22 junho, 2012

"Estádio de Emoções", um programa onde se fala de futebol a sério

 Porto Canal - Entrada

Já que estamos em pleno Campeonato Europeu de Futebol , embora com os esterismos mediáticos do costume - apesar do bom comportamento da selecção -, chamo a atenção dos leitores para o magnífico programa do Porto Canal, dedicado ao evento, competentemente conduzido pelo Júlio Magalhães. Passa às terças e quintas-feiras pelas 22H30, tendo como comentador residente o Prof. Jorge Araújo e outros convidados.

Sem querer puxar a brasa à minha sardinha, este programa é uma lufada de ar fresco no universo dos programas [ditos] desportivos feitos nos canais da concorrência. Ali, há inteligência, sobriedade, e ousadia para apresentar ideias novas. 

Não sendo o futebol a área da especialidade do Prof. Jorge Araújo [a sua é o básquete], ouví-lo falar sobre futebol é um prazer. Ontem, os outros comentadores foram Rui Moreira e Miguel Guedes, cujas participações brilhantes deram um enorme contributo para a optimização do programa. Que diferença, comparado com o que se faz no despesista e parasita canal do Estado!   

Parabéns Juca! Agora, só falta terminar com aquelas entrevistas bacocas do Ricardo Couto às vedetas de Lisboa porque além de serem um verdadeiro festival de pirosice e vaidade, não trazem nada de novo para o Norte. De mais a mais porque tem primado pelo mau gosto no que toca à escolha dos convidados...
  

19 junho, 2012

Selecção nacional e os vinhos de Lisboa Alvarinho...

Calculo que o conteúdo do post anterior tenha bastado para dar uma ideia da minha capacidade para resistir com alguma naturalidade à onda de euforia que se gerou com a selecção portuguesa. Mais do que habituado, já estou vacinado contra estas crises de optimismo prematuro [e exagerado] que ano após ano se repetem também com o clube do regime, cujos resultados depois não correspondem às pretensões dos publicitários... 

No início de cada temporada, tenha ou não vencido o campeonato, as parangonas da imprensa e as aberturas dos telejornais só têm um único candidato à victória final: o Benfica. Contratações galácticas, promessas de victórias nacionais e europeias, treinadores do outro mundo, entrevistas, foguetório, são o pão nosso de cada início de época... Contudo, lá mais para diante, quando o campeonato já está lançado e as coisas começam a dar para o torto, toda a euforia se esfuma num ápice para dar lugar às críticas aos árbitros e às intriguices do costume. A isto, claro, nunca poderia chamar optimismo e muito menos respeito pela diversidade, a isto só posso chamar uma coisa: obsessão demencial centralista. Aplicado à selecção nacional, jamais lhe daria o nome de positivismo patriótico, mas antes fanfarronice própria de medíocres e oportunistas.

É baseado nestes comportamentos, típicos de quem tem uma noção micro e limitada da verdadeira grandeza das coisas, que me custa compreender aquelas pessoas que só porque estão tranquilas, de bem com a vida, consideram que o sucesso de uma selecção pode alterar seriamente o estado de espírito ou a vida de milhões de desempregados. Entre uns e outros, é óbvio que a disposição não pode ser a mesma. Se acrescentarmos a isto a acumulação de desconsiderações feitas aos nortenhos pelos últimos governos que citei no post anterior, fazer apelos ao optimismo patriótico é outra desconsideração, é tratar o povo como uma multidão de criancinhas acéfalas. E isto, meus senhores, não é transmitir ânimo a quem dele precisa, isto é provocar.

Mas, a obsessão demencial que tem dominado os centralistas e respectivos símbolos desportivos não se fica por aqui. Qual cancro, espalha-se em todas as áreas e arrasa tudo. Não só perverte o significado das coisas como procura anulá-los. Promove mais o nome de Lisboa no Mundo do que o de Portugal. A inveja centralista confunde-se e mistura-se com profundos complexos de inferioridade que significativamente buscam atribuir aos da "província" [na qual o Porto se inclui], transmitindo para a opinião pública uma ideia contrária da realidade. Uma delas, por exemplo, é a de que o Porto sempre quis ser a capital do país e que passa a vida a queixar-se disso...

Bem, basta olhar um pouco para o que se tem feito e inventado para tentar derrubar a hegemonia dominante do FCPorto no futebol para ficarmos esclarecidos. Mas há mais, muito mais. Pequenos grandes sinais dessa inferioridade não faltam. Para começar, é notória a tentativa de enfraquecer todo o Norte e o Porto económica e politicamente, mas até os nossos símbolos tentam destruir. Politica e economicamente quase o conseguiram, desportivamente ainda não...

A este propósito tenho uma história para vos contar. Um destes dias deparei numa garrafeira de um supermercado com uma "curiosidade" que pode explicar em parte o que atrás escrevi. Observei, com alguma estranheza, uma garrafa de vinho "Alvarinho" que era produzido na região vinícola do Tejo... Não resisti, e perguntei a um funcionário se sabia desde quando é que a região do Tejo era produtora de vinho Alvarinho, ao que me respondeu simpaticamente que era uma nova produção daquela casta plantada naquela região. Repercuti dizendo-lhe: meu caro, não sendo especialista na matéria, ao que sei o vinho Alvarinho é produzido no Minho e na Galiza, abrangendo a região de Monção e Melgaço, e o que faz dele um vinho especial não é só a casta da uva mas sobretudo o micro-clima específico daquela região. Se eles querem produzir vinhos que o façam, mas dêem-lhe outro nome porque Alvarinho há só um, o da região, além de que é uma adulteração abusiva.

Mas, não me estranhou assim  tanto este "fenómeno", porque como já devem ter reparado ultimamente começam a surgir destacados vinhos produzidos na região vinícola de Lisboa e Tejo... Conheço os vinhos alentejanos, de Colares em Sintra, conheço os vinhos da Região de Setúbal, e até os de Bucelas e Bombarral, agora os de Lisboa só mesmo como resultado do tal efeito difusor invertido. 

A região do Douro e Minho e os seus vinhos pelos vistos também já perturbam o vale do Tejo centralista...

    

18 junho, 2012

A selecção "nacional" e o orgulho de um país miserável


 euro 2012 portugal holanda
Como é do conhecimento dos leitores deste blogue, sou um apreciador de futebol. Como quase todos os outros adeptos, empolgo-me mais quando é o meu clube a jogar e... a ganhar. Neste aspecto concreto, sou aquilo a que se pode chamar um adepto normal, igual a tantos outros, excepto na feliz coincidência de o meu clube se chamar FCPorto, o mais competente de todos, desde que há liberdade de expressão em Portugal.

Com a selecção nacional, não posso dizer o mesmo. Só não me estou completamente nas tintas porque nela jogam alguns jogadores que actuam no FCPorto, e outros que já actuaram no passado. Só por isso.

De resto, não é pelo Presidente da República, pelo 1º. Ministro e toda a carneirada que com eles faz coro - incluindo os exploradores da comunicação social - virem agora puxar pelo orgulho pátrio que o meu desinteresse pela selecção se irá alterar. Aliás, até me sinto mais patriota por ser como sou, por me distinguir da mentalidade ralé dominante por não embarcar nestes folclores sazonais, onde o futebol se transforma simultaneamente na cocaína do povo e no descanso dos governantes. Enquanto o povo se distrair com nacionalismos futeboleiros os dirigentes políticos podem continuar a sugar-lhe tranquilamente a já baixa qualidade de vida que tinha.

