14 setembro, 2012

Mentir, é defeito ou virtude?

Este, está inocente


Qualquer dia, vou ter de fazer um teste à minha inteligência, ou em última hipótese, submeter-me mesmo a uma consulta psiquiátrica, para procurar descobrir a razão pela qual insisto em querer encontrar um sentido para as coisas que não fazem sentido, quando ninguém parece dar importância a isso.

É que, enquanto outros - provavelmente, mais esclarecidos e inteligentes que eu - fecham os olhos à hierarquia das responsabilidades e à própria responsabilidade, eu acho que elas devem ser imputadas em conformidade com o período e a importância do cargo de quem as tem de assumir.

A entrevista de ontem de Pedro Passos Coelho não acrescentou nada ao que já sabíamos, e pelo que sei, também aos próprios entrevistadores. Sinceramente, não percebo onde poderá estar a surpresa geral, quando foram [e são sempre] os jornalistas os primeiros a violar a essência e a ordem natural das responsabilidades.

Mais do que saber o que é que Passos Coelhos tinha para dizer, importava perguntar por que é que ele tanto criticou  José Sócrates quando este "governava" o país e o acusou [com razão] de irresponsável, e de conduzir o país para o caos, quando ele está a fazer pior do que fez Sócrates, e a mentir ainda mais.

Pronto. Aqui deixo um excelente pretexto para me acusarem de populista, mas cá o rapaz foi educado a aprender que mentir é uma coisa muito feia e um dos primeiros indicadores de uma má formação intelectual. Ora, tanto Sócrates como Passos Coelho são exímios aldrabões, o que poderia ser um elogio se a mentira não fosse também o primeiro sinal que alguém nos dá para não confiarmos nela.

Ah, só mesmo um detalhe, uma miudeza: os dois aldrabões que citei foram [um ainda é] apenas 1ºs. Ministros de Portugal. Uma banalidade...

Enfim, acho que vou ter mesmo de ir ao médico.

13 setembro, 2012

"O Assalto Final - A destruição do Norte para garantir o futuro de Lisboa"


Outras acções, agora em banho-maria, mas que voltarão logo que surja oportunidade, são as relativas ao Porto de Leixões (o porto de mar que mais exporta, o mais eficiente, a principal porta de saída das exportações) e à Linha do Minho e sua modernização. Acrescenta-se ainda a intenção governamental de construir uma linha ferroviária "para as exportações" a mais de 300 km da Região onde elas são geradas. Esta situação revela-se ainda mais escandalosa, pois segundo um representante da Comissão Europeia "a aposta de Alta Velocidade portuguesa irá servir os portos de Sines, Setúbal e Lisboa, e Aveiro via Salamanca, deixando, pelo menos para já, fora desta rede europeia Leixões e Viana." Não é coincidência. É objectivamente intenção do Governo promover a competitividade dos portos que se têm revelado deficitários, prejudicando e retirando qualquer tipo de competitividade aos portos de Leixões - Viana do Castelo e à Região que servem no escoamento das cargas que recebem ou exportam no contexto nacional, relegando-os para a irrelevância. O objectivo do denominado Governo de Portugal, confesso e não esquecido, é fundir a gestão de todos os portos nacionais, com a desculpa de poupança na gestão. Na realidade é uma forma de retirar a autonomia a Leixões e dessa maneira perturbar e condicionar a sua gestão de forma a que ele deixe de ser um concorrente eficaz, tornando-se irrelevante e submisso aos interesses de outros portos que até agora se têm revelado incapazes de concorrer pelos seus próprios meios. Questionem-se apenas quais serão as prioridades dessa “gestão estratégica conjunta” quando esses gestores estiverem sentados no seu gabinete com vistas para o Porto de Lisboa e com o pensamento em Sines. Uma vez mais sacrifica-se a eficiência e a competência aos clientelismos e centralismos.

O que significam estas decisões? Significam que ao privilegiar os portos, aeroportos e as ferrovias em torno de Lisboa e ao tornar menos competitivos e deficientemente ligados com o exterior as infraestruturas que servem o Norte, que apenas Lisboa será competitiva e atractiva para o investimento industrial e logístico pois terá todas as mais-valias e o Norte em comparação não terá argumentos para competir. Além disso, a médio prazo, as indústrias que se encontram a Norte, neste momento a região mais exportadora do País e a que apresenta balança comercial positiva, serão levadas a deslocar-se para a zona de influência de Lisboa, pois ao terem custos superiores e demorarem mais tempo a escoar os seus produtos a Norte, irão paulatinamente sair do Vale do Ave e Sousa, do Minho, do Entre-Douro-e-Vouga, da AMP e instalar-se em redor das infraestruturas portuárias e ferroviárias que lhes garantam melhores ligações e que se situarão exclusivamente em redor de Lisboa. Esta deslocação do tecido produtivo irá resultar na destruição da economia do Norte e num desemprego ainda mais elevado, pondo em causa o futuro e a sobrevivência da Região mais povoada de Portugal.

Nos últimos dias temos assistido a alguns números de indignação por parte das estruturas regionais dos partidos do arco do poder e com representação parlamentar. É pena que só agora tenham acordado para o problema e alguns tenham mesmo colaborado nesta ignomínia quando eram governo. O assunto já vem de trás, não é de agora. Estes partidos caracterizam-se inclusivamente por fazer eleger pelas listas nos nossos distritos deputados para-quedistas lisboetas que se representam apenas a si próprios e não têm qualquer ligação e interesse para com a Região. Em certos casos são mesmo eleitos como cabeças de lista. É por isso que muita da actual indignação soa a clamores de falsas virgens ofendidas. No entanto, ainda estamos todos a tempo de nos unirmos.

As implicações destas decisões por parte do suposto Governo de Portugal, que de uma forma intencional e concertada, condenam à miséria e ao isolamento o Norte de Portugal, obrigam a que desta vez todas as forças políticas, cívicas e económicas, deixem por uma vez de lado as suas fidelidades aos seus directórios centrais, aos seus egoísmos e inércias de ocasião, e se juntem de uma forma concertada e unida na defesa dos interesses justos e legítimos do Norte, sem quartel e sem compromissos que não sejam a manutenção da autonomia dos aeroportos, portos e iguais ligações ferroviárias. É que desta vez a derrota e a passividade irão significar o destruição e o abandono do Norte e dos seus habitantes, de forma irremediável, com um impacto que se irá repercutir por gerações. Os que têm responsabilidades e poder neste momento serão julgados à luz da história do que fizerem agora e do seu sucesso para evitar este crime de lesa-pátria.

A Eurorregião Galiza-Norte de Portugal, a segunda de maior importância socioeconómica da Ibéria, que concentra no Norte de Portugal uma das regiões mais industrializadas da Europa, e na Galiza dois gigantes mundiais como a Zara e a Pescanova, precisa dum grande aeroporto internacional que garanta a sua ligação rápida aos grandes nós da rede mundial. Esse papel tem sido feito pelo Aeroporto Sá Carneiro de um modo crescente e eficaz. A chegada das companhias de aviação low-cost alteraram todo o panorama do transporte aéreo na Região com reflexos altamente positivos na sua atracção turística e competitividade económica pois encontra-se agora ligada a todos os grandes centros europeus de um modo rápido, flexível e a preços baixos.

Posto isto o MPN apresenta a sua posição:

1) O MPN considera que a privatização dos aeroportos nacionais é uma perda de soberania;

2) O MPN considera que devem ser mantidos na esfera pública e a sua gestão regionalizada; o que não implica que seja feita directa e exclusivamente pelo Estado podendo encontrar-se formas de contratualizar a sua gestão operacional a entidades privadas e/ou outras;

3) O MPN considera que os Aeroportos nacionais, implementada a Regionalização do território continental, devem ser propriedade das respectivas Regiões;

4) Caso venhamos a encontrar-nos perante o facto consumado da intenção de venda em bloco dos aeroportos nacionais, o MPN endereça desde já o convite a todas as forças vivas, empresários, detentores de capital, mulheres e homens de boa vontade, todos os cidadãos para que nos acompanhem. O MPN propõe-se congregar vontades para juntar capital suficiente, recorrendo inclusivamente à subscrição nas ruas de futuras acções a 1 (um) euro, para formar uma entidade empresarial nortenha que concorra à compra da ANA em bloco e depois venda os restantes aeroportos a quem der mais. O objectivo é o mesmo - salvaguardar a autonomia do Aeroporto Sá Carneiro -, a estratégia é que é inversa.

O MPN tem desde a sua origem em movimentos de cidadãos que lutam pela Autonomia da nossa Região abordado insistentemente estes problemas. Nós dizemos presente. Quem quiser lutar e colaborar em prol da nossa Região sabe onde nos encontrar.

A Direcção do MPN

[do blogue A Baixa do Porto]

12 setembro, 2012

Ser portista livre é ignorar A Bola!

