07 janeiro, 2009

Praça Golçalves Zarco (com o Castelo do Queijo ao fundo)

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Teias que a Democracia tece. Haja decência

Na continuidade do meu post anterior, recortei este artigo do jornal Público de hoje (para o ler, basta clicar sobre o mesmo) para que ninguém tenha dúvidas de quão apertadas são as teias dos grandes interesses económicos e quão difícil é para as autoridades judiciais e políticas realizar o seu trabalho até apurarem a verdade dos factos.
Como facilmente se percebe, tanto as instituições bancárias envolvidas (BPN e BdP) como as empresas de auditoria recusam-se a enviar informações e obedecer à intimação do grupo parlamentar de inquérito a coberto da almofada branqueadora do "sigilo profissional". As auditorias chegam ao cúmulo de afirmar não disporem de arquivo dos respectivos relatórios de actas e reuniões dos conselhos de administração! Pergunta-se: para que prestam as auditorias e o pomposo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros?
E qual é o papel do Estado em todo este imbrógio? Será para se subjugar a estes poderes ocultos que os liberais vivem a reclamar menos Estado, melhor Estado? O aparelho do Estado é ineficaz e pesado, mas o da Banca ainda o é mais. E caro. É chegado o momento de abranger o discurso até aos Banqueiros. Menos Bancos, melhores Bancos. O que é que nós queremos, afinal?
Até faz algum sentido que os funcionários da Assembleia da República sejam obrigados a jurar segredo sobre o que sabem das investigações, mas já não faz sentido nenhum que o público não tenha conhecimento assíduo e claro sobre evolução das mesmas. Até ao "arquivo" final, pelo menos.

Descoberta da pólvora...

O governador do Banco de Portugal cumpriu com uma das missões mais difíceis que alguém com o seu estatuto e responsabilidade deve ter para com os portugueses: avisou-nos, que a economia nacional vai continuar a apresentar resultados negativos. Brilhante!
É francamente de louvar, esta preocupação "antecipada" de Victor Constâncio com as nossas vidas, com o nosso futuro próximo. Talvez agora, alguns pessimistas consigam compreender por que é que este iluminado da economia nacional arrecada vencimentos mensais astronómicos. Esteve distraído com as falcatruas ocorridas com o BCP, o BPN e na SLN, mas isso é coisa de somenos importância. O que interessa, é que conseguiu descobrir que novas e duras dificuldades nos esperam. Ah, e falou verdade, o que, nos tempos que correm não deixa de ser uma grande virtude.

É claro que a maioria de nós não faz ideia das noites em claro, das refeições por tomar, das pestanas queimadas que cérebros desta grandeza sacrificam para chegarem a conclusões e resultados deste gabarito. Somos gente básica, desqualificada, incapaz de imaginar a dimensão da sabedoria, do savoir-faire destas personagens muito «justamente» remuneradas.
Além disso, também somos ingratos, porque no caso em apreço, o senhor governador até teve a grandeza de carácter de se disponiblizar para reduzir uns euritos do seu colossal ordenado. Só faltou mesmo, foi dizer, de quantos euros (ou, seriam cêntimos?) estaria disposto a prescindir...

06 janeiro, 2009

Notas soltas (4)

1 - A Sociedade Central de Cervejas deitou foguetes e entrou em delírio. Dizem que a Sagres está na liderança do mercado total nacional, o que é "um feito histórico". Vai a ver-se e verifica-se que a liderança se resume ao período Outubro/Novembro. No ano inteiro, a Unicer continua à frente com 51,9 contra 45,5%. Gostaria que a cerveja nortenha continuasse a ganhar à sulista, mas tenho algum receio. A SCC está a fazer um fortíssimo ataque ao mercado no Norte, e dá a ideia que os novos produtos que tem lançado são mais atractivos que os da Unicer. Espero que esta empresa não se ponha a dormir, ancorada na sua superioridade de vendas nos últimos anos, e não acabe por ter um despertar doloroso. Por outro lado, a solução de ter um presidente que ao mesmo tempo continua activo na política, e que suponho que nem sequer vive permanentemente no Porto, também é capaz de não ser boa ideia.


2 - Num país que nós portugueses não consideramos de primeira linha - a Bulgária - um ex-campeão do mundo foi dois anos e meio para a prisão, por ser culpado de um acidente de viação que fez um morto. Lá é assim. Em Portugal, onde casos chocantes de atropelamento ocorrem com frequência ( só aqui no Grande Porto recordo-me de quatro casos nos últimos tempos ) os responsáveis normalmente safam-se. O pior que lhes acontece é ter uma pena suspensa. O motorista de táxi com excesso de alcool que atropelou três meninas numa passadeira, ferindo-as gravemente, continua por aí a conduzir o seu táxi. Creio que nem julgado foi ainda. Será que um dia seremos um país com uma Justiça a sério, ou temos uma herança genética que nos condiciona?

Link (ACP)

O Trio de Ataque, da RTPN ("N", de Notícias...)