Para mim, é muito difícil envolver-me emocionalmente com a selecção de um país dividido como é actualmente Portugal. Não posso aplaudir uma selecção só porque nela jogam alguns jogadores e ex-jogadores do meu clube. Para estar com a selecção teria de ter como certa a consideração dos nossos governantes pelo resto do país, começando [por exemplo] por um tratamento igual, coisa que como é sabido não tem acontecido. Não posso sentir orgulho por uma bandeira ou camisola nacional que obriga um nortenho a ganhar muito menos que um lisboeta da mesma profissão. Um país que concentra na capital todos os poderes [economia, finanças e comunicação social], que taxa as Scuts em 1º.lugar no Norte, fazendo de nós autênticas cobaias. De um país que recorrentemente desvia verbas de fundos europeus destinados às regiões mais pobres para Lisboa a coberto de um virtual efeito difusor. Símbolos de um país que tem tido governantes incompetentes e corruptos, agarrados como lapas ao poder, cujo Presidente da República e 1º.Ministro chegaram ao cúmulo de aconselhar os jovens a emigrar. Um país que trata o Porto como aquela terra lá ao longe [recordam-se como eles acharam gracinha a Scolari?], que persegue o melhor presidente de clubes como o maior facínora, enquanto deixa em luxuosa prisão domiciliária um político homicida e ladrão, e permite que um ex-presidente de um clube lisboeta, condenado na Justiça por burla de milhões e falsificação de documentos se mantenha foragido em parte certa, gozando com ela na cara do povo. Essas, e muitas outras poucas vergonhas, a mim causam-me repulsa e desgosto. Se a pátria é isto, então eu não sou patriota, e nesse caso, estou-me mesmo a borrifar para o sucesso ou insucesso da selecção.

Falem-nos de progresso, de bem estar, da excelência do nível de vida da maioria dos portugueses, e depois talvez possamos conversar a sério sobre orgulho nacional. Porque o meu orgulho não é, nem nunca será o Ronaldo, nem mil ronaldinhos.

Talvez esteja neste estereótipo de "patriotismo" a explicação do nosso imutável atraso, enquanto povo... 


11 junho, 2012

Já agora, levem-nos também a alma. Democraticamente, s.f.favor...

Sei quem tem a resposta para as minhas dúvidas, ou melhor, sei que tipo de gente me responderia lá do alto da suprema sabedoria - com aqueles irritantes tiques de superioridade - a questões que a mim muito me intrigam. Mas desses iluminados nada me interessa saber, porque são por demais risíveis e previsíveis as suas ideias sobre a sociedade e o mundo.

Albert Camus, também não conseguiu esclarecer-me sobre o assunto, nem mesmo nessa magnífica peça teatral escrita, chamada Os Justos, onde nos confronta com o imperialismo russo dos czares e a inquietude de um grupo de jovens revolucionários em conflito com uma sociedade despótica que se dispõem a matar e a perder a própria vida para acabar com a tirania.  

Não estamos na Rússia, nem sob o jugo de um tirano ou de uma ditadura assumida, mas os caminhos que estão a ser trilhados pelos nossos representantes nesta aparvalhada democracia cada vez se parecem mais com aqueles que os ditadores costumam tomar.

E a questão que coloco é a seguinte: será alguma vez possível, num regime como este, derrubar do poder dirigentes políticos irresponsáveis antes de exaurirem completamente todos os recursos de sobrevivência ao povo? Os tais sábios que atrás referi diriam apressadamente que sim, que só "civilizadamente" e "em democracia" é que estas coisas se resolvem. Mas nós já sabemos qual é o entendimento que eles têm da democracia e do civismo.

A história antiga e recente prova-nos o contrário. Tivemos um aldrabão do PS no governo e contudo, a tal democracia de que eles falam não nos poupou agora de termos outro no PSD [o iva e as reformas eram intocáveis, lembram-se?].

Teremos nós serena e passivamente de os ver de novo a delapidar o país? São estes os poderes democráticos que o povo tem sobre quem tão mal o tem representado? Afinal quem é que elegeu a Troika? Fomos nós? Não é afinal a Troika que nos está a governar?  Como é que a Democracia lhes permitiu entrar no país e dominar vergonhosamente quem foi eleito para o governar? Percebem isto? Será aceitável isto?

Afinal, o que é que lhes faltará mais destruir?  As nossas almas?

10 junho, 2012

O que ficou por perguntar a Fernando Gomes no Porto Canal


O erro de Fernando Gomes



O ex-presidente da Câmara do Porto, Fernando Gomes, assumiu, pela primeira vez, ter cometido "um erro", ao integrar o Governo de Guterres, na qualidade de ministro-adjunto e da Administração Interna, deixando a meio o mandato que os portuenses lhe tinham entregue.

Numa entrevista concedida ao programa "Polo Norte", do Porto Canal, bateu com a mão no peito e disse: "A ideia era deixar espaço para quem cá estava, mostrar que as coisas não corriam mal no Porto, e, entretanto, criar em Lisboa, junto do Poder, um espaço para ajudar o Porto, complementar quem estava na liderança do Porto, através de Lisboa. Saiu errado. E eu nunca assumi a humildade de ter chegado ao Porto e dizer: eu errei".

Esta declaração pungente merece um pequenino reparo. Ou dois. Ou mesmo três.

O erro de Fernando Gomes não foi ter ido para a "maléfica" Lisboa. Esse era o seu destino óbvio, depois do trabalho feito na Câmara do Porto. Gomes desejava, muito legitimamente, ser ministro. O erro de Fernando Gomes foi ter regressado ao Porto como se Lisboa tivesse sido apenas e só um epifenómeno na sua vida política. Não foi.

A passagem por Lisboa marcou-o profundamente - não apenas porque foi trucidado por alguns "companheiros" de partido; não apenas porque lhe caiu em cima uma vaga de assaltos a bombas de gasolina (coisa de meninos de coro, quando comparada com a criminalidade violenta que hoje assusta o país de norte a sul); não apenas porque a atriz Lídia Franco foi apanhada na onda do crime, mediatizando-o até ao paroxismo; não apenas por todas estas circunstâncias, mas sobretudo porque, depois delas, Fernando Gomes entendeu que faria no Porto uma espécie de catarse política, para, quem sabe?, mais tarde regressar ao centro do Poder.

Os portuenses não lhe perdoaram a arrogância que esta estratégia continha. Gomes achou que o povo era bondoso, paciente e sabedor das tropelias de que ele havia sido vítima. Por isso o glorificaria de novo. A empatia entre Gomes e o povo (ou melhor: entre o povo e Gomes) terminou no dia em que ele assumiu nova candidatura à Câmara do Porto. Em certo sentido, Gomes fez então o que Passos Coelho está a fazer agora: pediu paciência aos portuenses. Os portuenses perderam a paciência.

É por isso que custa ouvi-lo dizer que escolheu ir para o Governo para, "junto do Poder, ajudar o Porto". Gomes seria no Executivo uma espécie de canivete suíço do Norte? Soa a desculpa, daquelas que não pegam mesmo usando a cola que agarra cientistas ao teto. Não é com atos quixotescos que o Porto e o

Norte se impõem. Como, aliás, Fernando Gomes muito bem sabe.

Último reparo: por que volta Fernando Gomes ao tema com as autárquicas na rua?

Nota de RoP:

Aqui atrasado publiquei uma crónica deste mesmo autor cujo conteúdo me suscitou alguma repulsa [as razões podem ser relidas aqui e aqui  ]. Hoje, reproduzi esta por razões opostas. É uma síntese muito interessante sobre a ascensão e queda de Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara do Porto. 

