03 maio, 2012

O rosto sob a máscara

Gostaria de não voltar à provocação congeminada pelo grupo Jerónimo Martins contra o feriado do 1.º de Maio e a luta dos trabalhadores portugueses pelos seus direitos, mas a culpabilização que por aí tenho visto dos consumidores, na sua maioria pobres (e é desses que falo), que literalmente assaltaram as lojas Pingo Doce para conseguir géneros alimentares a metade do preço é, para mim, incompreensível.

É certo que nem só de pão vive o homem, mas dizer isso a quem tem fome (fome de pão tanto como de justiça) parece-me uma crueldade inaceitável.

Como inaceitável é a condenação dos trabalhadores do Pingo Doce - em geral precários e com salários brutos inferiores a 500 euros - por terem cedido à chantagem da empresa, furando a greve para, mesmo humilhados e ofendidos, poderem manter o emprego. Por um humilhante e extenuante dia de trabalho terão recebido um salário/dia a triplicar, cerca de mais 30 euros; e, sobretudo (quem os culpará?), a possibilidade de obterem também alimentos com 50% de desconto.

Alexandre Soares dos Santos tem uma agenda política e, com total insensibilidade social e moral, pôs as suas lojas, os seus trabalhadores e os seus clientes ao serviço dessa agenda. Alguma coisa, além de comida a metade do preço por um dia, os portugueses ganharam com isso: viram o rosto que está por detrás da máscara.

Nota de Renovar o Porto:

Ontem li dois artigos sobre o mesmo assunto: Pingo Doce. Um, era da autoria de Manuel António Pina, que poderão reler aqui, e o outro era deste «iluminado», que se pode ler aqui.  

Agora digam lá quem é que anda a precisar de conserto...
 

02 maio, 2012

Pinto da Costa é intelectualmente superior a qualquer político

Embora Pinto da Costa não pare de nos surpreender, não haverá muito mais para dizer sobre as suas competências, sendo a capacidade de liderança indiscutivelmente a mais consensual de todas. Possui no entanto uma outra grande virtude, sobre a qual quase não se tem falado ou escrito e que provavelmente muito terá contribuído para a sua afirmação pessoal, que é a sagacidade de ter sabido resistir aos apelos secretos dos partidos do arco do poder [PS/PSD e CDS] para integrar os seus quadros [sobretudo na região do Porto e Norte do país]. 

Oportunistas como são, nenhum desses partidos enjeitaria a colaboração de Pinto da Costa, mais que não fosse apenas para roubar votos aos adversários... Apesar das persistentes tentativas - dentro e fora da região - para lhe destruírem o prestígio que muito trabalho e igual sabedoria lhe custou, ele sempre soube sair por cima e da forma que mais lhe dá prazer: a vencer. Furtando-se sempre sabiamente a esses convites, evitou assim pisar os terrenos movediços da política onde a ideologia e o pragmatismo continuam de costas voltadas. Pinto da Costa não apregoa ideologias político partidárias, mas tem a sua própria, e faz do pragmatismo uma das suas maiores qualidades. Por isso nunca podia compatibilizar-se com a política partidária.

Desde menino que não sou dado a idolatrias, não é agora que sou crescidinho e maduro que vou mudar. Nem quero. Essa faceta do meu feitio mantém-se, mesmo com Pinto da Costa. Agora, se não faço cerimónias para criticar, também não tenho rebuço em elogiar quem merece. E Pinto da Costa pertence ao pequeno grupo dos que gosto de elogiar. Assim mesmo vale a pena estabelecer comparações entre ele, que dedicou toda uma vida ao seu clube de uma forma ímpar e total, com todos os primeiros ministros de Portugal, pelo menos de 1974 a esta parte. A comparação pode parecer descabida porque as responsabilidades são distintas. 

Um dirigente de futebol não tem obviamente as mesmas responsabilidades nem as mordomias de um primeiro-ministro, nem um grande clube como o FCPorto tem a dimensão de Portugal. Mas se pensarmos melhor, é tudo uma questão de escala e principalmente de... competência. Senão vejamos: Pinto da Costa tem um reduzido grupo de colaboradores, os 1ºs.ministros têm [pelo menos] uma dúzia de ministérios [o actual tem 11] que por sua vez têm secretários de Estado [este governo tem 36], que por sua vez têm os adjuntos e assessores. Enfim, o governo actual tem ao todo 235 nomeações, faltando ainda as referentes aos Ministérios da Justiça, Administração Interna, Negócios Estrangeiros, Economia e Emprego, Saúde, Educação e Ciência, Solidariedade e Segurança Social e a Secretária do Estado dos Assuntos Parlamentares... Não será mesmo assim gente a mais para tão pobres resultados?

Pois eu acho que sim. As dificuldades causadas pelas más políticas governativas e por um liberalismo globalizado pautado por sucessivas cedências ao mundo da finança repercutem-se como se sabe em todas as áreas de actividade, e não é por acaso [e irónico] que tem sido a Banca precisamente a mais protegida, apesar de co-responsável pela especulação financeira mundial. Logo, não é possível impedir que o descalabro atinja todo o tecido empresarial e os próprios clubes de futebol. O FCPorto não foge à regra e por isso tem tido algumas dificuldades de tesouraria para fazer frente aos custos das modalidades. Contudo, a extraordinária gestão desenvolvida ao longo de décadas não impossibilitou o clube de continuar a ganhar títulos. Nas modalidades, este ano já lá cantam 3 títulos: no futebol a Supertaça e o Campeonato Nacional, que nem sequer chegou ao fim. No andebol: o tetra-campeonato nacional. As outras modalidades podem igualmente dar em outros tantos campeonatos. As perspectivas são as melhores, é só aguardar mais umas semanas...

Como evitar então comparar a capacidade de liderança de Pinto da Costa, com esta viagem homicida para nenhures do actual e anterior governos? Como? Se, em resumo, é de dedicação, de espírito missionário e de competência que estamos a falar? Será honesto afirmar que os nossos políticos têm revelado essas qualidades? Terão alguma vez cumprido os objectivos a que se propuseram nas campanhas eleitorais? Alguma vez souberam subir os níveis de emprego para padrões satisfatórios? Alguma vez respeitaram a vontade e os anseios dos eleitores? Por algum período de tempo razoável os portugueses viveram com uma qualidade de vida sustentada, e com salários primeiro-mundistas?

Pois, já sabemos que na semântica política há sempre os "ses" e os "porquês" zelosamente guardados para as horas do descalabro: a culpa foi do(s) "outro(s)". De desculpas dessas percebem os políticos... Mal comparando, são desculpas ao "bom" estilo dos clubes de Lisboa que culpam sempre os outros [e o sistema] por falharem os seus próprios objectivos.

Mas que diabo, sempre esperei mais dos políticos. Já faz tempo, é verdade, há muitos anos, há 38 mais precisamente. Agora, só espero o pior. E estou a ser optimista.    

