23 janeiro, 2013

Os famosos independentes


 

Estamos numa boa semana para atacar este tema dos famosos independentes que também admite que se incluam no mesmo "barco" os independentes famosos. Historicamente, esta saga dos independentes na política portuguesa (ou talvez melhor, na política à portuguesa) começou no dia em que um deputado de um determinado partido, prevendo que a sua inclusão nas listas para as eleições próximas estava em perigo, resolve tratar da sua vida noutra agremiação, aproveitando para lhe começar a fazer o jogo ainda durante o mandato que lhe tinha sido conferido na sua candidatura pelo partido que passa a renegar. Que é um termo mais suave que trair, embora seja de traição que se trata.

Dos famosos deputados independentes passamos aos famosos independentes da política, que são aquelas "almas" que se desfiliaram de um partido, ou que até nunca militaram em nenhum, mas estão sempre a postos para se juntarem a um partido qualquer, tentando preencher a sua quota de independentes. Reclamando sempre os direitos e esquecendo frequentemente os deveres.

Num sistema político e eleitoral como o português, o independente é uma figura aberrante que não faz qualquer sentido. Numa candidatura às legislativas, um independente no meio de uma lista de militantes filiados é um corpo estranho. Mesmo para aqueles que julgam ver nessa excrescência uma mais-valia, ela normalmente só dura até ao momento da eleição, desvanecendo-se de seguida. Abundam os exemplos, de Vasco Pulido Valente a Manuela Moura Guedes ou Rosário Carneiro. Ou, pior, transformando-se numa menos valia, se o independente é um profissional e começa a preparar a sua próxima eleição, na mesma categoria, mas por outra lista, logo no day after das eleições.

Já nas autárquicas o caso muda um pouco de figura, invertendo- se um pouco as situações. Numa candidatura autárquica independente já não é o candidato que faz a figura aberrante, mas sim, não raro, os seus apoiantes militantes de um qualquer partido que se juntam ao comboio independente, sem terem a decência mínima de se desfiliarem primeiro.

Na versão candidatos ou na versão apoiantes, o que os independentes gostam de dizer é que pensam pela sua cabeça e que a verdadeira democracia tem de garantir a todos liberdade de pensamento, opinião e expressão.

Contra isto nada, o problema é que não é isto que está em jogo. Porque se estivesse, não estaríamos a viver numa democracia. Quem quer intervir na política e se filia num partido, como é normal no nosso sistema pluripartidário, pode e deve continuar a pensar pela sua cabeça e a expressar livremente a sua opinião. Mas a democracia sem regras passaria a bandalheira no dia em que todas as opiniões dentro de um partido tivessem igual peso e legitimidade, independentemente do seu sufrágio maioritário ou minoritário.

Como sócio (mais do que adepto) do F. C. Porto, nem sempre concordei com todas as decisões dos dirigentes ou treinadores do meu clube. Sinto-me até à-vontade para exercer publicamente o meu direito de crítica, ainda que em função da audiência, pública ou privada, voluntariamente decida o tom e alcance dessas críticas. Mas em caso algum, por maior e mais estrutural que possa ser a minha discordância, admito dizer a mais pequena coisa, ou fazer o mais pequeno gesto, em apoio de qualquer dos adversários do meu clube.

Aliás, se algum dia o fizer (o que só admito por doença...) fica aqui dito que espero que o meu clube me expulse de imediato.

É por isso que se Rui Moreira se candidatar à Câmara do Porto e algum militante de outro partido com candidato o apoiar e não for expulso no mesmo dia, vou começar a temer que a nossa democracia pluripartidária está a caminho da maior bandalheira. [do JN]

21 janeiro, 2013

Menezes versus Rui Moreira

Com uns dias ocupado a resolver alguns assuntos de carácter pessoal, não sobrou tempo nenhum para o Renovar o Porto, e para ser franco, a disposição também não tem sido a melhor. Começa a faltar-me a paciência para lidar com tanta irresponsabilidade e vazio de carácter. 

Portugal é próspero em gente vaidosa, convencida de saberes e de honrarias que na realidade não tem, nem nunca terá, porque lhe falta o barro que molda as grandes pessoas: a têmpera. E não é só no mundo da política que falta decência, é em quase tudo. É a clonagem da mediocridade que está na moda.

A avaliar pelos apoios que tem vindo a angariar - uns, mais respeitáveis que outros -, Luís Filipe Menezes conseguiu, sem dúvida,  deixar uma imagem de força, quase consensual, na apresentação da sua candidatura à Câmara Municipal do Porto, sábado passado. Ideias não lhe faltam, e palavras ainda menos... Por isso, não lhe fica mal dizer que quer fazer do Porto "o farol do Noroeste peninsular", nem relativizar a perda da gestão do Aeroporto Sá Carneiro, desde que este integre "uma rede de aerogares internacionais com massa crítica globalmente poderosa", o problema está em saber como é que ele tenciona contornar as barreiras que o governo [que é do seu partido] lhe colocar. Sim, porque se o governo de Sócrates era centralista, o de Passos Coelho abusa.

Em abono da verdade, Menezes revolucionou Gaia completamente, e para melhor, o que é mais relevante. Acusam-no de ser despesista, mas eu pergunto, haverá alguma entidade neste país que possa atirar a primeira pedra sem esta lhe cair em cima? A começar pelo Governo, ou se preferirmos, pelo próprio Estado? Desde quando o Estado em Portugal, é bom pagador? Brincámos? Por isso, descubram lá outro argumento porque esse do despesismo tem muito que se lhe diga. Já dizia o falecido Vieira de Carvalho ex-Presidente da Câmara da Maia, que se estivesse à espera do dinheiro do Governo para dinamizar a cidade, a Maia nunca teria dado o salto de qualidade que deu. E tinha razão. No Porto, ao invés, temos um presidente poupadinho, mas não consegue fazer nada de jeito, a não ser emperrar as coisas e queixar-se.

É por isso que me custa ver Rui Moreira metido no espartilho que Rui Rio lhe colocou, quando este decidiu usá-lo como arma de arremesso, na expectativa de abortar a candidatura de Menezes à Câmara do Porto, coisa que não vai conseguir, porque Rui Rio além de estar politicamente moribundo já não tem a margem de apoio que teve no passado. Mas, Rui Moreira também não tem sabido gerir astutamente a sua imagem, porque entre muitas qualidades, tem um grave defeito, que em política não dá bons resultados: quer, como o povo diz, dar-se com Deus e com o Diabo... O estilo diplomático de Rui Moreira não se coaduna com as rupturas necessárias em política, com a definição de rumos claros, assumidos, sem hesitações. Ao deixar para o final de Fevereiro a decisão sobre a sua candidatura à Câmara, Rui Moreira está a dar ainda mais tempo a Menezes, que já lhe roubou o apoio de uma significativa parcela de figuras da vida pública nacional. Nos momentos pré-eleitorais não se pode ser esquisito, o que é preciso é conseguir-se o maior número de apoiantes, que é o que Menezes está a fazer.  

Posso estar enganado, mas o problema maior de Rui Moreira é que as suas simpatias direitistas não se enquadram lá muito muito bem no seu perfil de pessoa. Creio que a esquerda lhe ficava melhor, até porque a esquerda, a verdadeira esquerda, precisa de pessoas como ele. A não ser que eu esteja mesmo enganado... Ah, e quando falo de esquerda não estou a dizer que esse seja o lado virtuoso da política, e dos políticos. Estou apenas a dizer que, ideologicamente, a esquerda é muito mais respeitável que a direita. Ou seja, nem uma sigla chega para fazer um partido de esquerda, nem um militante de esquerda é garantia de ser homem de esquerda... Cuidado.