Na interessante entrevista dada ao Porto Canal conduzida por David Pontes apenas faltou abordar Fernando Gomes sobre o caso relatado neste artigo de Paulo Ferreira, para ficarmos a saber o que pensa o ex-autarca portuense da cilada vergonhosa que lhe montaram em Lisboa para o descredibilizar politicamente, e por que é que nunca falou sobre o assunto, até hoje... Foi pena.

06 junho, 2012

Informação

Problemas com o blogger alheios à n/ vontade impediram a publicação habitual de comentários. Retomaremos o trabalho oportunamente.

04 junho, 2012

Brincar com o fogo...

Elias o sem abrigo
de R. Reimão e Aníbal F.
[Cartoon/JN]


Justiça revoltante!


Justiça à portuguesa (3)

   

 

A história é conhecida e até já foi noticiada abundantemente pela comunicação social. O que não é conhecido é o seu final. Um final que demora e que tem muito a ver com a justiça - a justiça do caso e a justiça enquanto sistema. Vejamos então.

Na sequência de investigações sobre tráfico de droga a Polícia Judiciária de Lisboa apreendeu, em finais de 2006, uma quantia de quase cem mil euros. Essas verbas ficaram na posse da PJ, mais concretamente, depositadas num cofre localizado no gabinete da inspectora coordenadora do departamento encarregado do combate ao tráfico de estupefacientes.

No ano seguinte, durante o mês de Maio, surgiram suspeitas de que algum desse dinheiro teria desaparecido, facto que veio a confirmar-se. Então, inspectores da Direcção Central de Investigação à Corrupção e Crime Económico-Financeiro detiveram a sua colega inspectora coordenadora da Direcção Central de Investigação ao tráfico de Estupefacientes e apresentaram-na a um juiz que determinou a sua prisão preventiva. Ela foi acusada de se ter apropriado em benefício próprio de mais de 86 mil euros que tinham sido apreendidos à ordem do processo de tráfico de estupefacientes. Mais tarde foi julgada e acabou condenada a uma pena de prisão efectiva, bem como, obviamente, a restituir a quantia desviada. Porém, no julgamento relativo ao tráfico de droga, o arguido a quem tinham sido apreendidos os quase cem mil euros acabou ilibado tendo o tribunal decretado que lhe fosse devolvido o dinheiro apreendido. Só que esse dinheiro já não estava na posse da PJ, pois a inspectora coordenadora que o apreendera tinha-se se apoderado dele e tinha-o gastado em benefício próprio.

A situação é tanto mais caricata quanto é certo que a audiência de julgamento que decretou a restituição dos 86 mil euros foi realizada em Outubro de 2009, há quase três anos, e o dono do dinheiro ainda nem lhe viu o cor. O dinheiro não está no processo e, portanto, ninguém devolve nada a ninguém porque, simplesmente, não há nada para devolver. A inspectora que se apropriara ilicitamente do dinheiro não o restituiu ao processo, a PJ aparentemente não assume a responsabilidade pelo desaparecimento do dinheiro e o ministério da justiça assobia para o lado como se não fosse nada com ele.

O prejudicado já escreveu, através do seu advogado, várias cartas ao ministério da justiça, mas nada, a não ser um esclarecimento feito em Agosto de 2010 em resposta a uma notícia do jornal Público, segundo o qual o ministério e a PJ não tinham sido notificados para efectuar o pagamento do montante apreendido. E o gabinete do ministro Alberto Martins acrescentava: «Se e quando tal ocorrer, será dado célere cumprimento ao determinado». Sucede que até hoje a decisão do tribunal ainda não foi cumprida, ou seja, o dinheiro ainda não foi restituído ao seu legítimo dono - ou porque o tribunal ainda não notificou o ministério da justiça ou então porque este se faz de desentendido e não cumpre a decisão judicial.

De qualquer forma este episódio é bem elucidativo dos pesos e medidas que o estado português usa nas suas relações com os cidadãos. Quando são estes a dever ao estado tudo vale para os obrigar a pagar, incluindo, penhoras, juros quase usurários e taxas de justiça elevadíssimas para quem se quiser opor a essa pretensão. Quando, porém, é o estado a dever, pura e simplesmente não paga e até finge que não é nada com ele.

O estado, através dos órgãos que investigam e perseguem a criminalidade, apreendeu uma determinada quantia como se ela tivesse origem criminosa. Posteriormente, demonstrou-se que esse dinheiro não estava relacionado com qualquer crime, pelo que o mesmo estado, agora através dos órgãos que administram a justiça, determinou a sua restituição ao dono. Só que, entretanto, um funcionário do estado apropriou-se do dinheiro e gastou-o em benefício próprio e agora o estado não o devolve e já lá vão quase três anos. Sublinhe-se que a PJ é um órgão do ministério da justiça.

Enfim. Está tudo dito. Não é só internacionalmente que o estado português perdeu respeito e credibilidade; é também internamente, perante o seu próprio povo.

03 junho, 2012

De: António Alves - "A completa irrelevância das «elites» do Porto"



De: António Alves - "A completa irrelevância das «elites» do Porto"

Submetido por taf em Sábado, 2012-06-02 22:51
Após muita discussão, muita opinião, e até alguma fanfarronine, bastou cá vir o inefável Álvaro dar duas palavras a abater para toda a “elite” política e opinativa do Porto ser reduzida à insignificância vegetativa que a caracteriza. O governo faz o que quer e lhe apetece no que respeita a nomeações e desnomeações de Conselhos de Administração de empresas públicas cá do burgo sem qualquer oposição visível. Pior ainda: o Aeroporto Sá Carneiro vai ser mesmo vendido à molhada com todos os restantes aeroportos nacionaiscomo garante uma das raposas* que foram postas pelo governo à porta do galinheiro das privatizações da TAP e ANA. O Porto de Leixões, por sua vez, será também absorvido pela famosa “holding”. Tudo isto num tempo em que parece garantido um novo investimento brutal no Aeroporto de Lisboa e, não tarda muito, lá arranjarão dinheiro, com ou sem Troika, para a ferrovia de Sines em prol de mais uma quimera: a da rota da seda e da nova porta de entrada da Europa.
Num mundo em que o paradigma da rede é cada vez mais proeminente e diferenciador do que é eficiente e gerador de valor do que é ineficiente, em Portugal, para pura satisfação da predação financeira sobre bens públicos, faz-se precisamente o contrário. Faria todo o sentido que o Aeroporto, o Porto de Leixões, o canal navegável do Douro, e até a ferrovia que os servem, fossem geridos por uma autoridade portuária regional de modo a potenciar as sinergias e complementaridades mútuas. Os lucros gerados pelos que estão em estado superior de desenvolvimento financiariam aquelas partes que estão ainda em fase de consolidação e também a construção de novas intermodalidades que completassem a rede logística que todas estas infraestruturas representam. A aglutinação sectorial estanque que o governo levará a efeito é um modelo anacrónico, do meio do século passado, completamente desfasado do mundo em que hoje vivemos. A gula das máfias financeiras estabelecidas em volta do Terreiro do Paço será satisfeita. Os valentões do costume meterão o rabo entre as pernas e tentarão entreter o pobo com o folclore do costume. A forma mais simples e eficaz de unir Porto, Gaia, Matosinhos, Maia, Gondomar, etc., é eleger diretamente uma Junta e Parlamento metropolitano com verdadeiros poderes de gestão supramunicipal sem, no entanto, os confundir com uma espécie de região administrativa como por aí já foi proposto.
António Alves
* O BES tinha uma empresa de aviação que dava prejuízos e precisava de livrar-se dela. No tempo de Sócrates conseguiram impingi-la à TAP e ainda lhes pagaram principescamente pelo mono. Só por isso qualquer governo decente evitaria tê-los como parceiro nestes negócios.
[do blogue A Baixa do Porto]

02 junho, 2012

Eu não votei na troika. E você?