30 abril, 2012

Victor Pereira, melhor Pessoa que líder

Abraço de gratidão
A paixão pelo futebol - diria antes -, a paixão pelo nosso clube é tão irracional que em determinados momentos até consegue colocar adeptos do mesmo clube uns contra outros. No entanto, basta ganhar mais um campeonato para todos esquecerem as divergências, ainda que seja até à temporada seguinte e tudo recomeçar novamente.

Estas picardias entre "irmãos" de clube nem sempre são desprovidas de sentido, nem traduzem a irracionalidade típica das paixões. Se o problema se resumisse a isso, as divergências limitar-se-iam a incompatibilidades próprias dos diferentes temperamentos e educação que caracteriza as pessoas, e tudo se resumiria a uns pontuais arrufos. O problema fundamental é social. Há adeptos que confundem o direito legítimo de pensar diferente, de criticar ou louvar, com a vaidade extrema de se julgarem donos da verdade, e é aqui que as coisas se tornam mais feias.

Na blogosfera há dezenas, senão centenas, de sites e blogues ligados ao FCPorto, sendo sem dúvida o Dragão até à morte, do Manuel Vila Pouca, um dos mais populares e participados do universo azul e branco, o que lhe confere alguma autoridade democrática para o podermos considerar um dos mais equilibrados e combativos na defesa daquilo a que agora se chama portismo. E não é por me ter tornado seu amigo que o afirmo. Ele sabe bem que nem sempre estou de acordo com as suas opiniões, embora na maior parte das ocasiões haja uma grande convergência de ideias.

Outros blogues existem que também têm feito um trabalho importante pela causa FCPorto, como o Viva o Porto Carágo, e muitos mais [que me escuso a citar para não ferir susceptibilidades], mas outros há ainda que, não obstante o seu portismo, assumem uma postura crítica com o clube demasiado reactiva à mais ligeira brisa de instabilidade, só comparável à dos nossos adversários directos, o que explica em parte as discordâncias que atrás referi. Numa sociedade profundamente desigual como a nossa, pautada pelo elitismo e pela vaidade de certas classes, tradicionalmente dadas ao auto-elogio e à discriminação com base em meras futilidades, essas reacções não escapam ao futebol. E é talvez também por combater esse tipo snobe de "portismo" que o Dragão até à Morte tem o maior número de acompanhantes na blogosfera portista.

Aqui chegado, e porque fui [e continuo a ser] um crítico de Victor Pereira, enquanto líder e treinador, manda a justiça que lhe agradeça a conquista de mais um campeonato - embora tenha deixado fugir prematuramente a Champions e a Liga Europa -, porque o objectivo principal foi atingido. Mas, se não aprecio Victor Pereira enquanto treinador, nutro por ele uma enorme simpatia enquanto pessoa. As palavras de gratidão e o forte abraço que Victor Pereira trocou com Pinto da Costa espelham um grande carácter e um sentimento hoje infelizmente em vias de extinção que é a gratidão. Tenho a certeza que Victor Pereira é um grande Homem, que é um portista valente e sério.

Se um dia Victor Pereira puder, ou souber, associar a estas grandes virtudes a da liderança, então mudarei a minha opinião sobre as suas competências, porque vou ter muita dificuldade em esquecer a irritabilidade que algumas das suas opções em certos jogos me causaram.

29 abril, 2012

Parabéns aos Campeões!



Não foi uma época brilhante, não senhor. Mas, dentro dos altos e baixos, de uma irregularidade inusitada e de várias exibições frouxas, conseguimos mesmo assim ser superiores aos nossos adversários.

Sou dos que não apreciam as qualidades de liderança de Victor Pereira, sempre o assumi. Contudo, é meu dever deixar aqui os meus cumprimentos ao técnico do FCPorto pela victória neste campeonato.



28 abril, 2012

Que a selecção se exploda*!


A temporada de futebol está a chegar ao fim e a selecção nacional começa a aparecer nos media. Daqui a algum tempo seremos submergidos por enxurradas diárias de "notícias" da selecção que não interessam a ninguém.

Desde já, e por muito irrelevante que a minha opinião seja, quero declarar claramente que não torço pela selecção portuguesa. Em primeiro lugar porque torcer pela selecção é um pouco como torcer pelo próprio país. Ora nas circunstâncias actuais, acontece que tenho desgosto e até vergonha de ser português, e só tenho pena de não poder desistir da minha nacionalidade.

Em segundo lugar, porque me choca e me revolta o descaso a que a FPF tem sujeitado o Norte, justamente a região do país que é indiscutivelmente, e a vários títulos, a capital futebolística de Portugal. Toda a gente se lembra que isto começou na era Scolari, por razões que tinham a ver, além do centralismo endémico, com as tentativas desesperadas que Lisboa faz para tentar destruir o FCPorto. Mudou o presidente da FPF, mudou o seleccionador, mas a atitude insultuosa mantém-se. Dentro de duas ou três semanas, será cerimoniosamente anunciada a lista de jogadores seleccionados. Óptima ocasião para fazê-lo no Norte, no Porto como a sua capital, ou em Braga ou Guimarães, este ano Cidades Europeias. Seria uma singela homenagem a uma região que tanto tem dado ao futebol. Mas não, a cerimónia terá lugar em Óbidos!

Perante tudo isto, só me resta desejar que a selecção lisboeta se expluda! Adelante España!!

 * «Exploda» no Brasil, é uma maneira educada de dizer f.....da.

27 abril, 2012

Atirei com o pau ao gato, tu-tu, mas o Benfica não morreu, eu-eu...

Calma, que não me converti a este novo tipo de fundamentalismo...  A gracinha do título é só para tentar chamar a atenção daquelas aves de rapina que nasceram convencidas que o mundo está a menos de um palmo dos seus fedorentos umbigos. Fedorentos, certamente! Eles até gostam de ser conhecidos assim, ou não fosse esse o nome de baptismo dalguns gatos que por aí andam, convencidos que têm muita gracinha mas o melhor que conseguem, quando aparecem na televisão, é obrigar os telespectadores a mudar de canal.

Mas eu não vos quero falar desse tipo de gatos. É de outros, embora pertençam todos à mesma seita. O que vos quero dizer é que, mais uma vez, neste país, as instituições que deviam ser do Estado, ou seja, de todos nós, continuam a funcionar só para alguns de nós [salvo-seja!]. É que acabo de tomar conhecimento que a Inspecção Geral [é geral, é!] de Educação arquivou a queixa apresentada pelo pai da criança contra os educadores e à direcção do jardim de infância onde tinha a filha, depois daquele organismo ter procedido a um inquérito aos acusados e não ouvir o queixoso...Resultado: arquivaram o processo, porque a actuação da escola não mereceu censura jurídico-disciplinar. Para completar o ramalhete, o queixoso só teve conhecimento da decisão pela imprensa... Na resposta à queixa, o director do Agrupamento de Escolas da Ericeira disse que a cantilena é prática comum a outros jardins de infância do concelho" e que em nenhum momento se fala de futebol ou de algum clube em particular".  

Conclusão: os pais da menina [de 4 anos] deixaram de levá-la à escola porque devem ser loucos ou uns grandes mentirosos... Só pode.