O fervor clubista que o futebol causa nas pessoas é das raras coisas que suscita paixões sem gerar ciúmes nem receio de serem partilhadas. O Homem comum não gosta de partilhar a sua mulher com ninguém e  até é capaz de matar, se ela o trocar por outro. Com o futebol acontece o inverso: quanto mais adeptos tiver o nosso clube, melhor.  Esta insólita capacidade de "partilha" está subjacente a uma secreta ambição de grandeza, que se traduz no binómio quantidade=qualidade, mas que, na realidade, não tem muita consistência.  Para o provar, e sabermos do que se trata, basta usarmos outro binómio bem mais convincente: o Benfica/Porto. O primeiro, gaba-se de ter um maior número de adeptos, e vive de um predomínio pertencente ao jurássico, o outro, tem quase o mesmo número de simpatizantes,  é o melhor clube português da actualidade, simplesmente porque ganha mais troféus, e com mais regularidade. 

Mesmo assim, sendo um dado adquirido que a dimensão não é tudo e a luta desigual, ainda é possível vermos Davids a derrubar Golias. Porém, existem bizarras excepções, que contrariam a ausência de ciúme entre adeptos do mesmo clube, como falei no início. Na caixa de comentários deste post, é possível descobrir uma delas.

Por vezes, o futebol tolda-nos mesmo o espírito, ao ponto de confundirmos a árvore com a floresta. Não somos capazes de separar uma ocorrência desagradável no seio da própria família, no local de trabalho, ou mesmo dentro do nosso clube, sem pôr em causa a qualidade da "floresta". Há quem não tenha capacidade para ultrapassar certo tipo de contenciosos como aqueles que todos nós deparámos uma ou outra vez na vida com o colega de trabalho, ou a entidade patronal.

A propósito, lembro-me do modo como eu próprio me exaltei com um porteiro [que ainda está no activo] na porta de entrada do antigo estádio da Antas, por não estar a desempenhar o seu trabalho com a devida urbanidade, e que quase me deu vontade de regressar a casa e renunciar ao jogo. Fiquei muito incomodado na altura e pensei mesmo apresentar queixa à direcção, mas depois acabei por relevar e esqueci a ocorrência. Havia muita gente, foi naqueles dias de enchente, e as Antas não tinha as condições excelentes que tem hoje o Dragão. Já passou. Haverá, admito, casos bem mais graves do que o exposto, mas alguém que gosta verdadeiramente do seu clube, não é capaz de esquecer quezílias antigas depois dele se afirmar categoricamente, a nível nacional e internacional, só porque se desentendeu com algum "funcionário"?

Todos nós tivemos situações destas, e para tal acontecer nem é necessário um cenário muito populoso. Os casamentos que degeneram em divórcio comprovam-no, e contudo são só duas pessoas. Como podemos nós manter uma postura revanchista com o nosso clube, com o um presidente polémico sim, mas sagaz,  lutador e bem sucedido, só porque algo de errado aconteceu connosco? Não chega vermos o nosso clube espiado à lupa pelos nossos adversários? Não concordarmos com a gestão do clube? Com as comissões, as luvas, os empresários, etc.? Então, coloquemos os casos abertamente nas Assembleias Gerais. Não nos revemos nesta forma de administrar as sociedades, então lutemos por outros modelos. Mas isso é política. É por aí que temos de começar.

O FCPorto e Pinto da Costa não são a mesma coisa, é consensual e lógico. Seria o mesmo que afirmar que a Igreja é o Papa. Pinto da Costa é um "animal" bem adaptado a esta selva, mas não é o animal, nem a selva... Dentro dela, talvez seja mais inocente que muitos que andam por aí a bater no peito clamando pela transparência, mas que estão cheios de rabos de palha [veja-se o Sporting, quem e quantos  foram condenados na Justiça].

Até ver, Pinto da Costa tem saído por cima em relação às acusações que lhe foram feitas na perseguição mais infame da história do futebol movida a um dirigente desportivo. Tem vencido de cabazada  todos os que se juntaram para o tramar [Maria José Morgado, Pinto Monteiro e toda a comunicação social]. É obra, para um homem só! E no entanto, ainda há portistas que o criticam! Como serão estas pessoas? Em que patamares de ética se inspiram? Nos do Benfica, do Sporting? Em quais?

Não confundamos as coisas. O futebol não é um paraíso à parte, vive na mesma selva em que nós vivemos e muitos outros vegetam. Se há quem o queira mudar, que se deixe de ressentimentos e se dedique mais às questões da política, que é o que eu aqui procuro fazer, tentando convencer alguns "intelectuais" que o futebol, em vez de alienar, pode ser uma janela mais transparente de avaliação política do que a própria política. Passo a passo, acho que já somei uns pontinhos. É pouco? É! Mas é o que pode arranjar. 

       

11 setembro, 2012

Bispo critica Passos Coelho falando de «vilania»

O bispo das Forças Armadas admite que Portugal é agora um país «perdido» e que Passos Coelho quer parecer “intemerato” mas tem muito «medo», segundo declarações reproduzidas este domingo pela rádio TSF.

Convidado a comentar o  post de Passos  Coelho no facebook, D. Januário Torgal Ferreira considera que o primeiro-ministro fez um «dasabafo», como alguém «intemerato» mas «cheio de dúvidas e angústias», ao mesmo tempo «com medo». E, este «é um mau conselheiro», ajuizou o prelado.

Torgal Ferreira citou um autor (cujo nome não é claramente perceptível no registo multimedia): “continuo com coragem, vou em frente, mas a estrada fica juncada de cadáveres”. «Isso é um vilania, uma insensibilidade, uma insensatez», disse o bispo em declarações à rádio notícias.

«Estou em discordância total com o sistema governativo que existe neste momento» em Portugal. O país pode agora sentir-se derrotado e «perdido», pois nem os partidos reagem, alegou.

[do Diário Digital]

Nota de RoP: 

O bispo das Forças Armadas D. Januário Torgal Ferreira está esgotado de razão. De facto, a oposição [não me refiro ao PS, como é bom de entender], como já aqui escrevi por diversas vezes, está prisioneira do seu próprio conformismo nesse cómodo papel, e não ousa convencer os eleitores para ser uma alternativa de governo. 

Pelos vistos, o contágio da preguiça foi arrasador...  

09 setembro, 2012

E se o portismo implicasse abdicar de certas benesses, estariam disponíveis?

É consensual que a força da comunicação social é difícil de domar, mas não impossível. Essa força divide-se por vários órgãos e tem diferentes intensidades, sendo a televisão a que mais influência exerce sobre as audiências. Esses poderes não são inocentes, são até "bem" explorados, mas também são muito consentidos. 

Os média,  vivem dos mercados, e nós teimamos  em querer ignorar que os mercados somos nós.  Temos contudo um grande óbice no combate a esses poderes, que consiste na dificuldade em nos unirmos e mobilizar-nos para lutar por grandes causas.

Queixamo-nos, com razão, que temos uma comunicação social sectária, mas continuamos sem perceber que não temos ninguém com idoneidade para a dirigir e controlar, embora não faltem por aí entidades reguladoras sem qualquer serventia prática. Este é aliás um problema extensível a outros sectores, a começar pelos governos e a terminar na própria Constituição. Portugal está desgovernável, e não é de agora. Temos legislação, e não fazemos o principal, que é respeitá-la.  Depois, temos líderes de fachada, sem categoria, o que os transforma em inúteis parasitas.  Só nos resta uma coisa: a mobilização cívica. Mas até isso rejeitámos, sempre à espera que um qualquer D. Sebastião faça o que nos compete. Assim, não vamos lá. 

Por incrível que pareça, a paixão clubista do futebol provoca reacções de repúdio mais enérgicas do que a própria desonestidade governativa. O povo dispõe-se mais depressa a extremismos por motivação clubista, do que por descontentamento político-governativo. Os governantes sabem-no, e por isso cada vez se preocupam menos em agradar ao povo, deixando cozer em lume brando as querelas entre clubes, porque tal lhes convém.  Protegendo e favorecendo o Benfica, deixam  uma mensagem proteccionista aos seus numerosos adeptos [eleitores], esperando que essa protecção reverta a seu favor em termos políticos.   É neste pé que as coisas andam.

Sendo Pinto da Costa um dos melhores dirigentes desportivos do mundo [não confundir c/ o mais rico], idolatrado pela maioria dos portistas, a relativa apatia com que os adeptos reagiram à caça rija que lhe foi movida pela comunicação social confirma a ideia de que até nas questões do futebol existe uma grande incapacidade de mobilização [e de indignação também], o que significa que a "doença" é mais profunda do que se possa imaginar. No entanto, em fóruns, blogues e nas redes sociais portistas, os adeptos não se cansam de manifestar revolta com a discriminação de que o FCPorto e os seus dirigentes são alvo. Mas a revolta não passa disso. As redes sociais ainda não fazem revoluções... Os portistas estão cobertos de razão quando falam do sectarismo da RTP, da SIC e da TVI, ou quando baptizam com os piores impropérios a imprensa escrita desportiva, mas parecem não querer compreender que os destinatários sabem o que estão a fazer.