Hoje é dia do programa "Trio de Ataque", na RTPN ("N", de Notícias, como a RTP faz sempre questão de destacar, para não confundir com a anterior herética expressão : "N ,de Norte" que sobrou da defunta NTV). Mas, adiante.

Veremos se (como é de prever), o programa vai ser, pela enésima vez, insuportavelmente dominado pelo Benfica e pela recente derrota na Trofa, com a respectiva perda do 1º. lugar no Campeonato, ou se, é devidamente repartido em termos temporais pelos outros dois clubes (FCPorto e Sporting). Hugo Gilberto, o novo pivôt do programa, não veio acrescentar nada de novo à linha seguida por Carlos Daniel, muito maquilhada de fair-play, mas benficodependente, até dizer chega. Não tenho dados para o afirmar, mas palpita-me que a RTP escolhe a dedo os homens que fazem estes trabalhos, de forma a garantir o protagonismo da praxe ao clube da ave de rapina , fiel representante do centralismo ( como foi da ditadura).

É mais do que óbvio e notório, que os critérios para a selecção dos convidados da RTP (paga com o dinheiro de todos os portugueses) para programas deste género, nunca pautaram pela isenção ou pelo pluralismo. Quando, por exemplo, convida ex-jogadores de futebol, ou ainda no activo, para participarem em eventos deste tipo, vai sempre buscá-los à «cantera» dos clubes de Lisboa. A espaços, lá faz um convite quase sempre efémero a um jogador do FCPorto (o último, foi Jorge Costa) para lançar um pouco de areia para os olhos dos mais atentos, e depois, prossegue implacável e descarada, a sua saga sectária de anti-portismo.

O FCPorto - descontando os sucessos do passado, que também os teve, e muitos -, tem sido, nos últimos 30 anos, o clube português com mais êxitos conquistados, dentro e fora de portas, apesar de todas as trapaças, de todas as queixinhas e de todos os "apitos" (envenenados). O FCPorto, tem dado uma visibilidade ao país, a nível internacional, que o postiço "glorioso" jamais conseguiu, mesmo nos tempos arqueológicos do moçambicano Eusébio.

Só por estes factos, num país normal, que sabe viver as glórias do presente, num país coeso, sério e descentralizado, o Futebol Clube do Porto, independentemente do elevado número de adeptos que já tem, devia ter o respeito e a projecção mediática que indiscutivelmente merece. É por estas razões, que considero atrofiante a ideia estereotipada de que o futebol, para o povo, é desviante dos assuntos mais sérios. Os da política, não o são mais (para os mais cépticos,recordo que há um ex-ministro, actual conselheiro de Estado, que terá de prestar contas à justiça).

Não tenho a mínima dúvida de que, no fundo, ninguém acredita na envolvência efectiva de Pinto da Costa, nas novelas pré-fabricadas pelo processo "Apito Dourado", tal como as quiseram pintar. Nem mesmo os seus inventores (eles sim, com rabos de palha por todo o lado), já acreditam na eficácia da trama.

Felizmente para nós, portuenses/portistas (que bela simbiose), há mais vida - leia-se, justiça - para além da "al-Lixbûnâ (Lisboa, em árabe).

Existe ainda uma Europa. Fraca e enferma, é verdade, mas ainda com alguns valores. Valha-nos isso.

05 janeiro, 2009

Anémona ou rede de pesca?


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Boato de pasquim?


Querem ver que um dos pasquins centralistas que andam há anos com o «monstro» ao colo, a mimá-lo com todo o tipo de encómios, zangou-se com a prole, e está a preparar-se para devorar as próprias crias? Não me admirava.
Afinal, quem é promíscuo, Sr. Dr. Rui Rio? O Futebol Clube do Porto e a anterior Câmara do Porto, ou os clubes de Lisboa e empresas com ligações à edilidade da capital, como a EPUL?
E Sua Exa., o senhor Procurador? Não lhe interessa o assunto? Por quê? Por não estar relacionado com o Porto? Nós, gostaríamos muito de saber o que é que isto tem de verdade, ou se é apenas um arrufo entre as comadres locais, ou se não passa de mais uma atoarda do Correio da Manhã...

O lado positivo do Porto


Apesar das crises, há algumas iniciativas da sociedade civil portuense que devemos apoiar e aplaudir.
Algumas artérias da cidade parecem começar a ter nova vida. As ruas de Miguel Bombarda, Galeria de Paris e Cândido dos Reis constituem-se em novos pólos de cultura e lazer do centro do Porto.

O velhinho e descartável centro comercial Stop, na rua do Heroísmo, é também um dos locais que está a ser inteligentemente aproveitado pela juventude para iniciativas de carácter cultural, como centro de ensaios de novos grupos musicais, etc.
O Porto Canal, ao contrário da RNTV (agora RTV, cansou-se também do «N» de Norte...) , parece, finalmente, estar a saber impor-se. Pouco a pouco, sem grandes recursos, o canal da Senhora da Hora, vai crescendo, atraindo as audiências de uma forma original e sustentada. Conjuntamente com as iniciativas particulares já referidas, forma uma perfeita simbiose de divulgação e propaganda dos eventos recreativos e culturais da cidade.
Contudo, tudo isto não chega para mascarar a apatia das entidades públicas relativamente às necessidades do burgo. É preciso apoiar toda esta gente, é preciso muito mais.