Sugiro então aos educadores de infância do Porto que façam o mesmo que os seus colegas da Ericeira, mas para variar, na versão FCPorto. Que mal é que tem? Um dólitá era dimendá sabonete colorete um dólitá. Viva o Porto!!! Ou: Vitó tinha uma gaita de um buraquinho só, sua mãe lhe dizia toca na gaita ó Vitó. Viva o FCPorto!!! Inocente, sem dúvida. 

Vamos a isso, gente! Mais que não seja para vermos se o Ministério da Educação leva a coisa a sério, como vem sendo hábito, desde que envolva o nome do FCPorto. Filhos da p....ta de nazis!
                         

25 abril, 2012

Memorandum

Revolução dos Cravos refere-se a um período da história de Portugal resultante de um golpe de Estado militar, ocorrido a 25 de Abril de 1974, que depôs o regime ditatorial do Estado Novo, vigente desde 1933, e que iniciou um processo que viria a terminar com a implantação de um regime democrático, com a entrada em vigor da nova Constituição a 25 de Abril de 1976.

Este golpe, normalmente conhecido pelos portugueses como 25 de Abril, foi conduzido por um movimento militar, o Movimento das Forças Armadas (MFA), composto por oficiais intermédios da hierarquia militar, na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial e que foram apoiados por oficiais milicianos, estudantes recrutados, muitos deles universitários. Este movimento nasceu por volta de 1973, baseado inicialmente em reivindicações corporativistas como a luta pelo prestígio das forças armadas, acabando por se estender ao regime político em vigor. Sem apoios militares, e com a adesão em massa da população ao golpe de estado, a resistência do regime foi praticamente inexistente, registando-se apenas quatro mortos em Lisboa pelas balas da DGS.

Após o golpe foi criada a Junta de Salvação Nacional, responsável pela nomeação do Presidente da República, pelo programa do Governo Provisório e respectiva orgânica. Assim, a 15 de Maio de 1974 o General António de Spínola foi nomeado Presidente da República. O cargo de primeiro-ministro seria atribuido a Adelino da Palma Carlos.

Seguiu-se um período de grande agitação social, política e militar conhecido como o PREC (Processo Revolucionário Em Curso), marcado por manifestações, ocupações, governos provisórios, nacionalizações e confrontos militares, apenas terminado com o 25 de Novembro de 1975.

Estabilizada a conjuntura política, prosseguiram os trabalhos da Assembleia Constituinte para a nova constituição democrática, que entrou em vigor no dia 25 de Abril de 1976, o mesmo dia das primeiras eleições legislativas da nova República.

Na sequência destes eventos foi instituído em Portugal um feriado nacional no dia 25 de Abril, denominado "Dia da Liberdade".

[in Wikipedia]

Nota de Renovar o Porto:

Por mais que alguns tentem negá-lo, o Movimento de 25 de Abril que levou ao derrube da ditadura e à posterior implantação de eleições livres [não confundir com democracia, porque uma democracia é algo mais que isso], foi essencialmente da responsabilidade de um grupo de jovens militares desgastados com a interminável guerra colonial e não exclusivamente da luta clandestino de alguns políticos. Só depois do golpe militar é que se deu a adesão espontânea do povo e o regresso do exílio de alguns políticos, como Álvaro Cunhal e Mário Soares.

Como tal, e porque tenho idade bastante para saber exactamente como as coisas se passaram, é bom que não coloquemos de mais o povo e os próprios políticos num pedestal, mesmo que isso torne o cenário mais poético aos nossos olhos. Até porque, os políticos, não têm muitos motivos para se orgulharem com o rumo que deram ao país e com o uso que fizeram da democracia, como se pode inferir do actual quadro sócio económico.

24 abril, 2012

Crónica nojenta do sub-director do JN

Algo me deve estar a escapar, porque ainda estou para perceber o que levará certas pessoas a diabolizar as forças armadas cada vez que alguém desse importante sector da sociedade resolve opinar sobre a situação do país. Tudo indica, a avaliar por reacções anteriores, ter-se instalado em Portugal um estranho estigma sobre os militares, apesar da parcimónia que os tem caracterizado ao longo destes anos de má governação da responsabilidade exclusiva da classe política.

Depois de ler este artigo de opinião do director adjunto do JN, onde o autor fala dos militares de Abril de um modo algo paternalista e cínico, fiquei com a nítida sensação de haver da sua parte um ressentimento mal resolvido para com a Instituição Forças Armadas. Senão, registemos a primeira das suas expressões: «Todos os anos, por esta altura, a Associação 25 de Abril dá um sinal de vida, não vá o povo ser ingrato e incapaz de reconhecer  o mérito de um naipe de protagonistas responsáveis pela queda em 1974 de quase 50 anos de ditadura em Portugal». No parágrafo seguinte o jornalista vai mais adiante e diz: «Para uma boa parte de historiadores a instauração do regime democrático deu-se em Novembro e não em Abril». E a ambiguidade do texto só termina mesmo no fim. O link do artigo acima disponível permitirá ao leitor tirar as suas próprias conclusões, por mim chegam-me estes para levantar algumas das dúvidas que este texto me deixou.  

As questões que me ocorre colocar são as seguintes: serão porventura os militares de Abril a besta negra dos malefícios sociais e económicos de que o país hoje padece? Não terão eles, tal como nós, o direito de emitirem as suas opiniões, mesmo que a espaços e moderadamente? Afinal, em que é que os jornalistas e o resto da sociedade, onde se incluem políticos e banqueiros, se destacam eticamente para se acharem no direito de tapar a boca aos militares? Terão sido os jornalistas e os políticos os autores morais do 25 de Abril? Ou será o mês de Novembro o "verdadeiro" marco histórico da mudança de regime? Digamos - para não ferir susceptibilidades -, não terá sido em Novembro que se produziu a revolução à medida das conveniências das elites residuais do regime de Salazar e Caetano?

Quando se fala em respeito, como fez o jornalista no final do artigo, de forma petulante e ingrata, está-se por momentos [infelizes] a esquecer a pouca vergonha dos BPN's, dos submarinos e da Face Oculta, que por certo deixarão, pela enésima vez, os criminosos livres do merecido castigo, apenas porque pertencem à classe das tias e dos colarinhos brancos em que o regime anterior era pródigo, e que agora ousam empunhar a bandeira da democracia, como se ela existisse...

23 abril, 2012

Esquerda e direita em Portugal são diferentes apenas na ideologia não nos homens

Nos tempos que correm, em que lamentavelmente os assuntos de carácter passaram para o plano da insignificância, não se notam de facto grandes alterações entre as políticas de esquerda e de direita. Apesar disso, continuo profundamente convencido que ideologicamente existe uma grande diferença entre ambas, e que é decisiva. Enquanto a esquerda tem falhado sucessivamente pela incapacidade dos seus líderes resistirem aos "encantos" da direita que se define claramente como pró capitalista, esta é por tradição secular, avessa à humanização das sociedades. A direita apenas mantém  a aparência democrática porque, em tese, ainda existem partidos de esquerda, o que não quer dizer propriamente que a esquerda se tenha orientado consistentemente por valores humanistas.