Nestas circunstâncias, e à falta de quem coloque ordem na comunicação social, o maior gosto que podia ter, era um dia saber  que [todos] os portistas tinham renunciado a participar em debates desportivos e opinar nos jornais que atrás referi, numa inequívoca manifestação de solidariedade para com o clube. Não há forma de compreender por que é que muitos ainda o fazem, e custa-me a aceitar que o dinheiro que recebem por tão inglório serviço domine as suas consciências de homens livres. 

Miguel Sousa Tavares, gosta muitas vezes de evocar a condição de homem livre para criticar [muitas vezes sem razão] o FCPorto e Pinto da Costa, mas esquece-se que ao escolher a casa do inimigo [A Bola] para o fazer não está a ser coerente, nem muito menos a defender o clube. Ninguém afecta verdadeiramente quem lhe paga... O que ele faz [além de receber uma boa avença], é contribuir para as vendas do jornal, não para a boa imagem do FCPorto. Pessoalmente, prefiro escolher as minhas companhias e  afastar-me das que não me interessam, mesmo em ambientes de trabalho. Não pactuo com gente mesquinha, com estafermos, mas ele convive bem com isso. São opções, formas de estar na vida.

O certo, é que, não é pelos portistas participarem em programas de qualidade duvidosa, nem por escreverem em jornais do mesmo nível que  inibe essa gente de continuar a tentar prejudicar o Futebol Clube do Porto. Colaborar com quem me ofende, ou com quem ofende alguém que me é caro, é colaborar com o inimigo. E não importa aqui saber se o inimigo é empresa ou pessoa [as empresas têm pessoas]. E se outros pensam o contrário, é porque pouco se importam de ser como aqueles que oferecem avenças: uns sabujos vendidos. 

Bem diz o ditado: quem gosta de todos, não gosta de ninguém.


07 setembro, 2012

RTP, mas onde está o serviço público?

Como diria o meu saudoso amigo e colaborador de blogue, Rui Farinas*, quando a conversa inclinava demais para a lamuria, bradava com humor, naquela voz metálica que o catacterizava: "já estou a ficar deprimido!". Por mais que tentássemos evitar, lá estávamos nós outra vez  a voltar ao mesmo, falando embora de vários assuntos. 

A incompetência, a irresponsabilidade [e mesmo a desonestidade]  dos nossos governantes ocupavam como lapas praticamente todos os temas abordados. O problema não era de Rui Farinas - que até tinha um sentido da vida muito pragmático e não era nada dado a lamechices -, nem era nosso [meu, e do Vila Pouca], era o país onde nascemos. O país? Nós? Todos? Da mesma maneira? Com igual  responsabilidade? Ou, mais de alguns, que de muitos outros?

Falemos sério. É claro que não são os cidadãos que vão para o executivo, são os que eles elegem para  desempenhar tais funções. Aniquilemos de vez essa conversa de que a "culpa é de todos", porque repetí-lo, é perpetuar uma mentira que não é nossa, e que só serve para desculpabilizar os governantes e seus compadres das asneiras que vão fazendo. É importante não esquecermos isto. É que se tivéssemos plena consciência do nosso grau de responsabilidade no destino do país, talvez hoje fossem outros a pagar a crise...

A facilidade com que os portugueses pegam num falso assunto e o propagam,  é impressionante. Os portuenses em particular, e mais genericamente os próprios nortenhos, sabem por experiência própria que a RTP nunca foi verdadeiramente uma televisão de serviço público. Durante muitos anos a RTP dispôs de dois canais abertos [a RTP1 e a RTP2] e nos últimos tempos mais 4 canais por cabo [RTP Internacional, RTP África, RTP Informação e RTP Memória]. Apesar disso, nunca dedicou um canal às Regiões e ao Norte, como está agora, por exemplo, o Porto Canal a fazer [e muito bem]. 

No campo desportivo, mais propriamente no futebol, a RTP geminou-se e até superou em centralismo e facciosismo, as 2 estações privadas [SIC e TVI], desprezando levianamente o papel de televisão subsidiada pelos contribuintes. Inclusive, usa o canal 2 para passar desporto, privilegiando sem pudor as modalidades onde o Benfica está presente [futsal] e ignorando aquelas onde o FCPorto tem brilhado [o basquete, o hóquei e o andebol], alterando as transmissões consoante o êxito ou o insucesso das respectivas modalidades do clube de Lisboa. Daqui  poder-se inferir sem sombra de dúvidas que nem mesmo a RTP 2, o mais estatal dos canais da televisão do Estado, presta serviço público com a isenção e o rigor a que devia estar obrigada [vêm, como não é a nós que compete ordenar o cumprimento das obrigações dos órgãos do Estado?].

Resumindo: não é o facto de a RTP ter o privilégio de viver sob a tutela do Estado que lhe confere o estatuto de servidora de conteúdos de interesse público, mas a noção rigorosa do que isso é, e representa. Além de que concorre de forma desigual com as estações privadas, sem no entanto as superar em probidade e  isenção. Para se destacar destas e hoje merecer a solidariedade de todos os portugueses, teria de gozar de boa reputação, de um cadastro acima de qualquer suspeita.  E não goza. Pela minha parte, sou totalmente contra o tipo de serviço que me tem prestado, e até agradecia que alguns dos seus dirigentes e funcionários fossem irradicados, porque são maus profissionais, são desonestos e geradores de conflitos.

Mas desenganem-se aqueles que pensam que a privatização da RTP vai torná-la melhor e menos onerosa. Ainda a privatização não foi consumada e a desonestidade mantém-se: o Governo tenciona(va) transferir para a empresa privada que eventualmente ficar com ela as taxas de audio-visual que nós pagávamos pelo serviço público, o que além de ser um abuso, não prenuncia nada de bom em termos de ética e de seriedade. Por aqui, podemos imaginar o que o futuro nos reserva.       

* Fez no passado dia 6 dois mêses que nos deixou.

100 milhões a todo o gás



Há países que vendem petróleo, automóveis, software, telemóveis e outras coisas em que fazem a diferença na economia global. Portugal a esse nível, verdadeiramente, só tem três coisas: o vinho do Porto, a cortiça e a valorização dos jogadores de futebol. A venda de Hulk e Witsel por 100 milhões de euros é um dessas coisas: o momento mais importante do mercado mundial de futebol deste ano. É pura arte de prospetar e valorizar os jogadores através da capacidade de chegar aos grandes palcos. Mas mais: é ser-se capaz de definir condições de venda a um nível de exigência mundial e fechar os negócios no timing certo.

Como é isto possível? Porque Pinto da Costa sabe muito de futebol e Luís Filipe Vieira aprende depressa. Porque o empresário Jorge Mendes suscitou uma escola de compra e venda de jogadores que tem sido seguida à risca por muitos colegas de profissão. E porque o conjunto de todos estes elementos permitiu projetar jogadores e figuras nacionais para o mais alto estrelato mundial. Desde logo Cristiano Ronaldo, criado numa das mais extraordinárias escolas de jogadores da Europa (a do Sporting). Depois, José Mourinho, cujo sucesso no F. C. Porto lhe deu visibilidade e credenciais para ascender a um plano estratosférico. E finalmente André Villas-Boas, cujos 15 milhões pagos pelo Chelsea ao F. C. Porto continuam a ser recorde mundial por um treinador.

Voltando a Hulk e Witsel: 100 milhões é muito dinheiro? Depende. Vejamos em pormenor o que é a Gazprom, a patrocinadora do Zenit de São Petersburgo. Para começar: trata-se da empresa mais rentável do Mundo - 44 mil milhões de dólares de lucros, apesar de ser apenas a 15.ª maior companhia do Globo. As vendas em 2011 somaram 157 mil milhões de dólares. A Apple, maior empresa do Mundo em valor bolsista, lucra "apenas" 25 mil milhões de dólares, ou seja, pouco mais de metade da Gazprom.

Para se perceber a escala a que atua o patrocinador do Zenit basta dizer que, nas 15 maiores empresas do Mundo, nove são do sector dos petróleos e gás natural. (A maior do Mundo é a Shell, logo seguida da Exxon-Mobil.) Quanto mais caros estão os combustíveis, mais elas ganham. A empresa russa é detida em 50,02% pelo Estado - Putin é apenas o mais moderno ditador democrático protegido pelo petróleo e gás. Acrescente-se, aliás, que o conjunto das empresas russas a explorarem combustíveis fósseis tornaram aquele país no maior exportador de combustíveis mundial, à frente da Arábia Saudita.