16 janeiro, 2013

António Costa - Quadratura do círculo



 Aqui está textualmente o que disse António Costa (transcrito manualmente):
(...) A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir.
E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável.
Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia. Portanto não é aceitável agora dizer que somos todos culpados. Podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar!
A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.
Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção.
Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. E foram as vigarices de Isaltino Morais, que nunca mais é preso. A que se juntam os casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas 16 e mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público.
Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo têm responsáveis conhecidos. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos.
Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas. Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público--privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos... Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos.
Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia."

15 janeiro, 2013

O spillover Rui Rio

Não, não tenciono enveredar pela demagogia dos comentadores políticos, e dizer que a culpa pela perda de protagonismo do Porto, e do Norte, é de todos nós, porque isso seria faltar ao respeito àqueles nortenhos que votaram conscientemente, sobretudo aos que não votaram em qualquer dos partidos do chamado arco do poder. Não enjeito contudo a oportunidade de apontar Rui Rio como o principal obreiro do esvaziamento político e demográfico da cidade do Porto, dos últimos 11 anos.

Curiosamente, essa orfandade de liderança foi precedida da prematura e infeliz saída de Fernando Gomes da C.M.do Porto, para  ocupar o lugar de Ministro da Administração Interna, em Lisboa, ele que até aí tinha sido o melhor autarca desta cidade depois do 25 de Abril de 1974.. Politicamente, Fernando Gomes pagou cara a desfeita que fez aos portuenses, ao perder para Rui Rio, em 2001, uma Câmara que noutras circunstâncias seria sempre sua, permitindo com a sua derrota, que Rio deixasse o Porto no estado em que está: mais pobre, e mais deserto.

Rui Rio, como sabemos, entrou no Porto da pior maneira, hostilizando gratuitamente um dos maiores baluartes da resistência ao centralismo lisboeta, o FCPorto, e o seu Presidente Pinto da Costa. Desta forma, mesquinha e inglória, Rui Rio com os seus conhecidos complexos de inferioridade, contribuiu para que o poder central fosse paulatinamente perdendo o respeito à nossa cidade e região, contagiando toda a sociedade civil, incluindo políticos e empresários, que passaram a olhar para o Porto como uma cidade descartável, onde já nada se decide. Para azar dos nortenhos, seguiu-se a famigerada crise económica global, facto que ainda por cima serviu que nem uma luva para o acentuar do centralismo, e para justificar o marasmo e a incompetência do próprio Rui Rio.

Tenho como certa esta convicção, mas mesmo assim continuo sem encontrar uma resposta compreensível para a indiferença generalizada que se instalou na sociedade nortenha, no seu grupo de empresários e políticos, que são os que mais influencia e poder têm para tomar iniciativas, limitando-se a fazer comentários nos órgãos de comunicação social, os quais já ninguém leva a sério. 

Mesmo assim, custa-me a acreditar que a apatia em que o Norte vive se deva apenas ao efeito difusor de Rui Rio.

12 janeiro, 2013

A televisão que o Norte precisa...

...não deve pactuar com a trapaça generalizada que se faz na concorrência, caso contrário, nunca se imporá como a televisão que ousou dar o salto por cima, de fazer a diferença pela superioridade em relação às outras. 

Falando em televisão para o Norte, não posso deixar de falar no Porto Canal, primeiro porque já existe, e depois porque já  descentraliza, já difunde [e bem] informação e  coopera com muitas cidades e povoações do Norte do país. Para vingar, será fundamental não apenas evitar a concentração excessiva no Porto, como também desenvolver uma filosofia editorial crítica e selectiva, quer com colaboradores residentes, quer com os convidados que escolher para debater todo o tipo de temas, com especial realce para as questões relacionadas com a política e o desporto.Não ser criterioso, será abrir portas à vulgaridade.

Tenho sérias reservas para pensar que este meu desiderato venha algum dia a concretizar-se, e explico porquê. A comunicação social padece do mesmo mal que afecta a maioria dos portugueses: o medo. O medo é inimigo da liberdade, e é a ausência desta que está a afectar de morte a boa informação. Os media vivem de patrocínios e audiências, mas não podem deles depender demasiado nem se subjugar a elites, ou pseudo-elites, sob pena de se auto-anularem e defraudarem as expectativas do grande público nortenho. As elites não são fiáveis, enganam. De mais a mais, agora que ninguém sabe bem quem são, e onde estão. 

Belmiro de Azevedo podia ser uma grande elite do Norte, mas já mostrou não ter perfil para isso. Belmiro quer vender, ponto. Se é Lisboa que manda, muda-se para Lisboa e faz-se-lhe a vontade. Mesmo que por cá deixe ficar a fachada e as sedes das  empresas, as decisões tomam-se na capital. Belmiro não é político, é um negociante muito "prático"... Como ele, são a maioria das pessoas do Norte com poder suficiente para se afirmarem nacionalmente. E os políticos do Norte são iguais, medianamente iguais. Mas, que diabo, ainda não andam camuflados, são simples de identificar.

Não se compreende por isso, que o Porto Canal tenha convidado recentemente para debater a orfandade de líderes no Norte um lambe-rabos, chamado Hermínio Loureiro. Custa-me a acreditar que ninguém no Porto Canal, a começar pelos quadros dirigentes, não conheça o perfil camaleónico e vincadamente centralista do autarca de Oliveira de Azemeis, para tomar a triste decisão de convidar protagonista tão imprestável para discutir um assunto tão caro aos nortenhos. Outro dia, foi Marcelo Rebelo de Sousa [outro centralista manhoso], não tarda nada, vamos ter de apanhar com o sósia menor, Marques Mendes, e o Norte só tem a perder com tais escolhas*.

Não se pode criticar no vazio. A política não é uma ciência abstracta, é uma actividade com executores, que são os políticos. A crise tem responsáveis, esses não são o povo, são quem ele elegeu para o governar. As televisões estão cheias de "politólogos" que tiveram responsabilidades políticas fracassadas, e só isso é por si mesmo, uma aberração, uma tautologia, uma deformação. O que pode o público ganhar ouvindo um, ou muitos incompetentes?  À medida que este critério editorial absurdo se repete transmite-se para a opinião pública a ideia [erradíssima] de que a importância das pessoas vem do estatuto e não do uso que se lhe dá.

Gostava imenso que o Porto Canal fosse o canal pioneiro a perceber que o caminho para o sucesso não pode ser esse e que por vezes é preciso mesmo aceitar grandes desafios e fazer rupturas. Romper com a mesmice, diga-se, nem sequer é grande revolução, mas que urge fazê-lo, urge. 

* Há que dar oportunidade a quem não tem currículo governativo, a gente respeitável, e com bom "cadastro"... Sim, porque a esse nível [governativo], poucos se podem dar à vaidade de imaginar que governaram bem, que sabiam o que estavam a fazer. Para si próprios, talvez soubessem, para o país, seguramente que não. 

10 janeiro, 2013

O bom ditador

Charlie Chaplin























Penso não me enganar se disser que nos últimos 50 anos nunca o nosso país passou por uma crise tão violenta como a actual. Também não imagino que alguém com idade suficiente para isso, possa desmentir esta forte convicçao. Mas, aquilo que para mim é realmente dramático, é não aparecer, no meio desta grande confusão, ninguém capaz de fazer a diferença pela positiva. Gente para dar pareceres sobre o que sabe, e o que não sabe, não falta, basta carregar nos botões do comando da tv nas horas de maior audiência e vêmo-los às dezenas, em todos os canais. É só escolher. Mas, intelectualmente, são todos iguais. Alguns deles [muitos], até foram responsáveis pela actual situação económica e social, que é o que me tira mais fora do sensato...

Pois se isto é uma Democracia, então eu não a quero para nada. Mas, também não quero o regresso ao passado, para satisfazer os apetites secretos de muitos que nunca chegaram a digerir a revolução de Abril e que andaram todos estes anos a engolir sapos, boiando consoante o sabor das correntes, sem contudo deixarem de tirar partido do regime. De certa forma, hoje até se sentem mais confortáveis, porque fazem agora com a prosápia da democracia, aquilo que faziam outrora pela repressão da PIDE. 