Por outro lado, a direita só contempla o humanismo nas suas práticas políticas quando se sente eleitoralmente ameaçada pela esquerda, o que contribui para a confusão "ideológica" entre ambas. Mas a direita não tem ideologia, tem uma cartilha económica e financeira, cujo objectivo supremo se resume à acumulação rápida de capital, com os menores custos, sendo o desemprego o mais dramático de todos, contrariando por completo a fama ardilosa que lhe tem valido alguns votos, de ser geradora de postos de trabalho. Entre um cidadão e uma máquina, a direita não hesita em eleger a máquina, desde que tenha garantido mais lucro, nem que para isso tenha de despedir cem pessoas. Isto é assim, e quem tiver dúvidas, só prova duas coisas: ou beneficia directamente com esta situação, ou é intelectualmente limitada para compreender o que está à vista de todos e então precisa de viver outra vida para chegar a essa conclusão...

Seja como for, a esquerda moderada, onde tem pontificado o Partido Socialista tem sido, ao longo do seu tempo de vida, uma decepção permanente, tanto quanto está no governo como quando é oposição. Isto porque nunca teve líderes à altura de lhe devolver a génese ideológica que a identifica(va) e que a podia fazer descolar definitivamente da direita e do perigo de se fundir e confundir com ela. 

A este propósito deixo-vos este singelo exemplo: a página "Política" do JN de domingo apresentava uma foto grande do actual Presidente da Câmara de Matosinhos, Guilherme Pinto, a reclamar [agora] a autonomia do Norte e a Regionalização quando ainda há poucos mêses, durante o mandato de Sócrates, dizia que não ser oportuna a Regionalização...  

Se há coisa que me repugna nestes políticos, é a profunda falta de respeito que demonstram pelos cidadãos e pela sua memória, para manterem um discurso quando o seu partido está no governo e outro quando estão na oposição. Esta mudança de discurso é tão brusca e flagrante quanto provocatória, e devia ser suficiente para os eleitores riscarem de vez da cena política este tipo de gente que faz gala de os enganar as vezes que forem precisas apenas e só para se manterem agarrados ao poder. E neste aspecto concreto esquerda e direita, são iguais. E por quê? Porque quem as representa é gente sem carácter, sem ideais e intelectualmente desqualificada.

Por isso, e uma vez que esta democracia não contempla meios simples e eficazes para os eleitores se livrarem destas "pragas", não vejo outra forma que não obrigar os políticos a assinarem um contrato com força jurídica que dê garantias aos cidadãos de cumprirem as promessas feitas em campanhas eleitorais. Ou seja: tal como é praticado pela banca quando queremos aceder ao crédito para adquirir um bem, devíamos exigir dos políticos garantias bancárias e prazos mínimos para realizarem os projectos de governo. Com os bens pessoais hipotecados, talvez esta garotada começasse a formar uma ideia mais séria do que é ter sentido de responsabilidade e de Estado. A não ser assim, bem podemos [como diz Pinto da Costa] esperar deitados que eles vão continuar a fazer de nós eternos palermas.

21 abril, 2012

Presidente da APDL renuncia ao cargo

O presidente da Administração dos Portos do Douro e Leixões (APDL), Matos Fernandes, renunciou ao cargo na quinta-feira e lamentou “profundamente” a “ausência de decisões nas restantes empresas do sector”.

“A ambição de Leixões não é compatível com a indefinição de mandatos e a minha saída, voluntária, tem como objectivo garantir a nomeação de um novo conselho de administração a 21 de Maio”, afirma o gestor, já depois de a sua saída se ter tornado pública em notícia avançada pelo semanário Grande Porto.

No texto enviado à agência Lusa, Matos Fernandes manifesta-se “profundamente” preocupado com “a ausência de decisões nas restantes empresas do sector” e sustentou não ser “razoável que aqui não haja uma decisão”.
“Esta cabe ao accionista [Estado], que tem ainda um mês para a ponderar”, refere.
Com efeitos a partir de 30 de Maio, a renúncia de Matos Fernandes acontece a um mês da realização da assembleia-geral da APDL, que deverá nomear um novo conselho de administração para a gestora portuária.
O gestor diz, por isso, manter “a forte expectativa” de que a renúncia “não necessite de concretização”, em consequência da sua “normal substituição” naquela reunião magna de accionistas.

O ainda presidente da APDL destaca ter já enviado ao accionista Estado os elementos de prestação de contas relativas ao ano de 2011, “que confirmaram um resultado positivo de 10,3 milhões de euros”.

“Os 7 anos que passei na APDL, 4 dos quais como presidente, foram os mais gratificantes da minha vida profissional, tendo liderado uma excepcional equipa, com a qual partilho o sucesso de Leixões”, remata Matos Fernandes.

A saída de João Pedro Matos Fernandes acontece num contexto de indefinição em torno do modelo de gestão dos portos portugueses, no âmbito do qual o Governo pretenderá fundir as administrações portuárias do país.

Esta decisão tem vindo a gerar grande polémica a Norte, dados os bons resultados operacionais do porto de Leixões comparativamente com as restantes estruturas portuárias do país.
Rui Moreira lamenta saída
O presidente da Associação Comercial do Porto (ACP), Rui Moreira, lamenta, esta sexta-feira, ”profundamente” a renúncia de Matos Fernandes à presidência do Porto de Leixões e critica a “indefinição” do actual Governo “em todo o sector dos transportes”.

“Lamento profundamente a saída do engenheiro Matos Fernandes. Foi um extraordinário presidente da APDL [Administração dos Portos do Douro e Leixões], que soube modernizar e continuar o trabalho do seu antecessor”, sustenta Rui Moreira.

Para Rui Moreira, a saída do presidente da APDL “é um péssimo sintoma”, porque, “se sai, é porque não lhe foram dadas condições para continuar”.

“Se uma pessoa não percebe se vai ser ou não reconduzida, se a APDL vai ser ou não extinta, se vai haver ou não fusão [entre os portos portugueses], tudo isto são coisas que deixam marcas e que não contribuem para que aqueles que querem fazer investimento e definir as suas estratégias de desenvolvimento o possam fazer”, afirmou.

A este propósito, Rui Moreira manifestou-se também “muito preocupado” com a “indefinição por parte do Governo”, quer a nível da estratégia portuária, quer “em todo o sector dos transportes”.
SE adia decisões
“Este secretário de Estado tem vindo a adiar progressivamente as definições nas políticas nos transportes. Na questão dos portos, o secretário de Estado anunciou há algum tempo a intenção de avançar com a fusão, mas continuamos a não saber o que é que sucede”, referiu.

Na sua opinião, o mais “preocupante” é que “estas indefinições levam à saída dos melhores” e, sendo Leixões e os portos portugueses no seu todo “muito importantes para a economia nacional, tem que haver alguma coisa mais concreta que permita que as pessoas se possam concentrar e ter uma estratégia definida”.
Relativamente à intenção, reiterada pelo atual Governo, de avançar com a fusão dos portos portugueses, Rui Moreira considera que é “absolutamente inaceitável”:

“Não conheço nenhum argumento favorável, não há, ao contrário do que o senhor secretário de Estado vai para aí dizendo, nenhum modelo europeu de fusão de portos e vai ao arrepio das indicações da Comissão Europeia, que se preocupa, exactamente, com a criação de concorrência saudável entre os portos”.

