, aliás. Refiro-me ao facto de perderem o que "melhor" se vem fazendo como espectáculo em termos de degradação moral, protagonizado por gente ligada à política. As estações de televisão estão cheias de programas desse género. Mas vou só falar de um para não enjoar os leitores.

O programa chama-se Dia Seguinte, o canal, é a SIC, do ex-primeiro ministro Pinto Balsemão (PSD), e os actuais protagonistas são: o José Guilherme Aguiar, do PSD, Rui Gomes da Silva, também do PSD e finalmente, Rui Oliveira e Costa, o de menor relevância política. Sobre este último não me vou pronunciar, considerando que não tem o peso político nem a responsabilidade dos demais. Sobre Guilherme Aguiar, é a imagem fiel do político-minhoca, frouxo, contido, mas um oportunista inofensivo.

O outro, Rui Gomes da Silva, é a vergonha personalizada da classe política nacional. Um asco, um homenzinho falso, maldoso, intriguista, de uma arrogância insuportável, que só sobrevive na política [e agora no futebol como dirigente do Benfica], porque está em Portugal. 

São pessoas desta estirpe que poluem a política e que impedem que Portugal possa progredir e restaurar-se dos vírus que semeiam. É deste tipo de gente que a corrupção se alimenta. Se a incompetência técnica é um zero, pois RGS nada fez de relevante pelo país, o carácter não tem classificação. Não existem zeros suficientes há esquerda do zero, para lhe atribuir. Chamasse-me eu Passos Coelho, este miúdo há muito estava irradiado da política e impedido de aparecer em público. O drama é que Passos Coelho disfarça melhor, mas o carácter não difere muito. Se diferisse, os Rui Gomes da Silva deste país não podiam nunca ter chegado a ministros. Quando muito, estariam numa secretária, a bater carimbos. Mas, bem vigiados.

Quem disse que o carácter dos políticos não deve ser avaliado? Vocês já conhecem a resposta.

Emídio Gomes será o novo presidente da CCDR-Norte

 O futuro líder da comissão de coordenação já foi pró-reitor da Universidade do Porto, administrador da Junta Metropolitana do Porto, presidente da Agência de Inovação e vice-presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

A nomeação ainda não foi publicada em Diário da República, mas a decisão política está tomada: Emídio Gomes será o próximo presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-Norte).

Licenciado em Engenharia Agronómica e doutorado em Ciências Biomédicas, Emídio Gomes é catedrático do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto e actual director da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa. Natural do Porto, tem desempenhado vários cargos de natureza académica e em entidades públicas relacionadas com o desenvolvimento regional, onde a sua competência técnica nunca foi questionada.

Actualmente, preside ainda à Portus Park-Rede de Parques de Ciência e Tecnologia & Incubadoras e é mebro do Conselho Nacional para o Empreendedorismo e Inovação. Foi pró-reitor da Universidade do Porto, administrador executivo da Junta Metropolitana do Porto, presidente da administração da Agência de Inovação e vice-presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, entre outros cargos.

Contactado pelo PÚBLICO, disse desconhecer que estivesse tomada a decisão para a liderança da CCDR-Norte e escusou-se a fazer qualquer comentário.

Emídio Gomes foi, naturalmente, um dos três nomes  que a Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CRESAP) remeteu no final da semana passada ao Governo, na sequência do concurso público que o executivo insistiu em lançar para a presidência da CCDR-Norte.

Os outros dois foram Carlos Neves, que vem assumindo interinamente presidência da CCDR-Norte desde a morte de Duarte Vieira, em Fevereiro, e Juvenal Peneda, ex-secretário de Estado da Administração Interna, recentemente demitido na sequência do caso dos swap celebrados por empresas públicas como a Metro do Porto, da qual foi administrador - e onde garante não ter tido responsabilidades no recurso a estes contratos de risco.