Links (JN) e opinões

O convite que não chega

Como alguns de nós aqui comentamos, Paulo Ferreira, do JN, faz uma leitura da candidatura de Elisa Ferreira, à Câmara Municipal do Porto (e da entrevista ao JN), igualmente cautelosa.

"Sucede que vai sendo tempo de conhecermos mais a fundo o pensamento da putativa candidata sobre os problemas do Porto. Dito de outro modo: vai sendo tempo de a concelhia e Elisa Ferreira selarem o acordo. Ou de explicarem por que razão não selaram o acordo"


Ordem rejeita faltas expostas dos médicos

Esta tendência para o corporativismo na política, como nas demais áreas profissionais, é uma vergonha. O Bastonário da Ordem dos médicos deu públicas e cabais provas de não estar à altura do cargo. Não é fazer da classe médica um grupo de profissionais intocáveis que a dignifica. Como diz o ditado, quem não deve, não teme. O senhor bastonário teme, provavelmente porque deve...

Em sentido contrário, é de louvar a iniciativa da Direcção do Hospital S. João de passar a denunciar internamente o nome dos médicos faltosos. É assim que se acabam vícios ancestrais.

Nota do Renovar o Porto:

Segundo notícias de última hora, António Ferreira, Director do Hospital S. João, refere que a notícia veículada pelo JN foi mal interpretada, pelo que a instalação das ditas câmaras de Tv servirão apenas para transmitir informações aos utentes.

É pena, porque não estou a ver em que é que a medida anunciada e agora desmentida podia ir contra a ética deontológica dos médicos. O que é contra a ética e falta de profissionalismo, é que as faltas continuem a ocorrer sem que se possa conhecer o nome dos prevaricadores. É este lado da Democracia que considero o melhor aliado do laxismo e da corrupção. Continuo a considerar que este modelo de regime supostamente democrático serve à perfeição os interesses de quem se serve dele para seu exclusivo e secreto proveito.

02 janeiro, 2009

Ivan Lins // Daquilo que eu sei

Jardim de S. Lázaro

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FC Porto e loucura pelo futebol colocam Portugal acima das expectativas

02.01.2009, Hugo Daniel Sousa
É o sétimo país com mais receitas arrecadadas na Liga dos Campeões, ocupando um lugar mais alto do que noutros sectores, como a economia ou a educação

Portugal tem o melhor jogador do mundo de 2008 (Cristiano Ronaldo), um dos melhores treinadores (José Mourinho), uma selecção entre as 12 melhores (11.ª no ranking da FIFA e oitava melhor europeia) e, mesmo a nível de clubes, integra a elite europeia. Não só tem dois representantes nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões desta época (FC Porto e Sporting), como é o sétimo na lista dos que mais dinheiro arrecadaram na Champions desde 1992/93, como mostram dados revelados ontem pela agência Lusa. Numa prova que já distribuiu mais de cinco mil milhões de euros em prémios desde que foi adoptado o actual formato, Portugal só fica atrás dos cinco grandes (Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha, França) e da Holanda (ver infografia).

O ano em que o FC Porto foi campeão em Portugal e Mourinho/Scolari em Inglaterra


02.01.2009, Luís Octávio Costa (in Público)
Mapa distorcido (entre Janeiro e Dezembro de 2008) coloca Sporting em segundo lugar da classificação e Benfica
no terceiro posto
Se o campeonato português de futebol acompanhasse o calendário civil, o resultado final não seria muito diferente da realidade. Esse mapa distorcido - que compreende as últimas 16 jornadas da temporada 2007/08 e as primeiras 12 da presente época desportiva - coloca em primeiro lugar da tabela classificativa o FC Porto, com 64 pontos, seguindo-se o Sporting (52) e o Benfica, a dois pontos de distância.
No ano de 2008 a equipa de Jesualdo Ferreira voltou a ser de longe a equipa mais regular da Liga, com 20 vitórias, quatro empates e outras tantas derrotas. O Sporting foi o adversário que mais se aproximou dos "dragões", mas, apesar disso, a equipa orientada por Paulo Bento ficou a 12 pontos de distância, tendo somado 16 vitórias e quatro empates, mas também oito derrotas (mais do que FC Porto e Benfica juntos). Em 28 jogos, a equipa da Luz (dos espanhóis José Antonio Camacho e Quique Flores e também do português Chalana) foi a que menos vezes perdeu - e já não sofre uma derrota para o campeonato há 257 dias, desde o dia 20 de Abril, precisamente frente ao FC Porto -, mas também a que mais empates acumulou (14), muito por culpa de um final de 2007/08 especialmente atribulado.
Por curiosidade, ressalve-se em 2008 a prestação do Vitória de Guimarães, que alcançou um total de 42 pontos (11v-9e-8d), e do Leixões, com uma soma de 35 pontos (9v-8e-11d). Convém não esquecer que a equipa orientada por Manuel Cajuda terminou a última época desportiva em terceiro lugar e que a formação de Matosinhos se despediu de 2008 na terceira posição (e precisamente com os mesmos números que o actual detentor do título, o FC Porto).