Para Rui Moreira, não vinga o argumento da necessidade de coordenação entre as várias infra-estruturas portuárias, pois “para isso é que existe o IPTM [Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos] como instrumento regulador”.

“Tenho a certeza que isto não vai poder ser concretizado. Já existiram estes propósitos nos 2 Governos anteriores e nunca conseguiram levar isto a cabo. O que é pena é que estas indefinições levem ao desapontamento, à saída dos melhores e a um ambiente de incerteza para o qual lamento que seja o próprio Governo a contribuir”, rematou o presidente da ACP.

Nota de RoP:
Cada vez me convenço mais que a ideia de governo que se apossou da classe política dos últimos anos, é destruir o pouco que funciona bem no país, e numa segunda fase, ocupar o tempo na televisão para branquear a incapacidade própria para construir qualquer coisa de jeito e consistente. E eu que pensava que em democracia "rotinas" destas eram impossíveis...

19 abril, 2012

De Rui Rio só podemos esperar isto

  • Fontainha

"Nos países desenvolvidos"





É conhecida a anedota da singular noção de causalidade daquele investigador que cortou as patas a uma rã e lhe disse: "Salta!"; e que, como a rã não saltasse, concluiu que, quando se cortam as patas às rãs, elas deixam de ouvir.

Ocorreu-me essa história ao saber do estudo que sustenta mais uma nova redução das indemnizações por despedimento que o ministro Álvaro (quem haveria de ser?) anunciou que levará à Concertação Social, estudo que conclui que... nos países desenvolvidos indemnizar trabalhadores despedidos não é obrigatório. Assim, acabam-se com as indemnizações por despedimento e, zás!, passamos a "país desenvolvido". E poder-se-ia ainda aumentar também os salários para os níveis praticados nos países desenvolvidos e então é que ficaríamos tão desenvolvidos, ou mais, que os países desenvolvidos. A ideia, no entanto, não ocorreu ao ministro Álvaro, como não lhe ocorreu a ideia de se demitir, pois nos países desenvolvidos ninguém salta da blogosfera para ministro...

A mesma provinciana lógica causal foi recentemente invocada pelo secretário de Estado da Saúde para justificar uma nova cruzada antitabagista: nos países desenvolvidos - mais um esforço, portugueses, se quereis ser nova-iorquinos! - é proibido fumar na rua, no automóvel, na própria casa de cada um.

E, já agora, por que não restaurar também a pena de morte, seguindo esse exemplo extremo de país desenvolvido que são os Estados Unidos?

18 abril, 2012

escritores famosos





Ao contrário do que muita gente erradamente pensa, o futebol não é a mãe da tensa rivalidade entre Lisboa e o Porto, que é bastante anterior à fundação do Futebol Clube do Porto e do Benfica.
Para fazer a prova dos nove do que acabo de escrever, partilho com as preclaras e preclaros uma pequena antologia de frases a este propósito, da autoria de três escritores famosos.

"Lisboa inveja ao Porto a sua riqueza, o seu comércio, as suas belas ruas novas, o conforto das suas casas, a solidez das suas fortunas, a seriedade do seu bem-estar. O Porto inveja a Lisboa a Corte, o Rei, as Câmaras, S.Carlos e o Martinho, Detestam-se"
Eça de Queiroz 
"O portuense é o homem mais delicado, mais serviçal, mais bom homem. Somente há três coisas de que ele não gosta - e nesse ponto é mau brincar com ele. Não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade vinga-se, desprezando-a. Da polícia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria"
Ramalho Ortigão
"Lisboa é um mostruário colorido e barroco de uma parte aventureira do nosso sangue. è, sobretudo, simultaneamente, uma cais de embarque e desembarque da pressa que corre o mundo. Cidade de muitas e desvairadas gentes, já lhe chamava o outro. ora o Porto lembra-me antes uma séria e pacata cidade lusitana, murada da nossa altivez de cavadores.Se de resto Garrett pode nascer do calor do seu coração, se António Nobre pode morar em paz dentro das suas portas, e se mesmo numa das suas cadeias pode ser escrito o Amor de Perdição, que demónio é preciso mais para honrar os pergaminhos de alguém?"
Miguel Torga

Europa das Regiões - Dinamarca

A Dinamarca criou em Janeiro de 2007 cinco novas regiões 
[Capital, Jutlândia Central, Jutlândia do Norte, Zelândia e Dinamarca do Sul], no âmbito da reforma municipal para substituir os 13 tradicionais condados, substituindo os 270 municípios por 98.

Essas regiões, não sendo politicamente autónomas, têm no serviço nacional de saúde a principal competência. Contrariamente ao que acontecia nos antigos condados, as novas regiões não podem cobrar impostos, sendo o serviço de saúde financiado por fundos dos governos nacional e municipais. Cada um dos Conselhos Regionais é formado por 41 políticos eleitos.

O país tem dois territórios de grande importância geográfica e política - Gronelândia - parte do continente americano -,  ilhas Faroé, que possuem  autonomia interna e uma ampla margem de governo autónomo. São representados por dois membros cada no Parlamento Dinamarquês.

  • Área:                 43.094 Km2
  • População:         5.475.791 habitantes
  • PIB:                   US$ 198, 5 biliões


Vídeo sobre a regionalização...



... de António Almeida Felizes - do blogue "Regionalização" - com algum atraso [Abril de 2011], mas sempre actual

Qual é a ponte mais bonita?



 

Qual é o melhor disco dos Beatles? O Sgt Peppers ou o White Album? Saramago ou Lobo Antunes? O Porto 87 de Artur Jorge ou o Porto 04 de Mourinho? Paris ou Londres? Vinho branco jovem e frutado ou com madeira? Pelé ou Maradona? Antas ou Foz? Ronaldo ou Messi? Braga ou Guimarães? Tawny ou ruby?

Há milhares de questões tão fraturantes como estas que dividem colegas, amigos e familiares, proporcionando discussões intermináveis, em que os argumentos se vão desbobinando como cerejas.
Vem este introito a propósito da minha incapacidade em estabilizar uma opinião sobre qual é a mais bonita das pontes do Porto.
Tem dias em que me deixo comover pela extraordinária leveza da D. Maria Pia, uma das obras maiores de Eiffel, uma ponte "toda em renda de Bruxelas" (Teixeira de Pascoaes).
Mas o meu coração balança quando, seguindo em direção à Foz, deparo com o gigantesco arcaboiço dos dois tabuleiros da formosa ponte Luiz I, riscada por Teófilo Seyrig , que une o morro granítico da Sé com a escarpa da Serra e a Ribeira com o Cais de Gaia.
E fico baralhado em definitivo quando, após o Douro vencer a última curva antes de chegar ao seu destino, surge a ponte da Arrábida e o audacioso e elegante arco com que Edgar Cardoso deixou de boca aberta o mundo da engenharia no dealbar dos anos 60.