Concurso muito disputado

A short list com estes três nomes foi remetida pela CRESAP no final da semana passada ao ministro do Desenvolvimento Regional, Poiares Maduro, e ao secretário de Estado do Ordenamento do Território, Paulo Lemos, para a decisão política final. Os outros três candidatos - dos 26 que se apresentaram a concurso - que chegaram à fase final do processo de selecção, a entrevista, foram Alberto Santos, actual presidente da Câmara de Penafiel, Álvaro Santos, que foi chefe de gabinete do ex-secretário de Estado do Desenvolvimento Regional Almeida Henriques (que saiu do Governo para se candidatar à Câmara de Viseu pelo PSD), e António Guedes Marques, que já foi presidente da CCDR-Norte, durante cinco meses de 2004, em substituição de Arlindo Cunha.
 
A insistência do Governo em fazer depender a nomeação do novo presidente da CCDR-Norte de um concurso prévio foi muito contestada pela Junta Metropolitana do Porto e por eleitos do PS, PSD, CDS, CDU e BE, que defenderam que a urgência de nomear um presidente definitivo para a comissão, numa fase crucial da programação do próximo quadro comunitário de apoio, impunha um processo mais expedito. Além disso, várias forças políticas argumentaram que estava em causa um cargo de confiança e responsabilidade políticas, pelo que a escolha do presidente da CCDR-Norte devia ser assumida pelo Governo e recair sobre uma personalidade com peso político, em condições de afirmar as aspirações e reivindicações da região. Ainda assim, apesar do perfil mais técnico de Emídio Gomes, a sua escolha não deverá ser contestada, pelo menos pelos partidos do arco do poder.
 
 
[Fonte: Público]
 

03 agosto, 2013

Júlio Magalhães, e o canal do part-time

Confesso que começo a ficar farto do Porto Canal e da bazófia sonora com as subidas de audiência. Como vivo e sofro seriamente com o abandono a que muitos protagonistas do Norte deixaram cair a região, e sempre pensei que um canal de tv autónomo pudesse alterar a situação, não posso deixar de criticar aquilo que me parece estar mal. 

Considero lamentável que o modelo escolhido pelo Júlio Magalhães para um canal com pretensões a conquistar audiências em todo o país, se esteja a caracterizar por alguma fanfarronice, aliás muito típica da capital, e por um conjunto de amigos, ou de amigos dos amigos, como protagonistas preferenciais para a realização de debates e entrevistas. Não é que não aprecie alguns deles, o que me parece, é que Júlio Magalhães está dando sinais de temer perder a confiança dos amigos da capital, talvez com receio de um dia ter de lá voltar. Se assim não fosse, dispensaria os convites que apressadamente anda a fazer a figuras públicas da capital, como se elas não fossem por demais conhecidas do país e outras não existissem no Norte, ou como se o filão a Norte se tivesse esgotado.

Se a estratégia para "conquistar" o país a Sul passa por actos sofisticados de sedução, do tipo mel com que se caçam as moscas, então é porque alguma coisa de pesado paira na consciência dos seus autores. E eu não imagino o que possa ser, porque quem devia ter motivos para recear que a consciência lhe rebente de remorsos, era toda essa gente, de sulistas a nortenhos, empresários a governantes, que nos traíram descaradamente, a ponto de deixar "saudades" de Salazar até a anti-salazaristas convictos, como eu.

Já o disse por mais de uma vez que nunca simpatizei com a ideia de alguns de quererem dar o passo maior que a perna, que é como quem diz, de pretenderem conquistar o país, antes de se conquistar o Norte. Norte esse, que não se limita ao Minho ou a Trás-os-Montes, nem ao Alto-Douro ou Douro Litoral, mas que se estende até Aveiro.  Portanto, uma região muito vasta, suficientemente grande para trabalhar como mercado alvo, ou, pelo menos, prioritário.