Chelsea campeão virtual
Se no campeonato português a realidade ficaria apenas ligeiramente beliscada, a Premier League sofreria alterações radicais se a época tivesse começado em Janeiro de 2008 e terminado em Dezembro, no último "boxing day". No lugar do verdadeiro campeão, o Manchester United, reinaria o Chelsea de José Mourinho/Luiz Felipe Scolari com um incrível total de 86 pontos acumulados em 38 jogos disputados (25 vitórias, 11 empates e apenas duas derrotas).
Mais: em 2008, o Chelsea foi a equipa que mais golos marcou (74) e aquela que menos golos sofreu (20) na Premier League. A dois pontos de distância estaria virtualmente o Liverpool de Rafa Benítez e só depois o United de Alex Ferguson e de Cristiano Ronaldo (com 80 pontos, 72 golos marcados e 21 sofridos). A quarta posição deste ranking seria ocupada pelo Arsenal (com 71 pontos, fruto de 20 vitórias, 11 empates e sete derrotas).

Discursos sem substância

O Público de hoje destaca, nas duas primeiras páginas do jornal, um artigo e vários comentários de figuras públicas sobre os discursos de fim de ano do Presidente da República. Todos fizeram questão de opinar sobre os referidos discursos que, afinal, por mais méritos que comportem não passam disso mesmo: de discursos.
É com estes habituais jogos de pareceres, das setinhas apontadas para cima ou para baixo, que os jornais pautam as performances das elites nacionais, e que o jornalismo sai da rota que devia sempre seguir, que é, fixar-se na essência dos problemas e na objectividade dos assuntos que gosta de empolar.

António Barreto, um dos comentaristas, dá razão a Cavaco Silva para nos dizer que ele está preocupado com a economia e finanças do país, e que, as boas relações entre o Presidente e o Governo, terminaram.
A jornalista Helena Matos, prefere dissertar sobre os acessos de sentido de dever a que Sua Exa. o PR foi abruptamente vulnerável. O verbo dever (como ela realça) foi aquilo que mais a impressionou, deixando no ar a ideia de que nem sempre os altos responsáveis pelo país têm essa postura cívica de rigor, coisa que, para os cidadãos não é nenhuma novidade. Quando um Presidente tem de fazer apelos ao dever, mesmo que seja para puxar as orelhas ao Governo, é mau sinal e significa que o copo da tolerância para a incompetência e o incumprimento do dever "transbordou", o que, não quer dizer que os infractores não continuem a "baldar-se". Foi só uma chamada de atenção conveniente, para marcar pontos, para dar um pouco de expressão ao simbólico estatuto do PR. Nada mais do que isso, em forma de discurso.
Já o historiador Rui Tavares me pareceu o mais pragmático dos três comentadores ao referir que Cavaco Silva foi "vítima" do preconceito de auto contenção que é suposto um PR preservar, acusando-o de ter desperdiçado seis meses com o Estatuto dos Açores e de se ter "distraído" com a crise.
De facto, o país está em crise há muitos anos. Nunca, que me lembre, deixámos de ouvir falar de crises, em Portugal. O que aconteceu realmente, foram pequenos ciclos de abrandamento dominados por muitos outros de intensificação. Só isso. O que acontece apenas, é que a actual crise financeira global não permite mais encobrir a tal ausência de dever a que, subitamente, o senhor PR fez questão de apelar, porque sabe que o balão de descontentamento popular pode rebentar-lhe nas mãos.
Gostaria igualmente de saber, se será preciso acontecer uma explosão de violência no Norte do país, para que Sua Exa. o senhor PR se lembre de argumentar - como o nosso "deslumbrante" Presidente da Câmara - , que está "disponível" para o convencerem de que a Regionalização é urgente e necessária.
Assim, talvez possamos levar a sério a enfatização que Helena Matos fez do discurso de Cavaco e da frequência com que repete o verbo dever...

01 janeiro, 2009

Rio na liderança II

Algumas pessoas poderão ter pensado que o que eu escrevi aqui foi uma espécie de conversão minha a Rui Rio. Nada mais errado. Foi, acima de tudo, uma crítica à lastimável oposição, principalmente ao PS. Mantenho essa crítica. Continuo a pensar que Rui Rio segue na liderança clara na corrida à próxima eleição para a Câmara do Porto.

Hoje – estrategicamente no dia de ano novo – o JN brindou-nos com uma entrevista a Elisa Ferreira, a mais que provável candidata pelo PS à edilidade da invicta. O que se lê não me traz grande esperança. Além da costumeira declaração de amor ao Porto – pelo menos maior que o que tem a Bruxelas – pouco se extrai de substantivo. A entrevista fica-se pela crítica àquilo que é mais fácil criticar em Rio: a sua cobardia política em relação ao FC Porto e o disparate Metro na Boavista para pagar a pista das corridas de automóveis. Diz também um conjunto de generalidades que qualquer político bem treinado usualmente diz. Quanto a questões importantíssimas como o Aeroporto ou o caso dos fundos europeus destinados às regiões de convergência desviados pelo governo para Lisboa nem uma palavra. Coisas estrategicamente esquecidas pelos entrevistadores. Enfim, uma entrevista que cheira abundantemente a frete do JN e do seu director.