Editorial: Porta-aviões ao fundo

1. Já aqui falei sobre a questão do porto de Leixões. É o mais rentável do país, o mais bem gerido e aquele com maior margem de crescimento. Talvez por isso, tornou-se num fruto apetecido, o ponta-de-lança para uma holding a agregar todos os portos nacionais, com uma gestão única e centralizada. Este é, sem sombra de dúvida, um projecto nefasto para o porto de Leixões e para o Norte. Em 2011, deu um lucro de 10 milhões de euros. Entretanto, inaugurou um terminal de passageiros que este ano, como o GRANDE PORTO adianta nesta edição, já vai atingir os objectivos previstos para… 2018. Dito de outra forma, o porto de Leixões encetou há uns anos uma estratégia de crescimento sustentado que deu plenos resultados. O que faz o Governo perante este caso de sucesso? Empurrado pela troika, que pouco ou nada percebe sobre as especificidades regionais do país, estuda juntá-lo a outras estruturas portuárias altamente deficitárias, promovendo na prática transvases financeiros que podem ser o caminho para o desastre. É imperativo que o Norte se manifeste claramente contra esta opção que não traz nada de bom para a região. Matos Fernandes, o até final de Maio presidente da Administração dos Portos do Douro e Leixões, não quis mais dar para este peditório e bateu com a porta. É um exemplo para a posição de firmeza que o Norte e todos os seus agentes políticos e económicos devem tomar. O projecto em causa não interessa a quase ninguém, mas não interessa principalmente à região. 


2. A questão dos transportes públicos é outra em que a intromissão da Administração Central só serve para baralhar. Com a Metro do Porto e a STCP a apresentarem cada vez melhores resultados operacionais, o Governo continua a não se decidir sobre o modelo de gestão que quer aplicar nas empresas. Mais grave, é directamente responsável por um vazio administrativo no metro, que reúne em sucessivas assembleias gerais sem nomear os administradores e sem traçar um rumo certo para a empresa. Os autarcas continuam às aranhas e ninguém sabe quando haverá fumo branco. A pressa, como se vê, é mesmo inimiga da perfeição. 

3. A Porto Vivo ainda não viu a cor do dinheiro que o Estado tem que injectar, e comprometeu-se a tal, na sociedade de reabilitação urbana. E nem o novo organigrama, onde deverá surgir um Conselho Geral, está definido. Mais palavras para quê?



[de Miguel Angelo / Grande Porto]

Sabedoria a mais para país a menos




[do Público]

31 maio, 2012

Hélder Pacheco e os vendidos da província

Há algum tempo atrás, o professor Hélder Pacheco escreveu no JN uma crónica magnífica onde recomendava aos  deputados da actualidade eleitos pela província a lerem a história de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, um seu antecessor eleito para as Cortes do liberalismo. A história resume-se ao seguinte: Elói Barbuda personagem do romance cómico "A Queda de um Anjo", de Camilo, era um pacato e tímido homem da serra que assim que chegou a Lisboa criticou severamente a vida luxuosa e fútil que por lá se fazia. Mas não durou muito a indignação. Com o tempo familiarizou-se com o ambiente, constituiu família e converteu-se ao mundanismo, juntando-se à sociedade hipócrita e golpista da capital.

Nesse artigo, Hélder Pacheco pretendia chamar a atenção para os continuadores de Elói que hoje gravitam por todo o lado e em todas as actividades, particularmente gente ligada ao jornalismo, à cultura e à política. Tudo por uma razão muito simples. Ainda é em Lisboa que se vive à tripa forra, e nalguns casos faustosamente, dos recursos do resto do país. Por isso não é para admirar a metamorfose dos "aculturados"...

O que realmente admira, e aí concordo absolutamente com Hélder Pacheco, é que essa gente se converta tão rapidamente ao centralismo, mais ainda que os próprios lisboetas, ignorando as próprias raízes. O que afinal pretendia dizer H. Pacheco era que ainda há excepções. E nessas excepções elegia o jornalista Júlio Magalhães, actual director geral do Porto Canal, por ter resistido às maravilhas e aos cantos de sereia do Terreiro do Paço, mantendo-se portuense e portista, regressando à terra mãe.

Tal como Hélder Pacheco, faço votos para que a resiliência do Juca [como lhe chamou] se mantenha e mesmo reforce porque o Porto vai precisar. A propósito, HPacheco aproveitou para mandar um recado a algumas meninas do Porto Canal aparentemente colonizadas de ouvido [como ele disse] por abrirem demasiadamente os "ás" e os "ós" à maneira de Lisboa. Esqueceu-se foi do Ricardo Couto e do seu inenarrável programa À Conversa com Ricardo Couto", que mais não é do que a versão Calistoeloiana de um programa de televisão.


29 maio, 2012

A caça às bruxas abriu. O caçador-chulo chama-se Hélder Conduto

Vamos colocar as coisas nestes termos: se você apanhasse um colega de trabalho a fazer algo que pudesse afectar o bom funcionamento  da empresa, roubando, falsificando, ou mesmo fazendo o contrário daquilo que seria suposto fazer, sabendo que isso podia prejudicar a imagem e o trabalho de todos os outros colegas, calava-se ou denunciava a ocorrência? A sua resposta, caro leitor, fica ao critério da sua consciência, não precisa de ma dar. Mas eu dou a minha: denunciava-o imediatamente. 

Escrevo isto porque continuo profundamente convencido que quando alguém, seja de que profissão for, assiste a um acto grave dentro do seu local de trabalho praticado por um colega, tem o dever de o denunciar sob pena de, não o fazendo, se tornar cúmplice do infractor por omissão. 

Suponho que é por fazerem exactamente o contrário do que eu faria, que jornalistas e políticos gozam cada vez menos da confiança do povo e que já ninguém os leva a sério. Isto para dizer que a nova temporada de caça a Pinto da Costa e ao FCPorto está aberta. Foi logo pela manhã que esse escroque chamado Hélder Conduto, funcionário da RTP, chulo não assumido [recebe dinheiro dos impostos dos portistas e passa a vida a dar-lhes porrada], provavelmente a mando de outro mercenário conhecido pelo benfiquista de Paredes, deu início a nova época da má-língua e da conspiração contra Pinto da Costa sempre na vã esperança de assim poderem abalar o clube.

Agora, este moço de recados foi ao Brasil encomendar a Scolari mais umas telenovelas para encher o orgulho ferido da nação vermelha com a perda de mais um campeonato e assim afastar os holofotes da crítica a Luís Filipe Vieira, [mais conhecido por Orelhas ou negociante de coca-cola, sem cola]. É mais do mesmo, já sabemos, mas seja como for, é inadmissível que não haja uma entidade capaz de suster a fome de sangue desta escumalha.

Por conseguinte,  é  intolerável que andem agora a queixar-se de pressões do poder político [o caso Relvas é paradigmático], e que ao mesmo tempo assistam impávidos e serenos a este jornalismo de prostituta sem uma palavra pública a demarcarem-se dele. Por isso, comem todos por igual. E muito bem, digo eu.

Apreciem os actores... sem se rirem [se possível].