Já ouvimos também, anunciar novas grelhas de programação, e o certo é que tudo parece estar na mesma, para não dizer, pior. Ao fim de semana, e à noite, a estação parece funcionar exclusivamente em part-time, e em certos dias da semana também. As notícias continuam repetitivas, de tal modo que já não suporto ouví-las. Muitas, como já disse, não passam de réplicas do que o Jornal de Notícias transcreve, sobretudo os acidentes e as desgraças. Não se vislumbra um jornalismo crítico, acutilante, inovador e corajoso, também dirigidos aos alvos que tanto mal têm provocado ao Norte, e que são bem conhecidos.

Se a televisão que Júlio Magalhães e o FCPorto [que é parte interessada], querem para o Norte, é uma imitação do que as outras fazem, então mais vale desistir da parceria, ou a incompetência ainda contamina o clube. Não precisamos de mais televisões para nos servirem a ambiguidade e o cinismo com que se alimentam. Não queremos canais que funcionem para empurrar maus governantes para a rua, para depois os irem buscar e reabilitar. O Sócrates foi muito criticado e justamente demitido, portanto é uma falta de respeito à inteligência dos cidadãos, que a RTP o tenha agora contratado como comentador. Se o demitiram, é porque o que ele fez não foi importante, porque não foi competente, não se entendendo assim o interesse das suas opiniões. Eu não o ouço. Com Passos Coelho, se for, como espero, também demitido, irá previsivelmente passar-se o mesmo, porque os canais que existem não competem pela diferença, alicerçada na imaginação e na qualidade, limitam-se a copiar a mediocridade uns dos outros.  Ora, não é nada disto que eu quero do Porto Canal. Se se confirmar que é esse o rumo que a direcção do Porto Canal e o FCPorto entendem seguir, pela minha parte, passo.

Acho que era com este lixo jornalístico que Júlio Magalhães se devia (pre)ocupar, e não em deixar-se fotografar em campos de golfe, ou ao volante de carros de corrida, porque ainda há muito trabalho pela frente, para poder apregoar prematuros sucessos de audiência, à custa dos adeptos do FCPorto e do próprio clube. Além de que, há certos hábitos que numa altura de tantas dificuldades podem cair mal a muita gente. O exibicionismo, é apenas um deles.

Se o Júlio diz que as águas estão separadas, como disse, então que não meta o FCPorto na área que só a ele compete, e ponha o canal a trabalhar a sério, de uma vez por todas, e com mais profissionalismo.

01 agosto, 2013

Do "Portugal silencioso"...


Daniel Deusdado no seu artigo no JN ‘O Norte exportador’:

"É quase uma notícia de rodapé. Como se já fosse hábito. O Porto de Leixões teve em abril um aumento das exportações de 30%, com um máximo histórico de 1,7 milhões de toneladas carregadas num só mês! E, mais do que um mês bem-sucedido, o acumulado de subida das exportações é até agora de 13% em 2013 face a 2012.

O que exportamos mais? Combustíveis refinados, ferro e aço, bebidas, papel e cartão, máquinas e produtos químicos. Os países onde as empresas portuguesas encontraram novos clientes são a Argélia (mais 150%), Marrocos (mais 61%), EUA (mais 45%), Reino Unido (mais 44%) e França (mais 39%).

É extraordinário. Há dois países em Portugal. Este é o silencioso, fruto de sangue, suor e lágrimas. Há dezenas de milhares de trabalhadores e algumas centenas de empresários e diretores comerciais de mala na mão por este mundo fora a fazer a tal 'coisa' sempre pomposamente dita pelo Governo: fazer a inversão da balança comercial do país e fazer a retoma.
(...)

Estes dados, são a melhor evidência dos dois modelos de sociedade existentes no nosso País. Por um lado, o modelo de sociedade representado por um grupo bem instalado em “Lesboa” (Raquel Varela, por ex.): conquistado na sombra da monstruosa estrutura do Estado e dos milhares e milhares de empregos sustentados pela burocracia.