Uma questão então - faz sentido gastar-se tanto dinheiro em jogadores de futebol? A cartada de notoriedade é a Liga dos Campeões. É puro marketing. É a afirmação dos russos nos mercados europeus para onde a Gazprom exportou 150 mil milhões de metros cúbicos de gás natural em 2011 através de pipelines diretos da Rússia ao coração da Alemanha, Reino Unido e Turquia, já para não falarmos dos países vizinhos (desde logo a Ucrânia) e todas as ex-repúblicas soviéticas no Leste da Europa. A Gazprom aquece (literalmente) a Europa do Norte durante o Inverno.

Voltemos aos números: não há nenhuma empresa portuguesa entre as 500 maiores do Globo. Mas os clubes portugueses e a seleção nacional conseguem fazer parte dos cinco países mais importantes da Europa neste negócio. E só chegaram ao atual patamar porque existiu o Euro 2004 e os novos estádios do Dragão, Luz, Alvalade, Braga, entre outros. O nível de receitas e qualidade dos espectáculos (mesmo em termos televisivos) explodiu. Nem todos os clubes aproveitaram a oportunidade, é certo, mas uma coisa é factual: desde 2004 os clubes portugueses venderam, entre outros, Mourinho, Coentrão, Pepe, Falcao, Anderson, Nani, David Luiz, Di Maria, Ricardo Carvalho, André Villas-Boas, etc., e agora Hulk e Witsel e Javi García. Só estes 13 somaram perto de 380 milhões de euros em transferências, correspondentes a margens de lucro quase sempre acima dos 70% entre o valor de chegada e o valor de saída. Quem continua a falar dos custos do Euro 2004 tem de reconhecer pelo menos uma coisa: o investimento do Estado neste sector económico está mais que pago. Quando se estudarem os 10 anos pós-Euro 2004 ver-se-á que, afinal, o futebol deu lucro ao Estado.

06 setembro, 2012

Degradação bateu no fundo

Fernando Gomes: uma "coisa" que se faz pelo outro lado?
O futebol até pode alienar, até pode não ser a coisa mais importante da vida, mas a verdade é que continua a ser o desporto mais popular do mundo e, ao contrário do que se pensa, pode ajudar a desmascarar muita malandrice. Estou mesmo convicto que se houvesse mais atenção ao que se tem  passado no mundo do futebol, talvez hoje não tivéssemos governantes tão básicos. Isto, considerando que as campanhas eleitorais não passam de banha da cobra, e que os mecanismos usados para a escôlha das lideranças partidárias estão longe de corresponder à vontade dos eleitores.

O paradigma que trago hoje à liça, e que anteriormente reproduzi, é simplesmente aviltante! Para quem acompanha estas coisas, não é surpresa, já aconteceu mais vezes. Mas para quem se limita a ouvir a televisão [A RTP é das piores], fica sempre mal informada, porque quando se trata do Benfica a história dos factos é sempre mal contada. 

Na questão em apreço, a FPFutebol cozinhou o caso com uma hipocrisia cirúrgica, maquiavélica e até provocatória, aproveitando a paragem do campeonato de modo a não prejudicar o Benfica, ou seja, contabilizando os 15 dias de "castigo" a Jorge Jesus durante um período em que a sua presença não pode causar qualquer dano ao clube! Em resumo, não houve castigo. E só falta saber se Jorge Jesus também vai pagar os irrisórios 1500 euros de multa! Isto, já para não falar da gravidade das suas declarações em contraste com outras produzidas por treinadores do FCPorto, incomparavelmente menos gravosas,  que foram rapidamente castigados e assim impedidos de acompanhar a sua equipa.

As eleições para a Federação Portuguesa de Futebol decorreram em Dezembro do ano passado, e o eleito para presidente foi, como é sabido, Fernando Gomes, ex-dirigente do FCPorto que, apesar disso, não foi apoiado pelo FCPorto [como é público, Pinto da Costa descartou-se de envolver o FCP neste processo]. Tão pouco tempo passado já se notam sinais preocupantes de arbitrariedade, quer nas nomeações de árbitros, quer nas decisões do Conselho de Arbitragem e de Disciplina, cujo modelo de eleição gerou aliás muita confusão. A questão que se sugere  levantar é a esta:  Pinto da Costa já não confiava em Fernando Gomes para não o apoiar? Se sim, por quê?

O certo, é que ainda mal começou o campeonato, e já se fazem sentir flagrantes critérios de favoritismo ao Benfica que, se entretanto nada fôr feito para bloquear estes procedimentos, pode um dia destes redundar em cenas de violência. E não venham depois esses palhaços, vestidos de cargos para os quais não têm categoria, nem saber, carpir mágoas, porque um dia a ira dos portuenses pode-lhes cair em cima do próprio pêlo. Fechar os olhos ao que se está a passar, é assinar de cruz um atestado de irresponsabilidade que só pode ter uma só interpretação: Portugal está nas mãos de facínoras! E não venham depois dizer que a culpa é do futebol. Não! A culpa é dos governantes, das autoridades públicas, que em vez de se colocarem no seu lugar, de se distanciarem deste tipo de eventos para os poderem regular com isenção, andam a ganhar avenças para falar de futebol.  

Ah, e se algum desses cretinos me estiver a ler, deixo-lhe aqui um recado: nas próximas campanhas eleitorais informe se faz favor por que clube vai torcer e já agora, em que programa desportivo tenciona resolver os problemas do país...

Nota do autor de humor sério:

SE eu fosse primeiro ministro, antes de constituir governo, reunia os putativos candidatos e dizia-lhes:

Meus amigos, podem achar estranho, mas eu tenciono mesmo governar o país. Por isso, aqueles que nomearei para comigo formarem governo terão de aceitar as condições que propuser. Em primeiro lugar, terão de dedicar 90% do vosso tempo ao país, e o resto, à família.  Ora o país, como sabeis, não é mais do que o povo, o que significa que se o nosso trabalho não privilegiar a qualidade de vida desse povo, o nosso objectivo terá falhado. E eu não quero que falhe. 

Posto isto, faço-vos este ultimato:  
  • Ou optam pela política, ou saem dela. Não quero acumulações com cargos privados, sejam de que natureza forem. Quem não concordar, levanta a mão e sai. Já!
  • A vossa participação em debates políticos e programas desportivos está-vos totalmente vedada. Regularmente programarei um espaço nos media de informação  e esclarecimento públicos sobre o andamentos dos trabalhos. O laxismo, e a falta de rigor com as metas traçadas serão motivos para vos exonerar do cargo.  Quem não concordar, levanta a mão e sai. Já!
Muito provavelmente, a sala ficaria vazia, mas eu seguia a minha vida de consciência tranquila e sem problemas na dorsal...

 

Jogo de março com o F. C. Porto vale 15 dias de castigo a Jorge Jesus


Jorge Jesus foi "castigado" com 15 dias de suspensão e uma multa de 1500 euros. Em causa declarações do treinador do Benfica proferidas após o jogo com o F. C. Porto, em março.


Artigo salva Jesus de falhar jogo com o FC Porto
Um comunicado da Liga de Clubes refere ainda que o técnico foi multado em 1500 euros pela Secção Profissional do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), na sua reunião plenária de 4 de setembro.

A deliberação agora anunciada não vai ter efeitos práticos, uma vez que a Liga está parada devido aos compromissos das seleções e o próximo compromisso do Benfica é na quarta jornada da I Liga, agendada para 23 de setembro.

Jorge Jesus foi castigado por "afirmações proferidas" no final do encontro Benfica-FC Porto de 02 de março de 2012 (2-3), a contar para a 21.ª jornada da Liga portuguesa de futebol e divulgadas nos jornais A Bola, Record e Correio da Manhã nos dias sequentes.

A participação que deu origem ao processo disciplinar e ao castigo a Jorge Jesus foi apresentada pelo árbitro assistente Ricardo Santos.

O treinador do Benfica insurgiu-se na altura contra a validação do golo de Maicon, aos 87 minutos, que fixou o resultado e garantiu a vitória dos "dragões", acusando o árbitro assistente de não ter assinalada a posição irregular do brasileiro, apesar de alegadamente ter visto que o defesa portista estava em situação de fora-de-jogo.

05 setembro, 2012

O nosso orgulho...

 

 

Mas que orgulho! Isto é que é um país! Heróis do mar, pobre povo nação cadente, iiiimor....al! Mas temos o Ronaldo, aquele exemplo de jogador. Temos Cavaco, Sócrates, Passos Coelho, Portas, submarinos, BPN's, RTP's...


04 setembro, 2012

Renovar a Democracia

Como seria este Homem hoje?
Quando criei este blogue tinha como primeiro objectivo dedicá-lo à cidade onde nasci e que amo como nenhuma outra, salvaguardando no entanto algum espaço para falar dos mais diferentes assuntos. Quase simultaneamente, concebi outro blogue [As Casas do Porto], este inspirado especificamente numa temática que muito me preocupa, que é a degradação urbana de toda a cidade - e não apenas do centro histórico - que, para mal dos portuenses ainda se mantém actual.