Não tenho dúvidas sobre a composição do pódio, mas sim sobre o lugar que cada uma destas três pontes ocupa. Se tivesse de escolher agora mesmo, era capaz de colocar a da Arrábida no lugar mais alto.
A par da Torre dos Clérigos, de Nasoni, e da Casa da Música, de Rem Koolhaas, e do Museu de Serralves, de Álvaro Siza, as pontes são um emblema do Porto e também um barómetro revelador da importância relativa da cidade e da região no conjunto do país.

As duas mais antigas foram inauguradas com nove anos de intervalo - Maria Pia em 1877 e Luiz I em 1886 - no final de um século XIX, que foi um dos períodos mais prósperos da nossa região.
Os 77 anos que foi preciso esperar até à inauguração, em 1963, da terceira ponte, a da Arrábida, dizem tudo sobre a incapacidade da I República, o atrofiamento a que o Estado Novo submeteu o país, e a importância (praticamente nenhuma) que o centralismo lisboeta atribuía ao Porto.

As três pontes (S. João, Freixo e Infante) abertas em dez anos (95-05), retratam um período dourado de uma cidade orgulhosa de ter finalmente o seu sistema de metro, ser Capital Europeia da Cultura, ver o Centro Histórico proclamado Património da Humanidade e assistir à glória europeia do clube que leva o seu nome.

O novo esplendor do Porto e do Norte, que o ressurgimento cultural e das exportações prenuncia, ficará assinalado na História pela construção de mais pontes, em sentido literal e figurado, a coserem as duas margens do nosso rio, o Douro, que vai deixar de dividir - e passará a unir.

Nota de RoP:

Gosto de ler as crónicas de Jorge Fiel, e por isso é que as reproduzo aqui. A razão é muito simples: fala de coisas sérias de modo informal, e com um salutar sentido de humor. Apesar disso, tenho reparado que alguns dos seus artigos revelam uma mal disfarçada confiança no actual governo, coisa que eu, por mais vontade que tenha, ainda não descobri  a causa. Mas faz-me bem o seu estilo bem disposto e brincalhão, até porque de más notícias e de desgraças político-sociais, já estou enojado.

17 abril, 2012

Parabéns Presidente!

Pinto da Costa, trinta anos de presidência no FCPorto e 50 de dedicação

Num momento em que o Sporting perdeu a virgindade e a auto-proclamada reputação de clube mais sério do futebol português, dizendo assim ao mundo que, até prova em contrário, ninguém é absolutamente inocente, Pinto da Costa faz trinta anos [hoje] de presidente do FCPorto, e cinquenta de dedicada ligação à estrutura que ele próprio transformou no melhor clube nacional da actualidade.

Pinto da Costa só tem inimigos e suscita ódios aos clubes rivais de Lisboa, porque estamos no país mais centralista da Europa, e porque o sucesso do FCPorto gera a inveja de quem não é capaz de o conseguir lealmente dentro do campo e sem a ajuda da comunicação social e dos próprios governantes.

Pena é que a vocação e competência de Pinto da Costa se tenha notabilizado apenas na área do desporto e que nunca tenha querido enveredar pelo mundo da política, caso contrário, talvez hoje não andássemos a carpir lamentos pela falta de liderança a Norte, e no próprio país. Pinto da Costa é a prova viva de que um líder não tem de ser forçosamente confundido com um D. Sebastião, como alguns por inveja ou medos próprios, gostam de dizer...

Pinto da Costa é um lutador como poucos, é um resistente. Não é qualquer um que aguentava o que ele tem aguentado. Desde calúnias, armadilhas, devassa de privacidade, intrigas, suspeições, processos jurídicos, tudo fizeram para o destruir, e tudo ele suportou de forma estóica, devolvendo à procedência todos os ataques com victórias estrondosas, tanto no terreno de jogo, como nas barras dos tribunais, deixando os seus inimigos de estimação - alguns deles com responsabilidades políticas e jurídicas -, a espumar de raiva e de despeito.

Por tudo o que ele representa para o Norte e para o Porto em particular,  os meus parabéns, e o meu muito obrigado ao Homem a quem um dia, por alguma razão, os inimigos baptizaram de Papa...

13 abril, 2012

Crónica de leitura obrigatória


A ditadura chegou ao campo

 
Sei que é difícil atrair a atenção dos leitores para um assunto como este: "sementes". Mas das sementes e da liberdade de as plantar depende uma boa parte do nosso futuro porque 75% da biodiversidade agrícola foi extinta no século XX e as coisas não vão ficar por aqui. O esmagador poder financeiro da indústria química quer multiplicar leis, por todo o Mundo, para impedir os agricultores de serem livres de usar as sementes não certificadas nas colheitas seguintes. A espiral é terrível: quanto menor produção agrícola com sementes ancestrais, pior comeremos.

Num filme notável chamado "Food Inc." (Comida, Lda.) os autores mostram, por exemplo, como a multinacional Monsanto consegue perseguir e levar à falência vários produtores rurais. O argumento é simples: se no campo deste agricultor houver plantas cultivadas com sementes Monsanto e ele não for cliente da empresa, é processado por estar a usar sementes patenteadas, mesmo que elas tenham sido propagadas pelo vento e estejam misturadas com as suas. A natureza passou a ter 'dono'.

A Monsanto é a mais importante empresa mundial produtora de transgénicos. Atrai os agricultores através de um marketing aliciador de melhores colheitas. Mas os alimentos obtidos a partir de sementes alteradas laboratorialmente, cujo ADN não é compreendido pelos organismos humano ou animal, arrastam interrogações que não compreendemos antecipadamente. Foi assim que se alimentaram herbívoros com rações à base de carne e se rompeu uma lei da natureza. Esta experiência foi um dos motivos apontados para o surto da doença das vacas loucas.

As culturas transgénicas estão já na mesa de pessoas de todo o Mundo. Surgem em coisas tão importantes como a alimentação dos bovinos (por exemplo, na carne importada do Brasil ou da Argentina), na soja, arroz, milho ou em algo tão simples como o mel produzido por abelhas próximas de campos transgénicos. Um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) dizia recentemente que a maioria dos alimentos consumidos no mundo ocidental provém apenas de 12 espécies de plantas e cinco espécies de animais, apesar de terem sido catalogadas milhares de espécies comestíveis. Pior: arroz, trigo e milho constituem 60 por cento da alimentação humana, sendo estes, na sua esmagadora maioria, provenientes de sementes tão apuradas que o nosso corpo já não 'lê' estes alimentos como "arroz", "trigo" ou "milho". Obviamente nem vale a pena falar da 'fast-food' ou da comida industrial.

Cristina Sales, uma médica que o Porto tem a sorte de ter por perto, escreve há vários anos sobre o caos da alimentação moderna e percorre o Mundo como oradora em conferências com este tema. E o que diz? "O nosso corpo tem um histórico de milhões de anos na absorção dos alimentos e está cada vez mais incapaz de reconhecer o que come. Não tem as enzimas necessárias à sua digestão e metabolismo. Por isso gera uma reação inflamatória contra os alimentos porque os considera 'elementos estranhos', como se fossem tóxicos. Essa é uma das razões porque tanta gente aumenta de peso ou de volume: porque retém líquidos nesse processo inflamatório. E isso afeta todas as pessoas, incluindo as magras".