Não acredito em Messias para reconstruir Portugal, mas quando um país inteiro não é capaz de gerar um grupo de Homens eticamente superiores e de grande visão política para o Governar a sério, dá-me vontade de sonhar que é possível acreditar em bons ditadores. Não porque seja contra a repressão aos falsários e aos traidores que nos têm desgraçado a vida, porque essa repressão defendo-a sem piedade, mas porque atrás de um bom ditador pode sempre estar um ditador absoluto. 

Há um sentimento evidente de cansaço instalado na população que advem da acumulação de enganos e traições com que os governantes a tem presenteado. Os debates, de tão repetitivos, já não convencem ninguém, nem servem para nada, a não ser para aumentar a revolta contra quem os promove. O país já não existe, resta o romantismo de pensarmos que somos um país. Não temos líderes, a pobreza económica, alastrou-se ao espírito e aos ideais sociais. Temos demasiados fanfarrões, candidatos a mais do mesmo, gente fútil, e os garotos que outros levaram ao Governo, agradecem. Ninguém [nem os próprios governantes] sabe quando e como isto vai terminar, e as expectativas são frouxas, para não  dizer pessimistas. Isto, dizem, é  Democracia...Já não sei no que pensar. O que sei, é que não acredito num país que deixa sem castigo os grandes criminosos e pune severamente os mais desfavorecidos. Olho para o Presidente da República e para o Governo e sinto vergonha de os saber portugueses. Por que será que eles não emigram? 
  

Anticonstitucionalissimamente

1. Esta é, salvo melhor pesquisa, a palavra mais longa do dicionário português. Contém a nossa idiossincrasia lunar: é complexa, rebuscada, negatória, adverbial e única. Está-nos no sangue, na história: chumbar quem, anticonstitucionalissimamente, tentar mudar o paradigma sem uma revolução. Depois é tudo legítimo. Mas, previamente, sem sangue, não se consegue ajustar os meios à realidade.

É verdade que este Governo é uma desmoralização permanente pela falta de ética, rigor e sentido de Estado. Mas não pode ser pela Constituição que os atiramos ao mar. Deveria ser pela incompetência pura e simples e assumida através da única organização que tem poder para alterar a situação: o interior do PSD. O CDS, já sabemos, está de acordo com o fim da tripla Passos/Relvas/Gaspar.

2. A privatização da ANA continua a mexer, sempre na mesma direção. O Governo transferiu 276 milhões de euros para a Câmara de Lisboa de forma a vender a empresa de aeroportos com os terrenos da Portela lá dentro. Questão: as autarquias do Norte, Faro, Açores ou Madeira não tinham quaisquer direitos para serem ressarcidos? Mas mais: numa altura em que não há dinheiro para nada, os 276 milhões foram pagos já a 31 de dezembro, muito embora os franceses da Vinci só paguem a compra da ANA em prestações durante nove meses. Por fim, e cereja no bolo, a Câmara de Lisboa fez o que tinha a fazer: entregou o dinheiro todo à Banca para amortizar dívidas. Mas não é notável que tudo, mas tudo, vá sempre desaguar à Banca?

3. Domingos Azevedo, presidente da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas, é há muitos anos o homem que diz, com palavras certeiras e sotaque a condizer, verdades nuas e cruas sobre as decisões das Finanças. E as declarações dos últimos dias são maravilhosas. Vintage.
Domingos disse anteontem a Gaspar e à sua equipa de doutorados, pós-doutorados, MBA e NBA das Finanças que eles só dão "barracada". Mas quem quiser ouvir o vídeo, basta ir a SIC Notícias.pt. "Não é suficiente criar uma lei para obrigar as empresas a pagar os salários com duodécimos quando elas não têm dinheiro para o fazer"... "Barracada".

A equipa de Gaspar fez uma coisa ainda mais perversa neste tema: tem informação privilegiada e vai fazer os cálculos internos para pagar aos funcionários públicos já com os duodécimos. A restante economia privada... que pague agora com valores errados, que depois corrige em duplicado em fevereiro. São milhões de horas extras de trabalho, em todo o país, para desfazer trapalhadas das Finanças - e bastaria que o Governo fizesse as coisas a tempo e horas, como se supõe num país europeu, para evitar este desgaste. A medida dos duodécimos faz surgir também um pequeno monstro contabilístico no horizonte: no final de fevereiro as tesourarias têm de se preparar para mais 20% de encargos salariais, descontos e retenções na fonte. E daí para a frente 10% a mais todos os meses (com exceção dos meses de pagamentos de subsídios).

Sim, são muito bonitos aqueles programas de incentivo ao empreendedorismo de que é moda gostar-se, mas falem com os jovens (ou não jovens) empresários de pequenas empresas e verão o que lhe dizem: o problema não é o negócio, não são as 10 ou 15 horas de trabalho diárias. Às vezes nem é só o pagar-se impostos a perder de vista. O problema é o inferno gerado pelas Finanças nas sistemáticas alterações a tudo e mais alguma coisa: as constantes mudanças nos sistemas de faturação, as exigências com as mais mesquinhas questões, como por exemplo passar-se a informar de véspera as Finanças da necessidade de se transportarem mercadorias - se não se tiver uma guia autorizada é-se multado com possível apreensão de mercadoria. Ou ainda as amortizações que mingam de ano para ano, já para não se falar dos lucros altíssimos a quem tem lucros ou as penalizações fortes a quem tem prejuízos... Esta gente no Terreiro do Paço não faz a mínima ideia como incentiva tantas pessoas a desistir diariamente de continuar com os seus pequenos negócios. E a prova da distância face à realidade é que ninguém, hoje, 10 de janeiro, consegue fazer ideia de qual é realmente o seu salário... Os que ainda o têm.

[do JN]

08 janeiro, 2013

Para memória futura, a querida RTP



Este, foi o momento mais digno do programa Trio de Ataque da RTP, ainda no ar, agora com a participação de Miguel Guedes, Rui Oliveira e Costa e um sabujo qualquer, cujo nome me faz lembrar o Gobern(o): a retirada categórica de Rui Moreira.

Só lastimo que Miguel Guedes não tenha seguido o exemplo de Rui Moreira, porque já lhe deram muitas razões para isso. Na RTP do serviço público é assim, conspira-se, e pouco mais.

RTP, a tal do serviço público...



Cá está ele de novo, o "excelente" jornalismo que se faz em Portugal. Como podem constatar, desta feita é a própria RTP, a tal que eles dizem prestar serviço público, que não perde uma oportunidade para fazer do FCPorto um clube de arruaceiros que destroem tudo por onde passam. Atentem bem como a notícia foi apresentada.

Começaram por dizer que "os adeptos benfiquistas cuspiram sobre o guarda redes dos dragões e o hoquista reagiu" [e quem não reagia em tal situação, depois do histórico de agressões, naquele recinto?*].

Ou seja, A RTP procurou, como é habitual, aliás, enfatizar o facto de Edo Bosch ter reagido, e não a cuspidela que originou a sua reacção, ou até a deficiente protecção da polícia. A seguir, dizem que o guarda-redes terá atingido um adepto, quando as imagens mostram perfeitamente que ele não chega sequer a tocar-lhe e que nada de grave sofreu, até porque voltou a aparecer cheio de "coragem" [ver no vídeo aos 37 segundos]para reatar a provocação. Depois, servem-se do Record - que é a coisa mais ordinária que alguma vez um jornal pariu - como fonte para dizer que o adepto atingido pelo E.Bosch terá sido "assistido" no local, tudo isto para dar uma ideia trágica da ocorrência e fazer do guarda redes portista o mau da fita.

Por fim, de forma acrítica e desleal, transmitiram o comunicado do Benfica, como se fosse algo de respeitável, uma espécie de artigo da Constituição, sem filtrar o facciosismo nele inscrito, ignorando de novo as cuspidelas que levaram à reacção defensiva, mas inofensiva de Edo Bosch.