Elisa Ferreira: Porto é um grande desafio (entrevista ao JN)

Relançar o Porto é a promessa que Elisa Ferreira faz à cidade. Ser presidente da Câmara, garante, seria "a coisa mais importante" da sua vida e deixaria todo o trabalho que está a desenvolver. Se for eleita vereadora, abandonará o Parlamento Europeu? É um caso a pensar, diz a eurodeputada, que faz um apelo à união do PS nas próximas autárquicas.

Vai candidatar-se à Câmara do Porto nas eleições autárquicas?

Ainda não é o momento do anúncio. O trabalho está muitíssimo bem encaminhado, mas falta finalizá-lo. A finalização passa, por exemplo, por uma tomada de decisão e convite formal por parte do Partido Socialista (PS), sobretudo ao nível da Concelhia do Porto. Penso que o fará a curto prazo. Da minha parte, o processo tem vindo a construir-se num sentido positivo, mas não há pressa. O importante é que tudo suceda a seu tempo, amadurecendo naturalmente.

Então, está pronta para esta candidatura, mas o PS ainda não?

Não acho que seja isso. É um processo de convergência que, informalmente, tem gerado muitos aspectos positivos. Falta que a Concelhia conclua o trabalho que tem desenvolvido através da confirmação da decisão de um convite, de acordo com os estatutos.

É um processo do P S que envolverá outros independentes?

Sim. Será uma das componentes importantes do fecho do acordo, caso venha a concretizar-se. Sempre trabalhei politicamente, mas não sou uma política profissional. Sou uma professora universitária e uma cidadã com carreira própria, que sempre teve intervenção cívica e, a partir de certa altura, política. Então, trabalhei sempre com o PS. Entendemo-nos de forma equilibrada e nunca tivemos conflitos. Agora, neste processo, a convergência implica uma solidez de entendimento, mas também uma percepção de que há necessidade de um alargamento para uma candidatura vencedora. Muitos serão militantes, outros não. Uma candidatura, que poderá ser o que a cidade precisa, terá de ser abrangente com um núcleo central socialista, mas que se abra à sociedade civil, quer à Esquerda, quer à Direita. O Porto não se afirma separadamente da Área Metropolitana, do Norte e do país. A candidatura só terá sucesso se conseguir relançar o concelho.

Fez depender a candidatura de uma maior atenção do Governo à região, porque "ser voluntarista não chega". Já teve essa garantia?

Fiz essa proposta e penso que tem condições para ter uma resposta positiva. Isto passa por entendermos que o progresso do Porto é uma peça fundamental do progresso do país. O Norte sempre foi uma zona por excelência que trazia a Portugal uma abertura ao exterior e uma afirmação do país e da sua capacidade produtiva perante o mundo. E o Porto sempre foi a cabeça dessa dinâmica. Isso tem de ser relançado. Mas é preciso que, dos níveis regional e local, saiam propostas adequadas.

O que aconteceu? O poder central foi subjugando a região ou o poder local não se impôs?

Com a globalização, é muito perigoso anular as diferenças dos diversos espaços do país em função de uma leitura artificial. E perdeu-se a noção de que o essencial era relançar o Norte e o Centro como base produtiva de todo o território. Além disso, o Norte perdeu o protagonismo e o discurso claro sobre para onde queria ir.

Falta uma voz comum ao Norte?

Sim, o que não quer dizer que faltem actores. Há muitos protagonistas e instituições robustas. Faz falta uma região. Há muito que defendo a regionalização. E falta, sobretudo, uma rede que ponha todos num discurso de convergência, perceptível a nível central e que não se desagregue em pequenas vaidades ou rivalidades.

Que papel deve ter a Câmara do Porto nessa rede?

Deve ser fundamental. A situação é, hoje, de muita desagregação. Em Lisboa, não se ouve uma voz clara e harmónica da região. Ela tem muito potencial, mas é preciso refazer a rede e a Câmara é o actor que terá de o fazer.

A propósito do ciclo negativo que a região atravessa, disse que "o dinheiro não resolve, mas facilita".

Temos de evitar facilitismos de discutir tudo com dinheiro, porque dinheiro é aquilo que temos tido. É verdade que fizemos obras muito importantes com os fundos e, hoje, temos uma região razoavelmente infra-estruturada. Por vezes, diz-se que faltou dinheiro para a formação das pessoas. Faltou foi organização e vontade. Agora, temos de passar das pedras para as pessoas e fazer com que a nossa mão-de-obra seja, reconhecidamente, a mais competente.

Esta percepção fê-la avançar?

O Porto está muito fechado sobre ele e mantém a discussão em torno de meia dúzia de temas que já se debatiam há oito anos, como o Parque da Cidade, a Baixa, o Bolhão...Há um potencial muito grande que precisa de ser revitalizado. Toda a gente tem de dar o salto, senão corremos o risco da cidade se tornar irrelevante, como já aconteceu com outras.