Por razões que para o caso não interessam, não pude [com muita pena minha] continuar o trabalho que levei a cabo cerca de 3 anos, prestando gratuitamente e sem falsas modéstias, melhor serviço público do que muitos jornais e que a própria televisão, dita como pública, presta. 

Entretanto, o decorrer do tempo, mais o registo dos acontecimentos, fez-me consolidar convicções simples, mas antigas, que se traduzem nisto: fazer bem, ou mal, tudo depende da competência e seriedade de quem o faz.

Quando falámos de saúde, de urbanismo, de educação, de futebol, de prosperidade, da ética, do ambiente, ou simplesmente da qualidade de vida, tratando-se embora de coisas distintas, estamos resumidamente a falar de política. E  falando de política, temos fatalmente que falar de democracia. Por mais voltas que dêmos, acabámos sempre por regressar ao mesmo ponto de partida: democracia. É difícil, senão impossível, melhorar tudo o resto se não aperfeiçoarmos os processos de  a exercer. E neste capítulo não podemos dizer que estamos a ter grande ajuda da comunicação social, que não sabe, ou não quer pôr em causa a previsível falência deste regime. Comodamente, os media usam essa grande figura do século XIX, e inícios do século XX, que foi Winston Churchill, para perpetuar uma sua bela frase ["a Democracia é o pior dos regimes, exceptuando todos os outros"], como se ela albergasse uma única interpretação possível.   Apesar de conservador, não creio que Churchill quisesse dizer que a democracia do seu tempo não podia evoluir um século depois, mas é essa avaliação abusiva que alguns fazem dela. 

Como cidadão e eleitor, atingi há muito o meu ponto máximo de tolerância. Recuso-me terminantemente a votar só porque sim, ou porque um badameco qualquer mo recomenda [só de ver Marques Mendes gesticular me dá vómitos]. Para mim, é condição sine qua non blindar o meu voto da usura política. O voto, em termos democráticos, é o instrumento mais precioso que disponho para exercer o meu direito de escôlha, talvez o único, o mais importante. Mas, é curto. E uma vez que só posso eleger mas já não  posso exonerar, então reservo-me ao direito de aguardar por mais garantias para conferir mais maturidade ao meu voto. Não quero mais votar às cegas [já não o faço há anos, diga-se]. E se até lá essas garantias não chegarem, então também o meu voto não vai para ninguém.  Isto, em termos absolutos, vale o que vale. Sim, porque infelizmente muitos dos meus conterrâneos vão-se encarregar de contrariar a minha resiliência, e vão continuar a votar... Porque sim. Apesar de se andarem a queixar pelos cantos, a chorar o fado, em estúpida homenagem a um património de misérias.

Talvez esteja aí a explicação de me ter passado pela mente a ideia de rebaptizar este blogue para "Renovar a Democracia". É que o Porto coitado, esse, já não é o que era. Vive de géneses antigas, mas não as assume. E o seu povo, fruto de um cosmopolitismo traiçoeiro, que lhe roubou muito da alma, também não. Apesar do FCPorto...  


31 agosto, 2012

MISSÃO, OBJETIVOS E OBRIGAÇÕES DE SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO

OBRIGAÇÕES DE SERVIÇO PÚBLICO E TERMOS CONTRATUAIS DA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO PÚBLICO

MISSÃO, OBJECTIVOS E OBRIGAÇÕES DE SERVIÇO PÚBLICO

A missão e objectivos são fixados na Lei e no Contrato de Concessão do Serviço Público de Televisão. As políticas da Empresa são estabelecidas pelo Conselho de Administração, em linha com os objectivos fixados e as orientações que vêm sendo transmitidas pela Tutela.

CONTRATO DE CONCESSÃO DO SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO

• Assegurar uma programação variada, contrastada e abrangente, que corresponda às necessidades e interesses dos diferentes públicos.

• Assegurar uma programação de referência, qualitativamente exigente e que procure a valorização cultural e educacional dos cidadãos.

• Promover, com a sua programação, o acesso ao conhecimento e à aquisição de saberes, assim como o fortalecimento do sentido crítico do público.

• Combater a uniformização da oferta televisiva, através de programação efetivamente diversificada, alternativa, criativa e não determinada por objectivos comerciais.

• Manter uma programação e informação de referência, contribuindo desse modo para regular e qualificar o universo do audiovisual nacional.

Proporcionar uma informação isenta, rigorosa, plural e contextualizada, que garanta a cobertura noticiosa dos principais acontecimentos nacionais e internacionais.

• Assegurar a possibilidade de expressão e confronto das diversas correntes de opinião, designadamente de natureza política, religiosa e cultural.

• Assegurar a promoção da cultura portuguesa e dos valores que exprimem a identidade nacional, de acordo com uma visão universalista, aberta aos diferentes contextos civilizacionais.

• Assegurar uma informação precisa, completa e contextualizada, imparcial e independente perante poderes públicos e interesses privados.

• Assegurar a valorização da criatividade e a promoção do experimentalismo audiovisual.

• Assegurar a acessibilidade dos cidadãos residentes no território nacional aos serviços de programas por si difundidos.

• Assegurar a adopção de tecnologia, técnicas e equipamentos que proporcionem a melhoria da qualidade ou eficiência do serviço público de televisão.

• Promover a assimilação dos princípios, valores e direitos fundamentais vigentes na ordem comunitária e nacional, reforçando as condições para o exercício informado da cidadania e para o desenvolvimento de laços de solidariedade social.

• Garantir a produção e transmissão de programas educativos e de entretenimento destinados ao público jovem e infantil, contribuindo para a sua formação.

• Garantir a transmissão de programas de carácter cultural, educativo e informativo para públicos específicos.

• Garantir a emissão de programas que valorizem a economia e a sociedade portuguesa, na perspectiva do seu desenvolvimento.

• Participar em atividades de educação para os meios de comunicação social, garantindo, nomeadamente, a transmissão de programas orientados para esses objectivos.

• Promover a emissão de programas em língua portuguesa e reservar à produção europeia parte considerável do seu tempo de emissão, devendo dedicar-lhes percentagens superiores às exigidas na Lei a todos os operadores de televisão, atenta a missão de cada um dos seus serviços de programas.

• Apoiar a produção nacional de obras cinematográficas e audiovisuais, no respeito pelos compromissos internacionais que vinculam o Estado Português, e a co-produção com outros países, em especial europeus e da comunidade de língua portuguesa.

• Emitir programas destinados especialmente aos portugueses residentes fora de Portugal e aos nacionais de países de língua portuguesa.

• Garantir a possibilidade de acompanhamento das emissões por pessoas com necessidades especiais, nomeadamente através do recurso à legendagem por teletexto, à interpretação por meio da língua gestual, à áudiodescrição ou a outras técnicas que se revelem adequadas.

• Garantir o exercício dos direitos de antena, de resposta e de réplica política, nos temos constitucional e legalmente previstos.

• Emitir as mensagens cuja difusão seja solicitada pelo Presidente da República, pelo Presidente da Assembleia da República ou pelo Primeiro- Ministro.

• Ceder tempo de emissão à Administração Pública, com vista à divulgação de informações de interesse geral, nomeadamente em matéria de saúde e segurança públicas.

Nota do RoP:
Podia pegar num destes pressupostos ao acaso e confrontá-los com as práticas que a mui ciosa televisão pública vem levado a cabo nos últimos anos. Seria extremamente simples provar, mais uma vez, a profunda hipocrisia que envolve toda esta polémica entre o público e o privado.

Para exemplificar a contradição entre prática e teoria de forma simples, servir-me-ei apenas do item a negrito para levantar duas questões. A saber:
  • Aceitará pacificamente a imensa legião de adeptos portistas [incluindo os convidados para participar em debates] que a nível da programação desportiva a RTP [a tal que anda agora a puxar os galões do serviço público] seja isenta e rigorosa , no tratamento dado ao FCPorto? Terão esses adeptos razões para, de boa fé, reconhecerem como isentos e rigorosos os dirigentes dos referidos programas?   
  •  Alguma vez a RTP, essa fanática defensora  do serviço público, se interessou pelas causas da regionalização, ou se preferirem, contra o macro-centralismo que tanto tem prejudicado o país, com particular incidência,  no Norte? Alguma vez, ao longo de tantos anos, promoveu a RTP programas ou debates sobre a Regionalização? Ou, pelo contrário, sempre alinhou pelo mais absoluto desprezo sobre a temática, em cumplicidade tácita com o poder político, fosse ele do PS, do PSD ou do PSD/CDS? 
Declaração de 'interesses': sou completamente a favor de uma televisão tutelada pelo Estado! Tutelada pelo Estado, mas por um Estado controlado por líderes idóneos, nunca por esta turba de rapazinhos mal formados e mal educados que andam a contaminar toda a sociedade. 