À custa desta estrutura sustentada com os impostos de TODOS os portugueses, cresceu uma economia "pseudo- privada": um sector de serviços ancorado nos gabinetes de "grandes" advogados & seus pareceres, nos escritórios da banca e das consultoras internacionais, das administrações das empresas públicas e das ex-públicas (edp, pt, galp...) que, mesmo anos depois da sua privatização, contaram com as benesses e os monopólios que a proximidade com o poder lhes garantiu (e garante).
O "outro" modelo é representado, nas palavras de Daniel Deusdado, pelas "dezenas de milhares de trabalhadores e algumas centenas de empresários e diretores comerciais de mala na mão por este mundo fora" que, apesar de um Estado ladrão, que ao longo dos anos foi retirando, saqueando, pela via fiscal (impostos) ou pela sua incompetente gestão (eletricidade, combustíveis, scuts...), uma fatia cada vez maior do fruto do seu trabalho enquanto criou obstáculos adicionais à sua competitividade, para sustentar a estrutura desmesurado e voraz do Estado, nomeadamente, os milionários vencimentos dos "gestores" do sector empresarial público.
É tão simples ver sobre qual destes modelos devem recair as reformas e os cortes e qual deles deve ser poupado para que Portugal se desenvolva economicamente... mas há um fator que trava esta mudança e impede que a sociedade em geral tenha esta perceção - a comunicação social.

Sendo Portugal o país centralizado que é, nomeadamente, a circunstância de todas as redações e meios de comunicação "de massas" estar instalada em Lisboa, faz com que a visibilidade do "Portugal silencioso" vs o "Portugal que vive à mesa do Orçamento de Estado", seja quase nula... 
Ora, sabendo nós que a comunicação social desempenha um papel central na ascensão e queda dos sucessivos governos, será possível implementar as mudanças que Portugal precisa e que passam essencialmente pelo corte nos recursos que sustentaram a riqueza gerada na capital nas últimas décadas - quando é precisamente o grupo mais prejudicado por essas medidas quem domina completamente a opinião pública e a agenda mediática?

Eleições e banha da cobra

Se ainda fosse preciso provar que a mediocridade governativa, mais do que uma constatação ocasional, é um facto que remonta à história mais antiga do país, talvez valesse a pena entretermo-nos com os detalhes da intriguice político-partidária.

Pela parte que me toca, isso já pouco me interessa, até porque a última coisa que quero, é dar-lhes protagonismo, mesmo que pelas piores razões, como a comunicação social tanto gosta de fazer. Em última instância, a utilidade dos detalhes, poderia servir para melhor avaliar o comportamento de muitos cavalheiros em sede de justiça, se ela existisse. Mas desde que temos um Presidente da República obstinado em silenciar o escândalo BPN, cujos beneficiários, além dele mesmo, e da própria família, eram seus amigos chegados e parceiros políticos, tudo o resto é secundário. 

Por isso, agora que se aproximam as autárquicas e os putativos candidatos andam numa fona a prometer mundos e fundos aos resilientes e papalvos votantes, era uma boa altura - caso os jornalistas soubessem mesmo o que é serviço público -, para os obrigar a comprometerem-se com os eleitores a renunciarem aos cargos se não cumprissem à letra as promessas feitas em campanha.

Mas isso, sou eu, que devo se  "demasiado" exigente.

Já agora, para quem não leu, temas sérios ao estilo brincalhão de Jorge Fiel, aqui.


31 julho, 2013

A Norte, nada de novo

Findo o período de descanso, e de jejum "blogosférico", é tempo de retomar a rotina dos dias tristes e cinzentões da política, num país cada vez mais desgovernado por gente sem a menor capacidade para construir o que quer que seja.

Folheando o JN de hoje, leio na primeira página o seguinte título: "Porto ganha Banco de Fomento". No interior, os pareceres sobre a "boa nova" de algumas figuras públicas, como Alberto Castro, Fernando Gomes e António Marques, eram de apoio à iniciativa, desconfiando contudo que tal não passe de mais um presente envenenado, igual ao BPN e ao jornal Público, que arrancaram com a sede no Norte, e acabaram engolidos pelo apetite devorador do centralismo de Lisboa. Num caso, como noutro, ambos permitiram que as sedes transitassem para a capital, além de - no caso BPN -, ter as consequências de escândalo e impunidade que sabemos.