A governação de Rui Rio afunilou o discurso político no Porto?

Não me interessa discutir as pessoas. Estarão a fazer o melhor que são capazes. Interessa-me saber se é possível fazer completamente diferente. Recuperar as imagens que temos do Porto, enquanto cidade da Liberdade, do trabalho, da competência, da independência. Será que ainda estamos à altura destes pergaminhos?

O Porto já não é só o território do concelho, mas é também Gaia, Matosinhos e Maia, o que significa que os problemas têm de ser resolvidos com os concelhos vizinhos...

É uma evidência. Mas também não podemos resolver os problemas de toda a área envolvente e esquecermo-nos de que há um coração e que o corpo não funciona sem ele estar activo. O Porto é esse coração. Temos uma Área Metropolitana dinâmica, cujo coração está um pouco esmorecido.

Qual será o envolvimento do PS neste projecto de relançar o Porto?

É importante que haja toda a liberdade para o partido discutir e questionar mas, o pacto comigo tem de ser feito de forma confiante e assumida, em torno de um programa claro e convergente.

O facto de ser candidata ao Parlamento Europeu leva os seus opositores a dizerem que procura uma garantia no caso de perder as autárquicas.

Não tenho essa leitura. No PE, desenvolvo um trabalho muito duro e útil para a região e para o país. Faz sentido, para poder protagonizar uma candidatura ao Porto, largar tudo o que tenho estado a fazer, independentemente daquilo que está em curso e mesmo quando tem clara importância para a região e para o país? Se vier para a Câmara, vou deixar o trabalho que estou a desenvolver porque o Porto é, para mim, mais importante.

Deixará o PE em prol da Câmara?

Se os portuenses confirmarem o seu interesse em que eu venha trabalhar pelo Porto, isso será talvez o ponto mais importante da minha vida profissional, apesar de tudo o que já fiz.

O que está a dizer é que, até agora, não teve um cargo tão importante como o de ser presidente da Câmara?

Essa seria a coisa mais importante da minha vida profissional, sem dúvida, por muito estranho que isto pareça aos meus colegas estrangeiros, que dizem "nós começamos por presidente da Câmara para ir para ministro". Seria o desafio mais importante porque é a minha cidade. E não é o ser presidente, é relançar o Porto.

Uma pergunta que vários socialistas e a própria cidade colocam é se abandona o PE se for eleita.

Sim. Claramente.

E se perder, ficando apenas como vereadora, também deixa o PE?

É um assunto que veremos na altura. Oportunamente, veremos as condições exactas de uma eventual candidatura. Mas se viesse a ser eleita presidente, largava absolutamente tudo para estar aqui.

"O pior é perder tempo com questiúnculas"


Como tem encarado a evolução do projecto do Metro do Porto?

O Metro é um projecto que necessita de ser finalizado naquilo que é fundamental neste quadro comunitário. Quanto à mudança da maioria do capital, fico muito limitada em dizer que os municípios devem ser maioritários. Enquanto ministra do Ambiente, exigi ter uma maioria na Águas do Douro e Paiva por uma questão de eficácia. Tudo depende do entendimento entre o Governo e as câmaras. Creio que há esse entendimento e uma vontade política clara da Administração Central em avançar com o projecto.

O metro na Boavista tem gerado muita polémica. Qual é a sua opinião?

O metro tem que coser a cidade e não me parece que o traçado da Boavista seja o ideal. Pelo contrário, penso que toda a avenida está desconexa e é, hoje, uma marca muito negativa destes desentendimentos permanentes. Este assunto não tem sido tratado de uma forma normal, calma e na base de um entendimento. Eu sempre defendi que o metro ali não funcionava. Não era a melhor solução. A mais adequada seria o eléctrico. O traçado de metro necessita de agregar a cidade e servir as zonas mais populosas, como a linha do Campo Alegre.

Mostra-se optimista quanto ao entendimento entre autarcas e Governo à luz do novo modelo de governação. Mas desde então não tem havido convergência...

É preciso que essa convergência exista. Ninguém está de má fé. O pior que pode acontecer é perder tempo com o vaivém de notícias e de questiúnculas numa altura em que é necessário apressar os projectos, candidatá-los e receber dinheiro de Bruxelas o mais rapidamente possível. É de interesse nacional e dos cidadãos que se acertem traçados e se arranque com a expansão. Face ao estado da economia e à necessidade de não desperdiçar fundos estruturais, não deve perder-se tempo precioso a fazer números para os jornais. Isso é o mais importante.

Acha que essa rapidez é exequível com um calendário para a expansão do metro que vai até 2022?

Claro que é exequível. Um calendário de obras estruturais pode ser a médio e longo prazo. O importante é que a dinâmica de criação dos projectos não conduza a uma dilação temporal que ponha em risco os próprios fundos. Vamos discutir os traçados rapidamente. Este tipo de projectos, por depressa que arranquem, demoram sempre tempo. Era fundamental, portanto, lançar, desde já, um conjunto de outras dinâmicas com mais impacto imediato e sem um caderno de encargos tão exigente que obriguem a um calendário tão diferido.