28 maio, 2012

Nós e os gregos

É claro que os processos prescritos de Isaltino Morais, de Ferreira Torres, de Fátima Felgueiras e de Domingos Névoa [só para citar os que vêm hoje a público no JN], como diriam os conformistas do costume, não passam de faits divers, nem tão pouco espelham toda a classe política e empresarial do país. Mas o que é certo, é que servem para provar que o Sol, ou melhor, a Justiça, quando nasce não é para todos, pois se estes trastes fossem outros, pobres, e acusados pelos mesmos crimes, já estariam há muito a ver o sol aos quadradinhos. E não vale a pena fazer fé nas declarações da Ministra da Justiça por dizer que "vai acabar com a prescrição dos processos", porque também ela [coitada], não é para levar a sério.

Também não é para levar a sério a alteração à lei que regula a contratação de bens e serviços por entidades públicas com os privados porque simplesmente o poder político não quer. Os velhinhos ajustes directos sempre permitem cambalachos mais "promissores" para a engorda bancária dos intervenientes do que os concursos públicos partilhados limpos e transparentes. Outrossim, não interessa à classe política alterar o regime legal que responsabilize financeiramente os gestores públicos, porque isso equivaleria a responsabilizá-los mesmo... Aliás, a obrigação das entidades públicas de apreciar propostas de três fornecedores distintos acompanhada da respectiva fiscalização já esteve prevista na lei, e ficou tudo na mesma. Por isso, mesmo que Cavaco Silva promulgue a versão entregue pelo Governo, nada de concreto mudará visto que continuará a ser permitido assinar contratos de grande valor a uma empresa "seleccionada" pelo gestor sem a obrigatoriedade de consulta a outras. Oito mil milhões de euros foi SÓ o valor  gasto em ajustes directos sem lançamento de concursos de 2009 a Maio de 2012 pelo Estado!

Tudo isto são não notícias, já pertencem ao caruncho político, às rotinas do mafioso noticiário do Estado. Só não se entende é porque a população ainda consegue obedecer às pequenas sacanices da Lei, como os impostos, as multas de trânsito, as portagens, os reboques de viaturas mal estacionadas, o gás, a electricidade, a água, etc., etc.

Tratando-se de seres humanos e não de cabras, o normal, a reacção expectável a esta pouca vergonha seria a desobediência civil, e deixar de pagar o que quer que fosse ao Estado [e à Troika]. Afinal de contas não faríamos mais do que imitar os exemplos dos nossos "queridos" políticos em termos de transparência e de civismo. Mas a verdade é que nós não somos a Grécia, como alguns dizem com "orgulho" . Lá isso não. Somos muito piores. Gostamos muito de pastar, como as cabras. 

23 maio, 2012

Rui Rio promíscuo

Rui Rio promete arranjar financiamento para demolir o bairro do Aleixo

É impressionante o número de casos fracassados do autarca do Porto em matéria de projectos para a cidade!

Além do Bairro do Aleixo, onde deu provas de não saber precaver-se com as devidas garantias relativamente aos financiadores do fundo imobiliário que, como é agora público, incluía um investidor [Victor Raposo] implicado na burla do BPN, juntamente com o filho de Duarte Lima, Rui Rio acumula um rol de "tiros" fora do alvo como nenhum outro Presidente. Os seus apoiantes [se é que ainda os tem], têm "boas" razões para se sentirem orgulhosos com o homem que escolheram para a edilidade portuense... 

O mercado do Bolhão anda há anos sem rei nem roque. Ora tem um projecto, ora deixa de o ter.  Está a morrer e pior do que quando Rui Rio chegou à Câmara do Porto.  Não ata nem desata. O mercado do Bom Sucesso, idem, idem, aspas, aspas. A Es.col.a da Fontinha, que esteve vários anos a apodrecer e sem qualquer utilidade, foi desocupada e entaipada, depois de um movimento de activistas civis a terem dinamizado com variadas actividades culturais. O pavilhão Rosa Mota, está a degradar-se de dia para dia e de obras, nada! De novos projectos não reza a história triste de Rui Rio. Com ele, só os problemas se amontoam. Rui Rio é muito melhor a destruir que a empreender.

A única coisa em que apostou e, se calhar, esgotou toda a energia, foi em virar as costas ao FCPorto e aos portuenses que se revêem no clube. Como qualquer lambe-botas, fê-lo só para agradar ao centralismo e com isso conquistar um lugar ao sol na política. Até nesse acto miserável, que descaracteriza o que tem de mais nobre o portuense [genuíno], que é o amor ferrenho à sua terra, parece que não lhe vai render grandes juros. Nem Lisboa o quer.

Mas, não ficam por aqui as contradições de Rui Rio. Para quem não apreciava as promiscuidades entre a política e o futebol e fez tanto alarido com o FCPorto e Pinto da Costa, Rui Rio decidiu finalmente abrir as portas da Câmara ao mais recente oportunista do futebol português, o Presidente da Liga Mário Figueiredo, supostamente para tomar conhecimento sobre novos projectos para o organismo... E como bom oportunista que é, Mário Figueiredo não esteve com rodriguinhos na graxa ao autarca declarando que (sic) Rui Rio simboliza a mudança em relação a um determinado rumo, tal como eu na Liga em relação ao passado...

Está provado e comprovado que Rui Rio não percebe nada de parcerias e parceiros. Ontem, com Victor Raposo [amigo do homicida Duarte Lima], hoje com o malabarista da Liga de Futebol Mário Figueiredo. Definitivamente, a honra, e o sentido que dela tem, não ocupam espaço no corpo inútil de Rui Rio. 

22 maio, 2012

Já não pertence ao FCPorto, mas continua imparável

UM GOLO DESTE MUNDO E DO OUTRO!

Náusea

Mentiria se dissesse que nunca me passou pela cabeça pôr um ponto final no Renovar o Porto. Ao longo dos quase cinco anos de existência que já leva [nasceu em Setembro de 2007], procurei não me desviar do espírito e do nome que atribuí a este blog, embora a criação posterior de "As Casas do Porto" lhe tenha retirado algum espaço pela força esmagadora das imagens, esvaziando-o de alguma objectividade para o ocupar com assuntos de carácter regional e nacional. 

A indisponibilidade para continuar a alimentar com a regularidade requerida o blogue As Casas do Porto acabou por se repercutir em ambos os blogues, para o melhor e para o pior. Não quero com isto dizer que estou arrependido. Pretendo somente dizer que começo a estar cansado de "pregar no deserto", não porque alguma vez pensasse que podia resolver os problemas da nossa cidade através de um blogue [isso era passar um atestado de ingenuidade e estupidez a mim mesmo], mas porque cheguei à conclusão que em Portugal não basta denunciar, ser frontal e crítico, é também importante ter poder [muito poder] para acabar com o que está mal, não só no Porto, como no resto do país. Os órgãos da Justiça neste simulacro de democracia não funcionam, e estão é super-ocupados a tapar os buracos provocados pelos amigos [Duartes Limas e Dias Loureiros]...

A democracia, ou  o embuste em que os políticos e a indiferença do povo a transformaram, permite aos cidadãos inconformados pouco mais que ocasionais deslocações às urnas, apenas para dar emprego a mercenários da política desonestos e incompetentes que, como hoje se comprova, nunca souberam dar conta do recado. 

Não me posso culpabilizar por não ter alma de ovelha, por me revoltar com a discriminação, com a manutenção de uma justiça para ricos e outra para pobres, até porque a experiência da vida me diz que a honestidade é mais comum nos mais pobres do que o contrário. À excepção dos poucos que tiveram sorte ao jogo, raros são aqueles que enriqueceram depressa e com a integridade intocável. É-se tanto mais rico quanto mais se consegue roubar. O mais que um homem honesto pode conseguir em Portugal - e mesmo assim nem todos -, é amealhar um modesto pé de meia para a velhice.  