Quando digo que defendo uma televisão pública estou a falar de coisas sérias, não de prostituição intelectual.

29 agosto, 2012

A respeito da credibilidade

Símbolo da Honra
O exercício de retórica que vos proponho acompanhar é especialmente dirigido a todos quantos vão conseguindo sobreviver nesta sociedade interesseira sem o favorecimento da velha "cunha", seja ela de origem particular ou política.

Estou ciente que todos nós alguma vez na vida tivemos que recorrer à ajuda de um familiar ou amigo para resolver aqueles assuntos tradicionalmente complicados em Portugal, como, arranjar emprego ou conseguir fiador para poder aceder a bens ou serviços de elevado valor. Mas não é bem a esse tipo de "favores" que me refiro, porque num país onde a burocracia é [ainda] muita e o mérito remetido para segundo plano, todos somos de alguma forma empurrados para o chamado "desenrascanço". A partir daí, do nosso temperamento e da nossa capacidade de adaptação a este "regime", depende muitas vezes o nosso futuro e a preservação da nossa própria integridade moral.

Alguns, menos zelosos com as questões de carácter, adaptam-se, aceitando naturalmente a regra do "vale tudo" para conseguirem viver melhor, e vão corrompendo na mesma medida em que se deixam corromper [são os chamados "videirinhos]. Outros, mais ingénuos ou se quiserem mais exigentes consigo mesmos, vão resistindo e vivendo o melhor que podem e sabem, nesta sociedade armadinhada, com a noção do alto preço que a preservação da honra lhes vai custando. 

Este quadro presta-se a todas as especulações. Os videirinhos dirão lá para eles: "se és honesto, não te queixes, tens o que mereces", ou, "só os burros se preocupam com a honestidade". A questão é que, há sempre um dia em que até os "videirinhos" necessitam que alguém seja honesto com eles, e às vezes a coisa corre mal... Mas também eles próprios alguma vez precisam de "ser" honestos, de reclamar para si uma imagem positiva, de serem tratados como gente de bem, e exigem-no até! E aí, só mesmo aqueles que conseguiram acumular fortuna é que se safam das malhas da Justiça, mas todos ficam com o estigma da desonra para toda a vida... Disso, não se livram.

Voltando ao exercício de retórica de que vos falei, o que sugiro para vossa reflexão, é o seguinte: já pensaram bem por que é que os Bancos exigem garantias para nos financiarem determinados valores? A resposta deles [Bancos] não é bem esta, porque é, digamos, pouco simpática e comercialmente incorrecta, mas a minha é simples: é porque não confiam em nós, mesmo que sejamos as pessoas mais sérias do mundo...

Literalmente falando, é a desconfiança que está na origem dos fiadores. E, partindo do pressuposto que nem toda a gente é fiável, perguntarão: como faria então você se fosse banqueiro? Eu responderia: faria exactamente o mesmo que todos os banqueiros fazem, exigia um fiador.

Agora coloco-vos a questão de outra maneira: se os bancos não têm que acreditar na nossa palavra, se nos pedem garantias para nos conceder crédito, por que razão teremos nós de acreditar na palavra de um político para o levar ao poder, sem lhe exigir garantias? Então nós não somos confiáveis, e eles são? A que propósito? Com que fundamentos? Serão mais respeitáveis que nós?

Provavelmente, serei eu que não atinjo o lado sublime da coisa, ou que desconheço de todo o histórico «irrepreensível» da classe política portuguesa. Serei um ignorante, um radicalista, um anarquista, o que entenderem... Mas vão ter de me explicar muito bem, onde estão as diferenças, que é para vermos se ainda vamos a tempo de ver gente capaz e com a coluna vertebral intacta a governar o país. 

Mas, é bom que nos apressemos, porque a nossa esperança de vida ainda não chega aos 100 anos...   

28 agosto, 2012

RTP, nova cobaia do oportunismo político-partidário

A avaliar pelo bulício gerado pelas declarações de António Borges, anda meio mundo preocupado com a privatização da RTP. Mas, objectivamente, haverá razões para tanto chinfrim? Objectivamente, sim. Agora, especificamente, não passa de mais uma, entre muitas outras trafulhices com que os figurões dos nossos governantes têm brindado o país. Nada mais.

Não fosse isto coisa séria, quase me apetecia rir desta peleja entre adeptos da privatização da RTP e os defensores da sua manutenção como empresa integralmente estatal. A primeira coisa a fazer para acabar com este circo é manter a cabeça fria e procurar esclarecer duas coisas. Primeiro, saber concretamente o que se entende por serviço público de televisão, e depois disso extrair consensos, isto é, concluir se alguma vez predominou no já longo currículo da RTP, uma lógica de serviço público ou, pelo contrário, um histórico de políticas comerciais privadas.

No site da RTP, sobre a Missão, os objectivos e obrigações de serviço público, podem ler-se vários itens passíveis de se contradizerem entre si,  fazendo de certo modo lembrar os artigos da Constituição Portuguesa, cujas consequências continuamos a sofrer na pele [o referendo da Regionalização é uma delas]. Quanto mais artigos mais confusão. Como tal, citarei apenas as 3 primeiras:

 • Assegurar uma programação variada, contrastada e abrangente, que corresponda às necessidades e interesses dos diferentes públicos.

• Assegurar uma programação de referência, qualitativamente exigente e que procure a valorização cultural e educacional dos cidadãos.

• Promover, com a sua programação, o acesso ao conhecimento e à aquisição de saberes, assim como o fortalecimento do sentido crítico do público.

Por mais que custe aceitar a quem legisla, na prática, é impossível conciliar estas 3 pretensões, principalmente a primeira, com as duas seguintes. Porque, nas actuais condições, para garantir estas últimas [de facto as mais importantes], é uma perfeita utopia tentar harmonizá-las com os "interesses dos diferentes públicos". E quando digo as mais importantes, não estou a falar dos meus gostos, estou a dizer que alguma cultura não é de "fácil assimilação" popular, e que devia ser induzida aos poucos, mas efectivamente servida.

A RTP2 já faz, em parte, esse papel, mas é precisamente por estar escondida no 2º.canal, tapada pela RTP1, onde está implantada a "cultura" fácil das telenovelas e dos reality shows, que ninguém a vê. O que significa que se a RTP, estivesse  vocacionada de facto para  o serviço público, podia perfeitamente ter dispensado o canal 2 e ter concentrado boa parte do seu conteúdo num só canal,  para um público heterogéneo, ao mesmo tempo que reduzia custos e induzia "públicos diferentes" a apreciarem outras áreas da cultura. Não sendo assim, é difícil de reconhecer como válido o trabalho produzido pela RTP em termos de serviço público. Se falarmos então da RTP 1, é pior do que qualquer dos privados existentes. Diria mesmo que é anti-democrática, sectária e profundamente centralista.

O "apalpar de pulso"ao público para que António Borges foi mandatado com o anúncio da privatização da RTP teve o seu climax com a revelação da transferência garantida da taxa audio-visual para a futura empresa que vier a adquiri-la, mas devia servir sobretudo para as pessoas perceberem que, mais importante do que privatizar ou nacionalizar a RTP é acabar com estas práticas abomináveis de fazer política. Desta maneira, temos tantas garantias na qualidade do serviço público do Estado como teremos se ele for desenvolvido por privados [alguém se revê no serviço prestado pelos canais privados existentes?]. Precisamos é de garantias.

Podíamos começar por nos recusarmos a votar enquanto a lei não nos permitir expulsar [é o termo correcto] com a canalhada que nos tem desgorvernado.*

*Para quem ainda não tenha entendido, para mim o problema já não é a RTP, ou o que quer que seja que esteja mal no país. O problema de fundo, são os políticos que temos, que precisam de ser controlados, mesmo antes de chegarem ao poder. De outra forma, mais assuntos como o da RTP se irão repetir. Querem apostar?  

24 agosto, 2012

A vigarice continua

«Em entrevista à TVI, o economista António Borges e  antigo vice-presidente do PSD considerou que esta é uma “hipótese muito atraente”, por dar a um operador privado “melhores condições” para gerir a empresa.

O Estado deixa de ficar com responsabilidades” na gestão, mas “não perde completamente” a possibilidade de, mais tarde, vir a recuperar a concessão.»

Nota de RoP:
Quando os ouço falar de responsabilidades, já não sei se deva rir, ou chorar. Público ou privado, o bordel vai continuar. 

Ah, e nós, os traídos do 25 de Abril, vamos continuar a descontar na factura da electricidade para a panela destes ordinários.  

23 agosto, 2012

Regionalização = Mais Democracia e menos Centralismo


Regionalização poderia vir a introduzir uma nova componente no nosso sistema de Democracia representativa, que são as autarquias regionais. Estas autarquias que teriam legitimidade democrática própria, poderiam vir a assumir atribuições e competências actualmente concentradas na Administração Central que ou nem sequer ainda estão desconcentradas, ou que, se o estão, estão a ser exercidas regionalmente por organismos não eleitos da burocracia do Estado Central.