Relação com Governo não é subserviente


Francisco Assis, vereador e eurodeputado, foi criticado, inclusive pela Concelhia do PS, pela sua ausência. Não receia ser acusada do mesmo?

Do mesmo modo que não sou membro do PS, porque nem sempre consigo ajustar o meu pensamento à normal regra partidária, também a forma como penso não é comparável com ninguém. Farei, na altura, a explicitação do meu contrato com o PS. A seguir, proporei um contrato à cidade.

Terá liberdade para escolher a equipa?

É uma das vertentes do tal entendimento global. A minha leitura é a de que terá de haver um voto de confiança na pessoa e encontrar-se um equilíbrio entre o peso político e a importância do partido e a perspectiva de alargamento.

Se não obtiver maioria absoluta, admite fazer uma coligação?

Daqui a algumas semanas, um mês ou dois, obviamente terei de explicitar tudo isto. O que posso dizer é que tem de ser uma candidatura abrangente em torno de um projecto de cidade.

Tem tido conversações com os partidos mais à esquerda do PS?

Não tenho conversado com partidos, mas com muitas pessoas.

Mas tem falado com responsáveis do PCP e do Bloco de Esquerda?

Sim, dou-me bem com eles . O essencial é termos vontades convergentes vindas de todo o espectro paretidário, de pessoas que querem dar algo à cidade e não apropriar-se de um projecto para irem buscar algo, aproveitando-se de pequenos espaços e poderes.

É fundamental o PS não ir dividido nestas eleições, factor apontado como causa para derrotas anteriores?

Isso é absolutamente fundamental. E, por isso, não considero que, eticamente, deva aceitar, como outras pessoas fizeram e várias vezes me foi sugerido, ser candidata independente. Não o quero fazer e não me ficava bem. Agora, a ser candidata, quero sê-lo do fundo da alma. Tem de ser uma candidatura em que se revejam os socialistas. E que eles sintam. Por esse motivo, não tenho feito chantagem ou pressão. O partido tem feito a sua maturação e eu tenho realizado muitos contactos. Tem sido um trabalho muito interessante. No final, quando me fizerem uma proposta, que os termos e a vontade sejam claros. E que seja uma vontade vencedora.

Apesar de já a ter escolhido e de ser consensual, o PS equacionou outros candidatos como Nuno Cardoso...

É evidente que o unanimismo também não é a solução, mas tem de haver uma clara força de vontade por parte do partido. E tenho tido todos os sinais nesse sentido.

Fernando Gomes seria uma boa solução para a Assembleia Municipal?

Sou muito amiga dele e tive muito gosto em ser sua assessora na Câmara. Foi o grande presidente da Câmara do Porto e será sempre uma grande referência. Ainda hoje olhamos para a cidade e vemos as marcas que deixou. Conto com ele e com o seu apoio. Se esse será o lugar mais adequado, é ainda um assunto extemporâneo.

A Distrital do PSD/Porto considera que "é a candidata ideal" para que Rui Rio possa repetir a maioria absoluta. E que é "sucessora" de Fernando Gomes e Nuno Cardoso porque nunca discordou do rumo seguido. Como lhe responde?

De facto, tenho muito orgulho em não me demarcar da política de cidade de Fernando Gomes. Nuno Cardoso teve um período muito curto e difícil.

Também foi convidada para Gaia. O líder da Concelhia defende, agora, que a candidatura seja apresentada em conjunto com a sua, num sinal de aproximação entre os dois municípios, contrário à relação conflituosa entre Rio e Menezes. Concorda?

A única cidade pela qual estaria disponível para equacionar uma candidatura era o Porto. Em segundo lugar, Porto e Gaia têm de ter uma relação muito estreita e completamente cúmplice. O rio tem de ser factor de união e não de separação. Tem de haver capacidade de discutir projectos.

Um dos pecados da governação de Rui Rio é a falta de articulação com Gaia?

Não há articulação suficiente. Devem ter estratégias convergentes. A requalificação ambiental permitiu a Gaia relançar-se muito e é importante que esses benefícios sejam partilhados pelas zonas ribeirinhas dos dois lados.

Em 2009, há três eleições. O facto do PS ser Governo pode afectar positiva ou negativamente a sua candidatura?

Não faço a mínima ideia de como as coisas vão ser lidas pelos cidadãos. Gostava que a necessidade de relançar o Porto e o Norte fosse o nosso objectivo fundamental. E não o queria ver prejudicado por lutas partidárias, rivalidades ou estratégias políticas. O meu desígnio é que o país se relance, que o Norte volte a ter protagonismo e o Porto seja a capital da região. Como as eleições vão jogar aí? Espero que não se prejudiquem mutuamente, porque pode haver convergências, até ao nível das eleições europeias. Poderei não concordar com todas as linhas seguidas por este Governo, mas fez uma mudança muito grande. Mexeu em corporações e em vícios enquistados.