A intenção - é como já vem sendo tradição da RTP - lançar areia para os olhos dos mais distraídos, e deixar nos espectadores o anátema da violência e do mau comportamento em tudo que cheire a FCPorto. É tudo, menos inocente.

Aqui chegados só me ocorre dizer uma coisa: fdp!

* A este propósito, faço questão de recordar que coisa grave, foi sim a agressão cometida sobre um ex-jogador de hóquei do FCPorto, não vão muitos anos, naquele mesmo recinto, por um adepto benfiquista que o levou ao Hospital com uma fractura no crâneo e isso foi desvalorizado pela RTP. Assim como o comportamento do treinador de Basquéte do Benfica que em pleno Dragãozinho se virou para o público com gestos  simulando um golpe de navalha na garganta, e que a querida RTP, a tal do serviço público de merda, fez vista grossa. Se fossem todos despedidos eu fazia uma festa. Juro!

Também é assim a nossa administração local

 

ENQUANTO ASSISTIMOS, PACATAMENTE, AO FECHO DE INÚMERAS JUNTAS DE FREGUESIA, GRANDE PARTE DELAS, O PRIMEIRO E ÚLTIMO REDUTO DE APOIO ÀS POPULAÇÕES, PODEMOS CONTEMPLAR ESTES VERDADEIROS ‘MONUMENTOS’ REPRESENTATIVOS DA MUITA INEFICIÊNCIA ADMINISTRATIVA QUE TODOS NÓS TEMOS QUE PAGAR.

Os elementos mencionados no quadro acima representam, apenas, 1.473 funcionários de um universo global da CM Lisboa de 9.956 funcionários, dos quais, 2.315 são Técnicos Superiores e dirigenteS. 

[do Blogue REgionalização]


Nota do RoP:
DEVEM SER COISAS COMO ESTAS QUE FOMENTAM A COESÃO NACIONAL E QUE REFINAM O SENTIDO DA PÁTRIA AOS PORTUGUESES...



06 janeiro, 2013

Mas que raio de jornalismo é este?

Como não gosto de criticar sem fundamentar, volto ao tema do meu post anterior, para que não existam dúvidas quanto às razões do meu desapontamento em relação ao mau jornalismo que se continua a fazer em Portugal. O curioso, é que são os próprios jornalistas e as suas incorrigíveis incongruências, quem mais  fortalece os meus argumentos.

Vejamos então porque falo assim. Na página dedicada à política do JN de hoje - que lamentavelmente não está disponível na Net -, que usou como título de um artigo da autoria da jornalista Ana Carla Rosário, uma frase do deputado Manuel Pizarro ["Porto Nunca Se Ajoelhou Ante Quem o Quer Diminuir"], aparece em rodapé, juntamente com a respectiva foto, a opinião de 6 figuras públicas, entre as quais a do conhecido psiquiatra do Porto, Júlio Machado Vaz, também a do socialista Augusto Santos Silva, ex-Ministro da Defesa, que é afinal a peça que está a mais neste grupo de apoio ao Movimento "Fazer Ouvir Porto" da iniciativa do também socialista Manuel Pizarro.

Augusto Santos Silva não só é uma peça a mais, como é também o elemento que descredibiliza o artigo em questão, e talvez o próprio Movimento, porque todos sabem que este senhor, sendo natural do Porto, quando estava no Governo, foi um dos que desprezou todos os problemas de índole regional e regionalista, com o estafado pretexto de "não ser oportuno", engrossando a fileira dos tais protagonistas político-partidários nortenhos que batem a pala aos senhores do Terreiro do Paço a que se referiu o director-adjunto do JN, Fernando Santos, aqui,  e que pelas mesmas razões, mereceu a minha crítica, aqui. Haja memória, e coerência, é o que se lhes pede! 

Afinal de contas, se a ideia é, como eles gostam de dizer,  credibilizar a informação, porque é que em vez de ignorarem e votarem ao silêncio aqueles que traíram o povo, prometendo uma coisa, quando estavam na oposição [e a cena repete-se com este fidalgo], e fazendo outra, quando chegam ao Governo, publicam as suas opiniões? Por quê, se estão a difundir a opinião de um simples aldrabão? E para quê, se depois andam para aí a criticá-los ambiguamente, sem terem a coragem de lhes citar os nomes? Assim é fácil, qualquer badameco critica, mas não deixa de ser uma grande hipocrisia e também uma punhalada nas costas infligida aos poucos jornalistas que ainda honram a profissão.

Depois, armem-se em vítimas e digam que é um exagero culpar os jornalistas de certos abusos. Têm culpa, sim senhor, e não é pouca! Isto, já para não falar dos pasquins desportivos, não é...

PS- Enviei este post por e-mail a Ana Carla Rosário. Já sei que não me vai responder. Por que será?

04 janeiro, 2013

ANA, grávida da nova Lisboa


Ah, sim, o discurso de Cavaco. Talvez, talvez, depende, "eu avisei". Sempre tarde. Adiante. Falemos de coisas concretas e consumadas: o casamento da ANA, uma historieta que tem tudo para sair muito cara. Passo a explicar: a ANA geria os aeroportos com lucros fabulosos para o seu pai, Estado, que, entretanto falido, leiloou a filha ao melhor pretendente. Um francês de apelido Vinci, especialista em autoestradas e mais recentemente em aeroportos, pediu a nossa ANA em casamento. E o Estado entregou-a pela melhor maquia (três mil milhões de euros), tornando lícita a exploração deste monopólio a partir de uma base fabulosa: 47% de margem de exploração (EBITDA).

O Governo rejubilou com o encaixe... Mas vejamos a coisa mais em pormenor. O grupo francês Vinci tem 37% da Lusoponte, uma PPP (parceria público-privada) constituída com a Mota-Engil e assente numa especialidade nacional: o monopólio (mais um) das travessias sobre o Tejo. Ora é por aqui que percebo por que consegue a Vinci pagar muito mais do que os concorrentes à ANA. As estimativas indicam que a mudança do aeroporto da Portela para Alcochete venha a gerar um tráfego de 50 mil veículos e camiões diários entre Lisboa e a nova cidade aeroportuária. É fazer as contas, como diria o outro...

Mas isto só será lucro quando houver um novo aeroporto. Sabemos que a construção de Alcochete depende da saturação da Portela. Para o fazer, a Vinci tem a faca e o queijo na mão. Para começar pode, por exemplo, abrir as portas à Ryanair. No dia em que isso acontecer, a low-cost irlandesa deixa de fazer do Porto a principal porta de entrada, gerando um desequilíbrio turístico ainda mais acentuado a favor da capital. A Ryanair não vai manter 37 destinos em direção ao Porto se puder aterrar também em Lisboa.
Portanto, num primeiro momento os franceses podem apostar em baixar as taxas para as low-cost e os incautos aplaudirão. Todavia, a prazo, gerarão a necessidade de um novo aeroporto através do aumento de passageiros. Quando isso acontecer, a Vinci (certamente com os seus amigos da Mota-Engil) monta um apetecível sindicato de construção (a sua especialidade) e financiamento (com bancos parceiros). A obra do século em Portugal. Bingo! O Estado português será certamente chamado a dar avais e a negociar com a União Europeia fundos estruturais para a nova cidade aeroportuária de Alcochete. Bingo! A Portela ficará livre para os interesses imobiliários ligados ao Bloco Central que sempre existiram para o local. Bingo!