Jude Fanton, da organização "Seed saver (Salvar as Sementes)" disse há meses ao programa Biosfera, da RTP2 (com o qual trabalho) uma coisa simples: "Se nos recordarmos do sabor da comida dos nossos avós - as maçãs, os vegetais, etc. - eles tinham um sabor verdadeiramente forte e intenso. Isso significa mais nutrição. Essa é talvez a razão pela qual estamos a engordar. Temos de comer cada vez mais para conseguir os nutrientes de que precisamos".

A ditadura agrícola e alimentar é este louco processo de quebrar as regras da natureza em busca de mais rentabilidade. Se fecharmos os olhos à origem dos alimentos, contribuímos gradualmente para uma vida cada vez mais tóxica. Essa perda de 'liberdade de escolha' e 'biodiversidade essencial' afeta o ADN humano que não deveríamos alienar numa só geração. Além disso, replica o modelo económico que supostamente queremos combater: os lucros ficam com as grandes multinacionais e as doenças em cada um de nós.
[do JN]

12 abril, 2012

Tudo gente séria...

Não é por nada, mas gostava de adivinhar o ritmo cardíaco do Presidente da República depois de confrontado com as notícias, ou com os artigos de opinião - baseados em factos -, como os enunciados na crónica aqui abaixo do Jorge Fiel.  Falei do ritmo cardíaco, e não como seria mais indicado, da consciência, porque, ao contrário do coração, a consciência é mais difícil de sondar, sobretudo em pessoas com o perfil altivo e  a cara de pau de Cavaco Silva.

Se estivesse no lugar do Presidente, eu que algumas vezes peco por me levar demasiado sério e por gostar de pagar as minhas contas, já teria feito um pedido de explicações aos responsáveis por estas notícias, caso fossem falsas, ou, a serem verdade, como tudo aponta que sejam,  ter-me-ia já demitido. O drama é que eu sou apenas o cidadão Rui Valente, praticamente um desconhecido, e ainda por cima honesto, tanto quanto é possível sê-lo numa sociedade com uma ancestral tradição desonesta como a nossa, enquanto pessoas como o PR investem tudo no estatuto, incluindo a própria honestidade.

Penso não me enganar se disser que a política é a melhor escola para se aprender a controlar as emoções e transmitir uma imagem de integridade e competência nem sempre condizente com o perfil dos alunos. Talvez por isso a política seduza mais os visceralmente oportunistas que os bem intencionados. Pelo menos é assim que vem acontecendo. Não viria mal ao mundo se a espaços pousassem na política estes paraquedistas, se o regime em que vivemos fosse uma democracia a sério, mas até ela sucumbiu à génese trapaceira dos portugueses. Percebe-se assim por que é que os políticos se sentem tão confortáveis neste esboço de democracia, e por que é que consideram as eleições livres [até ver...] a única ferramenta prestável para provar ao mundo que Portugal tem um regime democrático, e porque não estão interessados em criar outras...

Outro [mau] exemplo: numa Democracia [escrevi com maiúscula de propósito] a valer, seria impossível que Mário Lino não tivesse já sido julgado e punido por ter interferido activamente enquanto Ministro das Obras Públicas nos negócios de uma entidade pública como a REFER e tentado influenciar [e desautorizar] o responsável por essa empresa para beneficiar uma outra privada [a O2 de Manuel Godinho]. Mas o que vai acontecer [podem escrever o que digo] é que Mário Lino vai ter apenas o "incómodo" de algumas deslocações ao tribunal - para simular o funcionamento da Justiça -, para passados uns penosos mêses [ou anos], sair imaculado...

«A gaja é que o está a segurar», dizia o sucateiro ao cúmplice da REFER, referindo-se a Ana Paula Vitorino, ex-secretária de Estado dos Transportes, que foi resistindo às pressões do Ministro Jamais e mantendo no cargo o Presidente da REFER...

Meus senhores, será preciso um desenho para concluirmos quão rasteira e marginal é a nossa classe política? Eu respondo: é! Sabem por quê? Porque a comunicação social não sendo burra, às vezes gosta de passar por burra ou - o que é mais intolerável -, de fazer de nós burros. Mas a resposta não é essa. A resposta é: pousada a poeira do caso Face Oculta, vamos todos ver de novo o ex-Ministro Mário Lino a opinar sobre a seriedade de outros como ele, mas de partidos diferentes, e o murcão do povo a ouvir.

O BPN dava um filme indiano


Não imaginam  quanto  lamento não  ter o tempo  nem  o  talento  para digerir  os 70 volumes e  700 apensos  do caso  BPN  e escrever   um  thriller  baseado  nos factos reais  da   maior   fraude    portuguesa  do século.   A  realidade   supera  sempre   a ficção.  Duvido que  John  Grisham  fosse capaz de imaginar a cena do juiz presidente do coletivo ter de fazer uma coleta para comprar no IKEA uma estante para arrumar o processo - que lhe foi negada pela DG da Justiça.


A galeria de personagens é estupenda. Ken Follet teria de nascer duas vezes para conseguir inventar um naipe tão rico, denso e variado. No protagonista, Oliveira e Costa, que por alguma razão era conhecido na sua terra (Esgueira) como Zeca Diabo, e que munido de um cartão laranja subiu na vida ao ponto de chegar a secretário de Estado.

Saído do Governo de Cavaco, na sequência de um perdão fiscal mais que suspeito a empresas de Aveiro (Cerâmica Campos, Caves Aliança), foi recompensado pelo seu amigo com uma vice-presidência do BEI, apesar de ter um inglês ainda mais rudimentar que o de Zezé Camarinha.

Amigo do seu amigo, Costa comprou, em 2001, um lote de ações da SLN (dona do BPN), a 2,4 euros cada, que revendeu com prejuízo (a um euro/ação) ao amigo algarvio (o Aníbal, não o Zezé) e à filha dele. Menos de dois anos depois, Cavaco e Patrícia venderam as ações com um lucro de 140% - ele ganhou 147 mil euros, ela 209 mil. Nada mau.

Quando o naufrágio foi evidente, Zeca Diabo teve a dignidade de ir ao fundo com o barco, aceitou fazer de único responsável pelas patifarias. Em recompensa pela imolação, foi libertado devido "ao seu estado de saúde e por se encontrar em carência económica".

O elenco de atores secundários também é muito atraente e diversificado. Por exemplo, Manel Joaquim (Dias Loureiro), o filho de comerciantes de Linhares da Beira que chegou a ministro, conselheiro de Estado e administrador-executivo do BPN, carreira em que fez fortuna ao ponto de poder comprar, por 2,5 milhões de euros, à viúva de Jorge Mello, uma mansão no Monte Estoril.

Temos também Vítor Constâncio que, apesar de usar óculos e ser o governador do Banco de Portugal, foi o último a ver a falcatrua, anos depois da Deloitte, Exame e Jornal de Negócios terem alertado para o assunto.