Por esta razão, a regionalização poderia constituir um aprofundamento do nosso sistema de Democracia representativa.

A alternativa é, pois, entre uma situação em que as decisões públicas que dizem mais directamente respeito às regiões são tomadas a nível central muitas vezes por burocratas não legitimados pelo voto popular, e uma situação em que essas decisões são tomadas a nível regional por órgãos eleitos pelas populações a quem dizem mais directamente respeito as decisões em causa.

Para quem seja defensor do aprofundamento da Democracia representativa a escolha entre estas duas alternativas é clara: descentralizar.

Podendo constituir-se como, um passo em frente no sentido da descentralização das decisões públicas, a regionalização poderia corresponder a "menos Terreiro do Paço" ou seja, menos centralismo.

Se as decisões públicas a tomar se referem a problemas que dizem respeito essencialmente a determinada região, na maior parte dos casos essas decisões serão melhores se forem tomadas por quem está mais próximo das respectivas populações, foi eleito pelo seu voto, voto esse que também pode destituir os decisores políticos em questão se o seu desempenho não for satisfatório para as populações que representa.

regionalização, poderia deste modo descentralizar o sistema de Democracia representativa e também poderia contribuir para fortalecer as organizações da sociedade civil que, de formas variadas, trabalham no terreno em prol do desenvolvimento local e regional.

Estas organizações, pela sua localização e pela sua dimensão, têm geralmente muitas dificuldades de acesso ao poder central. As autarquias regionais, a exemplo do que já acontece com muitos municípios, seriam interlocutores mais próximos e mais sensíveis aos seus problemas e aos seus projectos.
 
[De: António Almeida Felizes/Blogue Regionalização]

22 agosto, 2012

Verdades e legalidades à moda do Benfica

Volvidos 38 anos a ver assassinar a liberdade de expressão, que é afinal a migalha que nos resta de uma Democracia traída, estou ainda por saber qual foi a importância para o país da constituição de governos eleitos com a legitimidade do voto popular. É que, a legitimidade em si não confere qualidade aos votos do povo, o que significa que nem a liberdade  chega para tornar um povo consciente dos seus deveres e direitos cívicos, em suma, um povo ciente do que quer, e quem quer, para o governar.

Pessoalmente, prezo muito a liberdade, mas não me importava nada que ao longo destes anos tivesse tido um ou mais governantes com coragem para dizer ao povo algo como isto: «a liberdade é demasiado importante para ser maltratada, por isso, há que a merecer. E para a merecer não vale fazer batota. Por conseguinte, meus senhores, quem fizer batota terá de ser responsabilizado». Mas, para o recado passar, teriam de acrescentar isto: «Pela parte do Governo tudo faremos para não vos defraudar. Seremos os primeiros a servir-vos de exemplo, ou seja, a não fazer batota. Finalmente, teriam de dar garantias com isto: «em caso de incumprimento ao prometido, facultaremos ao povo mecanismos legais simples e céleres, para nos destituir  e eleger novo Governo».   "Olha, lá está este outra vez a sonhar", estarão alguns agora a pensar. Pois é. Lá dizia o outro que o sonho comanda a vida, e entre ser comandado pelo sonho ou por vigaristas bem falantes eu prefiro o sonho.

Se na história recente pós Abril/74 tivéssemos tido líderes à altura, com uma visão correcta da democracia, talvez hoje fossemos poupados a espectáculos degradantes, como termos assassinos no Conselho de Estado, deputados que surripiam gravadores a jornalistas, já para não falar das grandes negociatas ou do enriquecimento ilícito de um razoável número de políticos. É que, semelhantes comportamentos, além de reprováveis, têm o inconveniente de contaminarem toda a sociedade.

Se a liberdade privilegiasse a seriedade e reprimisse a fraude, seria impossível ouvirmos coisas como as que proferiu o empresário do jogador Luisão do Benfica aos jornalistas acerca de um eventual castigo pela agressão sobre um árbitro num jogo recente com uma equipa alemã. Disse ele que (sic) «elementos do Benfica garantiram ao jogador haver poucas possibilidades de ser castigado». E acrescentou:  «ele apenas se limitou a defender um colega. Ia a correr e chocou contra o árbitro. Não tinha intenção de o fazer».  «Foi só um encontrão, estão a fazer uma tempestade num copo de água. Ele está tranquilo e focado no trabalho, no seu dia a dia. Sabe separar as coisas, um jogador da sua envergadura consegue suportar isto».

Ter o desplante de negar o que aconteceu, com imagens que não deixam a menor dúvida, é atentar cobardemente contra o direito à liberdade de expressão e contra quem preza os bons costumes. Mas nem sequer é o empresário o maior irresponsável, são os dirigentes do clube, a comunicação social que neste caso se demite de fazer pedagogia, e o próprio jogador.

Imagine agora o leitor que vai na rua descansado e depara com um tipo a uma distância de uns 10 metros que desata a correr na sua direcção, provoca o choque consigo  [inadvertidamente, ou não, para o caso é irrelevante] e você cai inanimado. O que diria quem assistiu a esta cena se no fim dissessem que você caiu de propósito, que simulou o desmaio pervertendo completamente a verdade dos factos? Como é possível então colocar em dúvida a intenção do jogador? E como é possível que alguém do Benfica adiante prognósticos sobre decisões do foro da Justiça? E como é possível que os jornalistas não se indignem com a situação? E como é possível ainda tudo isto passar despercebido e sem merecer comentários das instituições do Estado e das autoridades desportivas nacionais? 

Ah, mas que espanto o meu... É possível sim senhor, porque vivemos num país medíocre, onde a depravação moral dos líderes há muito bateu no fundo. Estamos entregues a nós próprios. Em "liberdade"...

Astérix, Obélix e o facebook



Como nos deliciosos livros de Goscinny e Uderzo, quando se fala no facebook eu sinto-me habitante de uma pequena aldeia gaulesa. Como aquela onde Astérix, Obélix, Assurancetourix e quejandos resistiam aos invasores romanos.

Convém que logo nesta abertura esclareça que o domínio em que me sinto assim é exclusivamente o domínio pessoal, da minha privacidade. Bem ao contrário, nas minhas atividades profissionais e empresariais, dou-lhe a corda correspondente à utilidade e capacidade que lhe reconheço como poderoso instrumento de marketing e comunicação.

Sempre que dou conta desta minha "lacuna" na conversa com amigos e amigas de várias idades e estratos, sou alvo de alguma chacota e de piadas recorrentes que já não me fazem "mossa" alguma. Aliás, ultimamente, sou eu que tenho rido mais (e melhor, segundo se diz de quem ri por último) nas oportunidades, cada vez mais frequentes, de confrontar esses meus amigos e amigas mais moderninhos com as tristes consequências da exposição pessoal no facebook e atividades similares.

Julgo que atingimos o limite da nossa luta pela liberdade. Neste mundo moderno, claro, porque ainda existem lugares no Mundo em que povos inteiros lutam pela liberdade contra terceiros, que é a tradicional luta que conhecemos há séculos.

Voltando ao Astérix, desde os tempos dos romanos que a luta pela liberdade é entre quem oprime e que se sente oprimido. Contra terceiros de má-fé, portanto...

O que se passa agora é que já não são terceiros quem ameaça a nossa liberdade, mas antes a primeira pessoa: nós, os nossos comportamentos, as nossas faltas de cuidado, os nossos desleixos, o nosso deixa andar, o nosso Maria-vai-com-as-outras, as nossas ansiedades de em tudo querer ser da linha da frente, a nossa vontade de voar, mesmo quando nos faltam as asas ou a cama é curta.

Talvez por ser um óbvio ululante, esta ameaça "interna" à nossa liberdade é capaz de ser a mais difícil de combater. Contra a força dos outros e contra os argumentos dos outros, melhor ou pior, com mais força ou menos força, sabemos que é preciso lutar e sabemos como é preciso fazê-lo. Neste caso em que a força ou a falta dela é nossa e os argumentos mais convincentes ou menos convincentes são nossos também, é que a porca torce o rabo.

Aceitamos facilmente como dogma que na net ou no facebook nós é que decidimos o que dizemos ou mostramos e a quem o fazemos. Achamos que dominar o monstro e a tecnologia é "canja" porque a (nossa) inteligência humana vence sempre qualquer máquina.

Os meus pais já ultrapassaram os 80 anos à velocidade da luz e nunca quiseram ser gauleses, neste mundo que tem rodado a uma velocidade que nem todos conseguem acompanhar. Mas tenho a certeza de que não estariam, não estão, preparados para sofrer um choque como o que deve ter sentido aquele pai lisboeta a quem enviaram um mail com imagens da filha, nua, em brincadeiras com amigas, que pelos vistos saiu de uma partilha supostamente privada de um facebook para as avenidas e autoestradas, sem portagens e sem controlo, da Internet.