Mas isto não fica por aqui porque não se pode mudar um aeroporto para 50 quilómetros de distância da capital sem se levar o comboio até lá. Portanto, é preciso fazer-se uma ponte ferroviária para ligar Alcochete ao centro de Lisboa. E já agora, com tanto trânsito, outra para carros (ou em alternativa uma ponte apenas, rodoferroviária). Surge portanto e finalmente a prevista ponte Chelas-Barreiro (por onde, já agora, pode passar também o futuro TGV Lisboa-Madrid). Bingo! E, já agora: quem detém o monopólio e know-how das travessias do Tejo? Exatamente, a Lusoponte (Mota-Engil e Vinci). Que concorrerá à nova obra. Mas, mesmo que não ganhe, diz o contrato com o Estado, terá de ser indemnizada pela perda de receitas na Vasco da Gama e 25 de Abril por força da existência de uma nova ponte. Bingo!

Um destes dias acordaremos, portanto, perante o facto consumado: o imperativo da construção do novo grande aeroporto de Lisboa, em Alcochete, a indispensável terceira travessia sobre o Tejo, e a concentração de fundos europeus e financiamento neste colossal investimento na capital. O resto do país nada tem a ver com isto porque a decisão não é política, é privada, é o mercado... E far-se-á. Sem marcha-atrás porque o contrato agora assinado já o previa e todos gostamos muito de receber três mil milhões pela ANA, certo? O casamento resultará nisto: se correr bem, os franceses e grupos envolvidos ganham. Correndo mal, pagamos nós. Se ainda estivermos em Portugal, claro.

03 janeiro, 2013

Fernando Santos, não será outro Calimero?

O artigo de Fernando Santos que ontem aqui reproduzi e que prometi comentar, mais não é do que um fait divers inconsequente, pincelado de hipocrisia, igual a tantos realizados por este e outros jornalistas, venham eles da imprensa, da rádio, ou da televisão.  

Senão vejamos: em primeiro lugar, a máquina centrifugadora do centralismo não é coisa de agora, apenas se tem intensificado na exacta medida que a indiferença e o choradinho dos políticos nortenhos tem aumentado. Apesar disso, a comunicação social nortenha também não está inocente nesse capítulo, porque em vez de insistir na temática do centralismo/regionalização, permite-se criar longos períodos de jejum, sem dizer nada sobre o assunto, a não ser umas lamechices, como é, aliás, o próprio artigo de opinião do director-adjunto do JN. Em segundo lugar, sustentam a argumentação influenciados por discursos superficiais propalados por outros protagonistas, como está agora na moda, de chamar choramingas aos políticos nortenhos, sem terem a coragem de apontar os nomes e partidos, e de os responsabilizar. Pelo contrário, convidam-nos compulsivamente para opinar sobre temas dos quais foram responsáveis pela negativa, sendo inclusivé padroeiros e principais dinamizadores da perda de protagonismo do Porto e do Norte, junto do Terreiro do Paço.

Não basta por isso dizer que o Norte precisa de dar um murro na mesa, ou citar o exemplo de Pinto da Costa para espicaçar a apatia comum, é preciso apresentar exemplos concretos, e um deles podia passar por marginalizar os tais "protagonistas ocasionalmente abespinhados" de que fala Fernando Santos, que têm rosto e nome próprios... Nesta perspectiva, Fernando Santos daria um passo importante se procurasse, por exemplo,  convencer o patrão Joaquim Oliveira, a recuperar a génese nortenha que o JN que já teve no passado - num regime que nem sequer primava pelos ideais democráticos -, sem ter de emitir edições especiais para o Sul, e assumir a origem nortenha do jornal, naturalmente, sem complexos, nem subserviências. A menos que Fernando Santos queira continuar a imitar "os figurantes político-partidários do Norte, que batem a pala aos decisores do poder na capital, aspirando a dele fazer parte...".

Por este andar, a conunicação social acabará mesmo por perder a pouca credibilidade que lhe resta, pois pouca influência terá  sobre os cidadãos [se insistir em vender-lhes meias-verdades], que apesar da sua indolência, começam a abrir os olhos.


02 janeiro, 2013

A choraminguice do Norte



Assemelhando-se a uma centrifugadora, o Poder Central instalado no Terreiro do Paço e zonas subjacentes ao Tejo gera um fenómeno cíclico no Norte: a choraminguice mascarada de (pseudo) revolta. A perda de influência da Região Norte e concomitante desagregação da coesão nacional é bem evidenciada por todos os indicadores económicos, sociais ou culturais das últimas décadas. Dá-se o caso, no entanto, de o Norte não caprichar num posicionamento reivindicativo suscetível de pôr em sentido os decisores adeptos da macrocefalia.

Os dados acabam, aliás, por serem viciados....

A Região Norte, mais do que marcar uma posição de influência decisória tendo por base méritos próprios, a todos os níveis, tem-se posicionado como um pedinte à espera da distribuição do chamado bodo aos pobres.

Sim, há injustiças notórias a justificarem uma reação enérgica - incluindo manifestações de desagrado pelo destrato. Mas convém não alijar responsabilidades próprias e desconfiar da benignidade de alguns protagonistas ocasionalmente abespinhados.

O Norte é vítima de apetites centralistas mas as insuficiências próprias facilitam o abocanhar. E a inexistência de quem lhe dê dimensão e peso político nacional agrava o problema.

A última década é paradigmática. Os figurantes político-partidários do Norte têm andado mais preocupados em bater pala aos decisores do poder da capital, aspirando a dele fazerem parte, do que em vincarem um estatuto acima do reservado aos políticos anões. E o fechamento, tipo concha, é mais um atavismo do que virtude.

A Região Norte precisa de dar um murro na mesa, mas o impacto só será garantido se protagonizado por alguém cuja dimensão não se limite a fronteiras regionais e se disponha a não ter preocupações de agradar à capital e aos mordomos dos privilégios, sejam eles traduzidos em fundos comunitários ou, de modo mais banal, pelo cirandar por restaurantes e discotecas alimentadoras de uma socialite postiça mas bem parecida.

Uma nova metodologia a norte está, de alguma forma, facilitada pela existência de um exemplo a copiar: o do F.C. do Porto. Exagero? Não! Graças à visão estratégica de um dirigente, Pinto da Costa, o F.C. do Porto investiu na competência própria, quebrou a cerviz ao poder instalado há décadas e deu-lhe xeque-mate! Teve arte e engenho para se tornar numa marca internacional a partir da região. Pinto da Costa recusou andar de chapéu na mão a pedir batatinhas à postura dos defensores do Terreiro do Paço e zonas satélites - e obteve resultados.

Aí está: também na dimensão política o Norte precisa de um Pinto da Costa! Até lá continuará triste, enxovalhado e agradecido nas esmolas. Entregue, sobretudo a partir da cidade do Porto, a quem tem trocado a afirmação da região pela preocupação de agradar às gentes da capital.

[do JN]

Nota do RoP:

Sobre este artigo, e a autenticidade da fonte, tenciono escrever umas coisas assim que tiver disponibilidade.  
 

21 dezembro, 2012

Prefiro Manoel de Oliveira

Tenho idade que chegue para saber que para triunfar na vida a honradez de um Homem é um bem que pode obstaculizar o intento.

Sem nos darmos conta, continuamos a culpar a vida pelos nossos erros, quando até certo ponto, cabe a cada qual evitá-los e procurar fazer o necessário para que não se repitam. Paradoxalmente, há quem goste de enfatizar os progressos da humanidade e ao mesmo tempo comparar a vida das pessoas à dos animais selvagens, sem perceber quão radicais e opostos são estes pontos de vista. Tal como na selva, dizem, na sociedade humana, vence sempre o mais forte [seja lá o que eles entendem por forte]... Esta é uma ideia particularmente enraizada nos Estados Unidos, e que o mundo depressa absorveu, tão poderosa é a máquina de propaganda deste país. O grosso das pessoas absorve tudo, principalmente o lixo ideológico, e até a violência.

