Há poucos dias atrás, tinha na caixa de comentários um anónimo recomendando a leitura de um artigo de Miguel Sousa Tavares no jornal a Bola sobre as pulhices que os tios e afilhados do centralismo continuam a fazer ao FCPorto. Compreendi muito bem a intenção do comentador. Tratava-se de mais um dos excelentes artigos do MSTavares sobre mais umas tantas provocações execráveis daquela gentalha lá de baixo que é sempre importante denunciar e que o Miguel sabe fazer como poucos.
Apesar disso, respondi instintivamente que não iria comprar a Bola para ler o artigo do Miguel, porque me recuso sempre a fazer publicidade [e, gratuita] a produtos que abomino. Sei também que a Internet e as vias de acesso que ela nos faculta, quase nos permite ler jornais sem os adquirir, mas a minha rejeição por aquele pasquim é tão vincada que não suporto a ideia de imaginar que haja um portista no planeta que gaste o seu dinheiro com ele sem perceber que está a sustentar quem tem contribuído ferozmente para o depauperamento económico e social da cidade do Porto e move montanhas para destruir o seu clube mais representativo.
Quando, em 1998, o jornal O Jogo ainda não se tinha vendido ao Centralismo [quando digo jornal, digo os donos do jornal], enviei uma carta ao Miguel Sousa Tavares reprovando o facto de, sendo ele portista, não prestar a sua colaboração neste jornal em vez de o fazer num outro [ A Bola] que, além de ser de Lisboa é declaradamente anti-portista. Mal sabia eu, quão ingénuo era por pensar que o jornal O Jogo nunca iria passar-se para o lado de lá, porque, apesar dessa submissão oportunista, naquela época era um jornal mais digno, razão pela qual aconselhava o Miguel a colaborar com ele.
Sabem qual foi a resposta? No ponto 6 da sua carta [porque abordei também o facto de ele ser contra a Regionalização], justificava assim a sua preferência pela "Bola":
"A Bola não é o Record nem é a SIC. É substancialmente diferente e é uma leitura onde, quer se queira quer não, a nossa voz chega a milhões de portugueses, até a emigrados no mundo inteiro. É assim que eu lhes farei chegar as razões de ver portista [que não é o mesmo, necessáriamente, que as razões de Pinto da Costa - e nisso consiste a minha "independência"]
Sobre a Regionalização, escreveu o seguinte: "Sou contra a Regionalização não por preconceito contra as minhas raízes, mas por uma questão de patriotismo e bom-senso, Várias vezes tenho explicado já essas razões mas, se as quiser resumir, é isto: eu, antes de ser do Porto ou de Lisboa ou do Algarve, sou português. E o único trunfo que Portugal tem no Mundo de hoje é a sua unidade nacional*, que supera a sua pequena dimensão. Juntos, teremos tanta força como a Catalunha, a Baviera ou o Piemonte. Regionalizados, valemos o que vale o Norte ou o Alentejo, ou o Algarve por si sós: isto é, nada."
A carta era relativamente longa, e não merece a pena enfadar os leitores com os detalhes, porque o que lá vinha escrito de substancial foi isto.
Há muitas coisas com as quais concordo com Miguel Sousa Tavares, mas há outras tantas com as quais estamos nas antípodas. Uma delas, são as touradas. Ele gosta, eu detesto. A outra, quiça mais relevante, é a Regionalização e o reconhecimento dos méritos do jornal A Bola... Há pessoas cuja inteligência parece ganhar mais brilho quando abordam determinados temas, e se torna mortiça com outros, mesmo com a experiência que o tempo as obrigaria a adquirir.
Eu, também já fui patriota, e por essa razão prestei-me a ir combater para Moçambique, quando podia deixar-me ficar em França, onde me encontrava, antes do serviço militar e quando outros
fugiam do país e da guerra colonial em nome da Democracia...
Hoje não faria o mesmo, porque não reconheço a minha pátria. Por qualquer estranha razão, ainda estou ligado à minha cidade do Porto, e por essa sim, ao contrário do Miguel, estaria disposto a combater. Os tempos mudaram, eu mudei, mas decorridos 18 anos, o Miguel deve continuar a pensar que está numa pátria una e economicamente forte, como a Catalunha...
Tenho ainda comigo a carta do Miguel Sousa Tavares, da qual assumo toda a responsabilidade pelo que dela reproduzi.
*O negrito é meu.