Mais entusiasmado com a notícia - ou ingénuo, se preferirmos -, estava o Director do JN, Manuel Tavares, que parece ainda acreditar no pai Natal, como se pode confirmar aqui. Talvez seja a má consciência a pesar-lhe, sabendo que dirige um jornal que, apesar de manter a sede no Porto, pertence à Controlinveste, de Joaquim Oliveira, que foi incapaz de resistir à subserviente ideia de publicar uma edição para o Sul, tal como o desportivo O Jogo. Quando a subserviência dá dinheiro, não há liberdade que resista.

Já o Manuel Serrão, sentiu-se beliscado, e com razão, com o troca-tintas do Carlos Abreu Amorim, por este ter criticado o concorrente Guilherme Aguiar e colega partidário, à mama, desculpem-me, queria dizer, à Câmara de Gaia, por ser apenas um comentador da bola...

Numa coisa concordo com Abreu Amorim: sou totalmente contra a participação em programas desportivos de políticos em exercício, por considerar incompatível com a imagem de isenção e tolerância que devem deixar transparecer. Mas só por mero acaso concordo com Amorim, até porque já não lhe reconheço seriedade intelectual para opinar sobre o que quer que seja, tal tem sido a desilusão que me deixou desde o momento em que se agarrou à teta da política. E quem muda com tanta facilidade, até muda de clube. Daí, não me espantar mesmo nada vê-lo um dia a abraçar o Luís Filipe Vieira, ou a colocar o cachecol do glorioso... E dizer que este cavalheiro chegou a comparecer a algumas reuniões do Movimento Pró Partido do Norte...Uma fraude, em suma. À imagem do(s)Governo(s), aliás.

06 julho, 2013

Um ano de vazio e saudade, sem Rui Farinas

Rui Farinas, um bom amigo

Faz hoje precisamente um ano que, mais ou menos por esta hora, o meu estimado amigo e colaborador de blogue nos deixou. Deixou também a saudade, sem dúvida. 
Paz à sua alma. Alma, que tantas vezes ele mesmo evocava para justificar a nossa persistência em lutar contra a garotada que nos desgoverna.

05 julho, 2013

Pausa

Caros leitores e amigos

Vou suspender por uns dias a actividade, aqui no Renovar o Porto, para restaurar energias. Por isso, até breve e obrigado. 

01 julho, 2013

O Presidente da República


Constitucionalmente, o presidente da República desempenha um papel extraordinariamente relevante no nosso regime democrático. Ele é o garante da independência nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições democráticas. O presidente da República é, de acordo com a nossa Constituição, o primeiro órgão de soberania, logo seguido pela Assembleia da República, Governo e tribunais. A natureza semipresidencialista do nosso regime não deixa, contudo, de lhe conferir competências de um verdadeiro líder político do povo português. O papel que a Constituição reserva ao PR assume uma importância ainda maior nos momentos de crise em que a confiança nas instituições democráticas e a credibilidade dos agentes políticos se desvanece.

As várias gerações de titulares de órgãos de soberania, que ao longo das últimas décadas se fizeram eleger ou designar para as respetivas funções, não só não souberam evitar a crise como não foram capazes de criar condições para que ela fosse encarada e ultrapassada com dignidade. Constitui uma inominável vergonha nacional que Portugal, o mais antigo Estado-Nação da Europa, esteja hoje, por vontade de alguns partidos, reduzido ao estatuto de um protetorado, governado de facto por um triunvirato de instituições internacionais não democráticas. Mais do que a sua independência política e económica, Portugal perdeu, de facto, a sua dignidade de país soberano.

Talvez em nenhum outro momento da nossa história quase milenar o povo português se tenha sentido tão derrotado como agora. Talvez em nenhum outro período da nossa história coletiva tenha havido tão pouca esperança no futuro como agora. As nossas elites - os nossos melhores - venderam-se e nesse ato de degenerescência moral alienaram também o que de melhor havia neste povo de marinheiros: a coragem para enfrentar as grandes adversidades, a força para vencer adamastores e mostrengos, a capacidade, em suma, de, nos piores momentos, gerar esperança e confiança no destino coletivo.