Felizmente que as imagens não mentem, e ainda podem provar o que atrás afirmei de forma incontestável. Hoje, com a profusão de canais por cabo, o cinema deve ocupar cerca de 90% (ou mais) de toda a programação televisiva, e a percentagem de filmes americanos também andará lá perto disso. Faça-se o teste, e veja-se quantos desses filmes é possível vermos sem contemplar perseguições, corridas loucas com carros de polícia,  ruídos irritantes de sirenes, assassinatos às dezenas, cansativos chiar de rodas, tiros, facadas, explosões "espectaculares", corpos decepados, derrapagens, heróis e assassinos, enfim, o sangue, a violência. 

É deste tipo de "arte", em suma, que se alimenta a indústria cinematográfica americana. E é a que predomina. Justificação? Simples! Vende, meus senhores, vende! A violência vende, e se vende, fim de papo! Haverá argumento mais nobre, mais "forte"? Aqui chegados, colocados perante o peso do dinheiro, todo o pensamento se esgota e não há lugar para a sensatez . Mesmo assim, ainda há quem se espante com os massacres que alguns seres mais vulneráveis vão provocando por esse mundo fora, particularmente na América. Pergunto: não será também esta a lógica "comercial" que inspira os nossos programas e os jornais "desportivos"? Talvez o Cavaco possa responder, esse grande homem, esse estadista ímpar... 

Não queria extrapolar deste cenário para a vida comezinha de muita gente, de todas as profissões, mas o critério que explica a cobardia, a traição e a falsidade instalada na nossa sociedade, é exactamente o mesmo da cinematografia americana: o dinheiro.

Prefiro Manoel de Oliveira. Ao menos a ele ninguém pode acusar de ter semeado o ódio e a violência com a sua arte.

20 dezembro, 2012

Revoltas contidas

O Arquitecto Gomes Fernandes, ex-vereador da Câmara Municipal do Porto, incomodado com a notícia da transferência do programa Praça da Alegria para a sempre "amiga" capital, termina a sua coluna de hoje no JN, desta maneira: " Falta uma Voz que seja a síntese de muitas vontades e bastantes 'raivas acumuladas' pelo desprezo com que aqueles que nos governam e seus acólitos a partir de Lisboa, têm demonstrado pelo Norte e sua cabeça, a Invicta e Honrada cidade do Porto. Convenhamos que isto é demais, está a passar das marcas e tem de acontecer o tal 'espirro' que faça 'estremecer' Lisboa».

Na rúbrica de opinião do mesmo jornal, Jorge Fiel chamava intrujão ao Governo por este não ter honrado a palavra do anterior Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, que tinha garantido que o corte ao financiamento público à Casa da Música seria de 20% , e não de 30%, como agora parece ter sido decidido. Logo abaixo na mesma página, é Daniel Deusdado quem arrasa de alto a baixo o actual Governo, alargando as críticas ao acervo de discriminações negativas com que o centralismo tem brindado o Porto,  e todo o Norte de um modo geral.

Eu próprio estou cansado de criticar duramente o racismo político usado contra a nossa cidade e região, tanto pelo governo de Sócrates, como pelo de Passos Coelho, e não sinto que essa liberdade democrática tenha surtido qualquer efeito prático para alterar a situação. Todos estamos cansados de ser mal tratados, que é uma condição muito mais grave e abrangente do que sermos simplesmente mal governados.

Fala muito bem o arquitecto Gomes Fernandes, quando reclama dos nortenhos uma reacção mais forte, capaz de fazer estremecer Lisboa. Eu subscrevo a vontade. Mas para que isso aconteça, teria de haver outro tipo de comportamento. Devíamos começar por não dar ouvidos àqueles que, apesar de reconhecerem a gravidade da situação, não deixam de nos aconselhar a manter a mesma brandura cívica, alegando que substituir agora o governo não iria resolver nada, profetizando todo o tipo de calamidades e desgraças se tal acontecesse, mas por outro lado esquecendo de dizer o que acontecerá aos governantes caso os fracassos se repitam, e nos deixem daqui a uns tempos numa situação ainda mais insustentável que a actual.

É preciso interpretar correctamente a actuação dos governantes, porque isso não pode resumir-se candidamente a questões de competência ou incompetência. E estes governantes, não são apenas incompetentes, são potenciais criminosos, e para os criminosos que andam à solta, é preciso fazer duas coisas: primeiro prendê-los, e depois julgá-los num tribunal constituído pelos juízes mais reputados que o país ainda conservar.

    

18 dezembro, 2012

Hospital de São João tem 30 cirurgiões que nunca foram ao bloco operatório


 

Cada cirurgião do Hospital de S. João, no Porto, faz em média uma cirurgia por semana e há 30 que que nunca foram ao bloco operatório, explicou, segunda-feira à noite, o presidente do Conselho de Administração do São João, em declarações à TVI.
 

Hospital de São João tem 30 cirurgiões que nunca foram ao bloco operatório
António Ferreira (Administrador do H.S.João)    


 

"Cada cirurgião faz em média uma cirurgia por semana", afirmou o presidente do Conselho de Administração do São João, António Ferreira. "No Hospital de São João, 30 cirurgiões nunca foram ao bloco operatório", revelou, em entrevista ao programa "Olhos nos Olhos", na TVI24.

"O cirurgião que fez maior número de cirurgias por ano no hospital fez 543, fez 12 por semana. O cirurgião com menor número de cirurgias, e que fez cirurgias, fez duas. Há 30 que nunca foram ao bloco", revelou António Ferreira.

"A taxa de absentismo é de 11%, isto significa que estão ausentes todos os dias, dos 5600 funcionários, cerca de 660", disse o presidente do Conselho de Administração do São João.

Nota de RoP:
Só assim se explica por que é que a lista de espera para as cirurgias marcadas pelos Centros de Saúde é interminável e os prazos de espera são irresponsáveis. 
 
 

Pedro Passos Coelho, o novo Frei Tomás

Este podia bem ser Pedro Passos Coelho
Quando Pedro Passos Coelho declarou textualmente que «alguns, que hoje recebem pensões não descontaram na proporção das pensões que recebem», provavelmente terá havido no local um qualquer ciclone tropical, porque, ao que parece, além do Chefe do Governo não devia encontrar-se ninguém por ali [um repórter, por exemplo] para lhe perguntar se ele estava a referir-se à classe política, e às várias pensões de reforma acumuladas que lhes foram atribuídas, nalguns casos, com pouco mais de 50 anos de idade. Ninguém se lembrou de lhe perguntar se a natureza das suas declarações era suficientemente séria para as decretar a ele próprio e a toda a equipa governativa, ou se era mais uma boca demagógica igual a muitas que tem vindo a proferir.

Mas não, a imaginação dos jornalistas não chega a tanto, porque a um 1º. Ministro parece que é proibido colocar questões "populistas". De mais a mais, agora, que a RTP Porto está num processo de limpeza, para corporizar o famoso efeito difusor invertido, muito do gosto dos governos centralistas [ leia-se: parasitas].

Enfim, temos de nos resignar. Não podemos mais pensar que os paizinhos destes garotos, precoce e estupidamente promovidos a elites, alguma vez lhes disseram que para nos darmos ao respeito temos de começar por nós, aplicando à nossa vida aquilo que propomos como patriótico aos outros. Não é a pregar como Frei Tomás que se ganha credibilidade.

17 dezembro, 2012

O de cima diz bem do de baixo



Ao ver que não o ia conseguir domesticar, Lisboa recebeu-o com pedras. A campanha suja contra o bastonário eleito pelos advogados da província decorreu com o profissionalismo que Fernando Gomes testemunhou quando teve a fraqueza de trocar o lugar de melhor presidente da Câmara que o Porto teve por um gabinete subalterno na esquina do Terreiro do Paço, onde Manuel Buíça feriu de morte a Monarquia.

A campanha falhou no que estava programado ser o ato final da lapidação, o tribunal da TVI onde a tonta Moura Guedes teve a imprudência de chamar bufo a um homem que após ter sido preso pela Pide, em Coimbra, aguentou como um herói as humilhações, os três dias e três noites de interrogatórios e os 34 dias no isolamento, em Caxias.