E ainda Scolari, que recebia 800 mil euros/ano, Figo (apenas 400 mil/ano) e Vale e Azevedo, que sacou dois milhões (passaram-lhe o cheque antes de verificarem as garantias), e tantas outras figuras do nosso Gotha que lucraram com um banco que tinha balcões em gasolineiras e ativos tão extravagantes como 80 Mirós e uma coleção de arte egípcia.

O enredo é fabuloso. Dava um filme indiano. Só espero que, na venda ao BIC, o Estado tenha tido o bom senso de reservar os direitos de adaptação ao cinema desta história, que estou certo será disputada por Hollywood e Bollywood. Sempre será algum dinheiro que entra para minorar o prejuízo de seis mil milhões.

[do JN]

11 abril, 2012

Europa e Regiões [Espanha]

A Espanha está organizada sob a forma de um governo parlamentar  numa monarquia constitucional. Ao contrário de Portugal com a queda de Salazar, os espanhóis aproveitaram a morte de Franco para se democratizarem e implantarem no país 17 regiões autónomas, 4 das quais [Galiza, País Basco, Catalunha e Andaluzia] beneficiando constitucionalmente do estatuto de "Nacionalidades Históricas".

As restantes comunidades autónomas não gozando embora da mesma autonomia beneficiaram de condições para ao longo dos anos irem progressivamente adquirindo um maior autonomia.

Hoje em dia, a Espanha está considerada como um dos países mais descentralizados da Europa, visto que todos os seus diferentes territórios administram localmente os seus sistemas de saúde e educativos, bem como alguns aspectos do orçamento público. Apesar da crise global, Espanha é um dos países mais desenvolvidos do mundo, com tudo o que de ambíguo tem o termo.
  • Área:               504.030 Km2
  • População:  46.063.511 habitantes
  • PIB.           US$ 1.4013 biliões



10 abril, 2012

Destrunfar

Em comparação com a Grécia e a Espanha, a forte coesão nacional é considerada um dos nossos principais trunfos para enfrentar a actual crise. Politicamente, o acordo tripartidário com a troika criou um apoio ao programa que lhe dá credibilidade, simplificando a sua execução. Socialmente, há a percepção de que não existe alternativa espelhada no fracasso da recente greve geral. Como em qualquer jogo, ter trunfos é melhor do que os não ter. Para se ganhar é, porém, preciso saber como e quando os usar e não os desbaratar. O Governo parece ainda não o ter percebido. 

Há vários modos de ser arrogante. Sócrates foi um caso extremo. Consegue-se, porém, ser tão ou mais arrogante falando mansa ou lentamente. As consequências podem ser perigosas. A Grécia é, também a este propósito, uma lição. Quando os socialistas gregos ganharam as últimas eleições, encontraram um país numa situação que era bem pior do que aquela que, por cá, PSD e CDS herdaram, sobretudo na discrepância entre números comunicados às entidades europeias e os verdadeiros. Depois, o PASOK cometeu erros, não tendo, segundo a troika, ido tão longe quanto devia nas reformas estruturais e na aplicação das medidas de austeridade. Mesmo assim, a Grécia está a ferro e fogo! A fazer fé nas sondagens, as eleições serão ganhas por aqueles que, há quatro anos, deixaram o país à beira do caos. Admito que, por cá, este facto não deixe alguns membros do aparelho socialista indiferentes e que, entre eles, comece a fazer caminho a ideia de que a evolução grega poderá ser replicada, trocando as cores. Com o tempo, é provável que as suas fileiras engrossem. Se vierem a tornar-se dominantes, o PS renegará o que assinou, invocando argumentos que o Executivo lhes terá dado, o que, ao ritmo que tem vindo a cometer gafes, não será difícil. Politicamente a estratégia será proveitosa, não obstante as consequências económicas serem desastrosas. Mesmo um governo a quem os eleitores conferiram legitimidade para escolher um caminho próprio tem de saber resistir à tentação de dar como adquirida a neutralidade socialista. Se o Governo não for capaz de limitar o sectarismo da sua pretensa omnisciência, mais cedo do que tarde perderemos um dos nossos trunfos mais importantes. 

A tentação do PS para seguir esse caminho aumentará com a erosão social decorrente das medidas de austeridade e dos erros cometidos na sua concretização. Pelo seu papel de garante de direitos mínimos, o sistema de segurança social é uma área nevrálgica para a coesão nacional, exigindo-se que seja gerida com rigor e transparência. A forma como os pedidos de reforma antecipada foram congelados não é a mais adequada mas, face ao propósito maior de não hipotecar a sustentabilidade do sistema, não era fácil proceder de outro modo. Se o modelo assentasse na lógica de desconto para si próprio, um pilar neoliberal estranhamente invocado pela Esquerda, as pensões já há muito tempo seriam bastante mais baixas, em especial as antecipadas. No nosso sistema, há um contrato social implícito que nos dará direito a uma reforma, embora os nossos descontos sirvam, numa lógica de solidariedade, sobretudo, para financiar os actuais reformados. A confusão é grande, o que facilita a demagogia e se ultrapassa com informação e esclarecimento, sem estigmatizar seja quem for. Nas antípodas do que o Governo fez a propósito dos beneficiários do RSI, objecto de uma suspeição generalizada, primária e infame, que permite um simétrico com base no qual todos os ricos são desonestos, ressuscitando uma luta de classes que se julgava morta e enterrada. A coesão nacional ainda é um trunfo. Ao ritmo que o PSD e o CDS estão a destrunfar, não durará muito. Só que neste jogo, ninguém ficará a ganhar. P.S. Mário Soares foi apanhado a 199 km por hora. Ninguém estranhou que um episódio privado tenha chegado à Comunicação Social. Investigou-se a violência policial nos incidentes do Chiado, mas considera-se normal que haja "bufos" nessa corporação. Assim vamos nós......
[do JN]


Nota de RoP:

Não sei em que é que o autor do artigo estaria a pensar quando escreveu: «Em comparação com a Grécia e a Espanha, a forte coesão nacional é considerada um dos nossos principais trunfos para enfrentar a actual crise.». Quero crer que estaria a brincar, porque, nos tempos que correm levar a sério esta frase,
é para os nortenhos uma verdadeira provocação. Pelo menos para mim, é. 

Em meu entender, o que este e outros governos  fizeram de "melhor", com as suas alucinantes políticas centralistas e discriminatórias, foi provocar graves fracturas na coesão nacional. Só não tiveram por enquanto grandes consequências porque o povo português continua demasiado alheado da política. 

Mesmo assim, e por este andar, não tardará muito para se começarem a manifestar os sintomas. Para já, graças à leviandade dos governantes, a par do desemprego, os assaltos à mão armada subiram vertiginosamente; daqui a uns tempos, com a subida expectável do preço da água e do que vier por arrastamento, talvez comecem a nascer grupos organizados de "indignados" menos brincalhões do que aqueles a que estamos habituados, e  se notem com outra nitidez os sinais da tal «coesão nacional»... É uma questão de tempo.