Por mim, que só posso falar por mim, estou em condições de garantir aos meus pais que, pelo menos no que me toca e neste particular, podem continuar a viver descansados. Simultaneamente, tudo farei para tentar que a minha querida filha, que ainda há pouco tempo aprendeu a ler, me possa dar este mesmo descanso. Sabendo eu que muitos destes acidentes acontecem mais por falta de informação do que por falta de formação.

Nota de RoP:

Gerir um blogue constitui desde logo uma responsabilidade. Em primeiro lugar, para o seu administrador, depois para os cooperantes e por último para os comentadores, cabendo no entanto ao seu proprietário a principal responsabilidade por tudo o que publica, incluindo a  aprovação ou eliminação de comentários. Mas, é simples de controlar. Já sobre o Facebook e outras redes socias do género, tenho sérias dúvidas. Tem uma exposição excessiva e uma objectividade muito relativa.

O que o texto de Manuel Serrão aqui relata vem de certo modo ao encontro do meu cepticismo com estas redes sociais, e não creio que seja exagerado receá-las, porque embora possamos "dominar o monstro" [como diz Serrão] a ameaça interna à nossa liberdade é real. Basta um descuido, como o da rapariga que se "deixou" filmar na intimidade, provavelmente sem imaginar o que lhe estavam a fazer.

É por estas e outras que tenho eliminado todos os convites de "amizade" que me surgem na caixa do correio. Já estive registado e desactivei o registo várias vezes, e continuo a receber convites... Não percebo. Mas percebo menos que Cavaco Silva - e outras pessoas com teóricas altas responsabilidades - se preste a entrar nestas redes sociais sem perceberem que além de constituírem uma ameaça à privacidade das pessoas, podem servir para tudo menos para comunicar. Na minha opinião, a visibilidade do Facebook não passa de foguetório de brigas e cobardias, mais para destilar ódios que para esclarecer e estreitar relações Não sou cliente.  

21 agosto, 2012

Hipocrisia sazonal

De vez em quando, talvez para limparem a [má] consciência, determinados jornalistas, como este aqui, por exemplo, decidem quebrar o jejum das crónicas conformistas que normalmente escrevem e levantar o véu da hipocrisia que hoje se instalou ferozmente na política e na própria sociedade, para dizerem algumas verdades.

No caso em apreço, o autor referiu a Líbia, o Iraque e a China. Mas também podia falar de Angola, cujo presidente e respectiva prole, nomeadamente a sua filha mais velha, Isabel dos Santos, têm negócios relevantes com Portugal.

Só para citar alguns, sabe-se que detém importantes participações no banco Millenium BCP, BPI, BIC, e noutras empresas como a Galp Energia, a Zon Multimédia e mais recentemente uma parceria entre a Sonae e a empresa angolana Condis. Consta mesmo que é Isabel dos Santos quem anda a financiar o Benfica, e caso o rumor se confirme, podemos estar certos que não será pela nossa comunicação social que iremos sabê-lo...

Angola, queixou-se outrora do colonialismo português, mas agora goza da má fama de ser um dos países mais corruptos do continente africano. Levará o senhor jornalista em boa conta este lembrete? Veremos o que dizem os próximos artigos sobre as nossas relações com a mui nobre República Popular de Angola.

Vale isto por dizer, que quando se trata de dinheiro, a  "receita" da casa é mandar a moral de férias e tratar da vidinha, porque para os lusos homens as coisas da integridade são meramente sazonais, como ir a banhos para a praia recomenda o verão. Pelo menos as árvores, mesmo as de folha caduca, quando morrem, mantêem a integridade perene. E depois, certos homens têm muitas maneiras de "matar pulgas", que é como quem diz, de brincar à integridade, como, por exemplo, falar da violação dos direitos humanos de outros países [como a China], para se auto-proclamarem humanistas e afastarem as atenções de países que também não os respeitam [como Angola] mas metem cá muito dinheiro...

Portanto, é preciso ter mais cuidado quando falámos de hipocrisia. Porque nem a China nem a EDP estão sós nesta "cruzada" nem são mais hipócritas que os órgão de comunicação social [incluindo os estatais], cuja submissão ao poder económico é absoluto, ou não fossem eles fiéis serventuários do centralismo, tal é a proximidade física e ideológica com os órgãos do poder.

Em Portugal, e no Norte, o único jornal que foi capaz de vestir integralmente o "equipamento" regionalista foi o Grande Porto, e mesmo esse é um semanário, ainda pouco conhecido do público.

A integridade não é de facto para todos.

19 agosto, 2012

Iremos sofrer como o ano passado, ou é só o 1º. jogo?



Na época passada escrevi aqui no Renovar o Porto - e menos enfaticamente, na blogosfera portista -, que não acreditava na capacidade real de Victor Pereira para treinador do FCPorto.  Agora, não vou repetir o que escrevi nessa altura, mas pelos sinais que os primeiros jogos da equipa me dão, acrescidos dos que o treinador transmite cá para fora, quase que o podia fazer sem mudar muito o conteúdo. 

Antes de prosseguir com a minha premonição, insisto dizendo que nada de pessoal me move contra Victor Pereira, e que sei muito bem separar os sentimentos das competências. E, embora discorde daqueles que subestimam a opinião dos adeptos, chamando-lhes ironicamente "treinadores de bancada" - mas sem eles próprios se furtarem a fazer esse papel -, evitarei entrar em detalhes de ordem técnico-táctica na fundamentação das minhas opiniões. É pois, tempo de mostrar mais respeito pela opinião dos adeptos [nos quais eu me incluo], e de admitir que se tanto e tantos gostam de futebol, é porque alguma coisa devem perceber sobre o assunto. Isto, claro, descontando aqueles que vêm o futebol como uma doutrina fundamentalista que tudo justifica na procura cega e obsessiva de victórias. Como qualquer adepto, prefiro victórias a boas exibições, porque além de moralizarem servem para ofuscar os maus espectáculos, mas o padrão de exigência não pode nem deve ficar-se por aí. Em competição, é da condição humana querer mais e melhor, como reza, aliás, o lema olímpico: "mais rápido, mais longe e mais forte".

Ora não foi nada disso que vi este fim de tarde em Barcelos. O que vi, foi uma réplica angustiante do cenário do campeonato transacto. Uma equipa lenta, que continua refém das iniciativas individuais dos jogadores, sem uma marca forte do treinador, nem um estilo de jogo bem definido. Os lances são demasiadamente afunilados pelo meio, os laterais raramente sobem à linha a cruzar, e quando o fazem, as bolas são repetidas vezes dirigidas para a terra de ninguém tornando impossível rentabilizar o trabalho do ponta de lança que é marcar golos [confirma-o o único golo marcado à Académica por Jackson Martinez para a Taça]. Continuamos a observar má qualidade no tempo e na direcção dos passes, uma desesperante inépcia no remate, e os jogadores a atrapalharem-se uns aos outros na grande área. Tudo, insuficiências do passado recente...

A época ainda agora começou, estarão alguns já a zurzir [armando-se em mais portistas que eu]. Pois é, mas acontece que eu não sou masoquista, e não estou para destruir o meu sistema nervoso a ver jogos desta natureza. Já me bastou o ano passado. É certo que ganhámos o Campeonato, com seriedade e justiça, mas com muito pouco brio, convém admitir. O FCPorto, habituou-nos a funcionar como tónico contra as desconsiderações e sacanices dos governantes, e não como estímulo pró-depressivo. Se os próximos jogos forem uma continuidade do ano passado [e de hoje], deixo esse espectáculo para outros mais masoquistas. Eu passo.

Quem conhece o FCPorto, já sabe, tem de contar com arbitragens duvidosas. Na dúvida, o prejuízo reverte quase sempre contra nós. Não vale a pena queixarmo-nos dos árbitros no fim dos jogos se no princípio dissermos que não comentamos arbitragens. Se o FCPorto não jogar o suficiente para superar as asneiras dos árbitros, bem podemos arrumar as botas que não ganhámos nada. Há muitos anos que a sina é esta. Portanto, Victor Pereira só tem uma solução que é colocar os jogadores certos no lugar certo e ensinar-lhes a jogar em equipa [se souber]. Para já ainda não vi nada de especial. Ganhámos a super-taça, está bem. E o resto? Teremos este ano o mesmo futebol do ano passado? Se sim, eu não serei espectador.

Disse a época que passou que não me importaria de engolir sapos se Victor Pereira me surpreendesse pela positiva, é verdade. Mas, apesar de ganharmos o campeonato, ainda não estou convencido. Portanto, o sapo fica para o futuro, lá mais para diante. E, chegados lá, o que eu realmente queria era não ter razão, e que além de termos acumulado muitas victórias, tivéssemos também para recordar exibições convincentes. Eu gosto de futebol. Do bom, se não se importam.