O arraso que o bastonário deu à apresentadora televisiva, que por ter a boca maior que o cérebro está sempre a tentar dar passadas maiores que a perna, é um dos meus vídeos favoritos (a par do dos golos do 5-0 que o meu Porto deu ao Benfica do Marinho), que de vez em quando revisito no YouTube. É um espetáculo de cidadania.

Tenho muito orgulho em ser amigo do Marinho, de quem fui colega durante quase 20 anos, na Redação do "Expresso", quando ele usava o nome António Marinho.

Um das coisas que mais admiro nele é que ao longo das suas sucessivas reencarnações - universitário revoltado com a ditadura, professor, advogado, jornalista e bastonário - nunca teve medo de dizer o que pensa em voz alta e de pertencer aquele raro grupo de pessoas que quando lhe fazem uma pergunta a sua resposta não tem por objetivo agradar a quem a fez.

Com o Marinho e Pinto, bastonário reeleito por maioria absoluta e com a maior votação de sempre, estive apenas umas duas ou três vezes, a última das quais, há quase dois anos, terminou à mesa, à volta de um leitão, no Albatroz.

Mas, para além de coabitarmos um vez por mês esta página do nosso JN, vou acompanhando e aplaudindo à distância o seu combate por uma justiça mais barata, contra a soberba dos juízes, que se julgam donos dos tribunais, e um Parlamento que se tornou numa central de tráfico de influências, onde os deputados podem ter clientes com interesses nas leis que eles fazem.

Gostei da frontalidade com que avisou os estudantes para fugirem do cursos de Direito, evitando assim que a massificação acentue a proletarização e degradação da classe. E assino por baixo quando ele, de sobrolho carregado, denuncia uma Justiça injusta, cheia de silêncios e mentiras, que se curva perante os ricos e poderosos - e maltrata os pobre e desprotegidos.

Mas o que mais tenho a agradecer ao meu amigo Marinho é ter desmentido a fatalidade dos provincianos, como nós, se deixarem corromper pelo luxo e prazer - o cheiro a canela... - de Lisboa, tão bem caricaturado por Camilo, em "A queda de um anjo", na pessoa do deslumbrado fidalgo minhoto Calisto Elói.*

Nota de RoP:

* Este último parágrafo é que me parece não corresponder lá muito à realidade. Faz-me recordar - só para citar um exemplo - o regionalista "convicto" Carlos Abreu Amorim, que agora, que aderiu ao PSD, já usa a cassete da "inoportunidade" do momento, para justificar o abandono da causa regionalista, provando que na política o oportunismo não conhece excepções. São de facto todos iguais.  Uma merda. 

14 dezembro, 2012

A Inquisição, ainda vive, e está cheia de saúde

A Igreja "progride" em sintonia com a Direita
Confissão ideológica: não professo a fé assente em preceitos religiosos. A minha única fé, se assim posso dizer, é o instinto de sobrevivência que alimento o melhor que posso e sei, com optimismo moderado. Respeito, no entanto, o(a)s que acreditam em alguém ou algo divino que pensem tratar-se de um Deus. Há pessoas, a quem a fé doutrinal resulta bem, que as faz sentir mais felizes, e ajuda a resolver muitos problemas existenciais. Por isso, só tenho de respeitar. Só não aprecio mesmo, são as beatices.

Desde criança, sem que meus pais exercessem qualquer influência nas minhas opções religiosas, olhei sempre para a Igreja e para os padres com bastante cepticismo e desconfiança. As minhas duas irmãs fizeram a comunhão solene de livre vontade, eu não quis, e os meus pais fizeram muito bem em não me contrariar. Sinceramente, acho que não perdi nada de importante.

Talvez seja pelo que atrás escrevi que não me surpreende o conservadorismo de um grande número de sacerdotes e o modo fanático como defendem a sua comunidade. Felizmente, há excepções, há padres que conseguem passar uma imagem autêntica na vocação de amor aos outros, e nas suas preocupações com os problemas sociais. O padre Américo, foi um desses homens. Mas há mais, e alguns deles ainda estão entre nós, e em actividade. Comparativamente, com o todo, os melhores são mesmo excepções.

Sempre que há notícias de pedofilia no seio da Igreja, os mais altos responsáveis saem logo a terreiro tomando a defesa dos acusados sem antes terem o cuidado de averiguar se elas são fundamentadas, como se fossem naturalmente uma casta de impolutos, acima de qualquer suspeita. Nesse aspecto, não diferem muito dos políticos, o que não é propriamente uma honra. Além disso, atiram-se como cães raivosos àqueles que ousam contrariar as suas doutas opiniões. Continuam com tiques que fazem lembrar a Inquisição, e castigam quem não alinha com eles. Foi isso que fez a Diocese da Guarda com D. António dos Santos, anterior Bispo da Guarda, chegando ao ponto de acusar o sacerdote de insanidade mental. Para bom entendedor, um comunicado basta. Senão, leiam:

COMUNICADO DA DIOCESE DA GUARDA

«Informa-se que o Sr. D. António dos Santos, Bispo Emérito da Guarda, se encontra ausente
desta Diocese, há 8 anos, e que o seu estado de saúde está gravemente afectado, na opinião 
 dos médicos que o acompanham. Por isso, qualquer declaração por ele já prestada ou que venha
a prestar, sobre os acontecimentos* últimos da vida desta Diocese, carece de fundamento e só pode
ser atribuída a boatos que possam circular».

* Caso do Seminário da Guarda, sobre o padre Luís Mendes, preso preventivamente sob suspeita de pedofilia.

12 dezembro, 2012

justicinha de meninos

justicinha
Com 4 estações de televisão no ar há vários anos [incluindo o Porto Canal], algumas delas multiplicadas por diversos canais, mais um exército de jornalistas, ainda não houve quem tivesse a coragem e o discernimento de perguntar ao Conselho Superior da Magistratura, por que é que consente que a Justiça, sendo o pilar mais importante de qualquer país civilizado, ande nas bocas do mundo [pelas piores razões] e ainda não tenha feito nada de relevante para inverter essa situação.

Continuo a pensar que, apesar da corrupção, ou se calhar por efeito dela, um dos muitos males do nosso país, é não termos capacidade para cooperar entre sectores, mesmo dentro da mesma organização. Estou a referir-me principalmente aos organismos e aos departamentos do Estado, já que nas organizações privadas o problema não é tão notório. Nem pode ser, porque o sucesso de uma empresa também passa por uma boa gestão, na qual se inclui a ligação optimizada entre os demais departamentos e hierarquias.

Como pela enésima vez poderão constatar, o CSM [Conselho Superior de Magistratura], volta a entrar em conflito com o DCIAP [Departamento Central de Investigação e Acção Penal], desta feita por causa de declarações proferidas pela actual directora deste departamento do MP, Cândida Almeida, que decidiu criticar os juízes, responsabilizando-os pela morosidade do 1º. processo BPN. Por sua vez, o colectivo de juízes, em vez de resolver estas dissonâncias internamente, dialogando com o MP, ou então dentro do próprio Conselho, vem desmentir a directora com desculpas esfarrapadas que nada resolvem e que só podem contibuir para acentuar a crispação entre instituições que deviam pautar o seu trabalho por um bom relacionamento e uma melhor colaboração. Em nome da Justiça... 

Enquanto as coisas permanecerem a este nível, com os magistrados mais empenhados em bater o pé uns aos outros, numa luta de galos [e galinhas] ridícula e desprestigiante, dificilmente alcançaremos a estabilidade social e económica almejada, nem haverá Troika que nos possa valer. Justiça fraca, é país adiado.