Há menos de 30 anos, prometeram-nos com cerimoniais grandiloquentes uma Europa do progresso e do bem-estar; uma Europa da cidadania; uma Europa da solidariedade. Tudo isso nos foi garantido com a pompa e a circunstância com que ao longo da história se enfeitaram as grandes mentiras coletivas. Esse projeto grandioso nasceria aqui neste território há mais de quatro mil anos dilacerado por sangrentas guerras civis e que, por egoísmos nacionais, gerou algumas das maiores catástrofes da história da humanidade.

Eu, que fui, na dimensão dos meus mundos pessoais, um cidadão entusiasmado com esse ideal helenista, deixei há muito de acreditar nessa mentira e, hoje, quase sinto vergonha de ser europeu. Essa Europa, renascida das cinzas da guerra mais devastadora de sempre, que nos prometeram de paz e de prosperidade, está hoje novamente dilacerada por uma outra guerra entre os seus vários egoísmos nacionais, em que o papel outrora pertencente às espadas, tanques e canhões é agora desempenhado pelo dinheiro e pelos antagonismos tribais que ele gera e exacerba.

Neste contexto, muitos portugueses olharam para o presidente da República como um líder à altura das melhores tradições de um povo digno e independente. Esperavam dele uma postura de primeiro magistrado do país, capaz de despertar o que há de mais genuinamente português na alma de cada português e de mobilizar este povo para as gigantescas tarefas de reconstrução (da identidade) nacional.

Mas não, o que o atual presidente da República nos oferece é a postura de um ajudante do Governo tentando dourar as pílulas com que anestesiam as frustrações do nosso descontentamento coletivo. O que o presidente da República nos oferece são promessas vagas e longínquas de ilusões historicamente irrealizáveis porque, entretanto, deixaremos de ser povo, Estado e Nação. Identificado politicamente com a agenda ideológica dos partidos do Governo, o PR não exerce o cargo com lealdade constitucional, mas sim com subserviência em relação a essas lideranças partidárias.

Triste sorte a de um povo cujo dirigente máximo opta por ser pequeno precisamente no momento em que a história lhe oferece as condições para ser grande e, sobretudo, para despertar a grandeza moral do povo que lidera.

[do JN]

Nota de RoP:

Não sei quantos mais anos viverei, o que sei, e tenho como certo, é que em Portugal a direita tem aversão à democracia e ao princípios mais comuns dos direitos humanos. 

Para a direita portuguesa, há apenas duas castas de gente: a dos serventes [vulgo, novos escravos] e a dos patrões [os donos de]. Por isso, não tenho qualquer dúvida em afirmar que, por muitos anos que viva [e já sou sexagenário], por maior fortuna que viesse a acumular, nunca por nunca, votaria num partido de direita em Portugal. E digo em Portugal, apenas porque, sendo os partidos de direita, por tradição, mais amigos do dinheiro que do Homem, países há, na Europa, onde a direita consegue respeitar os cidadãos e dar-lhes condições de vida respeitáveis. 

Em Portugal, pelo contrário, quanto mais perto está do poder, mais despudorada e retrógrada é a direita. Creio contudo, ser necessário separar as águas que levam a confusões, e dizer que, nem por isso a esquerda em Portugal tem sido muito diferente da direita, e isso explica-se sem dificuldade. Primeiro, porque é uma esquerda vigarista, que promete esquerda e faz direita. Segundo, porque tem sido infiel à sua própria doutrina e aos seus valores humanistas. O resultado, dir-me-ão, irá dar ao mesmo. Talvez. A diferença, é que a direita nem sequer tem ideologia, tem um símbolo sob o qual se protege e domina: a moeda.