Há um esforço para mostrar que, no essencial, não diverge de José Sócrates?

Tenho tido uma convergência total, em termos de linhas de fundo, com a política nacional. Considero-me livre de discordar e faço-o com a maior das frontalidades, para bem do país e da região. E penso que a nossa relação é muito saudável porque não é de subserviência, é de respeito mútuo e de solidariedade nas questões verdadeiramente importantes.

"Não vejo necessidade de hostilizar o FC Porto"


É reconhecidamente adepta do FC Porto.

Sou sócia...

E é sabido que as relações entre o actual presidente e o clube são desastrosas. O que mudará se for eleita?

Fui seis anos ministra, vivi oito anos em Lisboa e fui deputada no Parlamento nacional, mas nunca precisei de deixar de me afirmar como portuense nem como portista no exercício das minhas funções. Nunca precisei de passar por metamorfoses. E não vejo necessidade de hostilizar uma entidade como o FC Porto, que prestigia o país. Quer se queira quer não, ao nível desportivo é uma imagem de excelência associada à cidade. Assim como é o trabalho feito por Sobrinho Simões, Mário de Sousa e Quintanilha, ao nível da investigação na área da Saúde. Assim como é a Universidade do Porto, a Casa da Música ou a Fundação de Serralves. Acrescentaria, aqui, o Vinho do Porto. Em Bruxelas, foi tema da exposição que fiz, para dar à minha região e cidade o máximo de visibilidade dentro do Parlamento Europeu. São marcas de excelência e têm de ser respeitadas. Quanto ao futebol, se há problemas tratem-se no espaço certo. Se o Boavista estivesse a afirmar-se no espaço europeu, teria o maior gosto em defendê-lo, e o mesmo digo em relação ao Salgueiros. Tudo o que houver de excelência na cidade, vou dependurar em torno de uma imagem da cidade que tem de afirmar-se além-fronteiras.

Projecto do Rivoli traz dinâmica à cidade


É uma opção correcta colocar a reabilitação da Baixa sobretudo nas mãos dos privados?

A iniciativa privada é um factor fundamental para relançar toda a dinâmica, mas a sua acção tem de ser regulada. É preciso haver uma articulação entre Estado e mercado. Neste momento, também não queria discutir o processo de reabilitação. Há sociedades de reabilitação urbana em várias cidades. É um política muitíssimo interessante e julgo que há grandes margens de progresso para um instrumento com imenso potencial, mas que precisa de ser refinado.

A Maioria PSD/PP tem optado pela privatização de equipamentos municipais por considerar que o privado gere melhor. Concorda?

Confrange-me que o poder local dê essa imagem, até porque, na negociação com a Administração Central para a transferência de poderes, é importante que haja uma prova de que existe capacidade de gerir. A gestão pode ser feita internamente, partilhada ou concessionada. Depende do tipo de projectos. No caso do Mercado do Bolhão, faz-me confusão que a imagem seja de uma incapacidade de gerir: ou se transfere para os privados ou para a Administração Central. Isto fragiliza-nos. Não se dá uma imagem de competência. Parece-me complicado não ter um controlo razoável e competente do modo como se gerem de alguns equipamentos importantes para a cidade.

O mesmo sucedeu ao Rivoli...

Neste caso, interessa mais ver as contas, porque o projecto traz dinâmica à cidade. O problema é ele ser o único. Mas há duas questões que é preciso equacionar: quais são as outras componentes da política cultural que deve ser diversificada e ter muitos públicos. E quanto custa, quanto se ganha e quanto se perde? Isso tem que ser clarificado.

O Porto é hoje uma cidade com menos diversidade cultural?

A dimensão cultural do Porto é uma das componentes fundamentais de uma cidade que seja uma metrópole europeia capaz de dar qualidade de vida aos cidadãos. Para mim, a cultura deve ser um fenómeno muito diversificado. É preciso clarificar o que é cultura e o que é entertenimento, o que é comercialmente rentável e aquilo que uma cidade tem de fazer e que toca, não a parte propriamente rentável, mas o questionar das coisas. O que faz com que os cidadãos pensem. E temos a virtude de no Porto ter algo que não acontece em mais nenhuma parte do país: um mecenato absolutamente único e europeu.

Reuniu-se com o bispo do Porto?

Encontrei-me com muita gente da Igreja. Pedi que falassem comigo, as portas abriram-se, tive gestos fantásticos e senti uma força quase insuspeita. Independentemente da questão religiosa, reconheço à Igreja um trabalho cívico espantoso, ao lado de entidades e de gente que se entrega ao trabalho de solidariedade e se afirma por valores, que os partidos não foram capazes de incorporar.

Perfil
Elisa Ferreira foi ministra do Ambiente quatro anos, no tempo de Guterres, com a dura tarefa de impor a co-incineração, e foi ministra do Planeamento, tendo estruturado o terceiro quadro comunitário. O Douro Património Mundial e as aldeias históricas são outras das suas marcas. Além disso, esta professora universitária, doutorada em Economia, foi vice-presidente da Comissão de Coordenação da Região Norte e da bancada do PS.