11 dezembro, 2012

Eu português nortenho de um país do sul

Fiorde de Geiranger, Noruega
Ainda a propósito do ambiente fétido e inimputável de corrupção que se respira no país, gostaria de repescar as palavras de Paulo Morais, há dias no Porto Canal. Dizia ele, àcerca desta praga típica dos países latinos, que se "isto" se passasse em qualquer país nórdico, não seria possível a Isaltino Morais, Duarte Lima,  ou a Vale e Azevedo, entrarem tranquilamente num restaurante ou qualquer lugar público, sem passarem pelo crivo censor das pessoas, ou dos próprios responsáveis pelo respectivo espaço. Muito provavelmente  - acrescento eu -, num cenário desses, aquilo a que assistiríamos a seguir, era vermos as pessoas a abandonar o local, ou então, observar o "descarado" a receber um convite discreto do dono do espaço para se pôr na alheta...

Já sabemos que não é possível conseguirmos fazer da Terra um paraíso, porque a própria natureza tem aspectos dramáticos, mas seria perfeitamente atingível ao homem [desde que o quisesse], melhorar, e muito, as condições de vida do seu semelhante. Sabemos que o lado mais dramático da Natureza se encontra na vida selvagem e nos fenómenos climatéricos, que por razões diferentes, destroem os bens e a existência de milhares de seres. Nas sociedades humanas são as más pessoas, as mal formadas [não confundir com licenceadas, porque isso não é educação] que pensam sempre nos outros como instrumentos para seu proveito, e não como parceiros de percurso, quem obstaculizam que no planeta todos possam viver mais próximo do 'paraíso'... Mais perto, mas ainda assim, tão longe. Sim, porque a vida nunca foi coisa fácil. Também já foi bem mais difícil, é verdade  [na pré-história]. Mas, com o elevado nível tecnológico a que hoje chegamos, não seria possível vivermos todos muito melhor? A resposta só pode ser uma: era possível. Mas, só criando formas fiáveis de "peneirar" a sociedade. Gente com o espírito oportunista, como os atrás citados, não pode ser deixada ao acaso, deve ser bem vigiada, essencialmente depois de dar sinais das suas tendências para a fraude e para o crime.

Os portugueses, dos mais idosos aos mais jovens, não têm memória de bons governos, nem de bons governantes. Ao longo de séculos, nunca tiveram a felicidade e o orgulho de pertencer ao pequeno grupo dos países mais prósperos e civilizados da Europa, e sempre foram habituados à mediocridade dos pobres países, a pensar no medo, na perseguição. Por isso, não podemos estranhar que para sobreviverem sigam os exemplos desviantes de quem os governa. Os governantes fizeram [e fazem] dos portugueses pequenos clones de si próprios, e isso até lhes convém, diga-se. Não há como forjar um corrupto para fortalecer um corruptor. Depois, fica gerada a cadeia do esquema.

Para o português médio, denunciar um criminoso é um gesto de traição, para um norueguês é um dever cívico. Começa logo aqui o comportamento desviante dos latinos. Nós não temos consciência sequer do que é a cidadania! 

Ontem, num canal de TV onde estava Medina Carreira e Paulo Rangel, falou-se a dada altura dos vários "jobs" dos políticos, e quando coube a Rangel opinar, lá estava ele a dizer que sim senhor, que não achava bem, e ao mesmo tempo a desembrulhar os melhores argumentos para dizer que afinal até achava... É assim, nestes pensamentos labirinticos, onde o peixe se confunde com a carne,  que eles adoram jogar, votando qualquer boa ideia para o lixo e gozando com a inteligência de quem os ouve. Por mim Rangel, já não vais a lado nenhum. Por outros, talvez um dia venhas mesmo a ser Presidente da República. Tal qual, como aconteceu com o vulgaríssimo Cavaco. Mas juro que não foi com minha autorização, isto é, com o meu voto. Que honra tenho em nunca ter votado em Cavaco! Que orgulho! Desculpem-me, mas também tenho direito a uns assomos de vaidade.
    

06 dezembro, 2012

Governo não tem plano para prevenir e combater corrupção




O ex-ministro das Obras Públicas João Cravinho, que em 2006 criou um plano anticorrupção, afirmou, esta quarta-feira, que o Governo não tem estratégia para prevenir e combater a corrupção e defendeu que deve haver uma ação conjunta entre várias entidades.


"Não há uma visão conjunta do que é preciso fazer para prevenir e combater a corrupção, não há meios adequados e as nossas instâncias, tribunais funcionam muito mal", afirmou João Cravinho à agência Lusa, comentando assim o facto de Portugal estar em 33.º lugar entre 176 países, no relatório anual da agência Transparency International.

Apesar de não conhecer o último relatório a fundo, João Cravinho considera que, de um modo geral, a posição de Portugal no ranking "deteriorou-se muito nos últimos anos" e diz não ver nada de novo que permitisse "dar grandes saltos" na lista.

No ranking do Índice de Perceção da Corrupção da "Transparency International", Portugal apresenta uma classificação de 63, numa escala de 0 a 100, que vai de "muito corrupto" a "muito limpo". Na mesma posição encontram-se o Butão e Porto Rico.

Numa análise aos países da União Europeia, Portugal surge em 15º lugar, tendo abaixo apenas alguns países do Leste, a Grécia, a Itália e Malta.

"[Esta posição] corresponde à perceção que se tem sobre duas coisas: o nível e o tipo de corrupção que há em Portugal e os esforços que se fazem para combater a corrupção que são desadequados ou fracos e isso é que tem vindo a influenciar a posição portuguesa", disse João Cravinho.

De acordo com o ex-ministro das Obras Públicas, os casos que têm vindo a público não indiciam uma viragem no combate à corrupção em Portugal.

No entender do ex-deputado do PS, os países em crise são sempre acompanhados por uma alteração de comportamento e o que "há de pior vem sempre ao de cima" e isso fez com que, em alguns casos, a corrupção tenha aumentado.

"No nosso sistema, a Assembleia da República não exerce controlo sobre o assunto, sendo que foram introduzidos planos de prevenção da corrupção, mas o mais grave de tudo é que o Governo não tem um plano, nem estratégia de combate que seja conhecida", disse.

Na opinião de João Cravinho, não há meios adequados para o combate, nem um "aparelho judicial à altura" e, por isso, os crimes económicos são cada vez mais numerosos e complexos.

"Em primeiro lugar o que há a fazer é definir responsabilidades. Hoje em dia o que me parece mais grave não é a pequena corrupção, o pequeno funcionário, ou o fiscal porque isso até avançou razoavelmente bem nos últimos anos com a informatização e melhor organização dos serviços, mas o tráfico de influências", realçou.

Para João Cravinho, o tráfico de influências, a omissão de ação preventiva e o combate "aos grandes atentados" e a boa gestão pública continua sem qualquer sanção.

"O tráfico de influências não se combate só com alteração à legislação, mas por chamar à responsabilidade as várias entidades para uma fiscalização institucionalizada", disse.

Na opinião do ex-deputado do PS, devido à crise, as pessoas estão ocupadas com "temas mais importantes do que a corrupção que passou a ser secundária, permitindo alargar a malha da permissividade".

[do JN]

Nota de RoP:

João Cravinho engana-se, quando diz que as pessoas passaram para 2º. plano o combate à corrupção por causa da crise. A crise é uma coisa intolerável, mas, associada à falência do regime capitalista, e à incompetência política, é também uma derivante da corrupção. Se lêsse o Renovar o Porto, ia perceber que não sabe o que está a dizer, porque se há tema que costumo abordar com frequência é o da corrupção. Além de mais, esqueceu-se de dizer o que é que o Partido Socialista fez para combater a corrupção, e quantos tubarões corruptos o PS engavetou. 

Se há coisa que me repugna nestes políticos, é o desrespeito que evidenciam pela memória do povo. 

Se quer(em) ajuda para controlar a corrupção, peçam-na ao Dr. Paulo Morais. Nunca se sabe se a primeira casa a passar o aspirador não será a Assembleia da República... Isto, claro está, se entretanto Paulo Morais não virar o bico ao prego.