Tudo isto, para dizer que Marinho Pinto não é um populista, é sim, daqueles raros homens com o dom de gerar ódios da esquerda à direita, apenas porque fala verdade e incomoda os sacanas de todas as doutrinas. 

Preambulo III da Declaração dos Direitos Humanos:

«Considerando que é essencial a protecção dos direitos do homem através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão»

27 junho, 2013

Governo nem uma greve merece




1. O país preso por arames e uma greve geral, de novo. Inútil porque representa um tempo que a impotência defronta a prepotência atroz. A expressão cívica das pessoas, mesmo que massiva, é olhada como caricatura, uma válvula de escape, com resultado quase zero. Hoje parece evidente que o país não se fartou apenas da austeridade, fartou-se primeiro da cabotinice, impreparação e, por fim, arrogância de Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar. E a única coisa eficaz para mudar o curso da História é pressionar Cavaco Silva para que não se perca mais tempo. O Governo já não existe há muito tempo.

O presidente da República labora num engano trágico para a nossa vida desde o 15 de setembro. Aquele dia é cristalino sobre a sensação de engano dos portugueses, sobre a queda da máscara, sobre um ideário arrasador quanto ao esmagamento para que caminhava a economia portuguesa em nome de um processo de liberalização a qualquer custo que nos torna numa espécie de Panamá dos grandes interesses financeiros e económicos. Pode dizer-se que Passos Coelho enunciou muitos destes princípios na campanha eleitoral. Mas a maioria dos portugueses queria mais depressa ver-se livre de Sócrates do que ver com atenção quem eram os amigos do líder do PSD e qual o seu objetivo primeiro: impor uma modernização do país à moda de António Borges e Dias Loureiro.

É totalmente falso que a estabilidade política valha mais que a descrença total de empresários e trabalhadores. O presidente da República sabe melhor que ninguém que o Conselho Económico e Social, onde estão representados os sindicatos e confederações sindicais, tem uma unanimidade nunca antes vista contra o irrealismo de Vítor Gaspar e Passos Coelho. Aquelas reuniões são o melhor exemplo do absurdo a que se chegou. Portanto, a única coisa eficaz não é a greve, é cercar Cavaco Silva onde quer que ele vá, até que acorde. Fazer um cordão humano permanente ao Palácio de Belém. Lembrar-lhe todos os dias que nos está a condenar a ir ao fundo, agarrados a pessoas absolutamente incompetentes e algumas delas amorais.

2. Exemplo desta tragédia é o que se passa com a liquidação dos famosos swaps. Os gestores das empresas públicas seguraram o risco da taxa de juro com contratos (milionários) que enriqueceram a Banca. Os mais ousados fizeram até contratos especulativos que os tornaria brilhantes magos da alta financeira (e risco à custa dos contribuintes). Entretanto... pagar isto entra na lógica das urgências do Governo. Porquê? Amortizar contratos com perdas potenciais exatamente neste momento é fazê-lo numa altura em que os juros dificilmente poderão descer mais. É pagar a 'multa' tendo por base o valor mais baixo da penalização e não o seu valor médio (perder mais do que se perderia agora é praticamente impossível). Apesar do desconto feito ao Governo na renegociação, são 800 milhões para pagamento imediato aos bancos. Entretanto não há dinheiro para os subsídios de férias, o que significa mais um tiro no turismo. Que gente é esta?

3. Continua a fazer impressão por que razão não se discute essa decisão 'técnica' de passar a aplicar a quase totalidade do Fundo de Estabilização da Segurança Social apenas em dívida portuguesa. Atualmente as nossas futuras reformas estão colocadas a 60% em dívida pública nacional e os restantes 40% em outros ativos financeiros, para diversificar o risco. Mas Gaspar quer meter o dinheiro todo em dívida nacional. A pergunta que se coloca é: Portugal corre ou não o risco de necessitar de um perdão de dívida? Sabemos que Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar não o querem, mas há quem ache que não conseguimos sobreviver com 130% de dívida pública face ao PIB (produto interno bruto). Ora, estamos a ser entalados contra a parede pelo Governo. As gerações mais velhas e os trabalhadores em geral vão ser as principais vítimas do perdão de dívida do país, caso ele exista. E se tal acontecer será como discutir se queremos destruir boa parte das reservas da Segurança Social (para ter menos dívida e menos juros) ou, em alternativa, não ter retoma económica porque o défice é igual aos juros da dívida. É sinistro. É o que se chama ser-se ultraliberal com a vida dos outros.

