Li , com particular interesse, a troca de impressões entre o Rui Moreira e o António Alves, àcerca da recente iniciativa de se fundir a AEP com a AIP. Trata-se de dois portuenses como eu e outros que por aqui passam e escrevem, sobre os quais não tenho dúvidas que vivam intensamente os problemas que atravessam toda a região Norte e a cidade do Porto.
O António Alves transcreveu
aqui uma afirmação do Rui Moreira que já gerou algum desconforto em muitos portuenses, talvez por verem neste último, uma figura do Porto capaz, serena, educada e, o que é mais relevante, um portuense assumido. Ah [ia-me esquecendo de um factor importante], e... um portuense portista!
Devo dizer que nutro uma simpatia natural por Rui Moreira, desde que começou a aparecer na televisão [não me refiro ao Trio de Ataque, mas já lá irei] e a fazer a diferença no panorama marasmático das chamadas elites portuenses [coisa que actualmente continuo sem saber o que é, e quem é].
No entanto, no caso concreto em debate, não deixaram de me surpreender as suas declarações citadas pelo A.Alves. Concordo por isso, com os argumentos [
aqui e
aqui], do António Alves. E, isto não se trata de amiguismos, porque apesar de conhecer pessoalmente o António Alves [só me encontrei com ele uma vez], reconheço-lhe uma independência intelectual e social que gostaria de ver mais vincada em Rui Moreira, mas receio - e até compreendo -, que tal não seja fácil, dada a diferença de protagonismo mediático e social, entre um e o outro. Mas, é se calhar aqui que a
porca torce o rabo. O protagonismo, tem duas faces. Uma, que pode conferir projecção a um desconhecido e trazer-lhe benefícios materiais [e aqui, não estou a querer insinuar nada, estou a ser realista] de longa ou curta duração, e uma outra, que pode subverter a liberdade intelectual do indivíduo por obediência cautelosa às influencias que eventualmente arriscará perder se insistir em dizer exactamente o que pensa.
Ludgero Marques, é um paradigma do que acima quis explicitar. Houve um tempo, em que parecia ser o tal homem do Norte que a mitologia local inventou [já nem sei, se com algum fundamento]. Era interventivo, empreendedor, mas assim que os ventos do poder se concentraram mais a Sul, perdeu quase toda a Liberdade afirmativa e com ela a coragem.
Rui Moreira tem razão quando diz que L.Marques deu um tiro no pé ao abdicar por sua inicativa de âmbito regional da Associação Industrial Portuense para uma teórica e nominal Associação Empresarial de Portugal, porque foi esse o primeiro acto de renúncia à identidade própria de uma instituição local [a AEP], por aparente convicção pessoal de que a sobreposição do nome
Portugal ao
Portuense lhe iria trazer vantagens.
Ludgero, não estava a pensar nos benefícios da Região, estava a pensar nos seus. Daí, continuar a não compreeender a aparente contradição de Rui Moreira pela sua fé na novel fusão, mesmo com os exemplos que apresentou da Alemanha e da França que são países com uma cultura de respeito democrático a anos-luz da nossa. Há uma patente ingenuidade nesta frase de Rui Moreira, a que ele prefere chamar
opinião positiva, que é esta:
"Mas tenho uma opinião positiva sobre o desenlace, ainda que isso resulte numa sede em Lisboa onde já está a AIP, desde que a fusão permita que os serviços da AEP no Norte podem sobreviver por essa via."Sobreviver por essa via? Ainda acredita nisso, depois de tanta vilagem, de tanto desprezo, tanto saque contra o Porto?
Caro Rui Moreira, hoje, confesso-lhe, pela saturação de tanta hipocrisia, tenho pavor que as minhas opiniões possam por algum segundo que seja, parecerem próximas de qualquer fundamentalismo, mas pela minha parte, pela minha experiência vivida e [que o meu amigo também terá], não consigo mais acreditar que de Lisboa saia alguma coisa de bom para o Porto. Não sinto sequer qualquer fraternidade por Lisboa. Que quer que lhe diga, não fui eu quem a fomentou...
Também não quero rejuvenescer tão bruscamente na minha boa fé, como o meu amigo... Acreditar na teoria do chicote escondido nas costas, do desprezo por uma região, faz-me desvalorizar aquela sua frase engraçada mas plena de realismo que dizia: «que as ovelhas não se tosquiam a si próprias!» Lembra-se?
Será que o «rebanho» de Francisco Van Zeller é uma excepção? Eu, não acredito.
PS-Quanto ao Trio de Ataque, caro Rui Moreira, depois de tudo o que ouvi dos seus pares de programa, das dissertações alucinantes sobre o FCPorto, das intriguices do cineasta, eu, no seu lugar já os tinha deixado a falar sozinhos. Mas isso sou eu, que acho que não tenho de ser amigo de toda a gente...