Por tudo isto, pelo desprezo profundo que a classe política me infunde já não tenho paciência [nem calma] para assistir a debates, para me submeter a exercícios de hipnose intelectual a pretexto de "esclarecimentos" que não pedi, com gente em que não acredito. Até os telejornais agora me causam indiferença. Não pertenço ao grupo gigantesco de imbecis que ouve e aplaude quem anda a dever muitos anos de prisão à sociedade.

Só receio uma coisa: é que, como está historicamente provado, um dia destes alguém se aproveite do trabalho sujo e fraticida dos falsos democratas [como os que levaram Hitler ao poder] para impor uma nova ditadura em Portugal. Ela já começa a ganhar forma. Basta reparar no frenesim do actual governo [de direita] e a sua sôfrega rapinagem aos direitos e regalias dos cidadãos [mantendo as suas] como se de animais se tratasse, para se ficar esclarecido. Mas não se iludam, que as coisas não se vão ficar por aqui. É dar-lhe "asas" e liberdade, e a direita vai deixar cair totalmente a máscara. É uma questão de tempo. Nada irá melhorar, podem ter a certeza. 

Mesmo assim, vou tentar resistir à náusea de não poder fazer algo bem mais eficaz do que escrever...  
    

21 maio, 2012

Justiça e Política (1)



Nas últimas décadas assistiu-se à saída dos advogados da primeira linha dos grandes combates sociais e à entrega das lideranças políticas aos economistas e aos homens do dinheiro. Os compromissos irredutíveis que antes se estabeleciam com as pessoas, com os seus direitos fundamentais e com a sua dignidade, cederam o lugar a outro tipo de compromissos mais virados para o dinheiro, para as empresas e para os negócios.

Os pais fundadores do atual regime democrático, ou seja, os líderes dos quatro principais partidos políticos que emergiram com a Revolução do 25 de Abril de 1974, eram homens de formação jurídica, profundamente comprometidos com os problemas sociais, que sabiam, como sabem os advogados, que a primeira exigência do Direito é o respeito absoluto pela pessoa humana.

Hoje, os dirigentes do país só se preocupam com dinheiro, como ganhá-lo e como o multiplicar nem que seja à custa dos mais desumanos sacrifícios impostos às pessoas. Estas não passam de números ou de pontos nos gráficos com que ilustram a sua visão da realidade. E quando há problemas é a realidade que está errada e, por isso, tem de ceder, nem que seja à força, perante a coerência formal das suas teorias.

Hoje, quem não tiver dinheiro não tem direitos. O Estado exige dinheiro - e cada vez mais - aos idosos para terem acesso à Saúde. E se o não tiverem que morram, então, sozinhos e abandonados em suas casas. O Estado exige dinheiro - e cada vez mais - a quem precisa de ir a tribunal para defender os seus direitos e interesses legítimos. Quem o não tiver que faça justiça pelas próprias mãos. O Estado exige dinheiro - e cada vez mais - aos estudantes para poderem estudar. Se o não tiverem, então que abandonem o ensino e vão explorar as excelentes oportunidades que o desemprego lhes oferece ou então que emigrem. São os próprios governantes que dizem aos jovens para procurarem outro país porque em Portugal não têm futuro. Não há melhor forma de ilustrar a forma como os nossos dirigentes encaram as pessoas e o país.

Na Justiça tudo é permitido para fomentar negócios privados. Em vez de dignificar e facilitar o acesso à Justiça pública, à Justiça soberana, o Governo está deliberadamente a dificultá-lo para obrigar os cidadãos e as empresas a recorrerem à Justiça privada, como as arbitragens, na qual alguns membros do Governo têm interesse direto e bem conhecido. É a velha tática de degradar deliberadamente os serviços públicos para obrigar as pessoas a recorrerem aos privados.

Este Governo, que se apresenta como o campeão do liberalismo em matéria económica, atua na Justiça como se o regime fosse uma ditadura querendo controlar (e criminalizar) todos os aspetos, por vezes os mais insignificantes, da vida dos cidadãos. Quer combater a criminalidade como nas épocas mais obscurantistas se perseguiu a bruxaria.

A fúria legisladora do Governo no mundo da Justiça ameaça a própria Justiça. Não há, nunca houve nem haverá Justiça digna desse nome num país onde as leis fundamentais são mudadas com esta vertigem. Será que os membros do Governo não pensam individualmente nas consequências para o país dessa instabilidade legislativa? Será que os deputados da maioria perderam todo o sentido de dignidade da sua função de legisladores e estão ali apenas para aprovar obedientemente todos os disparates legislativos que lhes sejam remetidos pelo Governo? O que se passou com a tentativa de criminalizar o enriquecimento ilícito a reboque de um tabloide de Lisboa, atropelando sem qualquer hesitação alguns dos princípios fundamentais da nossa Constituição, não os fará pensar, por um momento que seja, na dignidade da função de deputados?

Ou será que eles se conformam em estar ao serviço dos delírios legislativos de um Governo que não tem uma visão global e integrada dos problemas da Justiça e apenas está interessado em fazer ajustes de contas com os seus próprios fantasmas e criar condições para que em torno da Justiça floresçam e prosperem o mesmo tipo de negócios privados que outros fizeram florescer e prosperar em torno da Saúde?

Democracia e delícias do mar


Como o Pedro estava a atulhar o prato com delícias do mar, chamei-lhe a atenção para a existência de pedaços de lagosta no bufete frio do restaurante de rodízio. Achava preferível que ele se banqueteasse com o verdadeiro produto, que nem todos os dias estava ao seu alcance, em vez de se empanturrar com aqueles baratos sticks de contraplacado, aromatizados com extrato de caranguejo e tingidos de vermelho por fora.


Estávamos a jantar no Chimarrão da Expo, antes de assistirmos ao arranque da Up Tour, dos REM, no Pavilhão Atlântico. Como só tinha 11 anos, o meu filho encarou a sugestão como uma ordem, mas depois de provar a lagosta confessou gostar mais das delícias do mar.

Tem a ver com a maneira como o nosso gosto é educado. O meu filho Pedro estava tão habituado ao sucedâneo que estranhou o paladar do produto. Tem também a ver com o facto de, por norma, nós apenas gostarmos do que já gostamos e querermos o que já quisemos.

Eu próprio, viciado em salmão de aviário - que apenas ganhou a sua cor característica graças à ação de um corante -, temo estranhar o sabor se um dia, numa escala em Anchorage, Alaska, ou algures junto à foz de um rio escocês, me aterrar no prato uma posta de salmão selvagem.

Vem esta deriva gastronómica a propósito do sistema político em que vivemos, a que nos habituamos a chamar democracia, apesar de, bem vistas as coisas, ter tanto a ver com a democracia original como as delícias do mar com a lagosta.

Há bem mais tempo do que seria desejável, os dois pilares em que tradicionalmente assentava a democracia - a igualdade dos cidadãos e a soberania do povo - deixaram de ser observados pelos administradores do regime político vigente, de acordo com a opinião dos mais diretamente interessados na matéria: o povo.

Consultada pelo Barómetro da Qualidade da Democracia, uma larga maioria representativa de 59% dos portugueses acusa a Justiça de tratar os cidadãos de maneira diferente, consoante o seu estatuto económico, social e político. Basta recordar o caso Isaltino para ficarmos conversados sobre o princípio da igualdade dos cidadãos.

O mesmo barómetro revela que 78% dos cidadãos acham que os políticos se preocupam apenas com os seus interesses e que as decisões políticas no nosso país favorecem sobretudo os grandes interesses económicos. Ou seja, também estamos conversados sobre o princípio da soberania do povo.