26 junho, 2013

Cartoon

Por que não berras tu, Rio?! Não sabes que o Passos é surdo?

Rui Rio não entende por que não lhe responde Passos Coelho




O presidente da Câmara do Porto disse esta terça-feira não entender a ausência de resposta do primeiro-ministro a um pedido de audiência a propósito da Porto Vivo, considerando “dramático” que o executivo queira abandonar um projecto “de crescimento económico”.

No final de uma audiência de cerca de uma hora e meia com o Presidente da República, no Palácio de Belém, Rui Rio adiantou que irá reunir-se no final da semana com o presidente do CDS-PP, Paulo Portas, para discutir o assunto da Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) Porto Vivo, mas que continua sem ter resposta do primeiro-ministro.

Questionado sobre que leitura faz da falta de resposta de Pedro Passos Coelho, o autarca portuense respondeu: “Eu sei lá o que lhe hei de dizer, eu não tenho resposta para isso, não consigo, não consigo entender isso, eu tenho alguma capacidade às vezes para ser irónico, mas não estou a ser, eu não consigo mesmo entender”.

“A reabilitação urbana é nuclear para Portugal e para o Porto e isso o Governo não entendeu, tanto não entendeu que eu não recebi qualquer resposta do primeiro-ministro”, declarou, sublinhando não se recordar de uma iniciativa deste género ter reunido “tantas pessoas com um carácter tão transversal” na cidade do Porto.

O autarca do Porto afirmou que a audição com Cavaco Silva e a carta aberta ao Governo, que disse contar com “praticamente 1500 assinaturas”, permitiram que a dívida do Estado à Porto Vivo (pouco mais de 2 milhões de euros) tenha sido paga na semana passada e enfatizou que este projecto permitiu “gerar mais de 500 milhões de euros de investimento privado” desde 2005.

No mesmo sentido, Rio defendeu que o projecto “tem um efeito brutal sobre a construção civil e a procura que gera noutros sectores, tem um efeito brutal sobre o turismo, como é do conhecimento público” e que “estar a atrofiar este projecto é algo que tem necessariamente de preocupar o Porto, mas também o país, o Presidente da República e o Governo”.
“É dramático” o abandono da SRU
O social-democrata considerou que “é dramático” que o Governo queira abandonar a administração da Porto Vivo: “Deve-nos preocupar a todos quando um Governo que tem dificuldades em promover o crescimento económico, tem um projecto destes à sua frente, e acha que dar um milhão de euros por ano para a reabilitação da baixa da segunda cidade do país é muito dinheiro”.

“Estamos a falar de um milhão de euros por ano, a proposta que eu faço ao Governo é assinarmos um contrato-programa em que o Governo dá um milhão de euros e eu dou um milhão de euros por ano, 2 milhões, e se calhar já não é preciso tanto, é disto que estamos a falar, o que o Governo não quer é assinar um contrato-programa que, com um milhão de euros, consegue todo aquele investimento”, enfatizou.

O presidente da Câmara Municipal do Porto frisou ainda que uma sociedade de reabilitação urbana “não é para ter lucro”, mas “um veículo para promover a reabilitação urbana e atrair o investimento privado”.

Questionado sobre qual foi a posição do Presidente da República, Rui Rio disse que Cavaco Silva “estava bem dentro do problema”.

“Fez-me perguntas, eu dei-lhe respostas, elucidei-o em tudo aquilo que foi necessário elucidar. Saio convicto de que fui capaz de responder a todas as dúvidas existentes, essa capacidade acho que tive”, concluiu.

[do Porto 24]