A regeneração do nosso sistema político implica que os governantes encarem o dinheiro público como sagrado e percebam que deve ser o Governo a trabalhar para os cidadãos e não os cidadãos a trabalhar para alimentar o Governo.

A qualificação da nossa democracia exige, ainda, que todos nós tenhamos consciência que o Estado não dá nada, apenas distribui o que recebe de nós, cobrando para si uma gorda comissão que alimenta um anafado aparelho de Estado que não há meio de emagrecer.

17 maio, 2012

"Eles estão-se marimbando para o interior do País"



“Encerramento de tribunais incentiva justiça pelas próprias mãos” .

O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, acusa o Governo de tomar medidas cegas que prejudicam as populações do interior do País. O responsável esteve em Bragança, na passada quinta-feira, no âmbito da Semana da Tecnologia e Gestão, organizada pelo Instituto Politécnico de Bragança. 

Em entrevista ao Jornal NORDESTE, Marinho Pinto tece duras críticas ao Governo. “Põem os interesses dos grupos e das suas clientelas urbanas acima dos interesses de todo o País”, lamenta o bastonário.

Jornal Nordeste (JN) – Considera o encerramento de tribunais, anunciado pelo Governo, prejudicial para o distrito de Bragança e para a região de Trás-os-Montes? 

Marinho Pinto (MP) – Não é só para a região de Trás-os-Montes que é prejudicial, é prejudicial para o próprio País. Porque isto tem como primeira e principal consequência gerar um sentimento de abandono nas populações. 

As pessoas sentem-se abandonadas pela justiça e vão ser tentadas a encontrar formas de fazer a justiça que o Estado lhes nega, através destas medidas puramente economicistas. As pessoas vão passar a fazer justiça pelas próprias mãos. 

Imagine no caso de Vinhais, se encerrarem o Tribunal as pessoas vão ser julgadas em Bragança pelos crimes que decorreram em Vinhais e isso não produz o efeito preventivo que produziria se fosse julgado no local onde foi cometido o facto. É essa a função do julgamento e da sentença, é prevenir a prática de futuros crimes. 

É pura demagogia, é pura mentira, dizer que os custos dos tribunais são insuportáveis. A maior parte dos custos dos tribunais do interior até são suportados pelas Câmaras e os que não são passariam a sê-lo, porque as Câmaras estão dispostas a suportar esses custos. É um benefício enorme para a população poder ter a justiça no seu concelho. 

O que o Governo deveria fazer era criar tribunais nos concelhos onde não os há, porque todas as localidades que têm dignidade para ser sede de concelho deveriam ter pelo menos um juiz de competência genérica.

JN – O encerramento de tribunais poderá não avançar? 

MP – Isso depende do povo deste País. Se as pessoas se resignarem e aceitarem as medidas que lhe têm vindo a ser impostas, os Governos fazem tudo que lhes consentem. Se o povo não deixar, não avança, porque o povo é soberano.

JN – E acha que o povo está resignado? 

MP – Acho que sim. Senão vejamos. O actual partido político deitou abaixo o anterior governo, porque ele ameaçava cortar os subsídios de férias e Natal. Prometeram que não fariam isso se fossem eleitos, fizeram-no e as pessoas não reagiram.

As pessoas estão a aceitar o apelo do Governo e estão a emigrar. O que está a acontecer é que as pessoas estão a aceitar isto como uma inevitabilidade e não é. Nós podemos escolher o caminho do País, e não é só nas urnas, é também nas ruas, através de manifestações pacíficas, que façam sentir a nossa indignação e a nossa revolta contra estas medidas.

JN – Que consequências pode ter para esta região o apelo feito pelo Governo à emigração?

MP – A principal consequência é o atraso, é o desaparecimento de muitas aldeias no País. E é esta política que está a ser feita por aqueles betinhos e aquelas betinhas de Lisboa que chegaram ao Governo.

É uma política de terra queimada contra os verdadeiros interesses das populações do interior do País. Eles estão-se marimbando para o interior do País, eles sempre viveram nos meios urbanos. Põem os interesses dos grupos e das suas clientelas urbanas acima dos interesses de todo o País e isso é criminoso e vai ter consequências terríveis no futuro do País. 

[do blogue Regionalização]

16 maio, 2012

E "eles" sempre a bater no mesmo...

Cada vez me capacito mais que quando alguém avalia a democracia como algo imutável, socorrendo-se de belas declarações produzidas por reputadas figuras históricas, é porque, à falta de melhores argumentos receia perder qualquer coisa. E dessas coisas não falam publicamente... Esta gente fica de tal maneira obcecada com as suas carreiras e negociatas que se torna incapaz de usar o mesmo tipo de argumentação com algo que vá contra as suas convicções. Se Winston Churchill disse que "a Democracia é a pior forma de governo exceptuando todas as outras", Luís de Camões escreveu que "todo o mundo é composto de mudança". O que levará então alguns a valorizar uma frase sábia mas ambígua, produzida num contexto de pós guerra, e a negligenciar outras cujo realismo é patente na contemporaneidade? A chegada do Homem à Lua e os projectos de vôos tripulados para Marte não serão argumentos de peso? Por que será que a Democracia não pode evoluir como seria exigível e natural?  

Uma das mais frequentes críticas à democracia representativa, além do galopante desencanto com os políticos, é que a opinião do povo só é consultada uma vez em cada quatro anos. Após serem eleitos, os políticos tradicionais actuam como bem entendem, até às próximas eleições. Pergunta-se: em 38 anos de democracia têm os governantes dado provas consistentes para merecer dos eleitores um tão folgado período de estado de graça?  Acaso se justificará uma tão grande separação entre dirigentes e dirigidos, assente nos pressupostos conhecimentos técnicos dos primeiros? Mas, aonde é que eles se fizeram sentir em 38 anos de democracia?

A resposta não dá lugar a sofismas: casos como a Freeport, o Face Oculta, o mafioso polvo do BPN / SLN, a espionagem descontrolada, homicídios praticados por políticos, a corrupção, a decadência económica e social do país, a pobreza acelerada, o desemprego galopante, a degradação dos serviços de saúde, a perda de regalias das classes média-baixa, as reformas de miséria em contra-ponto com as pensões milionárias de políticos e ex-políticos, tudo isto não chegará e sobrará para nos convencer [e os convencer] que algo tem de mudar, depressa e radicalmente? Onde estará o pessimismo aqui? Descobrem-no? Ou preferem inventá-lo?

Churchill,  muito citado nos últimos tempos pelos senhores "Não mexam no meu tacho", não pode deixar-nos prisioneiros do fatalismo do seu conceito sobre a democracia representativa. O fosso entre representantes e representados tem afastado os cidadãos das práticas rotineiras da política, e isso desanima-os, mas ao mesmo tempo revolta-os. Cornelius Castoriadis, bem disse:  «a representação "política" tende a "educar" - isto é, a deseducar - as pessoas na convicção de que elas não poderiam gerir os problemas da sociedade, que existe uma categoria especial de gente dotada de capacidade específica para "governar"».

Tudo isto para dizer que, para muitos, a democracia é como a vida, tem a inevitabilidade do fado. Só a espaços, quando ela começa a andar para trás é que estão abertos a revoluções ou evoluções, se preferirem. A Democracia é mesmo um bicho de sete cabeças. Pois é...

15 maio, 2012

Os direitos adquiridos sem "ilhas" nem estigmas

Ilha de Páscoa = direitos adquiridos...
Regra geral, quando decido copiar e republicar no Renovar o Porto artigos de opinião, é porque os considero interessantes e intelectualmente honestos. Tenho preferência por crónicas satíricas e bem humoradas [como as de Manuel António Pina e Jorge Fiel], embora nem sempre concorde com elas. Já sou menos tolerante com os escritos superficiais, sem consistência nem respeito pela inteligência dos leitores, e nestes casos opto por não os publicar. Abri uma excepção com o post anterior de Paulo Ferreira para tornar mais fácil a leitura daquilo que ele escreveu e o que eu vou dizer.

Para começar, não sei onde o jornalista foi encontrar a relação fonte/alvo na analogia direitos adquiridos / Ilha de Páscoa, porque é tão absurdo como ligar a decadência do império romano a madre Teresa de Calecutá. Falar em direitos adquiridos como uma espécie de vício no qual só entra quem quer, e porque quer, é dar um tremendo pontapé de desprezo em todas as regalias sociais conquistadas pelo homem desde a idade média até aos nossos dias. É não perceber que tais direitos foram criados para encurtar o fosso social e económico entre pobres e ricos e como forma de travar os abusos praticados ao longo de séculos pelos mais poderosos sobre os mais desprotegidos.

Além de mais, é abusivo, para não dizer inqualificável, responsabilizar os povos, falando sempre na 1ª pessoa do plural, pelas más decisões políticas dos líderes. Embora pareça, em Portugal como em toda a Europa não reina a anarquia, existem chefes de Estado e governos democraticamente eleitos. Portanto, há responsáveis, e seria da mais elementar coragem assumí-lo sem as tibiezas dos puxa-sacos. Se a União Europeia e [principalmente] Portugal não são capazes de cumprir as garantias e os direitos que prometeram, então os culpados são facilmente detectáveis: todos os governos que nos (des)governaram. E é sempre bom lembrar que os governos são desempenhados por homens e mulheres, todos com bilhete de identidade e alguns ainda estão vivos. O senhor jornalista devia pois pedir-lhes a eles, e não a todos nós, as respectivas responsabilidades, porque quem decidiu foram sempre os governantes. A nós, meros cidadãos, só nos é permitido votar e pouco mais. E isso é muito pouco para se dar à libertinagem de nos exigir responsabilidades sobre decisões de carácter governativo. 

É por estas e por outras que eu, que nem sequer sou jornalista, continuo a defender outras garantias e ferramentas para exercer com mais eficácia os meus direitos de cidadania. Se já as tivesse, seguramente que não me limitava a abster-me de votar nos últimos actos eleitorais. Se assim fosse, nem Sócrates nem Passos Coelho ousariam fazer tanta asneira. Não lhes dava tempo, corria de lá com eles, sempre que se desviassem do rumo. Talvez assim hoje me estivessem a agradecer a "vassourada", em vez de me imiscuírem numa "guerra" [a dívida pública]  na qual nunca me perguntaram se queria combater.

Obs. - Este post foi hoje enviado para o correio do leitor do JN

A ilha dos direitos adquiridos

 

O tema dos famigerados direitos adquiridos, recuperado mal o Governo anuncia nova catanada nos ditos cujos, faz-me sempre lembrar a tão trágica quanto paradigmática história da ilha da Páscoa. O que hoje sobra dos direitos que os trabalhadores foram conquistando é consequência do que fomos esbanjando. Uns mais do que outros, é verdade.

Por muito que doa a quem olha para o problema apenas com a lente ideológica, só há direitos adquiridos enquanto houver dinheiro para os pagar. Ora, como nós, tragicamente, fomos gastando o que tínhamos e o que não tínhamos, os famosos direitos regrediram - e assim continuarão, se assim continuar a trajectória que escolhemos.

Há uns tempos, Ângelo Correia apanhou pancada da grossa por ter dito que os direitos adquiridos são "uma burla". A Esquerda, da mais à menos radical, caiu-lhe em cima. A verdade é que, descontado o peso exagerado da expressão utilizada por Ângelo Correia, os trabalhadores são enganados sempre que lhes prometem direitos, os atuais ou outros, para os quais não há cobertura financeira.

Onde entra aqui a ilha da Páscoa? Para quem não sabe, trata-se de um local situado a 3500 quilómetros da costa do Chile. Não há ali árvores, nem animais nativos, nem pássaros. Apenas enormes cabeças esculpidas em rocha vulcânica: são às centenas, nenhuma tem menos de 5 metros de altura e pesam dezenas de toneladas. A atração turística gerada por aqueles pedregulhos esconde uma história trágica.

A ilha chegou a ser habitada por 15 mil pessoas, divididas por 11 tribos (hoje vivem ali cerca de 3 mil pessoas). Problema: os chefes tribais competiam entre si erguendo estátuas. Quantas mais estátuas, maior era o seu poder. Problema: para transportar as pedras que compõem as estátuas, as tribos desfizeram uma rica floresta subtropical. Problema: parte das árvores servia para construir grandes canoas para a pesca.

Problema: acabaram as árvores, acabou a pesca. Os nativos viraram-se para a caça: eliminaram na totalidade os animais da ilha. Quando só sobravam ratos, os indígenas passaram a ser canibais. Eis a consequência do consumismo desenfreado: a autodestruição.

O ponto é este: Portugal, a União Europeia, chegou a um estado de absoluta incapacidade para cumprir as garantias e os direitos que jurou assegurar. A "máquina" está parada, não acrescenta suficiente riqueza. Como na ilha da Páscoa, queimámos todas as nossas fontes de energia - e a uma velocidade alucinante. Por isso, falar sem ponderação de direitos adquiridos é o mesmo que falar contra a parede: ela não responde.

Sim: há uns mais culpados do que outros. Sim: há gente em desespero e outra nem por isso. A prazo, o destino apanha-os (apanha-nos) a todos. Como na ilha da Páscoa.

14 maio, 2012

O homem que não podia ser primeiro-ministro

Já em tempos aqui comentei aquela frase assassina de Passos Coelho de que a austeridade imposta a Portugal é para manter "custe o que custar", frase mais própria de ditador do terceiro mundo do que de lider eleito democraticamente. 

Vem agora o mesmo personagem bolsar outra barbaridade, afirmando que o desemprego pode ser uma oportunidade para mudar de vida. Realmente quem tinha um emprego, por modesto que fosse, ao ver-se desempregado muda de vida, passando da sua relativa segurança para uma situação aflitiva, para si e para os seus. A miséria ameaça e quantas vezes a solução passa pelo recurso à caridade ou pelo auxílio prestado ou por filhos ou por pais. 

Num país como o nosso, em que os empregadores consideram que quem tiver mais de 30/35 anos é velho(!!)o desemprego nessas idades corresponde a uma sentença para toda a vida. Penso que a grande tragédia que assola os portugueses, mais do que a insolvência nacional,é o tipo de pessoa que temos como primeiro-ministro. Não quero questionar a sua boa vontade mas estou profundamente convencido que está totalmente impreparado para as funções que exerce, e que deste modo é mais parte do problema do que da solução para os problemas que nos afligem.

Passos Coelho não tem percurso profissional nem político que o recomendem para o difícil lugar que ocupa. Não é mais do que um funcionário partidário, sem qualquer vivência da vida real, que circunstâncias aleatórias atiraram para o lugar. Por outro lado, o número de promessas eleitorais que tem quebrado,autorizam que se questione a sua probidade política. 

Em suma, um flop completo! Os media, subservientes como sempre com o poder, estão muito sossegadinhos, mas seria interessante ver sondagens que nos dissessem o que pensam os portugueses a este respeito. Se é que pensam alguma coisa!!